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As relações entre EUA e Coreia
 
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 AS RELAÇÕES ENTRE EUA E COREIA Imprimir Enviar Guardar
 
Em 30 de junho de 2019, o planeta vivenciou um momento sem precedentes: pela primeira vez na História, um presidente dos Estados Unidos, no exercício de seu mandato, adentrou o território da Coreia do Norte. Donald Trump realizou tal feito após conversações e negociações que se estendiam desde o ano anterior, quando também pela primeira vez os líderes das duas nações haviam se encontrado, em uma reunião realizada em Singapura. Tais encontros encaixam-se em uma tentativa de aproximação dos dois países, cujas relações tem sido tensas e marcadas por episódios de ameaças e declarações que deixaram o restante do mundo em alerta. Para compreender o histórico das relações entre os países, que no início de 2020 voltaram a subir o tom de suas discussões, é necessário compreender a história da península coreana.
EUA x Coreia
Intensificam-se atritos entre EUA e Coreia do Norte. Foto: Gerd Altmanna/Pixabay.


A HISTÓRIA DA COREIA
A península coreana, que hoje abriga dois países distintos (Coreia do Norte e Coreia do Sul), foi ocupada desde os tempos pré-históricos, por povos que migraram da região da Manchúria (China) e da Sibéria (Rússia) e que deram origem ao grupo étnico hoje predominante na área. Na Antiguidade, por volta de 2300 a.C., teria surgido o primeiro reino na região, cuja origem mítica é atribuída a Hwanung, fundador do reino de Gojoseon, precursor da Coreia moderna. Em homenagem a esta fundação simbólica, comemora-se o dia 3 de outubro como “o dia em que o céu se abriu”. Esse reino teria durado até por volta do século II a.C., quando os chineses da dinastia Han, em seu processo de expansão, anexaram seu território.

Paralelamente a esse desenvolvimento de Gojoseon, que posteriormente caiu sob domínio chinês, outros reinos se desenvolveram no território coreano, ganhando notoriedade a partir do século I a.C., no período chamado Três Reinos da Coreia. Embora outros pequenos estados convivessem neste território durante este momento, os Três Reinos (Goguryeo, Silla e Baekje) coexistiram até o século VII da era cristã, quando o Reino de Silla, com o apoio da dinastia chinesa Tang, unificou pela primeira vez o território coreano. Durante a era de domínio de Silla surgiram grandes palácios e houve o desenvolvimento de uma estrutura administrativa, bem como o aparecimento de uma poderosa aristocracia.

Esta dinastia foi dominante no território coreano até o século X, quando uma nova dinastia assume o poder, dando origem ao Reino Goryeo ou Koryo, nome do qual a denominação Coreia descende. Sua história prossegue por mais de 400 anos, nos quais houve um grande desenvolvimento das artes, com destaque para a cerâmica. Embora vivessem um período de tranquilidade com relação a seus vizinhos chineses e mongóis, os japoneses eram um problema constante, com ataques de seus piratas no litoral coreano. No século XIV, mudanças econômicas, decorrentes de uma reforma agrária, e também culturais, em virtude da entrada do confucionismo no território, provocaram o enfraquecimento da dinastia reinante e abriram caminho para o estabelecimento de um novo governo a partir de 1392.

O período que se seguiu é conhecido como Joseon ou Choson, que administrou a Coreia por mais de 500 anos. Sua administração é conhecida pela mescla entre oficiais civis e militares, pelo desenvolvimento artístico e pelo fortalecimento do confucionismo, cujos princípios de paz e ordem foram profundamente disseminados entre a população. Apesar disso, nos séculos XVI e XVII, os coreanos foram constantemente atacados por japoneses e chineses, o que os levou a um isolamento, que lhes garantiu mais de 200 anos de paz. Neste período, os imperadores coreanos tornaram-se tributários do Império Chinês, pagando-lhes impostos anuais, mas com status de Estado livre ainda.

