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Guerra Civil no Líbano
 
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No ano de 2011, em meio às manifestações que se espalhavam pelo norte da África e pelo Oriente Médio, no evento chamado de Primavera Árabe, uma guerra civil iniciou-se na Síria. Diferentemente de outros países, nos quais a oposição ao governo de cada nação formava um bloco bastante coerente, a Síria viu sua população dividir-se em dois grupos bastante numerosos, de apoiadores e opositores de Bashar Al-Assad, começando um conflito que se estende até a atualidade. Naquele momento, alguns analistas temeram que o conflito sírio, que opunha não apenas posições políticas, mas também diferenças religiosas, pudesse reacender no Líbano as tensões que haviam gerado uma violenta guerra civil, que se desenvolveu entre 1975 e 1990, e que teve implicações para além de seu território, envolvendo também a própria Síria, Israel, os Estados Unidos e dando origem a um grupo cuja atuação, classificada como terrorista por algumas nações, foi fundamental para desestabilizar ainda mais a região, o Hezbollah.

A FORMAÇÃO DO LÍBANO
O território que forma o Líbano na atualidade foi palco, na Antiguidade, do desenvolvimento da civilização fenícia, povo que também ocupou regiões que hoje pertencem à Síria e a Israel. Este território seria a parte norte do que se conheceu como Canaã, região que abrigou diversos povos etnicamente aparentados na Idade Antiga.

Esta civilização desenvolveu-se a partir da ocupação de faixas de terra fértil ao longo do litoral do Mediterrâneo, organizando-se em cidades-Estado sem uma administração central. Pela presença de grande quantidade de cedro e do desenvolvimento de técnicas de construção naval, os fenícios lançaram-se ao mar e praticaram intenso comércio marítimo, o que lhes rendeu os títulos de “maiores navegadores” e “maiores comerciantes” da Antiguidade. Em virtude deste poderio naval, criou-se entre os fenícios uma talassocracia, ou seja, um governo cujo poder provinha do domínio sobre os mares.

Para além do extenso comércio, os fenícios também ocuparam, durante suas navegações, outras regiões ao redor do Mediterrâneo, onde fundaram diversas colônias. Entre essas, Cartago tornou-se a mais famosa, em virtude dos grandes conflitos estabelecidos com os romanos durante as Guerras Púnicas (264 a.C.- 146 a.C.). Após essas guerras, a civilização fenícia como um todo enfraqueceu, caindo posteriormente sob domínio romano no século I a.C.

Incorporada aos domínios romanos, a Fenícia assim permaneceu até que no século IV o Império Romano foi dividido em duas partes, ficando a região do Líbano sob o controle do Império Bizantino, porção oriental originada com a divisão ocorrida pela morte do imperador Teodósio. O domínio bizantino sobre a região durou cerca de trezentos anos, até que no século VII, com a expansão muçulmana ocorrida após a morte do profeta Maomé, o território foi ocupado pelos árabes, o que auxiliou na conformação étnica que hoje molda o país, além de lhes levar o idioma falado até os dias atuais, bem como introduzir o islamismo.

A expansão muçulmana para além do Oriente Médio, também atravessou todo o norte da África e penetrou na Europa, com os islâmicos dominando a região da Península Ibérica a partir do século VIII. Tão logo ocorreu esta dominação, os cristãos europeus iniciaram guerras para retomar estas terras, que ficaram conhecidas como Guerras de Reconquista. Essas lutas de cristãos contra muçulmanos ganharam peso maior quando, no século XI, iniciaram-se as Cruzadas, movimento religioso-militar com diversos objetivos, que apregoava principalmente a retomada de Jerusalém pelos cristãos uma vez que a cidade havia caído sob domínio muçulmano.

Nas lutas durante as Cruzadas, o território libanês foi incorporado ao Reino Latino de Jerusalém, fundado no final do século XI pelos cruzados, que existiu até o final do século XIII. Após a queda deste reino, a região foi retomada pelos árabes e, no princípio do século XVI, foi incorporada pelos turco-otomanos.

O domínio turco-otomano perdurou até o início do século XX, quando se iniciou a Primeira Guerra Mundial. Neste conflito causado em particular pelas disputas imperialistas, o Império Turco-Otomano aliou-se aos alemães e austro-húngaros, no bloco conhecido como Tríplice Aliança. Ao final do conflito, este grupo acabou por ser derrotado, e isso significou a desagregação do Império Otomano, consolidada pelo Tratado de Sèvres de 1920, quel foi substituído, em 1923, pelo Tratado de Lausanne.

