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Os impactos do coronavírus na economia mundial
 
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O ano de 2020 começou com notícias alarmantes a respeito do surto de uma nova infecção respiratória, causada pelo coronavírus, também denominado Covid-19, que se iniciou na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, na China. Existe a possibilidade de tal surto ter se originado no grande mercado de frutos do mar da cidade, embora inicialmente tenha se disseminado uma versão de que a doença teria se espalhado entre humanos a partir do consumo de sopa de morcego, animal que pode carregar o vírus. Essa versão foi questionada em uma notícia publicada na página do Ministério da Saúde do Brasil, reproduzindo uma declaração da Organização Mundial da Saúde, que diz não existirem provas científicas para tal afirmação.

Independentemente da forma como o vírus chegou aos humanos, sua contaminação se iniciou no final do ano de 2019, quando os primeiros casos passaram a ser registrados na China. O médico Li Wenliang foi um dos primeiros profissionais da saúde a tentar alertar sobre os riscos da nova doença e de um possível surto, mas ele e outros sete médicos foram inicialmente acuados pela ação da polícia chinesa, sob a acusação de estarem espalhando boatos e perturbando a ordem pública. Com o aumento do número de casos, os temores do médico foram confirmados e a epidemia começou a se alastrar, com o governo chinês chegando a emitir um pedido público de desculpas com relação à sua ação junto ao doutor Li Wenliang. O próprio médico acabou contaminado pela doença, falecendo no dia 6 de fevereiro.

Além do médico, mais 2118 pessoas haviam morrido, só na China, até o dia 19 de fevereiro de 2020. Também se registravam em território chinês aproximadamente 74 mil casos suspeitos da nova doença, além de outros diversos óbitos em outras nações. No Brasil, quase 50 casos suspeitos da doença já foram analisados e todos descartados, o que mantém o país fora da lista de territórios onde o coronavírus se manifestou.

Para além do impacto do ponto de vista da saúde, muito se discute sobre outros elementos que vêm acompanhando esta epidemia, tal como a possibilidade de um aumento de casos de xenofobia contra chineses, ou ainda os efeitos econômicos que tal surto pode trazer, seja no território chinês, seja no restante do mundo, afetando o Brasil com bastante intensidade.


Coronavirus economia
Coronavírus causa problemas na economia mundial. Foto: Gerd Altmanna/Pixabay.


A ECONOMIA CHINESA
A China é um país de estatísticas colossais. Seu território compreende uma área de mais de 9,5 milhões de quilômetros quadrados, sendo assim a terceira nação com maior extensão territorial do planeta, atrás do Canadá e da Rússia. Em janeiro de 2020, sua população chegou a 1,409 bilhão de habitantes, sendo o país com a maior população do mundo, embora seguido de perto pela Índia, com 1,389 bilhão de habitantes. Esses dados somados levam a uma densidade demográfica relativamente baixa, de 146 habitantes por quilômetro quadrado, muito inferior a outras regiões do mundo.

Neste território extenso, com uma enorme população, há uma imensa força de trabalho. Mais de 74% da população chinesa é economicamente ativa, quadro bastante diferente da realidade brasileira, na qual apenas 56% da população enquadra-se nesta categoria. Há de se considerar que a China é um país onde os trabalhadores, embora possuam direitos trabalhistas, têm poucas garantias com relação a seu trabalho, pois sua legislação é pouco protetiva, se comparada a outros países, e a fiscalização desses aspectos é bastante deficitária, o que faz com que sejam explorados e permaneçam mais tempo em atividade.

Este cenário econômico tem sentido, já há algum tempo, um constante crescimento, embora essa taxa tenha decrescido nos últimos anos. A China registrou, em 2019, um Produto Interno Bruto (PIB) de 14,8 trilhões de dólares, o que a coloca em segundo lugar na economia mundial, atrás apenas dos Estados Unidos, com 25 trilhões de dólares, e muito à frente da terceira economia global, o Japão, cujo PIB no mesmo ano chegou a 5,7 trilhões de dólares. Isso representou uma alta de 6,3% em relação ao que foi produzido em 2018, mas essa taxa de crescimento foi inferior ao registrado em 2017, 6,9%, o que tem mostrado uma tendência de desaceleração desta economia.