Entretanto, ao final do século XIX, problemas internos começaram a abalar a dinastia Joseon, que se viu em meio a conflitos com camponeses. Para auxiliar o imperador coreano, os chineses enviaram militares, mas esta atitude foi vista com desconfiança pelos japoneses, que enviaram suas próprias tropas para a península coreana, o que gerou a Primeira Guerra Sino-Japonesa, entre 1894 e 1895. Ao final deste conflito, a influência chinesa sobre a Coreia se encerrou, apesar de os japoneses se retirarem de seu território. Com o passar dos anos, porém, os japoneses pouco a pouco estenderam novamente sua influência sobre a Coreia, até anexá-la definitivamente em 1910.

A ocupação japonesa na Coreia se estendeu até 1945, quando o Japão foi derrotado na Segunda Guerra Mundial. Deste período, são vários os relatos de violência e crueldade com que os coreanos foram tratados, em especial após o início dos conflitos japoneses com os norte-americanos em 1941. Denúncias de maus-tratos, trabalho escravo e vários tipos de exploração foram frequentes, a ponto de em 2015 o então primeiro-ministro japonês Shinzo Abe enviar um pedido oficial de desculpas ao governo coreano pela exploração sexual das mulheres coreanas nos bordéis militares criados na época da guerra. Apesar disso, as relações entre coreanos e japoneses seguem sendo não absolutamente tranquilas até a atualidade.

Quando os japoneses se renderam em 1945, a Coreia tornou-se livre de seu domínio colonial, em virtude de os Aliados haverem decidido, na Conferência de Potsdam, que o Japão deveria perder todas as suas colônias. Isso não significou que a Coreia ressurgia como país independente: na sua região Norte, houve a ocupação por tropas soviéticas, enquanto o Sul foi tomado por tropas americanas, confirmando uma decisão tomada por essas nações sem o consentimento do povo coreano. As duas potências que emergiam da Segunda Guerra estabeleceram uma fronteira através do Paralelo 38°, linha imaginária situada 38 graus ao norte da Linha do Equador. Com isso, surgiam duas nações diferenciadas, a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Estabeleceu-se como prazo para desocupação o ano de 1950, embora as eleições ocorridas em 1948 em ambas as porções do território tenham feito com que os soviéticos se retirassem ainda naquele ano, com os americanos deixando a Coreia do Sul em 1949, uma vez que as nações já estavam estabelecidas naquele momento.


A GUERRA DA COREIA
Nas eleições de 1948 foi eleito como governante da Coreia do Norte o líder do Partido Comunista do país, Kim Il-Sung. Esta personalidade, que desde 1998 é reverenciada como o Presidente Eterno da República Popular Democrática da Coreia, havia começado sua militância política havia muito, quando em 1926, aos 14 anos, se envolveu na luta contra o imperialismo japonês em seu país. Em 1937, tornou-se conhecido por haver atacado um vilarejo e tomado o controle do local das mãos dos japoneses, mesmo que por apenas algumas horas. Isso fez com que Kim Il-Sung ganhasse importância frente aos olhos dos soviéticos, que o conduziram à liderança do Partido Comunista em 1945.

Nas eleições de 1948, concorrendo como candidato único, Kim Il-Sung tornou-se o governante da porção norte da Coreia, embora os soviéticos o reconhecessem como o único líder de toda a península, desprezando a administração da região sul, apoiada pelos EUA. No ano seguinte, Kim Il-Sung liderou a criação do Partido dos Trabalhadores da Coreia, agregando os comunistas das duas Coreias, e instalando um governo autoritário, perseguindo inimigos políticos e trabalhando o culto à sua personalidade, nos mesmos moldes que Stálin fazia na União Soviética.

Não reconhecendo a divisão da península coreana como legítima, tendo recebido forte apoio militar da união Soviética e com a permissão e apoio da China, que havia acabado de se tornar socialista também e que enviara grande contingente militar para dar suporte aos norte-coreanos, o governo de Kim Il-Sung decide, em junho de 1950, dar início à invasão da Coreia do Sul, com o objetivo de reunificar as duas nações.

