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Reinauguração da Estação Comandante Ferraz na Antártida
 
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 REINAUGURAÇÃO DA ESTAÇÃO COMANDANTE FERRAZ NA ANTÁRTIDA Imprimir Enviar Guardar
 

Inauguração das novas instalações da Estação Antártica Comandante Ferraz. Foto: Mauricio de Almeida/TV Brasil


A nova instalação da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) foi inaugurada em 15 de janeiro de 2020 na Ilha do rei George, na Península de Keller na Antártida. A antiga base de pesquisa brasileira pegou fogo em 2012.

Ainda em fase de testes, a base foi construída em território antártico em 1984 e sofreu um incêndio que resultou na perda de 70% das suas instalações e na ocorrência de duas mortes. A previsão para que ela esteja em pleno funcionamento é em abril de 2020. Nela, foi investida a quantia de US$ 99,6 milhões de dólares (cerca de R$ 415 milhões no total).

O complexo possui 17 laboratórios, sendo 14 internos e 3 externos, contabilizando 4500 m² de área construída, com capacidade para hospedar até 65 pessoas. Os pesquisadores e militares contam também com sala de vídeo, locais para reuniões, cozinha, academia e ambulatório para emergências.

O projeto de reconstrução foi concebido em quatro fases, duas delas de pré-montagem dos módulos com 200 contêineres no total na China e as outras duas de montagem no próprio local.

O complexo arquitetônico é adaptado às condições ambientais adversas da Antártida, com um prédio que possui estrutura elevada, com pilares de sustentação a mais de 3 metros do solo, ficando dessa forma acima da densa camada de neve que se forma no inverno.

Seus 200 contêineres possuem revestimento de isolamento térmico para a proteção do frio extremo, isolamento acústico, tecnologia antiabalos sísmicos e redução ao máximo de agressões ao meio ambiente.

Parte da energia consumida no centro de pesquisa, cerca de 30%, vem de fontes renováveis como painéis voltaicos e geradores de energia eólicos. As condições climáticas e os ventos que chegam a 200 km/h são aproveitados para gerar a eletricidade, enquanto o calor produzido por esses geradores é canalizado para o aquecimento da usina. Dessa forma, diminui-se o uso do diesel para alimentar o sistema de climatização de forma sustentável.


O BRASIL E A ESTAÇÃO COMANDANTE FERRAZ
Desde o final do século XIX, a Antártida se tornou alvo de grande interesse entre os países, gerando, inclusive, inúmeras reinvindicações de seu território. Em 1959, estabeleceu-se entre as nações o Tratado da Antártida, que entrou em vigor somente em 1961, como forma de resolver o impasse entre os países interessados.

O acordo prevê que a Antártida não pertence a nenhuma nação específica, e que a ocupação do seu território visa pesquisas e o intercâmbio de informações entre pesquisadores e a cooperação das organizações internacionais.

O Protocolo de Madri sobre Proteção Ambiental, assinado em 1991 e em vigor desde 1998, restringe a disputa pela exploração de recursos no continente até 2048, estabelecendo o compromisso com a proibição da exploração de recursos naturais, de testes nucleares e de atividades econômicas.

Apesar do Brasil já participar do Comitê Especial de Pesquisas para a Antártida, ele somente aderiu ao Tratado de Antártida em 1975, com sua primeira expedição em 1981. Para isso, o país criou o seu primeiro Programa Antártico (Proantar), e em seguida construiu a primeira versão de sua base de pesquisas.


ANTÁRTIDA: UM CONTINENTE MUITO IMPORTANTE
Atualmente, o continente possui 36 bases científicas, com adesão de mais de 50 países. Entre as diretrizes iniciais mais importantes, foi previsto que somente os países que tivessem bases científicas no continente poderiam participar das decisões e negociações sobre o território.

De acordo com dados, o continente tem cerca de 13 milhões de metros quadrados, com mais de 90% de seu território coberto por gelo, sendo que parte desse gelo armazenado totaliza 70% da água potável do planeta.

A Antártida também é rica em gás natural e possui extensa variedade de minérios, com uma reserva estimada em 200 bilhões de barris de petróleo que, apesar da dificuldade e proibição da exploração do recurso pelo Protocolo de Madri, desperta as atenções dos países na corrida e monopólio dessa fonte de energia.

Sua posição geográfica estabelece um ponto de fácil deslocamento para a maior parte do planeta, sendo local estratégico para a construção de bases militares e espaciais. A região tem uma biodiversidade marinha ainda bem preservada, com alto valor comercial. A fauna abriga espécies de mamíferos (baleias, golfinhos, leões-marinhos, focas, lobos-marinhos e morsa) e variedade de peixes, aves e crustáceos – com destaque para o krill. Esse nome é dado a um conjunto de espécies de animais invertebrados de pequenos crustáceos, como o camarão, com grande valor complementar na alimentação humana, e que também constitui um elemento importante na cadeia alimentar, pois serve como fonte de alimento para diversas espécies, tornando-se fundamental para o ecossistema desse ambiente.

Em termos climáticos, o continente influencia grande parte do hemisfério sul com suas frentes frias, e qualquer alteração na temperatura desse território ou mudança de ventos podem desencadear mudanças climáticas em nível global.


A PRESENÇA DO BRASIL NA ANTÁRTIDA
A presença do Brasil na Antártida estabelece mais um ponto de observação, no que diz respeito a rotas comerciais, turísticas e de comunicação, uma vez que a principal rota de acesso ao continente antártico encontra-se no Atlântico Sul e o Brasil possui a maior fronteira marítima entre os países da América do Sul.