Esse esfacelamento do Império Otomano não significou que o Líbano estivesse finalmente livre; em 1916, prevendo a possibilidade de os otomanos serem derrotados, ingleses e franceses já haviam estabelecido um acordo secreto (o Acordo de Sykes-Picot), pelo qual dividiam a região em áreas de influência. Desta forma, ao se desfazer o Império Otomano, o Líbano tornou-se área de dominação francesa, junto à Síria e parte da Turquia.

Em meio à dominação francesa, os libaneses estabeleceram, em 1926, a sua primeira constituição, que começou a dar forma à sua estrutura política. Neste período, surgiu a Câmara de Deputados e o Senado, junto ao Conselho de Ministros e o cargo de presidente, cujos postos passaram a ser divididos entre os representantes dos diversos grupos religiosos que habitavam o país. Entretanto, a interferência francesa se fez sentir com grande peso nesta época, suspendendo a constituição, estendendo mandatos ou convocando outras eleições de acordo com seus próprios interesses.

Em meio a este processo iniciou-se a Segunda Guerra Mundial, e rapidamente a França caiu sob dominação nazista, sendo diretamente administrada pelos alemães em sua porção norte, enquanto o sul formou a República de Vichy, colaborando com o regime de Adolf Hitler. Desta maneira, houve o entendimento de que a França se tornara inimiga, e isso motivou a invasão da Síria e do Líbano pelos Aliados, em 1941, que gerou batalhas nas quais os franceses de Vichy acabaram vencidos. Com esta derrota, abriu-se espaço para que ressurgissem manifestações a favor da libertação do Líbano, que foi anunciada pelo general Georges Catroux ainda no ano de 1941. Entretanto, a dominação francesa foi na prática exercida por mais dois anos, até que se estabeleceu a divisão de poder que permitiu que os libaneses assumissem o controle do seu país.


A DIVISÃO POLÍTICA
A organização política do Líbano foi dada por um acordo provisório, estabelecido em 1943, que na prática vigora até a atualidade. Sendo o país composto por diversos grupos religiosos, sem que nenhum fosse maioria absoluta, os franceses que dominavam a região colocaram como condição para a independência a realização de um pacto que fosse capaz de dar representatividade a todos os segmentos religiosos. Desta forma, ficou estabelecido que o presidente do país seria sempre eleito entre os cristãos maronitas. Já o primeiro-ministro seria oriundo do grupo muçulmano sunita, enquanto o presidente do Parlamento seria originário dos muçulmanos xiitas. Por fim, o vice-presidente do Parlamento seria sempre escolhido entre os representantes dos cristãos grego-ortodoxos.

Esta divisão de poder foi baseada nos dados levantados pelo recenseamento feito em 1932, o único censo completo realizado no país até a atualidade. De acordo com esses dados, 29% da população declarava-se cristã maronita, 22% eram muçulmanos sunitas, 15% eram muçulmanos xiitas, 10% cristãos grego-ortodoxos, sendo que as demais parcelas da população abarcavam outros 14 grupos religiosos. Baseado nesses dados, o acordo político buscava garantir estabilidade no novo país ao dar representatividade política aos principais grupos religiosos ali presentes. Após seu estabelecimento, foi eleito o primeiro corpo político do Líbano, que modificou a constituição e colocou fim ao mandato francês na região. Em resposta a esta tomada de decisão, os franceses prenderam os representantes eleitos, o que gerou diversos protestos pelo país, até a libertação dos prisioneiros. Isto ocorreu em 22 de Novembro de 1943, o que é lembrado pelos libaneses como o seu dia de independência, embora os franceses somente tenham saído completamente do território em 1946.


O INÍCIO DO CONFLITO
A Guerra Civil Libanesa não foi um evento ligado apenas à realidade interna do país. Em 1947, em uma Assembleia Extraordinária, a Organização das Nações Unidas decidiu pela criação do Estado de Israel, que deveria dividir o território da Palestina com um outro Estado, a ser ocupado pelos muçulmanos que viviam ali. Entretanto, os islâmicos não aceitaram a divisão, o que não foi considerado pelos judeus que instalaram sua nação naquele território em maio de 1948. A partir deste momento, inúmeras guerras e atritos passaram a se desenvolver, dando origem ao que se conhece como conflito árabe-israelense.