A produção chinesa se baseia em dois elementos fundamentais: a agricultura e a produção industrial. Na área agrícola, a China é o maior produtor mundial de arroz, algodão e fumo, o segundo maior na produção de trigo e de milho, e o quarto maior produtor de soja. Embora tenha uma área agricultável relativamente pequena (cerca de 10% do território), a rentabilidade da produção agrícola chinesa é bastante alta, o que levou o país a uma situação de quase autossuficiência na produção de alimentos. Isso não se tornou possível especialmente pelo aumento da população, o que motivou o governo a investir em programas de segurança alimentar, que incluem acordos comerciais com outras nações, a compra de terras em outros países, entre outras medidas.

Na área industrial, a produção chinesa também tem alcançado níveis expressivos: o país é o maior produtor mundial de ferro, com 21% da produção mundial, assim como o maior produtor mundial de aço, respondendo por mais de 50% do produto fabricado no mundo. Também a produção de ouro, de automóveis, de “terras raras” (elementos químicos essenciais para a fabricação de itens de tecnologia), de smartphones, coloca a China como o país de maior produção industrial no mundo, gerando aproximadamente 8% de tudo que se produz nas indústrias do planeta.

Toda essa produção não se confina ao mercado chinês, que é também o maior exportador de bens do mundo, conectando-se a diversas outras economias no planeta e fornecendo e comprando itens essenciais para os seus funcionamentos. Essas relações se dão principalmente com outros países asiáticos, com os Estados Unidos, Alemanha, Holanda e Brasil (sua relação comercial é de fundamental importância para o mercado brasileiro).

Estes números impressionantes provêm de uma realidade bastante contraditória. Em 1949, a China vivenciou, em pleno cenário da Guerra Fria, a tomada de poder pelos comunistas, liderados por Mao Tsé-Tung. Após anos de intensos conflitos, seja com os inimigos do Kuomintang, seja com os invasores japoneses, o grupo liderado por Mao subiu ao poder, iniciando uma nova fase na história do país. Inicialmente, as medidas tomadas pelo governo comunista assemelharam-se em muito ao que se praticava na União Soviética, mas acabaram por não gerar os efeitos de crescimento esperados pelo governo.

Isso resultou em muitos problemas, como a morte de pelo menos 30 milhões de chineses, assolados pela fome, disputas políticas e mesmo a perseguição, prisão e morte daqueles que foram considerados opositores do regime e que não haviam colaborado para o sucesso das reformas econômicas. Esse quadro de avanço econômico modesto e violência política perdurou até a morte do líder revolucionário em 1976, sendo que em 1978 subiu ao poder um novo líder, Deng Xiaoping.

A nova administração trouxe mudanças substanciais em vários aspectos, iniciando um processo de abertura que buscava romper com o isolamento chinês, particularmente aguçado após o rompimento com a União Soviética. Xiaoping, em sua postura de pragmatismo político, fez vários esforços no sentido da abertura, como visitar os Estados Unidos em 1979, e assinar um acordo de diplomacia com o então presidente norte-americano Jimmy Carter. Ao mesmo tempo, tal visita foi fundamental para o conhecimento do líder chinês sobre a estrutura produtiva norte-americana, que poderia servir para a China dar o grande passo rumo ao desenvolvimento. Este começou a tomar forma mais concreta em 1982, quando se estabeleceram as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) em cidades litorâneas, permitindo a chegada de investimentos internacionais e um maior contato da economia chinesa com o mundo. A prática de se permitir a instalação de empresas estrangeiras, desde que se associassem com empresas chinesas, deu um impulso fundamental para o crescimento econômico.

Por mais que em 1989 essas relações tenham sido abaladas após a violenta repressão ocorrida nos protestos em favor da democracia, tal como o Massacre da Praça da Paz Celestial, o desmantelamento da União Soviética e o fim da Guerra Fria acentuaram o pragmatismo político de Deng Xiaoping, que buscou reforçar seus laços diplomáticos e econômicos com todas as áreas do planeta.

Essa postura, mantida após a saída de Xiaoping do poder, em 1992, apenas reforçou o papel da China no cenário internacional. Também fundamentais para esse processo foram o apoio concedido às economias asiáticas na grande crise econômica de 1997, bem como sua entrada na Organização Mundial do Comércio em 2001. A partir de então, o crescimento econômico chinês foi de um desempenho ímpar, chegando a uma participação de aproximadamente 18% no cômputo do PIB mundial na atualidade. Nisso, vê-se a contradição entre um país que se denomina comunista do ponto de vista político, com a presença de um cenário unipartidário, mas que possui uma pujante economia capitalista que caminha para se tornar a maior do mundo.