Muito rapidamente o conflito se espalhou ao longo de toda a fronteira entre os países. Em virtude de seu grande potencial bélico, e por haver tomado a iniciativa no ataque, a Coreia do Norte fez vários avanços, com o objetivo de prender e depor o presidente sul-coreano Syngman Rhee. Este político, líder da Coreia de Sul desde 1948, era conhecido pela brutalidade de seu regime, que perseguia e eliminava dissidentes políticos, além da existência de diversos escândalos de corrupção. Observando o rápido avanço dos norte-coreanos, Rhee ordenou que Seul fosse evacuada, ao mesmo tempo mandou eliminar todos aqueles que fossem suspeitos de simpatia para com o comunismo. Esse evento, ocorrido em 28 de junho de 1950, ficou conhecido como o Massacre das Ligas Bodo, e estima-se que cerca de 100 mil pessoas tenham sido executadas, sob a supervisão dos militares norte-americanos.

Os norte-americanos, a pedido de Syngman Rhee, mas também em virtude das próprias condições internacionais, uma vez que se desenvolvia a Guerra Fria, não hesitaram em mandar apoio militar para a Coreia do Sul. Isso seria uma forma de, como já havia apregoado o presidente Harry Truman, de impedir o avanço do comunismo pelo mundo, no que conseguiram também o apoio da ONU. O comando das tropas norte-americanas ficou a cargo do general Douglas MacArthur, veterano da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais, tendo sido, neste último conflito, o responsável por receber a rendição do Japão.

Aos poucos, diversos países se envolveram no conflito, seja diretamente, seja apenas por meio da declaração de apoio a um lado ou a outro. A União Soviética, sob o comando de Josef Stálin, preferiu não se envolver diretamente no conflito, embora tenha dado apoio à região norte da Coreia. Inicialmente, os norte-coreanos fizeram diversos avanços, conquistando territórios na parte sul e chegando mesmo a tomar a cidade de Seul. Entretanto, muito rapidamente suas forças começaram a se debilitar, e isso permitiu que as tropas sul-coreanas, com o apoio norte-americano, fizessem avanços e passassem a retomar as posições que haviam sido perdidas. Mesmo com a entrada de forças chinesas no combate, ao final de 1950, isso não fez com que acontecessem avanços ou mudanças significativas.

Deste momento até o final do conflito em julho de 1953, a maior parte dos enfrentamentos se desenvolveu na região de fronteira, ao longo do Paralelo 38°. Os Estados Unidos, nesse contexto, fizeram intensos bombardeios sobre a Coreia do Norte, lançando mais de 600 mil toneladas de bombas sobre a região. Conforme noticiou o jornal Washington Post, a violência dos norte-americanos foi sem precedentes: após bombardearem os alvos militares, foi iniciada uma campanha de destruição de alvos civis, com as cidades sendo duramente atacadas. Depois disso, ainda foram alvejados reservatórios de água e áreas rurais, colaborando para que a situação dos moradores em geral ficasse cada vez mais crítica. O então secretário de Estado norte-americano, Dean Tusk, visitou a Coreia em 1952, e relatou que os militares de seu país haviam bombardeado “cada coisa que se mexia, cada tijolo que estivesse em cima de outro”. O comandante da Força Aérea norte-americana durante o conflito, Curtis LeMay, reforçou esta ideia de destruição quando, em uma entrevista em 1984, afirmou que ao longo de três anos de conflito, os norte-americanos devam ter matado cerca de 20% da população norte-coreana.