Desde 1948, Israel tem estado em constantes guerras com seus vizinhos palestinos, além de também se indispor com outras nações que apoiam a causa palestina, tal como Iraque, Jordânia, Síria e Egito. Como consequência de uma política expansionista de Israel, vários territórios palestinos, que não tiveram a organização de seu Estado formalizada, foram sendo tomados, fazendo com que estas populações tivessem que se deslocar, na condição de refugiados. Um dos países que recebeu grandes quantidades de refugiados palestinos, fugindo dos conflitos com as forças israelenses, foi o Líbano, causando importantes transformações nesta nação.

A primeira mudança sensível a ser percebida foi o aumento populacional no território libanês. Estimativas apontavam que em virtude da Nakba, tal como foi chamado o movimento migratório forçado dos palestinos para fora de suas terras, cerca de 500 mil palestinos vivessem em território libanês. O governo do Líbano, no entanto, buscou desmentir esses dados quando, em 2017, divulgou um recenseamento que demonstrava que aproximadamente 174 mil palestinos viviam em suas terras. Este número foi bastante contestado por agências internacionais, tal como a Agência da ONU para Refugiados, que reafirmam que o número de refugiados em território libanês pode ser de até 10% da população local, sendo que uma boa parte não está instalada no país, mas apenas circula pela região.

Este quadro de vinda de refugiados palestinos fez com que houvesse uma ruptura do equilíbrio populacional, aumentando significativamente a população muçulmana. Como consequência, a tensão entre os grupos, existente desde que a França estendeu a fronteira libanesa sobre áreas da Síria e incorporou mais muçulmanos à população do Líbano, tornou-se ainda mais aguda. É necessário lembrar que, em 1958, cristãos e muçulmanos já haviam se enfrentado em uma primeira crise, em virtude do desejo dos maronitas manterem uma postura pró-ocidental, enquanto os islâmicos buscavam se aproximar dos egípcios, que eram liderados por Gamal Abdel Nasser e mantinham uma atitude combativa frente a Israel e seus aliados. Como consequência destes atritos, foi necessária uma intervenção norte-americana para que não houvesse uma guerra generalizada, o que acalmou a situação no momento, mas não resolveu o problema. Posteriormente, grupos de cidadãos armados, dispostos a confrontar seus inimigos, começaram a surgir por todo o país. Entre estas milícias que surgiam, estão as Falanges (cristão maronita), o Movimento Nacional Libanês (composto pelos drusos, pequeno grupo étnico que se denomina muçulmano, embora não seja assim reconhecido por boa parte dos islâmicos), o Movimento Amal (de base xiita), entre outros que se desenvolveram dividindo a população local e recebendo igualmente apoios estrangeiros, como é o caso da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que atuava junto aos palestinos que viviam no Líbano.

A situação evoluiu para um conflito aberto quando, em 13 de abril de 1975, quatro cristãos foram mortos por atiradores não identificados que haviam disparado a esmo em frente a uma igreja na periferia de Beirute, capital do país, na qual estava Pierre Gemayel, fundador das Falanges. Em resposta, esse grupo se mobilizou e, nesta mesma região da cidade, interceptou um ônibus que transportava palestinos e fuzilou todos os seus ocupantes, pois atribuíam a eles a responsabilidade do atentado na igreja maronita. O massacre indiscriminado dos palestinos foi o estopim do conflito, pois a difusão das notícias sobre a matança fez com que outros embates se desenvolvessem em pontos diversos da cidade. A partir disto, o Movimento Nacional Libanês tomou o partido dos palestinos e passou também a atacar os maronitas, dando início à guerra tal como se conhece.

O conflito pode ser dividido em algumas fases distintas, de acordo com os avanços e recuos de cada grupo, e mesmo a partir da perspectiva das intervenções estrangeiras. O primeiro momento do conflito se desenvolve de abril de 1975 a outubro de 1976. Nos primeiros movimentos da guerra, os combates não eram generalizados, embora acontecessem por todo o país. Além da morte de civis, também ocorriam pilhagens, estupros e torturas, tendo a população civil como alvo principal, sendo que o governo central deu pouca atenção a uma tentativa de pacificação, já que seus líderes eram representantes dos grupos em conflito.