AS RELAÇÕES COM O BRASIL
Uma relação de comércio mais intensa entre Brasil e China começou a se desenvolver já na década de 2000, embora as relações diplomáticas estivessem estabelecidas desde 1974. Chineses e brasileiros já haviam também estabelecido acordos de parceria em tempos anteriores, tal como o CBERS, programa lançado em 1988 com o objetivo de fomentar o desenvolvimento conjunto de satélites, que permitissem a ambos os países monitorar seus vastos territórios. Essa parceria, firmada no âmbito da ampliação das relações internacionais chinesas, originou-se com um investimento de 300 milhões de dólares, a maior parte oriunda da China. O primeiro lançamento de um foguete carregando um satélite originário desse programa se deu em 1999, e foi plenamente bem sucedido. A este, seguiram-se vários outros, mantendo tal parceria até o momento presente.

Em termos econômicos, de 2003 até a atualidade, os chineses investiram mais de 80 bilhões de dólares no país através da ação de mais de 300 empresas diferentes. Desde 2006, por meio de um acordo a princípio informal, Brasil, Rússia, Índia e China formaram um bloco de cooperação político-econômica denominado BRIC, segundo a denominação do economista britânico Jim O’Neill, que a partir de 2010 contou com a presença também da África do Sul, dando origem ao BRICS (acrônimo formado a partir da letra inicial do nome dos países). A ideia era reunir países cujo desenvolvimento econômico fosse expressivo, como forma de ampliar a importância geopolítica dessas nações, apesar de não existir entre esses países um acordo que facilitasse o comércio entre as partes, diferentemente de outros blocos econômicos. Esse grupo tem anualmente, desde 2009, se reunido para traçar estratégias de cooperação não apenas econômica, mas em todas as áreas que possam ser vantajosas aos envolvidos. Na atualidade, a economia chinesa é a que mais se destaca nesse cenário, ainda que a economia indiana apresente boas taxas de crescimento.

2009 ficou marcado como o ano em que a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil, tomando o lugar que até então pertencia aos Estados Unidos. Em abril daquele ano, o fluxo comercial entre Brasil e China atingiu a cifra de 3,2 bilhões de dólares, ultrapassando os 2,8 bilhões no comércio com os norte-americanos. A partir de então, o volume de negócios entre brasileiros e chineses somente se ampliou, chegando à cifra de mais de 80 bilhões de dólares em 2019. Neste ano em particular, o Brasil exportou 21 bilhões de dólares a mais do que importou dos chineses, o que causou um superávit considerável nesta relação. É necessário que se compreenda que, desde o início do ano de 2018, Estados Unidos e China tem travado uma intensa disputa econômica, que foi denominada inclusive como uma “guerra comercial”. A situação começou quando o presidente norte-americano Donald Trump anunciou o estabelecimento de tarifas mais altas sobre as importações de produtos chineses, utilizando o argumento de que tal medida teria como objetivo proteger a economia e os empregos dentro dos Estados Unidos.

A resposta chinesa veio rapidamente, com o anúncio de medidas de igual teor com relação aos produtos dos Estados Unidos, e isto começou, além de causar um mal-estar político, a retrair o comércio bilateral entre estas nações. Também no interior desta crise, o governo chinês anunciou uma desvalorização de sua moeda, o yuan, o que elevou as críticas norte-americanas para o que estaria se tornando também uma “guerra cambial”, uma vez que tal medida favoreceria as exportações chinesas, enquanto tornaria menos atrativas as importações. Neste processo, várias foram as consequências, até que um acordo fosse assinado em janeiro de 2020. Em primeiro lugar, o déficit comercial que os norte-americanos tinham com a China diminuiu consideravelmente, embora ainda se mantivesse alto. Ao mesmo tempo, as exportações de produtos agrícolas dos Estados Unidos para os chineses diminuíram de 25 bilhões de dólares para a casa dos 7 bilhões, afetando a vida dos agricultores norte-americanos. Junto a isso, os investimentos chineses nos Estados Unidos diminuíram de forma considerável, de quase 10 bilhões de dólares para algo em torno de 2,5 bilhões de dólares.

Foi em meio a este quadro de instabilidade entre os dois gigantes econômicos que as exportações brasileiras para o território chinês se ampliaram, com a carne brasileira se tornando protagonista neste processo. No mercado interno brasileiro, o efeito foi sentido por toda a população, que viu o preço do produto se elevar com uma grande rapidez, além de também sentir os efeitos da alta do dólar em razão da guerra comercial mencionada. Também a soja brasileira apresentou um bom desempenho em meio a este cenário, embora o acordo entre americanos e chineses possa fazer as exportações brasileiras deste produto recuar em mais de 10%.