Também se pode atribuir essa destruição à própria postura do presidente da Coreia do Sul, que mesmo após ser comunicado da possibilidade da assinatura de um armistício, em meados de 1951, preferiu continuar com os combates na esperança de uma vitória final e da reunificação da Coreia sob seu governo. Isso fez com que suas relações com os Estados Unidos estremecessem, pois os norte-americanos eram favoráveis a esta negociação. Esgotadas, as nações prosseguiram em luta até que, em 1953, fosse assinado o acordo para o Armistício de Panmunjon. Este acordo colocou fim às hostilidades entre os países, mas não deu origem a um efetivo tratado de paz que colocasse fim à guerra. O conflito deixou um saldo de quase 2 milhões de mortos, e nenhuma mudança desejada no início do conflito acabou se concretizando, com os países ainda divididos.


AS RELAÇÕES APÓS O FINAL DA GUERRA E O PERÍODO DA GUERRA FRIA
Em 1917, em meio à sua participação na Primeira Guerra Mundial, os norte-americanos promulgaram o Trading With The Enemy Act (TWEA), conjunto de medidas que buscava regular as relações de comércio entre Estados Unidos e seus adversários (ou aliados de seus adversários) em tempos de guerra. Após um certo período em vigência, esta lei foi transformada para também poder se aplicar sanções a outras nações em tempos de paz, sendo que esta possibilidade foi extinta em 1977, quando entrou em vigor o International Emergency Economic Powers Act (IEEPA). Este mecanismo fez com que o TWEA readquirisse sua função original, tal como estabelecido em sua promulgação.

Ao longo do tempo, diversos foram os efeitos do TWEA, ao permitir medidas de confisco ou congelamento de bens de países com os quais os norte-americanos estivessem em conflito. Muitos países, como Itália, Japão e Alemanha, entre outros, sofreram as consequências da aplicação desta lei, sendo que, conforme os conflitos foram acabando, estas medidas de restrição também foram retiradas.

No caso da Coreia do Norte, um embargo quase completo das relações econômicas foi imposto logo no princípio da guerra, pois a agressão contra a Coreia do Sul foi considerada injustificada. Com o final dos combates, em 1953, não houve a assinatura de um tratado de paz, o que permitiu que os norte-americanos mantivessem tais restrições após o cessar-fogo. Também não houve o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países, sendo que até a atualidade nenhuma dessas nações possui embaixada no território da outra. No caso americano, seus interesses são representados na Coreia do Norte pela Embaixada da Suécia, que também fornece suporte a cidadãos norte-americanos naquele país em caso de necessidade. Os norte-coreanos fazem representar seus interesses nos Estados Unidos através da missão que possuem na ONU, cuja sede se localiza em Nova York.

Após o final do conflito, no contexto da Guerra Fria, as relações entre Estados Unidos e Coreia do Norte mantiveram-se tensas, em razão de vários acontecimentos. O primeiro deles foi o início da realização dos exercícios militares conjuntos de norte-americanos e sul-coreanos. Estes foram idealizados a partir da assinatura de um Tratado de Defesa Mútua, em 1953, quando os norte-americanos se propuseram a oferecer ajuda militar à Coreia do Sul contra agressões externas. Isso também permitiu que desde então houvesse a presença de mais de 20 mil soldados americanos em território sul-coreano, o que sempre enfureceu e preocupou as lideranças norte-coreanas.

Essa situação fez com que o governo de Pyongyang também buscasse apoios internacionais, assinando em 1961 um Tratado de Amizade, Cooperação e Ajuda Mútua com os chineses, além de manter uma relação relativamente próxima com os soviéticos. Como o planeta vivenciava a disputa ideológica entre o bloco capitalista norte-americano e o bloco socialista soviético, todas as estratégias a disposição de ambos os lados foram colocadas em funcionamento, tal como se viu durante a execução da Operação Jilli, iniciada em 1964.

