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Cigarros eletrônicos
 
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 CIGARROS ELETRÔNICOS Imprimir Enviar Guardar
 
Os chamados cigarros eletrônicos se popularizaram com rapidez no mundo todo, principalmente devido à propaganda de eles seriam menos nocivos do que os cigarros tradicionais. Os cigarros eletrônicos são, basicamente, dispositivos alimentados por uma bateria que contém nicotina líquida, água, substâncias aromatizantes e diferentes tipos de solventes como o propilenoglicol e a glicerina e são usados como o cigarro comum.

EUA x Coreia
Cigarro eletrônico ou dispositivo eletrônico para fumar (DEF). Foto: ArthurHidden /Freepik


Foi desenvolvido por Herbert A. Gilbert, no estado da Pensilvânia em 1963, sendo inicialmente denominado smokeless non-tabacco cigarette. Entretanto, o modelo idealizado por Gilbert, apesar de patenteado, nunca chegou a ser comercializado devido aos altos custos envolvidos em sua produção. Somente em 2003 é que um novo modelo de cigarro eletrônico chegou ao mercado. Elaborado pelo chinês Hon Lik, fundador da empresa Dragonite International Ltd, sua patente foi vendida por 75 milhões de dólares para a empresa Imperial Tobacco Group. Atualmente os cigarros eletrônicos possuem diversos modelos distintos e são chamados por diferentes nomes como e-cigars, Ends (Eletronic Nicotine Delivery Systems), vapers, entre outros. O nome técnico em português utilizado para denominar os cigarros eletrônicos, é dispositivo eletrônico para fumar ou DEF.

De uma maneira geral, todos os DEFs disponíveis no mercado têm como objetivo prover nicotina para o fumante, embora alguns sejam comercializados sem nicotina, na forma de aerossol. Segundo a maior parte dos fabricantes, durante o processo de fabricação do cigarro eletrônico a nicotina passa por um processo de remoção de impurezas e de outras substâncias tóxicas presentes nos cigarros comuns, o que, teoricamente, resultaria em uma forma menos nociva de fumar – o que não é necessariamente verdade.

Uma coisa é certa: o marketing sobre os cigarros eletrônicos é tão grande que muitos usuários nem se consideram fumantes, ou ainda acreditam que pararam de fumar ao começar a utilizar os vaporizadores. Devido a estes aspectos, os cigarros eletrônicos começaram a chamar a atenção em especial de jovens e o número de usuários cresceu exponencialmente. Só nos Estado Unidos cerca de 3,6 milhões de estudantes do ensino fundamental e médio fumaram cigarros eletrônicos em 2018. O crescimento do segmento nos Estados Unidos chamou a atenção dos gigantes do cigarro e a empresa Juul, a maior do tipo em território americano, teve 35% de suas ações compradas em dezembro de 2018 pela empresa Altria, fabricante do Marlboro, por 12,8 bilhões de dólares. Entretanto, estes altos valores de negociação chamaram a atenção da FDA (Food and Drug Administration), órgão americano responsável pela regulamentação de alimentos e remédios, que estabeleceu um prazo para que a empresa Juul comprove que seus produtos são realmente mais inócuos que os cigarros tradicionais.

No Brasil, os cigarros eletrônicos são proibidos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), porém não é difícil encontrar os DEFs na internet sendo comercializados livremente. Os preços são bastante variáveis e oscilam entre 200 e 1.400 reais.


COMO OS CIGARROS ELETRÔNICOS FUNCIONAM
Os cigarros eletrônicos são aparelhos mecânico-eletrônicos que funcionam a partir de uma bateria, normalmente de lítio. Em seu interior é inserido um cartucho que contém uma mistura de nicotina líquida e outras substâncias que conferem sabor ao produto. As concentrações de nicotina nos produtos comercializados são variáveis de zero a 36 miligramas (alguns podem ter concentrações maiores do que essa). Além destes componentes, existe um dispositivo chamado de atomizador que é responsável por aquecer e vaporizar a nicotina durante a tragada.

