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A nova explosão das Doenças Sexualmente Transmissíveis
 
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 O AUMENTO NO NÚMERO DE CASOS DE DSTS Imprimir Enviar Guardar
 
Nos últimos anos o mundo tem observado um fenômeno peculiar na área da saúde; doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) que pareciam controladas voltaram a assombrar os órgãos de saúde de diversos países, incluindo no Brasil. Em um estudo recente, divulgado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças, o CDC, dos Estados Unidos, fica claro este novo tipo de “epidemia”. O número de casos de sífilis, por exemplo, aumentou mais de 15% no último ano no país. Mas não é somente a sífilis que preocupa, casos de gonorreia e clamídia também vêm crescendo exponencialmente, principalmente entre os jovens. No Brasil o aumento do número de casos não é muito diferente do observado pelo CDC e o sinal de alerta já foi dado pelos órgãos de saúde competentes.

Vários motivos estão relacionados com o aumento do número de casos de doenças sexualmente transmissíveis, sendo o principal deles a diminuição do uso de preservativos. A falsa impressão de que as DSTs estão controladas e que seus danos à saúde são pequenos atualmente acabaram com um dos maiores aliados que os órgãos de saúde tinham: o medo. O sexo seguro foi banalizado, principalmente entre jovens, faixa etária essa que corre os maiores riscos de contrair algum tipo de doença sexualmente transmissível.

Segundo dados do Ministério da Saúde, adultos com idades entre 25 e 39 anos são as pessoas mais suscetíveis a contrair DSTs. Entretanto o que se tem observado é um aumento muito grande no número de casos em jovens que têm entre 20 e 29 anos. Somente no Distrito Federal, em um estudo divulgado no final de 2018 pela Secretaria de Saúde, foram contabilizados cerca de 29 mil novos casos de DSTs nos últimos cinco anos entre pessoas desta faixa etária. Nos Estados Unidos os novos casos de gonorreia (53%) e clamídia (65%) ocorrem em jovens de 15 a 24 anos.

Segundo o Ministério da Saúde, mesmo com as campanhas realizadas e com o alerta dos médicos, apenas metade dos jovens entre 15 e 24 anos utiliza preservativos, o mais alarmante é que a maioria das pessoas que não usa preservativo, quando questionada, demostra não ter preocupação com o risco de contaminação por DSTs.

Segundo o médico ginecologista José Eleutério Júnior, presidente da Comissão Nacional Especializada em Doenças Infectocontagiosas, da FEBRASGO, um dos principais fatores agravantes é a falta de educação sexual efetiva. Para o médico, é necessário que as pessoas tenham consciência sobre os riscos da relação sexual desprotegida e do excesso de parceiros; ele ressalta que qualquer pessoa sexualmente ativa pode contrair algum tipo de DST e que estas doenças não estão restritas a um grupo específico de pessoas. Outro fator citado é o possível fácil acesso ao sistema de saúde e o tratamento eficaz de pessoas infectadas.

O número de pessoas doentes no Brasil só cresce e um dado alarmante, segundo especialistas é que a maioria das pessoas nem sabem que estão doentes. Um levantamento do Ministério da Saúde em 2009 já alertava que cerca de 10 milhões de brasileiros já haviam apresentado algum sintoma de DST, como lesões, verrugas e corrimentos nos órgãos genitais. Entretanto, o número de pessoas que procura auxílio do sistema de saúde para tratar estes sintomas ainda é muito pequeno, algo em torno de 30% dos indivíduos que apresentam algum sinal de DST buscam tratamento no Sistema Único de Saúde.


QUAIS SÃO AS DOENÇAS QUE MAIS CRESCEM
Sem dúvidas todas as DSTs têm crescido de uma forma impressionante, porém, a mais preocupante para as entidades de saúde é a sífilis. Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde do Estado de São Paulo, de 2007 a 2013 as ocorrências da doença por transmissão sexual aumentaram 603%. Em outro estudo, que compara o crescimento em outros estados, o crescimento de casos de sífilis aumentou em cerca de 100% de um ano para o outro no Acre e em Pernambuco e cerca de 65% no estado do Paraná. Segundo Cláudia Jacinto, Ph.D. em tocoginecologia pela Universidade de Campinas (Unicamp) este aumento se deve pela facilidade de realização do exame e do baixo custo do tratamento, fazendo com que a população simplesmente não se preocupe com a contração da doença.

Para tentar conter a epidemia de Sífilis que vem acometendo o Brasil, o Ministério da Saúde lançou uma campanha que visa diminuir os casos de sífilis congênita, ou seja, quando a mãe transmite a doença para o filho via placentária. O objetivo era fazer com que as mães tentassem identificar a doença no início da gestação e assim fosse tratada de forma adequada evitando a contaminação do feto. A única forma de tratamento existente até hoje nesses casos é a administração de penicilina benzatina. Entretanto, se descobriu que a maior parte dessas gestantes, mesmo quando diagnosticadas corretamente, eram tratadas de forma inadequada devido a escassez do medicamento no país. Esta situação só foi regularizada em 2017, quando o Ministério da Saúde garantiu o antibiótico para todo o território brasileiro, sendo intensificado nos municípios que contém cerca de 60% dos casos da doença em território nacional.