Operação Jilli foi o nome dado a um conjunto de ações que buscava lançar ao ar panfletos com dados a respeito da Coreia do Sul, na zona desmilitarizada com a Coreia do Norte, para que o vento levasse esses papéis ao conhecimento da população norte-coreana. Os panfletos continham informações sobre a situação econômica, a sociedade e todos os progressos que a Coreia do Sul vinha fazendo em virtude do fato de haver aderido ao capitalismo. Esse esforço de propaganda, visando convencer a população da Coreia do Norte a se colocar contra seu governo, prosseguiu até 1969, com pouco ou nenhum resultado prático.

Ainda na década de 1960, outros dois eventos enfraqueceram qualquer possibilidade de aproximação entre Estados Unidos e Coreia do Norte. O primeiro dos acontecimentos se desenvolveu em janeiro de 1968, quando o navio americano Pueblo foi apreendido pelo governo da Coreia do Norte. A alegação para a apreensão era de que o navio havia adentrado o território marítimo norte-coreano sem permissão, o que levou a esta tomada de decisão. No ataque que ocorreu antes da captura, um dos 83 tripulantes do navio norte-americano morreu, sendo que os demais foram presos e assim permaneceram por um período de 11 meses, até que a assinatura de um acordo garantiu a sua libertação. A embarcação, entretanto, jamais foi devolvida, permanecendo sob o domínio da Coreia do Norte até a atualidade.

No ano seguinte, em 1969, um avião Lockheed EC-121, que fazia uma missão de reconhecimento de longo alcance sobre o Mar do Japão foi abatido pela força aérea norte-coreana. Sob o argumento de que tal missão buscava espionar o seu país, os norte-coreanos rapidamente se mobilizaram para uma possível resposta militar dos Estados Unidos. Entretanto, o presidente Richard Nixon não tomou medidas mais drásticas, apenas mobilizando navios em uma demonstração de força, sem realizar nenhum ataque.

Em 1976, um novo incidente se desenvolveu. Dois soldados norte-americanos receberam ordens para cortar uma árvore que estava atrapalhando a visualização de um sinal, na Área de Segurança Conjunta, no perímetro da Zona Desmilitarizada. Enquanto realizavam o serviço, foram atacados e mortos a machadadas por um grupo de 15 militares norte-coreanos. A justificativa do governo da Coreia do Norte assentou-se na ideia de que qualquer operação na área deveria ser feita apenas após ambos os lados serem informados a respeito e terem concordado em sua realização. Como tal entendimento não fora realizado, os militares atacaram o que compreenderam como um desrespeito às regras estabelecidas, além de alegarem que haviam sido ameaçados anteriormente.

A resposta veio três dias depois: um comboio de 23 veículos militares norte-americanos e sul-coreanos adentrou a Área de Segurança Conjunta, com 16 engenheiros militares equipados com motosserras para realizar o corte da árvore. Ao mesmo tempo, mais de 200 soldados foram mobilizados para acompanhá-los além de inúmeros veículos blindados e também mais de duas dezenas de helicópteros. Essa demonstração de força, chamada de Operação Paul Bunyan, serviu para mostrar o poderio militar conjunto de norte-americanos e sul-coreanos, embora a tensão que se seguiu a esse acontecimento não tenha levado a um conflito de maiores proporções. No local onde estava localizada a árvore, retirada completamente em 1987, foi construído um monumento em homenagem aos soldados mortos.

Já entrando na década de 1980, outro problema mais sério começou a ganhar espaço. Com o apoio da União Soviética, o governo de Kim Il-Sung havia iniciado, ainda na década de 1960, a construção de um centro de pesquisas científicas nucleares, depois da assinatura de alguns acordos que previam esta cooperação. Em 1965, o primeiro reator foi instalado, mas este utilizava urânio com baixo enriquecimento, que não serviria para a construção de uma bomba, mas se destinava a pesquisas científicas e da área médica. Além disso, o urânio utilizado como combustível era fornecido pela União Soviética, o que gerava menor apreensão.

