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O amianto e seus problemas
 
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O amianto, também chamado de asbesto é um mineral fibroso, de textura sedosa, com ampla utilização na indústria. Possuem, em sua composição, silicatos hidratados de ferro e magnésio, podendo conter ainda, cálcio e sódio. É comumente extraído de rochas, nas quais em torno de 10% se encontram na forma fibrosa de interesse comercial. Estas fibras possuem características físico-químicas bastante particulares como alta resistência mecânica, boa qualidade isolante, alta flexibilidade, facilidade em ser manuseado, ter baixo custo de extração e produção, entre várias outras. O nome amianto (latino) e asbesto (grego) estão relacionados ainda com duas outras propriedades do material; ser incorruptível e incombustível.

O amianto é encontrado na natureza basicamente em duas formas distintas: as serpentinas, também chamada de amianto branco e que correspondem a 95% do amianto explorado no planeta, e os anfibólios, chamados de amianto azul, marrom ou outros. O amianto é utilizado há muito tempo para reforçar cerâmicas e outros utensílios, mas foi durante a revolução industrial que ele se tornou um elemento imprescindível, sendo amplamente utilizado no isolamento térmico de máquinas e equipamentos. Suas potencialidades de uso foram ampliadas ao longo do tempo e atualmente o amanto é empregado na produção de artigos como freios e canos, divisórias, instrumentos de laboratório, tintas, discos de embreagens, etc. No Brasil, as principais utilizações estão envolvidas com a construção civil, principalmente na produção de telhas e caixas d’água – nestes casos o amianto é misturado com cimento para formar um mistura moldável.

O maior produtor de amianto do mundo é a Rússia, seguida pelo Canadá. O Brasil está entre os cinco maiores produtores do mundo da matéria prima. A maior parte da exploração se concentra no estado de Goiás, no município de Minaçu, onde é extraído o único tipo de amianto de uso ainda permitido no território brasileiro, chamado de crisolita, um tipo de serpentina.

O Canadá, segundo maior produtor mundial, é o maior exportador do material no mundo. O interessante é que, apesar disso, menos de 3% do que é produzido pelo país é utilizado em seu território. Esta diferença entre produção e utilização não ocorre somente no Canadá, na realidade, na maior parte dos países do hemisfério norte a utilização e exploração do amianto é proibida. Isto se deve ao fato das fibras do amianto serem comprovadamente cancerígenas, além de estarem envolvidas com o desenvolvimento de diversos outros problemas de saúde. Historicamente o que aconteceu em relação a extração e utilização do amianto foi o banimento deste material dos países mais ricos e a transferência de sua produção e utilização para os países mais pobres do planeta, atualmente mais de 60 países baniram completamente o amianto, seja para extração, manipulação ou produção de qualquer tipo de material. Desta maneira, quadros como o do Canadá, por exemplo, que produz enormes quantidades de amianto, porém com finalidade, exclusivamente, para exportação do material para países do hemisfério sul é bastante comum. Segundo dados da ABREA (Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto) um cidadão canadense se expõe a cerca de 500 gramas de amianto por ano, enquanto um cidadão brasileiro se expõe a 1200 gramas durante o mesmo período.

Recentemente a produção de amianto no Brasil voltou a ser discutida, no dia 17 de maio de 2019 foi retomado um julgamento iniciado em 2017 que proibia a exploração e comercialização da crisólita. Na realidade as proibições e liberações sobre o amianto já remontam quase 13 anos de discussões jurídicas. Segundo a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Rosa Weber, a permissão por lei federal de produção e comercialização de um dos tipos de amianto é incompatível com os direitos à saúde e ao meio ambiente.


QUAIS OS PROBLEMAS RELACIONADOS AO AMIANTO
A partir do aumento da utilização do amianto pelas indústrias, uma série de epidemias relacionadas a trabalhadores que manipulavam amianto se iniciou e não demorou muito para que algumas doenças fossem relacionadas diretamente aos resíduos provenientes da mineração, manipulação e produção de materiais que utilizavam o amianto como matéria prima. No século XX, o amianto e seus efeitos foram um dos males industriais mais estudados em todo o mundo, deixando nítido o grande malefício causado por este mineral.

Segundo estudos, a exposição de pessoas ao amianto pode estar relacionada à ocorrência de diversas doenças. Não sendo identificados cientificamente níveis seguros para exposição às suas fibras. Durante a manipulação e produção do amianto são liberados fragmentos muito pequenos que são respiráveis e que se acumulam nos pulmões. Esta poeira do amianto pode ainda contaminar o meio ambiente e ser transportada até outras pessoas através do vento. A maior parte das contaminações é feita por vias aéreas devido à inalação de resíduos da construção civil ou da manipulação do mineral para produção de materiais.

As observações sobre os efeitos nocivos da inalação de amianto remetem a época de Heródoto. Atualmente é sabido que todos os tipos de amianto são cancerígenos e existem vários relatos de câncer de laringe, do trato digestivo e de ovário relacionados ao uso de amianto. Outros problemas como distúrbios respiratórios e derrames pleurais também são comuns em pessoas que tiveram longos períodos de exposição ao amianto. No entanto, nestes casos a relação direta entre o mineral e as doenças é difícil de ser estabelecida com certeza. Para doenças como a asbestose e mesoteliomas existem relações comprovadas de sua causa devido à inalação do amianto.