Também acontecimentos externos fizeram com que a violência fosse se disseminando. Neste mesmo ano de 1975, egípcios e israelenses iniciaram discussões sobre a situação da Península do Sinai, que havia sido ocupada por Israel anteriormente. Por conta da aproximação entre Egito e Israel, no sentido de uma tranquilização de suas relações, palestinos e sírios sentiram-se traídos, pois imaginavam o apoio egípcio como fundamental em suas reivindicações territoriais e políticas contra a presença israelense. Desta forma, os palestinos, com um apoio de milícias sírias, passaram a praticar atentados terroristas em Beirute, para enfraquecer os cristãos maronitas, que tinham o apoio de Israel.

Como o governo de Beirute estava desarticulado, os sírios ainda buscaram intermediar um acordo de paz entre os grupos em conflito, mas esse quadro agravou-se quando, em 6 de dezembro de 1975, um carro com quatro corpos de membros das Falanges foi encontrado em uma região de Beirute que era dominada pelos cristãos. Em represália, várias barreiras foram montadas ao redor da cidade pelos maronitas, assassinando indiscriminadamente qualquer muçulmano que fosse parado nessas barreiras. Estima-se que cerca de 200 pessoas tenham sido mortas desta maneira, iniciando um ciclo de ataques e vinganças que atravessou o ano de 1976. Este ano começou com o massacre de Karantina, uma favela de maioria muçulmana, situada na região dominada pelos cristãos, em 16 de janeiro. Aproximadamente 1500 pessoas foram mortas nesta área, que era dominada pela OLP. Em represália, integrantes da OLP atacaram a cidade de Damour, no sul de Beirute, assassinando mais de 300 cristãos e fazendo com que vários outros fugissem.

A partir destes eventos, Beirute foi se tornando uma cidade cada vez mais dividida, pois os grupos étnico-religiosos buscavam se abrigar em regiões onde fossem maioria, para tentar evitar ataques de grupos rivais. Neste contexto, as forças muçulmanas avançavam e pareciam estar próximas da vitória, com o apoio da OLP e de forças sírias. Entretanto, temendo que o porto de Beirute fosse fechado, estrangulando seu comércio, bem como tendo em vista que a derrota cristã poderia colocar Israel contra si, a Síria deixou de apoiar os muçulmanos e passou a dar suporte ao governo maronita, enviando soldados e armas. Com o apoio deste governo, os cristãos, agora unidos em um único bloco chamado de Frente Libanesa, conseguiram reverter sua desvantagem, conquistando alguns territórios e ampliando a divisão da nação. Neste contexto, outro massacre tomou lugar, no campo de refugiados de Tel al-Zaatar, onde mais de 1.500 palestinos foram mortos, em agosto de 1976. Dois meses depois, a aldeia cristã de Aishiya foi atacada por forças muçulmanas, causando a morte de mais de 70 pessoas e a evacuação do local pelo restante da população.

Neste momento, um encontro de nações árabes na Arábia Saudita negociou um cessar-fogo no Líbano, com a determinação que forças sírias permanecessem em território libanês para garantir a tranquilidade. Em março de 1977, o líder do Movimento Nacional Libanês, Kamal Jumblatt, foi assassinado, o que desorganizou a principal milícia muçulmana e fez com que os grupos de oposição ao governo cristão perdessem sua unidade. Desta forma, encerrava-se o primeiro momento do conflito.


A SEGUNDA FASE
O cessar-fogo estabelecido pelas negociações da Liga árabe não garantiu que tudo se pacificasse dentro do Líbano. Por um lado, o presidente da Síria, Hafez al-Assad, buscava ampliar sua influência dentro da área ocupada, instigando os conflitos entre cristãos e muçulmanos. Para este líder, quanto mais enfraquecido estivesse o Líbano, mais fácil seria para incorporá-lo e colocar em prática a construção da Grande Síria, projeto que visava reconstituir o território existente entre o fim do Império Otomano e a divisão que se colocou posteriormente. Por outro lado, a OLP utilizava o território libanês como base para atacar Israel, em suas reivindicações pela formação de seu Estado e pela retirada dos israelenses das áreas tomadas de seu território.