Porém, em 1986, a situação se modificou quando os norte-coreanos instalaram um grande reator de cinco megawatts na mesma unidade de pesquisas de Yongbyon, a partir do qual se suspeitou que plutônio fosse retirado para a fabricação de bombas. A Coreia do Norte havia se juntado, em 1985, ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Atômicas (TNP), em vigor desde 1970, e alegou que a instalação não serviria para a produção de material atômico com fins militares, o que diminuiu a tensão, momentaneamente.


O CLIMA PÓS-GUERRA FRIA
Em 1989, a queda do Muro de Berlim foi um marco no processo de encerramento da Guerra Fria. Com a União Soviética enfrentando uma prolongada crise econômica, o governo de Mikhail Gorbatchev iniciou uma série de reformas que, ao invés de restaurarem o socialismo, tal como era sua intenção, levaram ao fim deste sistema. Junto a isso, o acidente na usina nuclear de Chernobyl auxiliou na derrocada do “socialismo real”, fazendo com que as reformas se espalhassem pelo Leste europeu. Foi neste clima de entusiasmo com as transformações que, a partir de 1989, iniciou-se o processo de reunificação da Alemanha, com a derrubada do maior símbolo deste período.

A União Soviética também não resistiu por muito tempo, encontrando sua dissolução cerca de dois anos depois, em 1991. Com isso, o grande sustentáculo dos regimes socialistas ao redor do mundo ruiu, colocando fim à disputa com os Estados Unidos que se desenvolvia desde 1945. Isso não significou que os regimes socialistas instalados em várias áreas tenham se desagregado também. Na China, os protestos da Praça da Paz Celestial e as imagens de sua repressão correram o mundo, mostrando que esteve regime estava em pleno vigor.

Na Coreia do Norte, o fim da Guerra Fria, com o desmembramento da União Soviética em diversas nações, teve um duro impacto, com o quase colapso de sua economia. Esta já vinha fragilizada desde a Crise do Petróleo, em 1973, e também da morte do líder chinês Mao Tsé-Tung, em 1976, que levou à sua substituição por um governo mais voltado a uma economia de mercado. O fim da União Soviética foi um golpe pesado, pois a Rússia interrompeu os auxílios que enviava aos governos socialistas por meio da compra, por preços acima do mercado, de seus produtos de exportação.

Em razão desta situação, Kim Il-Sung iniciou uma política de isolamento, chamada de Juche, que buscava a autonomia norte-coreana no que dizia respeito à sua política, à construção de uma autossuficiência econômica e à edificação de uma autonomia militar. Em um contexto em que a globalização caminhava a passos largos, a Coreia do Norte voltou-se para dentro, reforçando o culto a seu líder, em uma perspectiva que lembrava os governos totalitários da Europa na época da Segunda Guerra Mundial.


A QUESTÃO NUCLEAR
A década de 1990 começou com problemas nas relações entre Estados Unidos e Coreia do Norte. Utilizando imagens feitas por satélites, os norte-americanos descobriram uma nova instalação nuclear no país asiático que, aparentemente, poderia produzir plutônio com finalidade militar. Pressionado, o governo norte-coreano permitiu que inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) inspecionassem esta área em 1992. Ainda nesse ano, as duas Coreias assinaram um tratado de desnuclearização, que poderia colocar fim ao medo de Kim Il-Sung utilizar este tipo de armamento. Porém, no ano seguinte, os inspetores da AIEA não puderam verificar o funcionamento e a finalidade de outras duas instalações, o que elevou as tensões e fez com que a Coreia do Norte ameaçasse sair do TNP.

A ameaça, por fim, não se concretizou naquele momento, mas o presidente norte-americano Bill Clinton mandou uma mensagem aos norte-coreanos que, caso fosse descoberta a produção de elementos radioativos para fins militares, levaria a uma ação militar por parte dos Estados Unidos.