Para além disso, diversos outros produtos são comercializados entre brasileiros e chineses, o que fez o Brasil se tornar o nono maior parceiro comercial da China, aprofundando esta relação.


PRIMEIROS IMPACTOS DA EPIDEMIA
Para se compreender o impacto do coronavírus na economia mundial, é necessário que se tenha clareza que tal epidemia se iniciou em um momento bastante particular. Tal como apontou o relatório do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), publicado em novembro de 2019, o planeta continuou a dar sinais de que ocorre uma desaceleração econômica em nível amplo. A saída do Reino Unido da União Europeia, a postura menos aberta a negociações internacionais iniciada pelo governo Donald Trump, a “guerra comercial” entre norte-americanos e chineses, os atritos com o Irã, tudo isso contribuiu para que a economia, de um modo geral, apresentasse um índice de crescimento menos intenso do que em anos anteriores, e isso tem se firmado enquanto tendência, embora não se tenha uma dimensão exata do quão forte é essa desaceleração e quanto ela poderia durar.

A epidemia de coronavírus preocupa os analistas econômicos, pois o comércio de exportação chinês é da casa de quase 2,5 trilhões de dólares anuais, configurando-se enquanto o maior exportador mundial. Ao mesmo tempo, a economia chinesa é responsável pela importação de bens no valor de aproximadamente 2,1 trilhões de dólares por ano, o que a configura enquanto principal motor da economia mundial, correspondendo a mais de 18% do PIB mundial.

Logo que a epidemia começou a dar mostras de estar se espalhando rapidamente, algumas medidas emergenciais foram prontamente tomadas. Primeiramente, o governo estabeleceu a extensão do feriado do Ano Novo Lunar, que se iniciou em 23 de janeiro e deveria se prolongar até o dia 30, mas que efetivamente só foi encerrado dia 2 de fevereiro. Como consequência deste prolongamento e das notícias sobre o surto, a Bolsa de Valores de Xangai retomou os negócios, no dia 3 de fevereiro, com uma expressiva queda de 9,1%. Ao mesmo tempo que se iniciava o feriado, o governo da cidade de Wuhan estabeleceu uma quarentena, obrigando os cidadãos a não sair de casa, como forma de se evitar a propagação do vírus. Logo em seguida, esta medida se disseminou pelas cidades vizinhas e acabou por colocar toda a província de Hubei nesta mesma condição. Somente esta decisão fez com que 60 milhões de chineses tivessem que interromper ou diminuir suas atividades de estudo e trabalho. Rapidamente, outras áreas decidiram por tomar providências de igual teor, tal como a cidade de Hangzhou, a quase 800 quilômetros de distância de Wuhan. Até fevereiro de 2020, ao menos 10% de toda a população chinesa enfrentava restrições de mobilidade, o que compromete o funcionamento de sua economia.

Em outros locais, o governo impôs a obrigatoriedade das empresas de colocar todos os seus funcionários em uma quarentena de 14 dias, de forma a confirmar que não estavam contaminados, e somente depois disso poderiam retornar ao trabalho. Nesta volta, ainda precisariam utilizar máscaras e luvas como equipamentos de proteção individual. Entretanto, o retorno ao trabalho de algumas empresas está dificultado pelo fato de que outras áreas ainda não retomaram suas atividades, o que causa escassez de matérias-primas para que os produtos sejam fabricados. Segundo a previsão de alguns empresários, a retomada completa da produção talvez seja estabelecida somente no mês de maio, o que compromete quase metade do ano em termos econômicos. Esta situação já fez com que a previsão de crescimento do país para 2020 tenha sido reduzida para 5%, embora ainda seja possível que esse número diminua. Há de se lembrar que além das fábricas, diversas outras empresas também estão com as atividades paradas, como shoppings, restaurantes, lojas, bares, entre outros. Vários veículos de comunicação utilizam a quantidade de carros nas ruas e estradas, bem como o número de pessoas no metrô, como indicativos da queda na atividade econômica.