Isto fez com que, em março de 1978, forças israelenses avançassem sobre o sul do Líbano, área controlada pelos muçulmanos, no que se conheceu como Operação Litani, uma vez que as tropas de Israel tomaram os territórios que se estendiam até o rio Litani. Sua intenção era desarticular os núcleos da OLP que atuavam na região e que dias antes da invasão haviam assassinado e ferido cidadãos israelenses, além de estender sua fronteira até o curso d’água. A ONU, entretanto, desaprovou a ação de Israel, e em suas resoluções número 425 e 426, determinou que esses soldados deixassem o território libanês. Mesmo com sua rápida saída, acompanhada pela Força Interina das Nações Unidas no Líbano, os israelenses ainda mantiveram o controle sobre a região, através da criação do Exército do Sul do Líbano, que congregava cristãos e xiitas, coordenado por militares israelenses. Este grupo entrou em diversos combates contra a OLP, tornando a região bastante turbulenta.

Ao mesmo tempo, as forças sírias desentendiam-se com cristãos libaneses, uma vez que aquelas ampliavam seu controle sobre a capital, estabelecendo postos de controle na cidade de Beirute, após uma série de atentados a bomba. Em virtude do desentendimento entre os soldados sírios e libaneses que se recusavam a aceitar estas inspeções estrangeiras, entre fevereiro e abril de 1978, ocorreu a Guerra dos Cem Dias na capital libanesa, resultando na expulsão dos sírios de Beirute e na sua mudança de lado no conflito, passando agora a atacar cristãos e defender interesses dos muçulmanos.

Os anos de 1979 a 1981 passaram com a disseminação destes conflitos generalizados por todo o Líbano, com cristãos e israelenses, de um lado, lutando contra sírios, palestinos e muçulmanos de outro. Um dos eventos de destaque desse momento foi o cerco à cidade de Zahleh, que durou sete meses, opondo a Frente Libanesa, sob a liderança de Bashir Gemayel, às forças sírias e da OLP, o que reforçou os laços entre Israel e os cristãos libaneses. Em junho de 1981, quando o cerco terminou, as forças muçulmanas abandonaram Zahleh sem conseguir tomá-la, embora tenham destruído praticamente a cidade toda.

Pouco tempo depois, em julho de 1981, as forças israelenses empreenderam pesado bombardeio sobre Beirute, com a intenção de destruir focos de atuação da OLP, no que foram duramente criticados pela opinião internacional. Em meio a isto, um novo cessar-fogo foi assinado, acalmando os ânimos dentro do Líbano de agosto de 1981 até maio de 1982.


A TERCEIRA FASE
O ano de 1982 marcou um momento bastante tenso no conflito que se desenvolvia dentro do Líbano. Inicialmente, no dia 3 de junho, o embaixador israelense em Londres, Shlomo Argov, sofreu uma tentativa de assassinato, levada adiante pela Organização Abu Nidal, de origem palestina, mas inimiga da OLP. O grupo de Nidal era patrocinado pelo Iraque, governado então por Saddam Hussein, que utilizou este atentado para estimular uma ação militar de Israel contra os palestinos no Líbano. Hussein imaginava que isso poderia acabar com a OLP, e permitir a união entre Iraque e Irã contra Israel. Como resposta, forças militares israelenses de fato bombardearam alvos da OLP na parte ocidental de Beirute, que responderam lançando foguetes sobre Israel. Essa troca de agressões desrespeitou o acordo de cessar-fogo, reacendendo o conflito na região. A tentativa de Hussein, de usar esse ataque como fator para encerrar a guerra do Iraque contra o Irã, entretanto, não funcionou.

Como desdobramento, no dia 6 de junho, pela segunda vez desde o início da Guerra Civil Libanesa, militares israelenses avançaram sobre o território do Líbano, iniciando a Operação Paz para a Galileia. O objetivo era desmantelar a ameaça representada pela OLP, eliminando seu núcleo de ação em Beirute. Após isso, pretendia-se assinar um tratado de paz entre Israel e o presidente eleito, Bashir Gemayel, para colocar fim às hostilidades. A capital libanesa foi cercada, e ataques ordenados pelo Ministro da Defesa israelense Ariel Sharon eliminaram milhares de apoiadores da OLP. Os bombardeios duraram cerca de dois meses, e prevendo que seriam massacrados, os membros da organização palestina, sob a liderança de Yasser Arafat, negociaram sua saída de Beirute, o que aconteceu em 23 de agosto. Entretanto, a milícia palestina não abandonou o território por completo, o que faz com que os israelenses prosseguissem em sua ação, rumo ao norte do país, o que desagradou a opinião pública de seu país.