Atualmente, os DEFs estão na terceira geração de desenvolvimento. Os primeiros modelos a surgir (primeira geração) eram compostos por produtos descartáveis, bastante semelhantes aos cigarros tradicionais. Ao serem tragados vaporizavam a nicotina e uma luz de LED se acendia na ponta, simulando um cigarro aceso. Na segunda geração foram lançados os DEFs com baterias recarregáveis e cartuchos passíveis de serem substituídos. A maioria deles se assemelha a uma caneta que permite a regulagem da duração e do número de tragadas. Na terceira geração os DEFs não se assemelham a cigarros e são comumente conhecidos como tanks, por conterem um reservatório que pode ser preenchido com nicotina e agentes de sabores; são altamente reguláveis e podem emitir diferentes quantidades de vapor de acordo com a preferência do usuário. Nos últimos anos estes dispositivos também têm sido utilizados para o uso de outras drogas, como a maconha líquida, por exemplo.


MAS OS CIGARROS ELETRÔNICOS SÃO NOCIVOS?
Recentemente, a gigante Juul recrutou diversos pesquisadores de renome com o intuito de estudar os efeitos nocivos dos DEFs, porém a maioria dos cientistas tem se negado a participar da ação com medo de mancharem suas reputações com pesquisas relacionadas aos cigarros eletrônicos. Estudos recentes têm demonstrado que essa inocuidade dos DEFs não é real. O primeiro ponto analisado pelas pesquisas recentes está relacionado à falta de um padrão de controle para os dispositivos encontrados no mercado. Além disso, os cigarros eletrônicos possuem substâncias comprovadamente cancerígenas, associadas muitas vezes a alguns aditivos de sabor que podem ter efeitos tóxicos ainda desconhecidos.

Diversos artigos científicos demonstram que os líquidos utilizados nos DEFs são muito diferentes quimicamente e variam de acordo com a marca utilizada. As quantidades de nicotina e aditivos relatadas nas embalagens também são um problema e nem sempre condizem com a realidade. Alguns estudos sugerem que a exposição ao propilenoglicol, principal componente líquido dos cigarros eletrônicos, pode afetar o sistema respiratório de forma grave. Quando vaporizado, ele pode gerar o óxido de propileno, um gás cancerígeno. Outras pesquisas sugerem ainda que substâncias encontradas nos cigarros tradicionais, como nitrosaminas, acetaldeído, formaldeído e propanol, também são encontradas nos dispositivos eletrônicos e nem sempre em concentrações menores do que nos cigarros tradicionais como é comumente divulgado.

Vários sintomas já foram relatados a partir da utilização dos cigarros eletrônicos: tosses, dores de cabeça, irritação na garganta, dispneia e vertigem. Em alguns casos estes sintomas foram apresentados também por fumantes passivos dos cigarros eletrônicos. A intoxicação é outro agravante que tem sido cada vez mais comum, principalmente de crianças por meio da ingestão acidental dos cartuchos com os produtos químicos dos cigarros eletrônicos.

Em um estudo recente foi avaliada a exposição de pessoas ao vapor de duas marcas populares de cigarros eletrônicos. Os efeitos sobre as células e sobre os genes foram acompanhados a curto e a longo prazo, respectivamente 48 horas e oito semanas. A partir dos resultados ficou evidente que todas as células que tiveram contato direto com os vapores, como células epiteliais dos pulmões e das vias aéreas, sofreram danos consideráveis, entre eles a ruptura das cadeias de DNA (o que é um dos primeiros caminhos para o surgimento do câncer). Além disso, ficou evidente também que o contato dos tecidos com os vapores produzidos pelos DEFs aumenta os níveis de apoptose celular (autodestruição das células), independente da presença de nicotina, o que demonstra o efeito nocivo de outros componentes dos cigarros eletrônicos. Outros estudos apontaram ainda a presença de radicais livres nas amostras dos DEFs, apesar de em níveis menores do que nos cigarros tradicionais, estas substâncias são comprovadamente relacionadas ao desenvolvimento de cânceres típicos de fumantes.

