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Os impactos do coronavírus na economia mundial
 
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O ano de 2020 começou com notícias alarmantes a respeito do surto de uma nova infecção respiratória, causada por uma nova variedade de coronavírus, denominado como Covid-19, que se iniciou na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, na China. Existe a possibilidade de que tal surto tenha se iniciado no grande mercado de frutos do mar que existe na cidade, embora inicialmente tenha se disseminado uma versão de que a doença teria se espalhado entre humanos a partir do consumo de sopa de morcego, animal que pode carregar o vírus. Essa versão foi questionada em uma notícia publicada na página do Ministério da Saúde do Brasil, reproduzindo uma declaração da Organização Mundial da Saúde, que diz não existirem provas científicas de tal afirmação.

Independentemente da forma como o vírus chegou aos humanos, sua contaminação se iniciou no final do ano de 2019, quando os primeiros casos passaram a ser registrados na China. O médico Li Wenliang foi um dos primeiros profissionais da saúde a tentar alertar sobre os riscos da nova doença, além de buscar avisar sobre um possível surto, mas ele e outros sete médicos foram inicialmente acuados pela ação da polícia chinesa, sob a acusação de estarem espalhando boatos e perturbando a ordem pública. Com o aumento do número de casos, os temores do médico foram confirmados e a epidemia começou a se alastrar, com o governo chinês chegando a emitir um pedido público de desculpas com relação à sua ação junto ao doutor Li Wenliang. O próprio médico acabou contaminado pela doença, falecendo no dia 6 de fevereiro.

Além do médico, mais 3189 pessoas haviam morrido, só na China, até o dia 14 de março de 2020. Também se registravam em território chinês aproximadamente 80 mil casos identificados da nova doença, além de pelo menos 45 mil casos da infecção em outras 114 nações, que também totalizam mais de 2 mil óbitos. No Brasil, nesta mesma data, já eram 121 os casos confirmados da doença, segundo o Ministério da Saúde. Os registros elaborados pelos hospitais falavam em um número maior de casos confirmados, havendo já descartado outros 1413 casos entre 1496 suspeitos. O maior problema, na situação brasileira, é que os primeiros casos foram originados por contaminação fora do país, mas a partir do dia 12 de Março se registraram ocorrências de contaminação comunitária, ou seja, que ocorreram dentro do próprio território nacional, causando um maior temor de sua disseminação.

Membros do governo brasileiro, como o Secretário de Comunicação Fábio Wajngarten e o próprio presidente Jair Bolsonaro, foram testados para a contaminação pelo novo vírus, após viagem empreendida aos Estados Unidos. O teste no presidente apresentou resultado negativo, situação inversa de Wajngarten, que efetivamente contraiu a doença. Em um primeiro momento, Bolsonaro buscou minimizar os efeitos do coronavírus, afirmando que haveria exagero nas afirmações feitas pela mídia. Entretanto, após a Organização Mundial de Saúde classificar a situação internacional enquanto pandemia, o presidente mudou o tom, uma vez que os impactos na saúde têm sido bastante amplos.

Para além do efeito do ponto de vista da saúde, muito se discute sobre outros elementos que vem acompanhando esta epidemia, tal como a possibilidade de um aguçamento de casos de xenofobia contra chineses, em um momento bastante delicado da política internacional, bem como os efeitos econômicos que tal pandemia pode trazer, seja no território chinês, seja no restante do mundo, afetando o Brasil com bastante intensidade.


Coronavirus economia
Coronavírus causa problemas na economia mundial. Foto: Gerd Altmanna/Pixabay.


A ECONOMIA CHINESA
A China é uma país de estatísticas colossais. Seu território compreende uma área de mais de 9,5 milhões de quilômetros quadrados, sendo a terceira nação com em extensão territorial do planeta, atrás do Canadá e da Rússia. Em janeiro de 2020, sua população chegou a 1,409 bilhão de habitantes, sendo o país com a maior população do mundo, seguido de perto pela Índia, com 1,389 bilhão de habitantes. Esses dados somados levam a uma densidade demográfica relativamente baixa, de 146 habitantes por quilômetro quadrado, muito inferior a outras regiões do mundo.