Com a desaceleração da produção na China, outras áreas do planeta também começaram a sentir os efeitos da epidemia. Em nível global, também houve uma redução na perspectiva de crescimento, de 3,1% para 2,9% para o ano de 2020. A interrupção de trabalho nas fábricas chinesas impacta diretamente em indústrias de outras nações, como o caso das fábricas de automóveis. A China é a maior exportadora mundial de componentes para carros, o que fez com que indústrias como Hyundai, maior montadora da Coreia do Sul, interrompesse suas atividades, sem prazo para que se reiniciem os trabalhos. Em território chinês, a Nissan, a Honda e a Toyota também não reabriram suas unidades, e esperam um cenário mais favorável para que possam voltar a produzir. Outras empresas, como a Ford e General Motors, já começaram a retomar suas produções, embora não de maneira completa. Para os economistas, o impacto total do coronavírus sobre a indústria automobilística ainda é incalculável, uma vez que já havia uma preparação do setor para atravessar o período do feriado chinês, mas a situação que se segue é bastante indefinida.

Em outras áreas, a consequência também se faz sentir, como é o caso dos componentes e peças para a indústria eletroeletrônica, cuja produção responde por 10% do que se fabrica no mundo. A China não apenas exporta aparelhos já acabados, mas também elementos que são usados em outras indústrias no mundo, além de abrigar plantas industriais de grandes fabricantes, como é o caso da Apple. Esta empresa, que tem muitos dos componentes do Iphone feitos na China através de sua parceira Foxconn, anunciou no dia 17 de fevereiro de 2020 que não vai conseguir cumprir a sua meta de receita para o primeiro trimestre do ano, o que fez cair o valor de suas ações e provocou uma queda de 26 bilhões de dólares no valor da empresa. A principal razão para isso é a escassez de produtos, que ficaram parados na linha de produção pela falta de funcionários. A chinesa Xiaomi, que vem se destacando como grande concorrente da Apple, também tem enfrentado dificuldades, observando suas vendas caírem e não conseguindo entregar a atualização do software de seus smartphones, já que suas atividades estão comprometidas pela epidemia.

No Brasil, esse impacto da indústria eletroeletrônica poderá ser sentido com bastante força. Os brasileiros importam uma enorme variedade de produtos chineses, sendo os componentes eletroeletrônicos fundamentais para o funcionamento de várias indústrias no país, como fogões, geladeiras, televisões, secadores de cabelo, máquinas de lavar, ventiladores, entre outras. A quebra nessa cadeia de suprimentos tende a comprometer as atividades produtivas desses setores, podendo levar a paralisações tal como a que já se verificou na fábrica da Samsung, em Campinas. Teme-se que tais interrupções possam levar a perdas no setor e, por consequência, gerem demissões no Brasil, que já enfrenta alto índice de desemprego e uma baixa perspectiva de crescimento econômico.

Esse pequeno crescimento também será influenciado pela queda das importações por parte da China, uma vez que sua economia segue parcialmente paralisada. As exportações brasileiras para o mercado chinês correspondem a 29% de tudo o que o Brasil vende para o exterior, embora esse número concentre uma pequena quantidade de produtos, com pouco valor agregado. É o caso da soja, do petróleo e do ferro, que são transformados pela indústria chinesa. Junto a essa situação, também a trégua na guerra comercial entre China e Estados Unidos pode trazer uma queda nas vendas brasileiras, comprometendo a entrada de recursos no país. De qualquer maneira, a desaceleração de uma economia que responde por uma fatia tão considerável da pauta de exportações brasileiras é vista com temor pelos analistas do cenário econômico, o que dificulta a retomada do crescimento para o Brasil. Aliado ao problema da diminuição das importações chinesas, a agricultura brasileira também teme pela falta de insumos para a produção de defensivos agrícolas, já que o país importa 38% dessas matérias primas do mercado chinês. Assim, a diminuição das importações não traria preços melhores para o mercado nacional, pois a própria produção pode também diminuir. Prevê-se que esses fatores, somados, possam causar uma queda entre 10 e 15% do volume de produtos brasileiros exportados para os chineses, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV).

Apesar de todo o quadro difícil, nem todas as notícias sobre o impacto da epidemia de coronavírus sobre a economia são assustadoras ou problemáticas. No que diz respeito ao Brasil, ao mesmo tempo que alguns setores temem pela queda nos negócios, a exportação de carne para o país asiático pode ainda sofrer uma alta. Uma vez que algumas regiões produtoras de carne na China estão afetadas pela epidemia, os produtores deste setor preveem que a demanda possa aumentar. Some-se ao coronavírus o fato de que criadores de animais na China estão também enfrentando um surto de gripe aviária e de peste suína africana, situação que se arrasta desde o ano de 2019 e que tem dizimado parcela significativa de seus rebanhos.

