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Trabalho: em excesso, cansativo, com propósito, com sentido
 
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Ei, você aí... trabalhando muito? A jornada acabou, é hora de descanso. Chefe falando isso parece até sonho. Parece sonho também pensar em trabalho que não seja cansativo. Seria ilusão acreditar que é possível trabalhar totalmente alinhado ao propósito de vida? Sabe aquele trabalho que faz sentido, que você levanta cedo e não reclama, fica até mais tarde e tudo bem, dorme e acorda pensando nele? Se existe? Há quem diga que sim, mas que é preciso bastante dedicação.

Se o ritmo é intenso, mas o salário compensa, tem gente que agradece. Se falta tempo para cuidar da saúde tem gente que reclama. O fato é que as pessoas estão morrendo por trabalho. E essa realidade não está restrita a exemplos como o do Japão, onde, sabe-se, as jornadas de trabalho são exaustivas e eles tem até uma palavra para descrever a situação. Karoshi pode ser traduzido do japonês, literalmente, como morte por excesso de trabalho.

O japonês Naoya Nishigaki, de 27 anos, morreu em 2017 por overdose de medicamentos. Em uma matéria publicada pela BBC, a família contou que o jovem costumava trabalhar até o último horário do trem e que também costumava dormir no escritório caso perdesse a condução. Chega a ser absurdo pensar, mas às vezes, a jornada de trabalho desse japonês chegava a 37 horas seguidas e ele acumulou mais de 100 horas extras no mês antes de sua morte. O excesso de trabalho o teria levado à exaustão e ao posterior suicídio.

A situação ficou tão grave no país que o governo e empresas japonesas passaram a ser responsabilizados pelas ocorrências, com a concessão de indenizações às famílias da vítima. Essa percepção ficou nítida há mais tempo, em 1987, quando vários altos executivos morreram por excesso de trabalho. Em 2015, por exemplo, pedidos de indenizações como esses chegaram ao número recorde de 2.310.

Mas a realidade, infelizmente, não está restrita aos trabalhadores japoneses. Nos Estados Unidos, 120 mil pessoas por ano morrem por excesso de trabalho. Isso leva a um prejuízo de 180 bilhões de dólares, ou 8% do custo total com saúde, segundo pesquisas realizadas na Universidade de Stanford.

De acordo com uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o México lidera o ranking das médias individuais de horas trabalhadas por ano. Ele é seguido de perto pela Costa Rica (2.225 contra 2.212 horas) e pela Coreia do Sul (2.069). O Japão aparece na 22ª colocação (1.713).

Devido à alta carga de trabalho, esses países têm enfrentado diversos problemas ligados à saúde dos trabalhadores. Para tentar remediar, algumas ações governamentais têm sido estudadas. Alemanha, Suécia e Holanda discutem a possibilidade de diminuir a jornada de trabalho diária de 8 para 6 horas. Na França já está estabelecida uma jornada semanal de 35 horas, com direito à desconexão nos momentos de folga mediante acordo com o sindicato – desligando o WhatsApp e aplicativos de mensagens instantâneas. Já o Japão está tentando adotar a “Sexta-Feira Prêmio”, em que todos os funcionários deveriam ser dispensados mais cedo.



QUEM SE IMPORTA COM ISSO?
Aqui no Brasil existem organizações que parecem se importar com essa situação. Mas, existe também muita injustiça. Além das inúmeras histórias já relatadas pela mídia e até por conhecidos, há diversas músicas, tais como a do cantor Seu Jorge, que descreve bem a realidade brasileira:

“Está na luta, no corre-corre, no dia-a-dia
Marmita é fria mas se precisa ir trabalhar
Essa rotina em toda firma começa às sete da manhã
Patrão reclama e manda embora quem atrasar

Trabalhador
Trabalhador brasileiro
Dentista, frentista, polícia, bombeiro
Trabalhador brasileiro
Tem gari por aí que é formado engenheiro
Trabalhador brasileiro
Trabalhador

E sem dinheiro vai dar um jeito
Vai pro serviço
É compromisso, vai ter problema se ele faltar
Salário é pouco, não dá pra nada
Desempregado também não dá
E desse jeito a vida segue sem melhorar