Neste território extenso, com uma enorme população, há uma imensa força de trabalho. Mais de 74% da população chinesa é economicamente ativa, quadro bastante diferente da realidade brasileira, na qual apenas 56% da população enquadra-se nesta categoria. Há de se considerar que a China é um país no qual os trabalhadores, embora possuam direitos trabalhistas, tem poucas garantias com relação a seu trabalho, pois sua legislação é pouco protetiva, se comparada a outros países, e a fiscalização desses aspectos é deficitária, o que faz com que seus trabalhadores sejam explorados e permaneçam mais tempo em atividade.

Este cenário econômico tem sentido, já há algum tempo, um constante crescimento, embora essa taxa tenha decrescido nos últimos anos. A China registrou, em 2019, um Produto Interno Bruto (PIB) de 14,8 trilhões de dólares, o que a coloca em segundo lugar na economia mundial, atrás apenas dos Estados Unidos, com 25 trilhões de dólares, e muito à frente da terceira economia global, o Japão, cujo PIB no mesmo ano chegou a 5,7 trilhões de dólares. Isso representou uma alta de 6,3% em relação ao que foi produzido em 2018, mas essa taxa de crescimento seja inferior ao registrado em 2017, que foi de 6,9%, o que tem mostrado uma tendência de desaceleração desta economia.

A produção chinesa se baseia em dois elementos fundamentais: a agricultura e a produção industrial. Na área agrícola, os chineses são os maiores produtores mundiais de arroz, algodão e fumo, o segundo maior na produção de trigo e de milho, e o quarto maior produtor de soja. Embora tenha uma área agricultável relativamente pequena (cerca de 10% do território), a rentabilidade da produção agrícola chinesa é bastante alta, o que levou o país a uma situação de quase autossuficiência na produção de alimentos. Isso não se tornou possível especialmente pelo aumento da população, o que motivou o governo a investir em programas de segurança alimentar, que incluem acordos comerciais com outras nações, a compra de terras em outros países, entre outras medidas.

Na área industrial, a produção chinesa também tem alcançado níveis expressivos: o país é o maior produtor de ferro, com 21% da produção mundial, assim como o maior produtor mundial de aço, respondendo por mais de 50% do produto fabricado no mundo. Também a produção de ouro, de automóveis, de “terras raras” (elementos químicos essenciais para a fabricação de itens de tecnologia), de smartphones, colocam a China como o país cuja produção industrial é a maior do mundo, correspondendo a aproximadamente 8% de tudo que se produz nas indústrias do planeta.

Toda essa produção não se confina ao mercado chinês, que é também o maior exportador de bens do mundo, conectando-se a diversas outras economias no planeta e fornecendo e comprando itens essenciais para os seus funcionamentos. Essas relações se dão principalmente com outros países asiáticos, com os Estados Unidos, Alemanha, Holanda e Brasil, cuja relação comercial com o país é de fundamental importância para o mercado brasileiro.

Estes números impressionantes provem de uma realidade contraditória. Em 1949, a China vivenciou, em meio à Guerra Fria, a tomada de poder pelos comunistas, liderados por Mao Tsé-Tung. Após anos de conflitos, seja com os inimigos do Kuomintang, seja com os invasores japoneses na época da Segunda Guerra Mundial, o grupo liderado por Mao subiu ao poder, iniciando uma nova fase na história do país. Inicialmente, as medidas tomadas pelo governo comunista assemelharam-se ao que se praticava na União Soviética, mas acabaram por não gerar os efeitos de crescimento esperados pelo governo, que buscava copiar o modelo desenvolvido por Stálin.

Isso resultou em muitos problemas, como a morte de pelo menos 30 milhões de chineses, assolados pela fome, em disputas políticas e mesmo a perseguição, prisão e morte daqueles que foram considerados opositores do regime e que não haviam colaborado para o sucesso das reformas econômicas. Este quadro de avanço econômico modesto e violência política perdurou até a morte do líder revolucionário em 1976, sendo que em 1978 subiu ao poder um novo líder, Deng Xiaoping.