A situação pareceu se transformar quando, em 1994, Kim Il-Sung faleceu, sendo substituído no comando da nação por seu filho Kim Jong-Il. Em outubro daquele ano, o novo presidente assinou, junto ao governo dos Estados Unidos, o chamado Agreed Framework, um acordo pelo qual a Coreia do Norte se comprometia a interromper seu programa nuclear, com seu posterior desmantelamento, em troca de um acordo de paz com os norte-americanos, além do auxílio para a construção de outras unidades para a produção de energia e do fornecimento de combustível. Este foi um momento de aproximação entre os países, que incluiu a viagem inédita do ex-presidente Jimmy Carter ao país asiático.

Clandestinamente, porém, conforme foi posteriormente descoberto, o programa nuclear seguiu funcionando, com a extração de plutônio das barras de combustível das usinas nucleares, o que poderia indicar seu acúmulo para a produção de armas. Enquanto o clima parecia se acalmar, em 1998 o governo da Coreia do Sul formulou a Sunshine Policy, um conjunto de estratégias que visava aproximar as duas Coreias, diminuindo os atritos que se prolongavam desde 1953. No ano 2000, esta estratégia levou ao encontro de Kim Jong-Il com Kim Dae-Jung, presidente da porção sul, em uma reunião inédita desde o início da Guerra da Coreia. Os presidentes chegaram a firmar alguns compromissos, tal como planejar uma reunificação pacífica e buscar uma resolução para os problemas humanitários causados pelo conflito.

Entretanto, a subida de George W. Bush ao poder na Casa Branca fez com que a atitude cooperativa da Coreia do Norte se retraísse, particularmente após os atentados de 11 de Setembro de 2001. No seu Discurso sobre o Estado da União, em 2002, Bush citou a existência de um “Eixo do Mal”, forma pela qual se referiu aos países que eram hostis ou que ofereceriam uma ameaça aos Estados Unidos. Entre estas nações, o presidente incluiu a Coreia do Norte, que vinha desenvolvendo mísseis de longo alcance, tal como o que em 1998 havia sido lançado e passado por cima do Japão, caindo no Pacífico. Também Washington afirmou, no final de 2002, que os norte-coreanos possuíam um programa de enriquecimento de urânio, o que feria os termos do acordo firmado anteriormente.

Em virtude disso, o Agreed Framework de 1994 acabou por ser abandonado por ambos os lados, e em 2003 a Coreia do Norte se retirou do Tratado de Não-Proliferação de Armas Atômicas, gerando uma onda de pânico em nível internacional. Mesmo anunciando que seu programa nuclear continuava ativo, mas apenas com fins pacíficos, no final do ano a ONU aprovou uma série de novas sanções contra o governo de Pyongyang. Os norte-coreanos justificaram sua saída do Tratado em virtude da postura dos Estados Unidos, que havia passado a ameaçar o país.


DE 2003 AO FINAL DO GOVERNO DE BARACK OBAMA
Desde a saída da Coreia do Norte do TNP, vários foram os momentos em que seu governo causou apreensão no cenário internacional, seja com declarações, seja com demonstrações de armamentos que poderiam indicar o desenvolvimento de um conflito com seus vizinhos ou mesmo com os Estados Unidos. A problemática não parecia estar próxima do fim, especialmente quando a primeira rodada de negociações do Diálogo a Seis (entre Coreia do Norte, Coreia do Sul, Estados Unidos, Rússia, China e Japão), ainda em 2003, fracassou.

No ano de 2005, o governo norte-coreano anunciou que havia construído armas nucleares para a defesa de seu território. Esta declaração levou ao início de novas negociações para que Pyongyang retornasse ao TNP, mas suas exigências para tanto não foram atendidas, e não se chegou a um entendimento sobre o assunto.

Com a falta de uma resolução, as atitudes temerárias de Kim Jong-Il prosseguiram. Em Junho de 2006, novos testes com mísseis de longo alcance foram realizados, e em Outubro daquele ano, Pyongyang anunciou que havia realizado seu primeiro teste nuclear. Os Estados Unidos, junto à comunidade internacional, rapidamente reagiram, e novas sanções foram impostas ao país, além de uma série de ameaças.