Apesar de produtos produzidos pela queima do tabaco nos cigarros tradicionais, como o monóxido de carbono e os alcalóides do alcatrão, estarem ausentes nos cigarros eletrônicos isto não significa que eles não sejam nocivos, pois o aquecimento dos compostos presentes, que pode chegar a até 320°C, acaba gerando compostos novos cujos efeitos no corpo ainda são desconhecidos. De qualquer maneira, a utilização dos DEFs traz risco à saúde humana e enquanto não conhecermos quais os seus verdadeiros efeitos o seu uso deve ser evitado.


E A COMERCIALIZAÇÃO DOS CIGARROS ELETRÔNICOS, COMO FICA?
Existem no mundo diversos processos relacionados ao esclarecimento da população sobre os riscos dos DEFs e até mesmo sobre seu banimento até que novos estudos comprovem seus níveis de segurança. Recentemente, São Francisco proibiu a venda de cigarros eletrônicos, sendo a primeira grande cidade americana a tomar esta decisão. Segundo o conselho municipal de São Francisco, a decisão se baseia no aumento significativo do uso dos cigarros eletrônicos, principalmente entre os jovens. Estima-se que em 2018 cerca de 1,5 milhões de jovens começaram a fumar cigarros eletrônicos nos Estados Unidos, o que traria consequências graves em um curto prazo sobre a saúde pública da cidade. Segundo o Conselho Municipal, a comercialização dos dispositivos eletrônicos só será liberada a partir da liberação do FDA (Food and Drug Administration), que ainda não tem nenhum tipo de conclusão sobre a inocuidade dos aparelhos. A cidade-estado de Singapura também proibiu a venda de cigarros eletrônicos e foi um pouco além de São Francisco: nela até a posse ou o uso dos dispositivos em locais públicos são passíveis de punição.

No Brasil, a venda dos cigarros eletrônicos é proibida. No ano de 2009 a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicou a resolução RDC 46/2009, proibindo a comercialização, a importação e a propaganda de qualquer dispositivo eletrônico para fumar. A propaganda de qualquer tipo de produto fumígero também é proibida pela ANVISA, de acordo com a Lei 9.294/96. Em relação à venda dos cigarros eletrônicos, não existe nenhum tipo de regulamentação sobre qualquer tipo de equipamento ou autorização pelo órgão, entretanto a venda é feita abertamente em sites da internet e tabacarias. Esta venda ilegal, realizada principalmente pela internet, é muito difícil de ser combatida. Segundo especialistas, os sites de comércio virtual são beneficiados por dois motivos. O primeiro deles é que a não regulamentação de sua venda pela ANVISA não pode ser encarada como uma lei, logo não pode garantir aos cidadãos a desobrigação de fazer ou deixar de fazer qualquer coisa. Em segundo lugar, existe uma grande dificuldade de determinar a quem cabem as punições dos sites de comércio eletrônico e onde buscar e apreender os produtos ilegais. Apesar destas dificuldades a ANVISA garante que continua fiscalizando e autuando os vendedores de cigarros eletrônicos no Brasil.

Na realidade, o Brasil foi um dos primeiros países do mundo a proibir a comercialização dos DEFs, contento nicotina ou não. Segundo a ANVISA, a proibição só será revista depois de estudos científicos e toxicológicos sejam realizados e que os riscos de utilização dos dispositivos sejam realmente esclarecidos. Por tal proibição a agência vem recebendo diversas críticas, especialmente de grupos de usuários que relacionam o uso dos DEFs com a diminuição do tabagismo. Recentemente a indústria do tabaco brasileiro se juntou a estes grupos e vem pressionando a ANVISA para liberar os cigarros eletrônicos.

De qualquer maneira, sendo ou não mais prejudicial do que os cigarros tradicionais, não existem níveis seguros para o consumo destas substâncias. Não existem evidências científicas que eles são capazes de diminuir o tabagismo e várias substâncias tóxicas são produzidas a partir dos dispositivos. O argumento que os cigarros eletrônicos ajudam as pessoas a parar de fumar, o mais utilizado pelas empresas que comercializam os cigarros eletrônicos, também pode não ser totalmente verdadeiro e o fundamental é que a pessoa tenha força de vontade para parar de fumar e não substituir um hábito ruim por outro, também nocivo. Na dúvida, a melhor atitude é manter hábitos saudáveis e não se envolver com nenhum tipo de produto fumígero, seja ele tradicional ou eletrônico.


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