A nova administração trouxe mudanças substanciais em vários aspectos, iniciando um processo de abertura que buscava romper com o isolamento chinês, particularmente aguçado após o rompimento com a União Soviética. Xiaoping, em sua postura de pragmatismo político, fez vários esforços para a abertura, como visitar os Estados Unidos em 1979, e assinar um acordo de diplomacia com o então presidente norte-americano Jimmy Carter. Ao mesmo tempo, tal visita foi fundamental para o conhecimento do líder chinês sobre a estrutura produtiva norte-americana, que poderia servir para a China caminhar rumo ao desenvolvimento. Este começou a tomar forma mais concreta em 1982, quando se estabeleceram as Zonas Econômicas Especiais em cidades litorâneas, permitindo a chegada de investimentos internacionais e um maior contato da economia chinesa com o mundo. A prática de se permitir a instalação de empresas estrangeiras, desde que se associassem com empresas chinesas, deu um impulso fundamental para o crescimento econômico.

Por mais que em 1989 essas relações tenham sido abaladas após a violenta repressão ocorrida nos protestos em favor da democracia, tal como o Massacre da Praça da Paz Celestial, o desmantelamento da União Soviética e o fim da Guerra Fria acentuaram o pragmatismo político de Deng Xiaoping, que buscou reforçar seus laços diplomáticos e econômicos com todas as áreas do planeta.

Essa postura, continuada após a saída de Xiaoping do poder, em 1992, apenas reforçou o papel da China no cenário internacional. Também fundamentais para esse processo foram o apoio concedido às economias asiáticas na grande crise econômica de 1997, bem como sua entrada na Organização Mundial do Comércio em 2001. A partir de então, o crescimento econômico chinês foi de um desempenho ímpar, chegando a uma participação de aproximadamente 18% no cômputo do PIB mundial na atualidade. Nisso, vê-se a contradição entre um país que se denomina comunista politicamente, com a presença de um cenário unipartidário, mas que possui uma pujante economia capitalista que caminha para se tornar a maior do mundo.


AS RELAÇÕES COM O BRASIL
Uma relação de comércio mais intensa entre Brasil e China começou a se desenvolver em tempos recentes, já na década de 2000, embora as relações diplomáticas estivessem estabelecidas desde 1974. Chineses e brasileiros já haviam também estabelecido acordos de parceria em tempos anteriores, tal como o CBERS, programa lançado em 1988 com o objetivo de fomentar o desenvolvimento conjunto de satélites, que permitissem a ambos os países monitorar seus vastos territórios. Essa parceria, firmada no âmbito da ampliação das relações internacionais chinesas, originou-se com um investimento de 300 milhões de dólares, a maior parte oriunda da China. O primeiro lançamento de um foguete carregando satélite originário deste programa se deu em 1999, e foi plenamente bem sucedido. A este, seguiram-se vários outros, existindo tal parceria até o momento presente.

Em termos econômicos, de 2003 até a atualidade, os chineses investiram mais de 80 bilhões de dólares no país, através da ação de mais de 300 empresas diferentes. Desde 2006, por meio de um acordo a princípio informal, Brasil, Rússia, Índia e China formaram um bloco de cooperação político-econômica denominado BRIC, segundo a denominação do economista britânico Jim O’Neill, que a partir de 2010 contou com a presença também da África do Sul, dando origem ao BRICS (acrônimo formado a partir da letra inicial do nome dos países). A ideia era a de reunir países cujo desenvolvimento econômico fosse expressivo, como forma de ampliar a importância geopolítica dessas nações, apesar de não existir entre esses países um acordo que facilitasse o comércio entre as partes, diferentemente de outros blocos econômicos. Esse grupo tem anualmente, desde 2009, se reunido para traçar estratégias de cooperação não apenas econômica, mas em todas as áreas que possam ser vantajosas aos envolvidos nesse acordo. Na atualidade, a economia chinesa é a que mais se destaca nesse cenário, ainda que a economia indiana apresente boas taxas de crescimento.

O ano de 2009 também foi marcado como o ano em que a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil, tomando o lugar que até então pertencia aos Estados Unidos. Em Abril daquele ano, o fluxo comercial entre Brasil e China atingiu a cifra de 3,2 bilhões de dólares, ultrapassando os 2,8 bilhões no comércio com os norte-americanos. A partir de então, o volume de negócios entre brasileiros e chineses somente se ampliou, chegando à cifra de mais de 80 bilhões de dólares em 2019. Neste ano em particular, o Brasil exportou 21 bilhões de dólares a mais do que importou dos chineses, o que causou um superávit considerável nesta relação. É necessário que se compreenda que, desde o início do ano de 2018, Estados Unidos e China tem travado uma intensa disputa econômica, que foi denominada inclusive enquanto uma “guerra comercial”. A situação começou quando o presidente norte-americano Donald Trump anunciou o estabelecimento de tarifas mais altas sobre as importações de produtos chineses, utilizando o argumento de que tal medida teria como objetivo proteger a economia e os empregos dentro dos Estados Unidos.