Os dados sobre o crescimento da sífilis adquirida por relações sexuais ou por transfusões sanguíneas estão registrados no Boletim Epidemiológico de Sífilis de 2017, do Ministério da Saúde. Nesta publicação fica evidente que a maior parte dos infectados nos últimos anos foram homens (mais de 60%), em sua maioria com idades entre 20 e 39 anos.

Uma doença que também cresce exponencialmente, a despeito de todo investimento em campanhas de prevenção, é a AIDS. Na última década os índices de contágio praticamente dobraram entre jovens brasileiros de 15 a 19 anos, passando de 2,8 casos a cada 100 mil habitantes para 5,8. Na população de 20 a 24 anos este número é muito pior, chegando a 21,8 casos a cada 100 mil habitantes. Atualmente o Ministério da Saúde acredita que pelo menos 112 mil brasileiros têm o vírus sem saber que estão contaminados.

Segundo dados do Boletim Epidemiológico HIV/AIDS do Ministério da Saúde, o número de diagnósticos até caiu no último ano quando nos deparamos com dados globais. Entretanto, as taxas de incidência entre jovens vêm crescendo ano a ano. Segundo alguns especialistas, o comportamento destes jovens em relação à sexualidade é o grande responsável por estes dados, a AIDS é vista por muitos como uma doença do passado e não mais uma doença mortal como antigamente. Muitos dos jovens (cerca de 34%) entre 18 e 24 anos, mesmo sendo diagnosticados positivamente com HIV, não realizam tratamento com antirretrovirais.

O Brasil é referência mundial no tratamento de pessoas infectadas pelo HIV, já que disponibiliza terapias antirretrovirais de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), evitando que pessoas HIV positivas desenvolvam AIDS, porém, mesmo assim o número de pessoas que são acometidas pela doença ainda é grande, em parte porque as pessoas não conhecem seu diagnóstico no início, o que pode levar a um tratamento tardio e pouco eficaz. Outras doenças sexualmente transmissíveis como a Hepatite B, o HPV, a gonorreia e a clamídia (que lidera o ranking das DSTs no país, com 1,9 milhão de novos casos por ano), também estão no grupo de doenças que vêm crescendo ano após ano mesmo com processos de vacinação, tratamentos adequados e campanhas de prevenção constantes.


A IMPORTÂNCIA DA PREVENÇÃO E DO TRATAMENTO PRECOCE
Embora os jovens sejam o principal grupo de risco e alvo da maior parte das campanhas, é sempre bom ressaltar que qualquer pessoa com uma vida sexual ativa está sujeita a contrair uma DST. A precocidade da detecção da doença é fundamental para a não proliferação da mesma e para melhorar os prognósticos de eficiência da cura; quanto mais cedo forem iniciados os tratamentos, mais eficazes serão. Além da detecção da doença é necessário se criar mecanismos para que, diante de um laudo positivo, os parceiros ou parceiras sexuais da pessoa também sejam tratados de forma adequada e pelo tempo que for necessário. Doenças como a sífilis, por exemplo, caso não sejam completamente erradicadas do corpo do paciente, podem causar danos muito mais profundos, podendo até chegar ao cérebro.

Apesar dos prognósticos ruins, nunca se falou tanto em DSTs, o que é um bom sinal. Ninguém se previne sobre o que não conhece, portanto o aumento da permeabilidade das campanhas é fundamental para que estes números comecem a ser revertidos. Segundo especialistas, não existe outra forma de se prevenir deste tipo de doenças se não por meio do uso de preservativos, sejam eles masculinos ou femininos. Para Roberto Geraldo da Silva, presidente da Associação Esperança e Vida, é necessário que a forma de comunicação da importância do uso de preservativos seja alterada, é necessário que os processos de educação sexual nas escolas sejam amplificados, que os danos causados pelas DSTs sejam mostrados de forma mais clara para os jovens e adolescentes, conscientizando-os da importância do uso da camisinha.

É necessário, nas campanhas, levar em conta que os jovens não vivenciaram o pânico ocorrido nos anos 1980 e 1990 das pessoas que contraíram HIV, eles não tiveram contato com as mortes causadas por essa doença. Muitos menos tiveram contato com os danos causados por doenças mais antigas como a sífilis e a gonorreia. Em grande parte dos casos estes fatores levam os jovens a terem menos prudência em suas relações sexuais, o que culminou em um enfraquecimento do uso de preservativos. Uma coisa é unanime entre todos os especialistas: somente a modernização das campanhas, com uma linguagem que atinja adolescentes e jovens, aliadas a um processo de educação sexual efetivo, sem tabus, preconceitos e meias verdades, poderá reverter o quadro que vivemos hoje.

Segundo o Ministério da Saúde, mesmo com as campanhas realizadas e com o alerta dos médicos, apenas metade dos jovens entre 15 e 24 anos utilizam preservativos.



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