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Crise do saneamento básico na cidade do Rio de Janeiro
 
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 CRISE DO SANEAMENTO BÁSICO NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO Imprimir Enviar Guardar
 
A cidade do Rio de Janeiro é conhecida pelas suas praias, pelo seu carnaval, pela bossa nova e a famosa canção “Garota de Ipanema”, mas também pelos problemas na área de segurança, principalmente pelos confrontos nos morros cariocas entre polícia, milícias e tráfico. Outro fato conhecido e de grande relevância é ter sido capital federal por quase duzentos anos (1763-1960), até a inauguração de Brasília.

Porém, é no saneamento básico que a cidade tem passado recentemente pela sua maior crise dos últimos anos. Saneamento básico engloba o conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais de abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, limpeza das áreas públicas, tratamento de resíduos sólidos e drenagem e manejo das águas pluviais urbanas. Trata-se de um tema de grande importância, mas muitas vezes negligenciado ou ofuscado pelas notícias sobre o domínio do crime organizado e a corrupção que assola os cofres públicos cariocas, vide seus últimos governadores todos presos.


HISTÓRIA DO SANEAMENTO BÁSICO NO RIO DE JANEIRO
Apesar das notícias desoladoras recentes sobre a crise hídrica carioca, a cidade do Rio de Janeiro foi a terceira no mundo a ter sua própria rede de esgoto implantada, durante os anos de 1857-1864 (as primeiras foram Londres, em 1815, na Inglaterra e Hamburgo, em 1842, na Alemanha). A capital do Brasil, naquele período, passava por um período de rápido crescimento.

Segundo o Censo de 1872 – primeira operação censitária realizada em território brasileiro – à época imperial, realizado pela Diretoria Geral de Estatística (DGE), a cidade do Rio de Janeiro era composta por uma população de 274.972 habitantes (para fins de referência comparativa, São Paulo possuía pouco mais de 30 mil habitantes no mesmo período). Parte dessa população em franco crescimento provinha da imigração portuguesa que, diferente das demais imigrações, tinha preferência por se estabelecer na capital.

Devido ao aumento exponencial de sua população, e principalmente pelo mau costume de lançar os despejos e detritos domésticos em “valas” e nas ruas, e junto às péssimas condições sanitárias como um todo – o que resultava em mau cheiro, proliferação de mosquitos e doenças –, no ano de 1857, o imperador Dom Pedro II assinou um contrato básico, aprovado por meio do Decreto n. 1929 de 26 de abril de 1857, para a construção e administração da rede pública de esgotos sanitários, bem como a execução das instalações de esgotos dos prédios, dentro dos limites da área central.

Este contrato foi assinado com os engenheiros João Frederico Russel e Joaquim Pereira Vianna de Lima Junior, e possuía uma duração de noventa anos. Porém, por conta da dificuldade da dupla de constituir capital suficiente que deveria ser feito no exterior, para o início da obra, o contrato acabou sendo transferido, no ano de 1863, à empresa The Rio de Janeiro City Improvements Company Limited, organizada pelo engenheiro inglês Edward Gotto, membro do Instituto de Engenheiros Civis de Londres.

Era previsto no projeto do engenheiro inglês a criação de três distritos de esgotos (Arsenal, Gamboa e Glória). Todos eles tinham como principais atribuições: projetar, orçar e executar as instalações prediais de esgotos; projetar, orçar e executar os coletores da rede de esgotos; consertar e desobstruir instalações prediais e redes públicas de esgotos.

Segundo dados da época, no ano de 1887, 62% dos cerca de 50 mil imóveis da cidade do Rio de Janeiro tinham coleta de esgoto. No momento que antecede a construção da rede de esgoto, a cidade passou por epidemias de febre amarela (transmitida por um mosquito que se reproduz em água parada), sendo a primeira no ano de 1849. Em 1907, a doença foi erradicada da cidade do Rio de Janeiro, mas retorna com força no ano de 1928, registrando 428 mortos.

No início do século XX, o governo brasileiro estatizou o serviço de saneamento, alegando péssima qualidade dos serviços por parte das companhias estrangeiras. A titularidade do serviço de saneamento e abastecimento de água pelo município é confirmada na Constituição de 1930.

Em 1940, é iniciada a comercialização dos serviços de saneamento, gerando a criação de autarquias e novos mecanismos de financiamento.

Com a fusão do estado do Rio de Janeiro com o da Guanabara (que existiu entre os anos de 1960 a 1975, no território corresponde à atual localização do município do Rio de Janeiro), é feita a união das três empresas em atuação, no âmbito do estado, no dia 1º de agosto de 1975: Companhia de Saneamento do Estado do Rio de Janeiro (Sanerj), Companhia Estadual de Águas e Esgotos da Guanabara (Cedag) e a Empresa de Saneamento da Guanabara (Esag). Desta união, surge a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).


A CRISE DA CEDAE

Protesto em frente à Cedae contra o fornecimento de água de má qualidade pela companhia. Foto: Barbara Dias / AGIF.


No início de janeiro de 2020, moradores da cidade do Rio de Janeiro publicaram nas mídias e nas redes sociais fotos e vídeos que mostravam a água das suas casas turva e com coloração estranha, gosto e cheiro de terra, principalmente na região norte e oeste da cidade. Segundo os primeiros testes realizados pelos técnicos da Cedae, a causa dessa alteração na qualidade da água se deve a uma substância orgânica chamada geosmina, produzida pelo excesso de alga e bactéria na água, que está presente na Estação de Tratamento do Guandu, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Segundo alguns estudos, apesar da coloração amarelada e do forte odor, a geosmina não causa impacto na saúde de quem a consome, mas sua ingestão e uso, por exemplo, para banho, não é recomendável.

A Estação de Tratamento de Água do Guandu atende os municípios de Nilópolis, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Belford Roxo, São João de Meriti, Itaguaí, Queimados e Rio de Janeiro. É reconhecida pelo Guinness Book como a maior estação de tratamento de água do mundo em produção contínua.

Esse problema não é inédito, já que a geosmina é combatida ao menos há 15 anos por meio de ações operacionais, principalmente pelo uso de raspadores de lodo, nos decantadores da estação de tratamento para retirada das algas. Para a crise atual, a Cedae fez a compra de um equipamento que utiliza carvão ativado para combater o aumento da geosmina.

O impacto da crise mudou a realidade dos moradores locais, que tiveram de buscar alternativas para conseguir água mineral na cidade. Segundo relatos de moradores, inúmeros estabelecimentos não contam mais com estoque de água para venda. Estima-se que ao menos 9 milhões são afetados com a crise, que contempla a cidade do Rio de Janeiro e mais sete cidades metropolitanas. Mais de 1500 escolas ficaram sem água.

Não bastasse o problema com a substância, no dia 3 de fevereiro de 2020 a Cedae identificou a presença de detergente na água captada pela estação Guandu, forçando o fechamento das comportas por 15 horas.

Como últimos desdobramentos da crise hídrica, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, demitiu o presidente da Cedae, Hélio Cabral, e nomeou Renato Espírito Santo, funcionário de carreira da companhia. E o último laudo publicado pela companhia no site, no dia 7 de fevereiro, indica que os níveis de odor e gosto chegaram ao número mais baixo desde as primeiras medições no ano.


O então diretor-presidente da Cedae, Helio Cabral, durante coletiva de imprensa. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil.


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