A resposta chinesa veio rapidamente, com o anúncio de medidas de igual teor com relação aos produtos dos Estados Unidos, e isto começou, além de causar um mal-estar político, a retrair o comércio bilateral entre estas nações. Também no interior desta crise, o governo chinês anunciou uma desvalorização de sua moeda, o yuan, o que elevou as críticas norte-americanas para o que estaria se tornando também uma “guerra cambial”, uma vez que tal medida favoreceria as exportações chinesas, enquanto tornaria menos atrativas as importações. Neste processo, várias foram as consequências, até que um acordo fosse assinado em janeiro de 2020. Em primeiro lugar, o déficit comercial que os norte-americanos tinham com a China diminuiu consideravelmente, embora ainda se mantenha alto. Ao mesmo tempo, as exportações de produtos agrícolas dos Estados Unidos para os chineses diminuíram de 25 bilhões de dólares para a casa dos 7 bilhões, afetando a vida dos agricultores norte-americanos. Junto a isso, os investimentos chineses nos Estados Unidos diminuíram de forma considerável, de quase 10 bilhões de dólares para algo em torno de 2,5 bilhões de dólares.

Foi em meio a este quadro de instabilidade entre os dois gigantes econômicos que as exportações brasileiras para o território chinês se ampliaram, com a carne brasileira se tornando protagonista neste processo. No mercado interno brasileiro, o efeito foi sentido por toda a população, que viu o preço do produto se elevar com uma grande rapidez, além de também sentir os efeitos da alta do dólar em razão de tal guerra comercial. Também a soja brasileira apresentou um bom desempenho em meio a este cenário, embora o acordo entre americanos e chineses possa fazer as exportações brasileiras deste produto recuar em mais de 10%.

Para além disso, diversos outros produtos são comercializados entre brasileiros e chineses, o que fez o Brasil se tornar o nono maior parceiro comercial da China, aprofundando esta relação.


OS IMPACTOS DA EPIDEMIA
Para se compreender o impacto do coronavírus na economia mundial, é necessário que se tenha clareza que tal epidemia se iniciou em um momento bastante particular. Tal como apontou o relatório do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), publicado em novembro de 2019, o planeta continuou a dar sinais de que ocorre uma desaceleração econômica em nível amplo. A saída do Reino Unido da União Europeia, a postura menos aberta a negociações internacionais iniciada pelo governo Donald Trump, a “guerra comercial” entre norte-americanos e chineses, os atritos com o Irã, tudo isso contribuiu para que a economia, de um modo geral, apresentasse um índice de crescimento menos intenso do que em anos anteriores, e isso tem se firmado enquanto tendência, embora não se tenha uma dimensão exata do quão forte é essa desaceleração e quanto ela poderia durar.

A pandemia de coronavírus preocupa os analistas econômicos porque o comércio de exportação chinês é da casa de quase 2,5 trilhões de dólares anuais, configurando-se enquanto o maior exportador mundial. Ao mesmo tempo, a economia chinesa é responsável pela importação de bens no valor de aproximadamente 2,1 trilhões de dólares por ano, o que a configura enquanto principal motor da economia mundial, correspondendo a mais de 18% do PIB mundial.

Logo que a epidemia começou a dar mostras de estar se espalhando rapidamente, algumas medidas emergenciais foram prontamente tomadas. Primeiramente, o governo chinês estabeleceu a extensão do feriado do Ano Novo Lunar, que se iniciou em 23 de janeiro e deveria se prolongar até o dia 30, mas que efetivamente só foi encerrado dia 2 de fevereiro. Como consequência deste prolongamento e das notícias sobre o surto, a Bolsa de Valores de Xangai retomou os negócios, no dia 3 de fevereiro, com uma expressiva queda de 9,1%. Ao mesmo tempo que se iniciava o feriado, o governo da cidade de Wuhan estabeleceu uma quarentena, obrigando os cidadãos a não sair de casa, como forma de se evitar a propagação do vírus. Logo em seguida, esta medida se disseminou pelas cidades vizinhas e acabou por colocar toda a província de Hubei nesta mesma condição. Somente esta decisão fez com que 60 milhões de chineses tivessem que interromper ou diminuir suas atividades de estudo e trabalho. Rapidamente, outras áreas decidiram por tomar providências de igual teor, tal como a cidade de Hangzhou, a quase 800 quilômetros de distância de Wuhan. No presente momento, ao menos 10% de toda a população chinesa enfrenta restrições de mobilidade, o que compromete o funcionamento de sua economia. Entretanto, com as notícias de uma grande diminuição no número de novos casos, a situação tende a se reverter em breve.