Tal resposta deu resultado: em 2007, os norte-coreanos retomaram as negociações sobre seu programa nuclear, e permitiram inspeções de agentes da AIEA, que confirmaram que o complexo de Yongbyon havia sido desativado. Isso fez com que o governo americano também desse uma demonstração de boa vontade, ao retirar a Coreia do Norte da lista de países que apoiam o terrorismo.

Porém, uma nova deterioração das relações com o vizinho do Sul levou Pyongyang a novamente começar com suas demonstrações de força. Por mais que o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, houvesse declarado já no início de seu governo que buscaria amenizar as relações com os norte-coreanos, estes mais uma vez realizaram testes com mísseis de longo alcance. O Conselho de Segurança da ONU aumentou as sanções sobre o país, que em maio de 2009 realizou seu segundo teste nuclear. Outros testes ainda aconteceram em 2013 e 2016, já no governo de Kim Jong-Un, que assumiu após a morte do pai em 2011, com o endurecimento cada vez maior dos Estados Unidos para com a Coreia do Norte, embora sem resultados ou uma escalada de violência. Mudanças efetivas só passaram a acontecer após a posse do presidente Donald Trump, em janeiro de 2017.


NA ADMINISTRAÇÃO TRUMP
Donald Trump, 45º presidente dos Estados Unidos, sempre foi conhecido por suas posturas e falas polêmicas, sendo inclusive chamado de “populista” por alguns analistas políticos. Desde o princípio de seu governo, Trump assumiu uma postura que demonstrava pouca disposição para o diálogo e muito maior inclinação para operações bélicas, no sentido de conter as ações da Coreia do Norte.

Ao longo de 2017, várias foram as ocasiões em que o presidente dos Estados Unidos se pronunciou contra o líder norte-coreano, chegando mesmo a ameaçar o país asiático em virtude dos novos testes com mísseis intercontinentais e da afirmação dos norte-coreanos que haviam testado uma nova bomba nuclear.

Entretanto, 2018 marcou mais uma virada na conturbada relação entre as nações. Depois da aproximação entre as duas porções da Coreia, com a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno, na Coreia do Sul, Kim Jong-Un anunciou sua decisão de estabelecer um diálogo mais aberto com Washington. Essa abertura do líder norte-coreano, preocupado com os efeitos das sanções econômicas sobre seu país, foi responsável pelo início de uma aproximação que levou os líderes a um encontro de cúpula em junho de 2018, em Singapura, a um novo encontro em fevereiro de 2019 no Vietnã e à histórica visita de Trump a Coreia do Norte em junho de 2019. Negociações foram entabuladas nesses encontros com relação ao programa balístico e nuclear norte-coreano, embora não se tivesse chegado a nenhuma resolução concreta. Antes deste encontro em território norte-coreano, Washington havia anunciado, em março de 2019, que encerraria os treinamentos militares conjuntos realizados com a Coreia do Sul, que Pyongyang sempre condenou por considerar um teste de invasão a seu território.

Como as negociações sobre a questão nuclear não avançaram, no final de 2019 os exercícios militares norte-americanos junto aos sul-coreanos foram retomados, o que elevou o tom das críticas de Kim Jong-Un. O líder norte-coreano disse que daria prazo até o final de dezembro para que os EUA retomassem as negociações, porém não houve nenhuma manifestação por parte de Trump quanto a esse ponto. Isto levou o governo norte-coreano a anunciar que retomaria seus testes nucleares e com mísseis, uma vez que não ficaria vinculada a um acordo unilateral.

Desta forma, o ano de 2020 iniciou-se com novas trocas de ameaças dos líderes das nações, que não parecem nem mesmo próximos de chegar a um acordo sobre a desnuclearização e o fim das sanções. Tal indefinição sugere que muito ainda deverá ser feito para que a paz se estabeleça em definitivo na relação entre Estados Unidos e Coreia do Norte.


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