Trabalhador
Trabalhador brasileiro
Garçom, garçonete, jurista, pedreiro
Trabalhador brasileiro
Trabalha igual burro e não ganha dinheiro
Trabalhador brasileiro
Trabalhador”

Trabalhar em excesso não faz bem. Mas acontece. Por necessidade, por vontade, por obrigação ou por falta de opção. O fato é que não somente nos Estados Unidos e no Japão as mortes por excesso de trabalho tem aumentado. Aqui no Brasil, nos nove primeiros meses de 2018 foram concedidos pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) 8.015 licenças por transtornos mentais e comportamentais adquiridos no serviço. Esse dado representa um avanço de 12% em relação ao mesmo período de 2017. Preocupante, não acha?

Isso sem falar sobre os afastamentos por depressão e ansiedade. Dados do INSS apontam que o índice de afastamentos aumentou cinco pontos percentuais de 2017 para 2018. Em quatro anos (de 2012 a 2016), os gastos públicos ligados a transtornos psicológicos e comportamentais somaram 784,3 milhões de reais, o equivalente a 7% das despesas médicas do nosso país.

Entre as mortes relacionadas ao trabalho tem-se principalmente como causa os baixos salários e a falta de tempo para cuidar da própria saúde, mas existem outros motivos que serão tratados ao longo do texto. Vamos agora olhar um pouco para um fenômeno mais recente.

A sociedade moderna, conectada 24 horas por dia, 7 dias por semana sofre as consequências daquilo que criou. O homem parece distante dele mesmo, a serviço de algo ou alguém o tempo todo. Indivíduos reativos, sem tempo de refletir, sem projeto de vida, desumanizados. Tristes, carentes, explorados. Fazendo bicos, se virando por conta própria, sem benefícios e com muita insegurança financeira. Dá para viver bem assim? Parece que não.


PARADO PARA REVISÃO
Independentemente de ser ou não um trabalhador do mundo empresarial, o fato é que cada vez mais o homem é parte de uma engrenagem. Isso significa que para fazer o negócio rodar, o homem está ali, atuando de corpo presente e mente, muitas vezes, ausente. Assim como as máquinas, o homem também precisa parar de vez em quando para uma necessária revisão. Se o indivíduo chega a exaustão, precisa parar. Já ouviu aquela expressão “entrou em parafuso”? Pois bem, hoje existe uma expressão para isso: burnout. A síndrome de burnout é um distúrbio psíquico caracterizado pelo estado de tensão emocional e estresse provocados por condições de trabalho desgastantes.

Já parou para pensar que se alguém abusa de um equipamento, fazendo-o pifar e precisar de uma manutenção muito cara, essa pessoa pode ser punida, ou até demitida? Mas, ampliando a reflexão, e se alguém abusa de alguém, causando desgaste, o que acontece? Nada? Acha que isso é bom para a pessoa? Não né. Mas, também não é bom para a empresa. Funcionário desanimado, doente e depressivo prejudica qualquer organização, impactando em resultados complicados como rotatividade e baixa produtividade.

Estudos americanos apontam quem funcionários esgotados são 50% menos propensos a conversar com o chefe sobre suas necessidades de entrega e 63% mais propensos a faltar no trabalho por causa de doença. Ao mesmo tempo, a probabilidade desse trabalhador procurar outro emprego é três vezes maior.


O QUE LEVA À MORTE?
Entre os principais sinais do excesso de trabalho estão a falta de sono e o estresse. Apesar desses não serem considerados os principais motivos das mortes são fatores que geram um impacto significativo nas condições físicas e mentais dos empregados e devem ser levados em consideração ao analisar os constantes casos de suicídios.

Dormir pouco, por exemplo, aumenta o risco de doenças cardíacas, distúrbios no sistema imunológico e algumas formas de câncer. Já o estresse pode levar a hábitos como o tabagismo e alcoolismo, além de agravar os casos de depressão. Ou seja, os impactos são sentidos em todos os âmbitos da vida e trazem consequências graves para os trabalhadores.