Em outros locais, o governo impôs a obrigatoriedade das empresas de colocar todos os seus funcionários em uma quarentena de 14 dias, de forma a confirmar que não estavam contaminados, e somente depois disso poderiam retornar ao trabalho. Nesta volta, ainda precisariam utilizar máscaras e luvas como equipamentos de proteção individual. Entretanto, o retorno ao trabalho de algumas empresas está dificultado pelo fato de que outras áreas ainda não retomaram suas atividades, o que causa escassez de matérias-primas para que os produtos sejam fabricados. Segundo a previsão de alguns empresários, a retomada completa da produção talvez seja estabelecida somente no mês de Maio, o que compromete quase metade do ano em termos econômicos. Esta situação já fez com que a previsão de crescimento do país para 2020 tenha sido reduzida para 5%, embora ainda seja possível que esse número diminua. Há de se lembrar que além das fábricas, diversas outras empresas também estão com as atividades paradas, como shoppings, restaurantes, lojas, bares, entre outros. Vários veículos de comunicação utilizam a quantidade de carros nas ruas e estradas, bem como o número de pessoas utilizando o metrô, como indicativos da queda na atividade econômica.

Com a desaceleração da produção na China, outras áreas do planeta também começaram a sentir os efeitos da epidemia. Em nível global, também houve uma redução na perspectiva de crescimento, de 3,1% para 2,9% para o ano de 2020. A interrupção de trabalho nas fábricas chinesas impacta diretamente em indústrias de outras nações, como o caso das fábricas de automóveis. A China é a maior exportadora mundial de componentes para carros, o que fez com que indústrias como Hyundai, maior montadora da Coreia do Sul, interrompesse suas atividades, sem prazo para que se reiniciem os trabalhos. Em território chinês, a Nissan, a Honda e a Toyota também não reabriram suas unidades, e esperam um cenário mais favorável para que possam voltar a produzir. Outras empresas, como a Ford e General Motors, já começaram a retomar suas produções, embora não de maneira completa. Para os economistas, o impacto total do coronavírus sobre a indústria automobilística ainda é incalculável, uma vez que já havia uma preparação do setor para atravessar o período do feriado chinês, mas a situação que se segue é bastante indefinida.

Em outras áreas, também a consequência se faz sentir, como é o caso dos componentes e peças para a indústria eletroeletrônica, cuja produção responde por 10% do que se fabrica no mundo. A China não apenas exporta aparelhos já acabados, mas também elementos que são usados em outras indústrias no mundo, além de abrigar plantas industriais de grandes fabricantes, como é o caso da Apple. Esta empresa, que tem muitos dos componentes do Iphone feitos na China através de sua parceira Foxconn, anunciou no dia 17 de fevereiro de 2020 que não vai conseguir cumprir a sua meta de receita para o primeiro trimestre do ano, o que fez cair o valor de suas ações e provocou uma queda de 26 bilhões de dólares no valor da empresa. A principal razão para isso é a escassez de produtos, que parados na linha de produção pela falta de funcionários. A chinesa Xiaomi, que vem se destacando como grande concorrente da Apple, também tem enfrentado dificuldades, observando suas vendas caírem e não conseguindo entregar a atualização do software de seus smartphones, já que suas atividades estão comprometidas pela epidemia.