ASBESTOSE E OUTRAS DOENÇAS RELACIONADAS AO AMIANTO
A asbestose é a doença pulmonar mais comum causada pela inalação de fibras de amianto. Quando chegam aos pulmões se instalam em vias aéreas profundas, ficando presas nos alvéolos. Nestes locais as fibras de amianto causam pequenos danos que, quando cicatrizam, resultam em fibroses pulmonares. Com o tempo o tamanho destas fibroses pode aumentar, ocupando áreas extensas do pulmão, diminuindo sua elasticidade e, consequentemente, diminuindo a capacidade respiratória do indivíduo e dificultando os processos de trocas gasosas.

Os primeiros estudos científicos sobre os malefícios do amianto e de sua relação com a asbestose foram realizados pelo médico inglês H. Montagne Murray, que em 1907 publicou um artigo sobre a morte de um trabalhador pela doença, relacionando sua causa à exposição ao amianto. Neste estudo, Murray provou por análises anatomopatológicas extensas áreas de cicatrizes nos pulmões devido à presença de fibras do material inalado. Nas décadas seguintes diversos estudos semelhantes foram publicados em vários países que exploravam o amianto. A partir da década de 1930 já se acumulavam diversos artigos científicos relacionando o amianto à asbestose.

Ao mesmo tempo começaram a surgir estudos sugerindo que a exposição ao amianto estava ligada ao desenvolvimento de tipos graves de cânceres de pulmão, os chamados mesoteliomas. Esta relação foi confirmada pelos estudos de Wagner em 1960 na África do Sul, nestes, o pesquisador avaliou 33 casos de mesoteliomas, dos quais 32 haviam trabalhado em minas de amianto, ou tido contato com resíduos de seus processos de mineração. Estas pesquisas foram confirmadas em um estudo, realizado com 76 pessoas com mesoteliomas em Londres, pelos pesquisadores Newhouse e Thompson em 1965. O mais importante destes estudos é que eles demonstraram que o desenvolvimento de doenças relacionadas ao amianto não estavam necessariamente relacionados a grandes exposições ao amianto, nem por muito tempo, e que o surgimento das doenças poderia ocorrer após um grande período de latência. Tanto a asbetose quanto os mesoteliomas podem demorar até 40 anos para apresentar os primeiros sintomas, muitas vezes aparecendo sem que a pessoa tenha tido contato com o amianto há anos. O que se sabe com certeza é que, quanto maior o tempo de exposição ao amianto, maior será a gravidade dos sintomas.


COMO O MUNDO REAGIU AO AMIANTO?
Após os estudos realizados no século XX, vários países baniram a extração e manipulação do amianto e todos os produtos oriundos deste material. Países como Alemanha, Arábia Saudita, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Holanda, Inglaterra, Itália, Noruega, Nova Zelândia, Polônia, Suécia e Suíça não importam nem exportam amianto desde a década de 1990. Na Suécia, por exemplo, o banimento é completo desde 1986, incluindo carros que contenham freios produzidos com o material.

Nos Estados Unidos, em 1989, foi estabelecida a proibição total em etapas sucessivas, da produção, importação, processamento e comercialização de quase tudo que provém do amianto. Estas medidas foram tomadas com base na Lei de Controle de Substâncias Tóxicas (TSCA) e previa uma redução de cerca de 94% do consumo de amianto no país. Esta lei foi questionada em 1991 e, posteriormente, a proibição foi substituída por outros atos de banimento setorial.

No Brasil, ao contrário do resto do mundo, a utilização do amianto foi aceita até recentemente como segura, principalmente se tratando da crisotila – uma decisão que envolve questões políticas e empresariais muito fortes até os tempos de hoje. E vários problemas relacionados à forma menos tóxica do amianto (a crisotila) são simplesmente ignoradas. Problemas como a gravidade dos problemas de saúde que acometem os trabalhadores expostos ao amianto são ignorados inclusive pelas pessoas que correm os maiores riscos, os trabalhadores das minas de amianto. Ao contrário do que os grandes empresários pregam, esta vertente do amianto, apesar de menos tóxica, é um grande risco para a população e diversos problemas de saúde pública relacionados à manipulação do material são registrados todos os anos. Várias pessoas morrem anualmente por doenças graves relacionadas à exposição ao amianto, doenças que causam grande sofrimento e perfeitamente evitáveis.

Outro aspecto relevante e que vem sendo documentado em diversos países é a ocorrência de abestose e mesotelioma em pessoas que não são expostas diretamente ao amianto como processo ocupacional (aquelas pessoas que trabalham diretamente com o amianto), mas também naquelas que vivem nas proximidades das minas de extração e da deposição de resíduos do amianto.

De qualquer maneira, existe uma briga intensa entre empresários, políticos, trabalhadores e organizações de saúde sobre a crisolita brasileira ser segura e que sua importância socioeconômica seria mais relevante do que apenas “alguns” casos de pessoas que ficaram doentes. A defesa de um limite seguro de exposição ao material não é, de forma alguma, cientificamente comprovada e traz um grande risco a todas as pessoas envolvidas com a cadeia produtiva do material, resta saber para qual lado gostaríamos de pender nossa balança.


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