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A caça às baleias no Japão
 
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 A CAÇA ÀS BALEIAS NO JAPÃO Imprimir Enviar Guardar
 


A LIBERAÇÃO DA CAÇA
No dia 1° de julho de 2019, o Japão retomou de forma oficial a pesca comercial de baleias, prática que havia sido banida no país por aproximadamente 30 anos. A atividade de caça das baleias foi proibida em 1982 pela Comissão Internacional Baleeira (IWC, em inglês), entretanto o acordo foi assinado somente em 1986 por mais de 80 países. Países como o Japão, Islândia e Noruega sempre foram contra o acordo e continuaram com a pesca às baleias sob pretextos de pesquisas científicas. Segundo dados extraoficiais, estima-se que o Japão tenha matado cerca de 32 mil baleias nestes 30 anos com o intuito, segundo os japoneses, de estudar os hábitos de vida dos animais. A situação agora é diferente: cinco navios de seis operadores baleeiros foram autorizados pelo governo a iniciar suas atividades com foco na pesca comercial.

A disputa não é de hoje e os japoneses sempre quiseram retomar suas atividades de forma “legal”.O último pedido de liberação da pesca da baleia ocorreu em julho de 2018, porém a comissão da IWC negou o pedido do governo japonês. A partir de então o país anunciou sua retirada do acordo global assinado em 1986 e liberou seus barcos para iniciarem a pesca aos cetáceos. O foco inicial é capturar 150 animais da espécie bryde, 52 do tipo minke (baleia-anã) e 25 baleias-sei até o final deste ano – inicialmente em território japonês, passando no final de agosto para a pesca de outras espécies em águas internacionais.

O motivo da retomada da pesca às baleias, segundo o governo japonês, seria o aspecto tradicional do consumo de baleias para o povo, que deveria ser respeitado. É verdade que a carne de baleia foi, se não a única, uma fonte importante de proteínas no período pós-guerra japonês e, devido a isso, muitas pessoas enxergam seu consumo como uma tradição a ser mantida. Por outro lado, o investimento massivo do governo japonês – de cerca de 50 milhões de dólares por ano – para subsidiar a pesca não é bem aceito por grande parte da população, tendo em vista que o consumo de baleia não é mais necessário no Japão atual e que práticas turísticas de observação desses animais têm aumentado muito no país e despontado como um negócio que pode ser mais lucrativo, além de mais sustentável, do que a própria pesca.

Além do Japão, Noruega e Islândia figuram entre os países que caçam baleias para consumo. Os três países afirmam que além de questões culturais, a pesca dos cetáceos tem importantes papéis na economia dos países. Não é difícil, por exemplo, encontrar carne de baleia à venda nos mercados finlandeses. De qualquer maneira, nos três países existe uma pressão política e financeira gigantesca para manter a indústria baleeira, mesmo ela estando desativada para fins comerciais. Em 2011, inclusive, a ONG Sea Shepherd, uma das principais ativistas sobre as causas marinhas, denunciou um desvio de dinheiro no Japão, recebido de doações para vítimas do tsunami, para a indústria de caça às baleias do país. Posteriormente o governo japonês justificou a verba atribuindo-a à perda de navios da frota de baleeiros que atuavam na Antártica para pesquisar as populações de baleias.

Segundo especialistas da área, mesmo com um número controlado de animais caçados, a pesca é insustentável, além de ser economicamente inviável. Atualmente apenas alguns pedaços de carne e gordura são utilizados para alimentação, um cenário muito diferente daquele no qual o óleo da baleia, o principal produto advindo das caças, tinha grande aplicação industrial. Além disso, todos os países que fazem parte do acordo IWC não têm permissão para comercializar produtos derivados de baleia, o que, por sua vez, limita a circulação dos produtos da pesca a estes únicos três países de uma forma legal e que respeite as legislações internacionais.

Baleia
Apesar do acordo pela proibição da caça de baleias, alguns países prosseguem com a atividade. Foto: shadowfaxone/Pixabay.