No Brasil, esse impacto da indústria eletroeletrônica poderá ser sentido com bastante força. Os brasileiros importam uma enorme variedade de produtos chineses, sendo os componentes eletroeletrônicos fundamentais para o funcionamento de várias indústrias no país, como fogões, geladeiras, televisões, secadores de cabelo, máquinas de lavar, ventiladores, entre outras. A quebra nessa cadeia de suprimentos tende a comprometer as atividades produtivas desses setores, podendo levar a paralisações tal como a que já se verificou na fábrica da Samsung, em Campinas, ou também na de celulares da Motorola, em Jaguariúna. Teme-se que tais interrupções possam levar a perdas no setor e, por consequência, gerem demissões no Brasil, que já enfrenta alto índice de desemprego e uma baixa perspectiva de crescimento econômico. O governo já diminuiu a perspectiva de crescimento do PIB este ano de 2,4% para 2,1%.

Esse pequeno crescimento também será influenciado pela queda das importações por parte da China, uma vez que sua economia segue parcialmente paralisada. As exportações brasileiras para o mercado chinês correspondem a 29% de tudo o que o Brasil vende para o exterior, embora esse número concentre uma pequena quantidade de produtos, com pouco valor agregado. É o caso da soja, do petróleo e do ferro, que são transformados pela indústria chinesa. Junto a essa situação, também a trégua na guerra comercial entre China e Estados Unidos pode trazer uma queda nas vendas brasileiras, comprometendo a entrada de recursos no país. De qualquer maneira, a desaceleração de uma economia que responde por uma fatia tão considerável da pauta de exportações brasileiras é vista com temor pelos analistas do cenário econômico, o que dificulta a retomada do crescimento para o Brasil. Aliado ao problema da diminuição das importações chinesas, a agricultura brasileira também teme pela falta de insumos para a produção de defensivos agrícolas, já que o país importa 38% dessas matérias primas do mercado chinês. Assim, a diminuição das importações não traria preços melhores para o mercado nacional, pois a própria produção pode também diminuir. Prevê-se que esses fatores, somados, possam causar uma queda entre 10 e 15% do volume de produtos brasileiros exportados para os chineses, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV).

Também como medida emergencial, o governo brasileiro anunciou a antecipação da primeira parcela do décimo-terceiro salário dos aposentados do INSS para o mês de abril de 2020, uma vez que os idosos são os mais vulneráveis aos efeitos da nova doença, além do fato deste pagamento promover a injeção de 23 bilhões de reais na economia. Também o Banco Central anunciou a disponibilização para os bancos de um valor de 135 bilhões de reais, oriundos de depósitos compulsórios, que podem trazer mais liquidez à economia.

Ao mesmo tempo, medidas de suspensão de shows, eventos e quaisquer reuniões que possam gerar aglomerações têm sido anunciadas por todo o país. O governo de São Paulo tem tomado muitas medidas nesse sentido, pois mais de 70% dos casos do novo coronavírus se concentram naquele estado. Inclusive uma decisão que tem gerado polêmica foi anunciada: a suspensão das aulas na educação básica. O problema decorre do fato de que muitos pais continuarão trabalhando, tendo que deixar as crianças com os avós, o que poderia levar a uma maior contaminação de um grupo muito vulnerável.

Além disso, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que vai haver um reforço de orçamento para o Ministério da Saúde, na casa do 10 bilhões de reais. Também se pensa nas medidas de contenção e isolamento pois, embora o sistema de saúde no Brasil seja público, gratuito e de amplo acesso, uma corrida aos hospitais e postos de saúde sobrecarregaria o sistema, diferentemente dos Estados Unidos, onde a quase totalidade dos hospitais é privada, e essa situação tem gerado bastante apreensão, principalmente entre os estrangeiros que estão em situação irregular. Este público pode temer a busca pelo tratamento, com receio de serem descoberto e deportados, o que pode gerar uma problemática ainda maior.

Fora do país, apesar das más notícias, algumas empresas viram seus lucros se expandirem em virtude da pandemia. O caso mais emblemático é o da Kolmi Hopen, subsidiária da Medicom, que viu sua demanda pela produção de máscaras para proteção disparar, fazendo sua atividade pelo menos triplicar quase simultaneamente ao anúncio da epidemia. Não são todas as empresas deste setor, porém, que estão lucrando, pois muitas também importam insumos para seus produtos da China, o que tem dificultado o seu funcionamento. Também a Gilead Science se viu às voltas com uma situação bastante inusitada: a empresa norte-americana desenvolveu um medicamento experimental que teria potencial para combater o coronavírus, mas que não foi ainda aprovado em nenhum país. Esse medicamento estaria sendo fabricado em larga escala pela BrightGene Bio-Medical Technology, segundo anúncio da própria empresa chinesa, o que poderia configurar uma violação aos direitos possuídos pela companhia norte-americana. Tal disputa poderia por um ingrediente a mais na já conturbada relação econômica entre Estados Unidos e China.