Fora do país, empresas que vendem produtos médicos e farmacêuticos viram seus lucros e o preço de suas ações aumentarem de maneira vertiginosa. O caso mais emblemático é o da Kolmi Hopen, subsidiária da Medicom, que viu sua demanda pela produção de máscaras de proteção disparar, fazendo sua atividade pelo menos triplicar quase simultaneamente ao anúncio da epidemia. Não são todas as empresas deste setor, porém, que estão lucrando, pois muitas também importam insumos para seus produtos da China, o que tem dificultado o seu funcionamento. Também a Gilead Science se viu às voltas com uma situação bastante inusitada: a empresa norte-americana desenvolveu um medicamento experimental que teria potencial para combater o coronavírus, mas que não foi ainda aprovado em nenhum país. Esse medicamento estaria sendo fabricado em larga escala pela BrightGene Bio-Medical Technology, segundo anúncio da própria empresa chinesa, o que poderia configurar uma violação aos direitos possuídos pela companhia norte-americana. Tal disputa poderia por um ingrediente a mais na já conturbada relação econômica entre Estados Unidos e China.


COMPARAÇÕES E PREVISÕES
De maneira geral, ao se avaliar os impactos do coronavírus na economia mundial, o quadro é de preocupação. Muitos são os setores afetados, que vão da agricultura ao consumo de refrigerantes, da pecuária ao setor de viagens aéreas e hotéis, causando um resfriamento da economia chinesa como um todo e que, de maneira inquestionável, também abala outras regiões do planeta. Estima-se que o custo desta epidemia pode chegar, na China, aos 70 bilhões de dólares, enquanto no planeta esse valor de perdas, com a diminuição na produção, pode atingir a cifra dos 280 bilhões de dólares. É um custo muito significativo que pode fazer o PIB mundial deixar de crescer pela primeira vez desde o último grande choque econômico, nos anos de 2008 e 2009.

Estudiosos também relembram que, embora a taxa de letalidade do coronavírus esteja próxima dos 3%, que é um valor baixo, o impacto será mais significativo do que o que foi sentido na época da epidemia do SARS, em 2003, cuja letalidade atingiu os 6,6%, uma vez que a participação da China no PIB mundial cresceu intensamente desde então. Outro cenário de comparação que vem sendo retomado para tentar projetar tal impacto diz respeito ao acidente nuclear ocorrido em Fukushima, no ano de 2011. Entre obras de reparação, desmantelamento do complexo nuclear e indenização às vítimas, o custo para o governo japonês pode ter chegado aos 180 bilhões de dólares, sem que, entretanto, outras áreas do planeta tenham sentido consequências desse problema.

Na última semana, várias foram as notícias de que os índices de contaminação têm diminuído na China, freando o avanço intenso da epidemia. Outros países continuam a relatar mortes e pacientes contaminados com o vírus, mas com um grande esquema de segurança preparado para evitar uma pandemia. Portanto, espera-se que em breve esse quadro de disseminação da doença se interrompa e que as atividades econômicas possam voltar a seus níveis normais. Apesar disso, algumas empresas, como o banco HSBC, que concentra a maior parte de suas atividades na Ásia, já anunciou que, nos próximos três anos, pode efetuar cerca de 35 mil demissões em seu quadro de funcionários, pois a epidemia agravou o cenário de diminuição de lucros da instituição. O presidente chinês XI Jinping declarou que o governo vai buscar evitar as demissões em massa em virtude dos problemas econômicos decorrentes do coronavírus. Da mesma maneira, a gigante do comércio virtual Alibaba anunciou que vai financiar a recuperação de outras empresas, concedendo empréstimos com condições bastante favoráveis. Com todas essas notícias, somente em um futuro que se espera próximo será possível avaliar de fato o quanto a epidemia custou, mesmo que suas marcas já estejam bastante visíveis.


DIVULGAÇÃO E MEDIDAS DE CONTENÇÃO
O Johns Hopkins Center for Systems Science and Engineering (CSSE) construiu e está atualizando regularmente um painel para rastrear a disseminação mundial do surto do Coronavirus (2019-nCov). O site tem estatísticas e um mapa. É possível baixar os dados gratuitamente.

Um fantástico trabalho internacional de divulgação, informação e medidas de contenção.

Acesse o painel aqui: Wuhan Coronavírus (2019-nCoV) Global Cases (by Johns Hopkins CSSE)


PARA SABER MAIS