QUAIS SÃO AS ESPÉCIES AFETADAS PELA LIBERAÇÃO?
As espécies de cetáceos almejadas pelos japoneses são alvos de pesca há muitos anos. Segundo o governo japonês, três espécies poderiam ser pescadas, desde que obedecidos os números estabelecidos por estudos científicos, sem que suas populações fossem significativamente afetadas, o que é contestado por diversas entidades científicas. As espécies seriam a baleia-minke (Balaenoptera acutorostrata), também conhecida como baleia anã; A baleia-de-bryde (Balaenoptera brydei); e a baleia-sei (Balaenoptera borealis), também conhecida como baleia boreal. As três espécies ocorrem em mares japoneses, apesar de sua distribuição ser muito mais ampla do que isso. O problema da pesca destas espécies, segundo entidades protetoras de cetáceos, é que a mortalidade das baleias não está relacionada apenas a este tipo de atividade, pois acidentes com embarcações e a captura acidental em redes de pesca acabam aumentando o número de mortes por atividades pesqueiras. Aliado a isto, o ciclo de reprodução das baleias é extremamente lento, uma fêmea tem em média um filhote a cada três anos.

As baleias-de-bryde, principal alvo dos navios japoneses, podem chegar a 17 m de comprimento, pesando algo em torno de 40 toneladas. Os filhotes recém-nascidos têm cerca de 4 metros de comprimento e peso médio de 680 kg. São baleias de corpo alongado e muito hidrodinâmico, possuem coloração acinzentada no dorso e branca no ventre, com três cristas longitudinais na cabeça. Alimentam-se de pequenos peixes pelágicos e de krill, um pequeno crustáceo semelhante a camarões. Vivem em pequenos grupos temporários e não efetuam grandes migrações para se reproduzir, passando a maior parte do seu tempo em águas tropicais, podendo se reproduzir em qualquer época do ano. No Brasil sua ocorrência é mais comum no litoral sudeste.

Já as baleias-minke (ou baleias-anãs) são as menores baleias existentes, os adultos chegam a aproximadamente 10 metros de comprimento e 9 toneladas de peso em média. São encontradas em todos os oceanos, habitando águas tropicais, temperadas e frias. Podem ser encontradas sozinhas, em duplas ou em pequenos grupos. Alimentam-se preferencialmente de krill, pequenos peixes e lulas. A gestação da espécie dura cerca de 10 meses e os indivíduos tem longevidade superior a 50 anos. Para se reproduzir, elas migram das águas antárticas para regiões tropicais, podendo ser encontradas inclusive na costa brasileira.

As baleias-sei também são encontradas em todos os oceanos, porém vivem normalmente em águas mais profundas do que as outras duas espécies. Seu tamanho pode variar entre 16 e 20 metros e seu peso pode chegar a até 40 toneladas. Vivem em pequenos grupos, mas, eventualmente, podem ser encontradas em grandes grupos de alimentação. Alimentam-se preferencialmente de krill e de pequenos peixes.

Além das três espécies alvo da frota japonesa, outras sofrem ou já sofreram muito com a pesca comercial. Na Islândia, por exemplo, além da baleia-minke, também é pescada a baleia-fin (Balaenoptera physalus), um enorme cetáceo que pode chegar a até 27 m de comprimento e peso de até 70 toneladas. Estima-se que sua população corresponda hoje a apenas 30% de seu número original. Outra espécie que também teve sua população drasticamente diminuída foi a das baleias jubarte (Megaptera novaeangliae), apesar de não serem alvos da pesca comercial atualmente, acredita-se que existam aproximadamente 20 mil exemplares no Atlântico Sul, sendo que os cientistas acreditam que a população original poderia chegar a até 150 mil exemplares. A espécie cachalote (Physeter macrocephalus), foi outra muito caçada durante os séculos XIX e XX, estima-se que tenham sido mortas algo em torno de 2 milhões de animais neste período. A baleia-franca (Eubalaena australis), foi a que mais sofreu com a pesca, sendo a espécie que mais chegou perto de ser extinta. Levantamentos feitos na década de 70 indicavam a presença de apenas 300 animais no oceano Atlântico Sul. Pelo menos duas espécies conhecidas foram extintas neste período, a baleia-franca da costa europeia e a baleia cinzenta do Atlântico Norte.


ENTENDA COMO OCORRE A PESCA ÀS BALEIAS
A pesca comercial de baleias ocorre de forma similar no mundo todo. Os animais normalmente são mortos por tiros de arpões com explosivos. Para tal, os animais são localizados pelos pescadores que os observam com binóculos de cima dos mastros dos navios e perseguidos pelos barcos por grandes áreas até que as baleias fiquem absolutamente exaustas. Neste momento os barcos conseguem se aproximar dos animais para arpoá-los. Geralmente, nos barcos baleeiros, o canhão que dispara o arpão fica localizado na proa do navio e quando a baleia sobe para respirar ele é disparado. Na ponta dos arpões existem 4 ganchos que se abrem ao penetrar o corpo do animal, liberando uma granada que é detonada causando um grande ferimento. O animal, na maioria das vezes, não morre neste primeiro ataque. O arpão primário é ligado a um cabo de aço de até 100 m de comprimento que irá içar a baleia para perto do navio. Como a baleia não morre com o primeiro tiro, é comum que os pescadores lancem diversos arpões secundários menores, além de vários tiros de rifle até que a baleia morra. De acordo com alguns relatos de pescadores, as baleias podem levar até uma hora para morrer, sofrendo muito durante o processo.