COMPARAÇÕES E PREVISÕES
De maneira geral, ao se avaliar os impactos do coronavírus na economia mundial, o quadro é de grande preocupação. Muitos são os setores afetados, que vão da agricultura ao consumo de refrigerantes, da pecuária ao setor de viagens aéreas e hotéis, causando um resfriamento da economia chinesa como um todo e que, de maneira cada vez maior, também abala outras regiões do planeta. Um exemplo contundente é o caso da Boeing, que já vinha experimentando grandes prejuízos em virtude dos problemas com suas aeronaves e que, em virtude da diminuição brusca de viagens, vê suas encomendas caírem muito, o que pode levar à falência da empresa. Neste caso específico, uma empresa que enfrentaria graves consequências seria a Embraer, que veria sua proposta de fusão com a empresa americana extinguir-se.

Estima-se que o custo desta epidemia pode chegar, na China, aos 70 bilhões de dólares, enquanto no planeta esse valor de perdas com a diminuição na produção pode atingir a cifra dos 2,7 trilhões de dólares. É um custo muito significativo que pode fazer o PIB mundial recuar ainda no primeiro semestre de 2020.

Estudiosos também relembram que, embora a taxa de letalidade do coronavírus esteja próxima dos 3%, que é um valor baixo, o impacto será mais significativo do que o que foi sentido na época da epidemia do SARS, em 2003, cuja letalidade atingiu os 6,6%, uma vez que a participação da China no PIB mundial cresceu intensamente desde então. Outro cenário de comparação que vem sendo retomado para tentar projetar tal impacto diz respeito ao acidente nuclear ocorrido em Fukushima, no ano de 2011. Entre obras de reparação, desmantelamento do complexo nuclear e indenização às vítimas, o custo para o governo japonês pode ter chegado aos 180 bilhões de dólares, sem que, entretanto, outras áreas do planeta tenham sentido consequências desse problema.

Nas últimas semanas, várias foram as notícias de que os índices de contaminação têm diminuído na China, freando o avanço intenso da epidemia dentro daquele país. No epicentro da pandemia, a cidade de Wuhan, menos de 10 novos casos têm sido registrados por dia, situação que se repete no país como um todo e em outas nações ao redor da China. Entretanto, a grande preocupação é que a Europa se tornou o grande centro de disseminação da doença, com casos como o da Itália, que já declarou estado de isolamento, com forças policiais nas ruas evitando ao máximo a circulação de pessoas. Outros países continuam a relatar mortes e pacientes contaminados com o vírus, mas com uma grande quantidade de medidas e saúde e economia sendo anunciadas para combater a pandemia. Portanto, existe uma grande apreensão dos efeitos que esse desenvolvimento da doença poderá ainda causar. Em virtude disso, algumas empresas, como o banco HSBC, que concentra a maior parte de suas atividades na Ásia, já anunciou que, nos próximos três anos, pode demitir cerca de 35 mil demissões em seu quadro de funcionários, pois a doença agravou o quadro de diminuição de lucros da instituição. Outras empresas, como a KLM, companhia aérea holandesa, também anunciou cortes na casa de 2,5 mil demissões em seu quadro de funcionários, o que representa uma redução de quase 8%. O presidente chinês XI Jinping declarou que o governo vai buscar evitar as demissões em massa em virtude dos problemas econômicos decorrentes do coronavírus. Da mesma maneira, a gigante do comércio virtual Alibaba anunciou que vai financiar a recuperação de outras empresas, concedendo empréstimos com condições bastante favoráveis.

Porém, o quadro não é de grande otimismo, já que na última semana uma disputa comercial entre Rússia e Arábia Saudita derrubou de maneira significativa o preço do petróleo, levando bolsas de valores ao redor do mundo a registrarem quedas expressivas. Em um cenário de instabilidade econômica, com uma pandemia se desenvolvendo, a perspectiva de queda na arrecadação com preços mais baixos de petróleo preocupa a vários governos, o que poderá levar a uma crise global cujas consequências ainda se desenvolverão por muito tempo.


PARA SABER MAIS