Dois importantes acontecimentos se desenrolaram paralelamente a esta presença israelense. O primeiro foi a tomada de decisão de alguns clérigos xiitas de se organizar e defender seus interesses, ao mesmo tempo que apoiaram a causa palestina e a luta contra Israel. Foi esse conjunto de elementos que deu origem a um grupo denominado Hezbollah (Partido de Deus, em árabe), cuja atuação inicial se deu através de ataques terroristas contra os israelenses, assim como contra seus apoiadores, tal como norte-americanos, franceses e italianos, que chegaram ao Líbano em setembro de 1982. Um importante apoio ao Hezbollah veio diretamente do Irã, cujo governo estava sendo ocupado pelos xiitas desde a Revolução Islâmica de 1979, e que enviou sua Guarda Revolucionária para treinar os membros do grupo que surgia. A atuação paramilitar do grupo durou até 1992, quando seu principal líder, Abbas al-Musawi foi morto em uma ação israelense. A partir de então, o grupo modificou os princípios belicistas que havia declarado em 1985, quando lançou seu Manifesto, e passou a atuar por meio do campo político.

O segundo evento foi o assassinato, em 14 de setembro, de Bashir Gemayel, então presidente eleito e representante do grupo maronita, que buscava aprofundar suas relações com Ariel Sharon para expulsar sírios e palestinos de seu território, e iniciar um governo cristão pró-sionista. Sua morte provocou, entre os dias 16 e 18 de setembro de 1982, uma violência desmedida, no que se chamou dos Massacres de Sabra e Chatilla. Essas localidades eram campos de refugiados localizados nos arredores de Beirute, e foram atacados pelas Falanges libanesas, com o consentimento dos israelenses, que possuíam um acampamento militar a cerca de 200 metros do local. Não se tem clareza de quantas pessoas, entre palestinos e xiitas que viviam nos acampamentos, foram mortas, girando os números entre 800 e 3 mil mortos. Durante certo tempo, Israel negou sua participação nos massacres, mas documentos examinados recentemente mostraram que, além de permitir que os falangistas entrassem nos acampamentos, os soldados israelenses também iluminaram a área para facilitar o trabalho de extermínio. Seth Anziska, em seu livro Preventing Palestine (2018), também afirma que a ação dos falangistas havia sido negociada anteriormente entre Bashir Gemayel e Ariel Sharon, como forma de eliminar os palestinos e aniquilar suas reivindicações.

A reação a estes massacres foi bastante negativa em Israel, o que levou esta nação a vivenciar uma crise política, com a renúncia de seu primeiro-ministro em 1983, e uma crise econômica, com o início de um processo inflacionário elevado. Com esse cenário desfavorável, Israel assinou, em 17 de maio de 1983, um tratado com o Líbano se comprometendo com a retirada de suas tropas, desde que os sírios fizessem o mesmo. Aos poucos, Israel começou a desocupar as áreas onde estavam suas tropas, o que provocou disputas por esses territórios, com avanços de drusos e sírios sobre o exército libanês. Com pouca capacidade de resistência, vendo também seus aliados norte-americanos e franceses serem duramente atacados pelo Hezbollah e se retirando, o governo cristão de Amin Gemayel, irmão de Bashir Gemayel e que fora escolhido para sucedê-lo na presidência, assinou mais um cessar-fogo, o Acordo Tripartite de 1985, junto aos xiitas e drusos.


A FASE FINAL
A suspensão das hostilidades, por mais que fosse desejada por algumas partes, não era o objetivo de todos, e por isso o Hezbollah, as milícias sunitas e mesmo algumas parcelas cristãs da população não respeitaram os termos do acordo assinado em 1985. A guerra se prolongou com atentados terroristas, sequestros de estrangeiros, ataques de grupos rivais ocorrendo em todo o país e uma enorme fragmentação dos grupos, modificando a todo momento o cenário de apoios e de oposições.

Em 1987, os sírios invadiram Beirute para impedir a derrota de seus aliados do Movimento Amal, que combatia os membros do Hezbollah. A violência apenas crescia no país uma vez que o Iraque passou a apoiar os cristãos maronitas no conflito, buscando diminuir a influência dos xiitas apoiados pelo Irã. Em meio a estes combates, em 1988 terminou o governo de Amin Gemayel, que não conseguiu unificar e pacificar o Líbano. Sua sucessão foi confusa, pois buscou criar um governo de coalizão, indicando três cristãos e três muçulmanos para formar um governo militar interino. Como os muçulmanos não aceitaram a coalizão, surgiram dois governos: o de Salim al-Hoss, representando os muçulmanos, e o de Michel Aoun, liderando os cristãos, cada qual situado em uma porção de Beirute.