Os baleeiros podem levar de duas a quatro baleias presas simultaneamente em suas laterais. Após a pesca, os animais são levados para os navios-fábrica onde serão processadas. Normalmente, estas embarcações são providas de todo o aparato para processar o pescado em alto mar. Isso permite que vários animais sejam mortos pelos barcos arpoadores e processados no navio-fábrica sem que os barcos tenham que retornar à terra firme. No caso dos japoneses, esse navio-fábrica é o Nishin-maru, uma traineira de pesca que leva 112 tripulantes. Ao chegar neste navio, os animais são içados para o convés, medidos e pesados. A partir disso o animal é descarnado e desossado, sendo separada a gordura do animal que é imediatamente transformada em óleo. A carne, as nadadeiras e a língua são cortadas em porções menores e prontamente empacotadas ou enlatadas. Ossos são moídos e transformados em uma espécie de farinha que é utilizada na formulação de rações para cães e gatos.


E COMO ERA A PESCA ÀS BALEIAS NO BRASIL?
No Brasil, a pesca às baleias teve sua primeira licença expedida no ano de 1602, após a chegada dos portugueses. No país, as instalações para a caça aos cetáceos eram chamadas de armações, nome que ainda existe em muitas praias brasileiras que se destinavam à atividade. A primeira armação brasileira foi montada em Itaparica, no estado da Bahia, e posteriormente diversas outras armações foram surgindo, principalmente na Bahia, Paraíba, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. O principal alvo da pesca no Brasil eram as baleias-francas, caçadas sem nenhum tipo de regulamentação ou proteção. Estima-se que nesta época eram pescadas em torno de 3,5 mil indivíduos por ano, sendo a maioria fêmeas com filhotes. A pesca era tão agressiva que as populações foram dizimadas em apenas dois séculos (no ano de 1819 59 baleias foram caçadas apenas no litoral brasileiro). Depois da quase extinção da espécie, o alvo principal passou a ser as baleias-jubarte.

No país, a pesca dos cetáceos destinava-se principalmente à fabricação de óleo que, por sua vez, era utilizado na iluminação pública e de residências. A carne nunca foi muito apreciada no Brasil e seu principal destino era a exportação para o Japão. Outra parte bastante lucrativa nas baleias eram suas “barbas”, localizadas na mandíbula dos cetáceos, que têm a função de filtrar o alimento que é abocanhado pelos animais. Estas estruturas eram utilizadas para diversos fins, desde a fabricação de espartilhos para mulheres a manufatura de escovas e guarda-chuvas.

A caça às baleias no Brasil era bastante artesanal, realizada em barcos pequenos, normalmente movidos a remo ou a pequenas velas. O arpão era utilizado de forma manual, o que transformava a ação em algo bastante arriscado. Foi somente em 1911 que as tecnologias de pesca, com barcos movidos a vapor e arpões com explosivos, chegaram ao Brasil. Com isso, a indústria baleeira do país teve um novo e significativo crescimento, mesmo com recursos absolutamente escassos. Nesta época, baleias-minke e cachalotes, além das jubartes, eram os principais alvos da indústria. Com a diminuição do número de indivíduos capturados ano após ano, foi criado em 1923 um decreto que tentava pela primeira vez regulamentar a pesca destes animais, proibindo a captura de filhotes e de fêmeas acompanhadas pelos mesmos. Em 1967 foi proibida a captura da baleia-azul (Balaenoptera musculus), o maior animal existente na Terra atualmente, porém, a caça de baleias em território brasileiro só foi definitivamente proibida em 1986 de acordo com o tratado assinado pela comissão do IWC. No ano de 2018 a 67° reunião da entidade ocorreu em Florianópolis e contou com a presença de 89 países membros que voltaram a assinar a proibição da caça a estes belos animais por frotas pesqueiras de seus respectivos países, uma grande vitória ambiental para as gerações futuras.


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