A proximidade entre os dois continentes e configurações geográficas relacionadas afetam fortemente o clima da América do Sul. Dessa forma, se investigam mudanças significativas na circulação do oceano Antártico, variações no seu manto de gelo e do seu clima, levando em conta a possibilidade de estarem diretamente ligadas às secas e inundações em nosso país.

A reinauguração da Estação é importante porque reafirma o desenvolvimento de pesquisas científicas e renova o compromisso do Brasil como membro nas decisões sobre os destinos dessa região, como prevê o Tratado da Antártida.


PESQUISAS RECENTES
Na última década as pesquisas brasileiras viram diminuir significativamente seus investimentos, porém, com a reinauguração da base, espera-se que haja o desenvolvimento de novos programas de pesquisa.

De acordo com informações no site do governo, nos últimos 7 anos 250 cientistas brasileiros trabalharam em 25 projetos, das mais variadas áreas de pesquisas. O Programa Antártico Brasileiro (Proantar), vigente até os dias atuais, foi o primeiro programa desde a primeira expedição do Brasil (1981-1982) com diversas linhas de pesquisas nos campos da meteorologia, oceanografia física e biologia marinha.

Podemos citar potenciais impactos das pesquisas realizadas no âmbito da biotecnologia, por exemplo, os benefícios para as áreas da medicina com a formulação de medicamentos, da agricultura com desenvolvimento de novos pesticidas e herbicidas e da indústria na fabricação de produtos como anticongelantes e protetores solares. Assim, observa-se que muitas dessas pesquisas afetam diretamente o cotidiano da sociedade.

O programa prevê a execução de pesquisas na Antártida e no oceano Austral com cinco programas temáticos e com enfoque na investigação dos processos ambientais e das relações entre a América do Sul e a região polar.


A CRIOSFERA DA ANTÁRTIDA E AS INTERAÇÕES COM A AMÉRICA DO SUL
Criosfera é um termo que se refere a todos os elementos do sistema terrestre que contêm água no estado sólido: gelo marinho, fluvial ou lacustre e cobertura de neve. O estudo da criosfera tem como objetivo investigar e monitorar as variações do manto antártico para elaborar possíveis cenários futuros das mudanças climáticas no Brasil.

Parte das pesquisas desenvolvidas na Antártida visa entender melhor os efeitos das mudanças ambientais sobre a diversidade biológica, bem como analisar os processos de mudanças na circulação do oceano Austral e o impacto delas no clima do planeta, como, por exemplo, o aumento do nível do mar em todo o globo.


DNA AMBIENTAL
Análises de DNA feitas recentemente identificaram sinais de plantas como uvas, patchouli e cebola em pleno território antártico. Pesquisadores de botânica da Universidade de Brasília acreditam que e a melhor hipótese é a de que foram levados até o local por turistas que visitaram a região. Pesquisas como essas podem descobrir como as plantas se locomovem ao longo das correntes de ar, como evoluem e se estabelecem.

Estudos mais aprofundados permitirão identificar fungos que crescem em condições ambientais extremas, e entender como alguns chegam a passar seis meses debaixo do gelo fazendo fotossíntese. A hipótese levantada é que alguns tenham substâncias anticongelantes que, na prática, poderiam beneficiar a aeronáutica, por exemplo.


VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA
Recentemente, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), renomada instituição de pesquisa em saúde pública, enviou pela primeira vez pesquisadores com o objetivo de estudar microrganismos e identificar potenciais riscos de infecção.

A FioAntar analisa o fluxo de microrganismos, coletando amostras de água do mar, degelo, praias, amostras de fezes de animais, pássaros e carcaças.


BIOLIXIVIAÇÃO REJEITOS DE MINÉRIOS A PARTIR DE FUNGOS
O MycoANTAR é um programa do Proantar junto com pesquisador Luiz Henrique Rosa da UFMG, que estuda a diversidade de fungos no continente gelado. Ao longo de quinze anos de trabalho, eles identificaram microrganismos com potencial para serem usados na indústria farmacêutica, alimentícia e na aviação.

Um novo estudo em áreas locais chamados yellow points busca fungos resistentes ao enxofre, elemento que costuma dar origem a essa coloração do solo. Ao descobrirem a espécie ideal, ela poderá atuar no processo de biolixiviação, ou seja, pode ser usada para obtenção de metais a partir de minérios de baixo teor e rejeitos de mineração – como a lama contaminada que vazou das barragens das mineradoras Samarco em 2017 e da Vale em 2019, em que 289 pessoas morreram, quando também os rios Doce e Paraopeba foram contaminados.

Nesta pesquisa já conseguiram isolar uma espécie que extraiu magnésio e principalmente manganês. Seu nome ainda não foi divulgado porque a equipe deve patentear a descoberta, o que um dia ainda poderá gerar recursos para o nosso país. Além de o manganês ser o quarto metal mais utilizado no planeta, ele é essencial na fabricação de aço e ferroligas, por exemplo, e cerca de 90% da sua produção destina-se à siderurgia com aplicações também na fabricação de fertilizantes, carros e rações de animais.

O rejeito da mineração são os resíduos do tratamento do material extraído, em que grandes pedaços de rocha são triturados, lavados e peneirados, dando origem à lama que fica armazenada nas barragens. Essa lama contém ainda muito material com valor econômico, como ferro e manganês, e a biolixiviação com o fungo antártico pode reaproveitar o material descartado nas barragens, dando um possível retorno financeiro e principalmente diminuindo o impacto ambiental da mineração.


PARA SABER MAIS