Aoun ganhou simpatia de muitos libaneses e também de estrangeiros ao anunciar que buscaria livrar o Líbano da presença estrangeira, e começou a empreender uma política de combate às milícias, que trouxe para seu lado também o apoio de muitos muçulmanos. De tal forma caminhou a situação que em outubro de 1989, 62 parlamentares libaneses se reuniram em Taif, na Arábia Saudita, e assinaram um acordo, que retomava os termos da divisão política estabelecida em 1943. Da mesma forma, se estabelecia que as milícias deveriam se desarmar e que os sírios começariam a deixar o Líbano. O acordo foi ratificado em 4 de novembro, mas Michel Aoun não aceitou o novo presidente eleito, Rene Mouawad, que governou por 17 dias até ser morto em um atentado. Seu sucessor, Elias Hrawi, também não foi reconhecido por Aoun, que buscou fechar o Parlamento e concentrar os poderes em si. Entretanto, no final de 1990, os sírios lançaram uma grande ofensiva contra as bases de Aoun, que foi obrigado a sair do Líbano e buscar asilo na França. A deposição de Aoun marcou o último ato da guerra, que se estendia há 15 anos.


A PACIFICAÇÃO
Terminado os conflitos abertos, Omar Karami conduziu as negociações para a reorganização do Líbano no pós-guerra. Logo no princípio de 1991, o governo libanês decidiu pela extinção das milícias, que deveriam se desmobilizar até o dia 30 de abril, com exceção do Hezbollah, que recebeu permissão para continuar atuando no sul do país. Em maio daquele ano, sírios e libaneses assinaram o Tratado de Fraternidade, Cooperação e Coordenação, que formou um conselho para administrar o Líbano, composto por representantes das duas nações.

Esse Tratado prolongou a presença síria em território libanês, enquanto os libaneses ainda combatiam a presença da OLP e dos israelenses em seu território. Em julho de 1991, os membros da OLP foram derrotados em uma batalha na cidade de Sidon, o que voltou os esforços libaneses para o afastamento da presença israelense. Os conflitos entre as forças de Israel e o grupo Hezbollah continuaram a provocar mortes e destruição na região sul do Líbano, com diversos bombardeamentos e ofensivas contra aquela área. Apenas no ano 2000 Israel finalmente abandonou o território libanês, depois de mais de duas décadas de sua presença, embora anos mais tarde ainda tenha feito novos ataques e incursões ao sul do território libanês.

Quanto aos sírios, esses permaneceram até 2005, quando finalmente retiraram os últimos soldados que ocupavam a região. A pressão para sua saída havia sido intensificada após a retirada das tropas israelenses, e sua presença ainda levara ao assassinato do primeiro-ministro libanês Rafik Hariri no começo daquele ano, em virtude de sua complacência com a presença das forças da Síria. Estes atos ainda se marcariam como desdobramento da guerra, encerrada 15 anos antes.

Em termos de mortos, o conflito vitimou aproximadamente 144 mil pessoas, deixando quase 200 mil feridos. Do ponto de vista econômico, o PIB libanês decaiu em 33% entre 1975 e 1990, sem se calcular a inflação do período, que poderia demonstrar uma queda ainda mais acentuada. Na atualidade, a economia libanesa tem mantido boas taxas de crescimento, o que demonstra sua recuperação após o final do conflito. Desde 2016, é governado por Michel Aoun, que voltara ao seu país depois de 15 anos de exílio, e que hoje governa com o apoio do Hezbollah. Esta cruel guerra trouxe muitos prejuízos e traumas ao Líbano, que tem se recuperado de forma gradual, mas ainda convivendo com os fantasmas deste conflito. De todas as lembranças deste passado tumultuado, a mais emblemática e também complicada é a presença de cerca de 1,5 milhão de refugiados sírios em seu território, fugidos do conflito civil que desde 2011 aflige sua nação.

Refugiados sírios
Refugiados sírios, em 23 de julho de 2018. Foto: AFP.


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