DOENÇAS
Dores pelo corpo, disfunções e até mesmo problemas respiratórios podem surgir se cuidados básicos não forem tomados. São diversas as doenças geradas pelo trabalho em excesso. Confira algumas:

Transtornos mentais: essa é uma das principais causas de afastamentos no mundo corporativo. O estresse é o sintoma mais comum, mas os empregados também podem evoluir para quadros de burnout – quando corpo e mente são levados à exaustão – e depressão, o que pode levar a comportamentos suicidas.

Dores em geral: esse é um problema que afeta praticamente todos os trabalhadores. Se você trabalha muito tempo em pé, a produtividade pode cair. Já quem permanece sentado por um tempo excessivo pode ter dores na coluna e tendinites que impedirão a pessoa de realizar as atividades. Para quem trabalha no campo, plantando e colhendo, as dores nos joelhos e coluna são frequentes.

Doenças de pele: trabalhar exposto a produtos de limpeza ou à luz solar por muito tempo contribui para o surgimento de inflamações, queimaduras e pode até mesmo facilitar o desenvolvimento do câncer de pele.

Problemas respiratórios: ambientes com pó, fumaça ou que permanecem fechados já são naturalmente propícios ao surgimento de doenças respiratórias. Agora imagine o que acontecerá se você ficar exposto a esses riscos mais do que o necessário?

Insônia: a preocupação constante com o trabalho pode dificultar a desaceleração do cérebro, necessária para uma boa noite de sono. Além disso, alterações hormonais geradas pelas condições no trabalho podem gerar interrupções constantes, diminuindo a qualidade do descanso.

Fadiga: anteriormente citamos a síndrome de burnout, mas a fadiga vai além. O cansaço se transforma em uma exaustão constante e, após algum tempo, a pessoa começa a se sentir apática perante os mais diversos estímulos. É uma tristeza constante, que pode evoluir para quadros de depressão, de ansiedade e até mesmo suicídio.

Transtornos alimentares: quando o corpo está em uma situação de estresse, a compulsão alimentar e a anorexia podem se tornar desdobramentos comuns. São reações do corpo para lidar com os sentimentos desagradáveis utilizando a comida – mas que também podem se converter para os mais diversos vícios.


E AGORA?
Todas essas disfunções podem levar a um quadro ainda mais grave, fragilizando o empregado – tanto física quanto mentalmente – e levando-o à morte. Por isso, cabe às empresas manterem-se atentas à saúde física e mental dos funcionários, criando ações para evitar que eles percam a vida pelo excesso de trabalho.

Um acompanhamento profissional também é importante. Psicólogos, psiquiatras, fisioterapeutas e outros profissionais qualificados poderão ajudar os trabalhadores a lidarem com suas dores, sejam elas físicas ou não.

Mas, para além desses fatores, existem condições de trabalho que podem ser melhoradas. Há estudos americanos que apontam que a autonomia sobre horários de trabalho e a clareza de responsabilidades são muito importantes para avaliar o nível toxicológico de um emprego. Parece complexo, mas o fato é que ser comandado e sentir-se pressionado causa estresse em demasia. Longos períodos de deslocamento, jornadas extensas, mudanças constantes e pressão por resultados geram desgastes físicos e mentais sem tamanho.

Isso sem contar que, muitas vezes, nem descansar é possível, afinal, os e-mails não param de chegar e as mensagens no whatsapp parecem gritar por resposta. Limitar horas trabalhadas dentro e fora da organização é tarefa das mais urgentes. Cobrar pela entrega de resultados e não pelo tempo de escritório é uma boa saída. Menos hierarquia, mais liberdade. Ambiente agradável resulta em longevidade para o negócio. Da cobrança para a confiança. Pessoas deixando de serem vistas com base nos custos que incorrem, passando a serem ativos, ou seja, parceiros necessários para atingir a estratégia do negócio.

Juntando tudo isso e pensando que ninguém é capaz de pensar com a cabeça cheia e o corpo cansado, então é hora de buscar soluções para o organismo do trabalhador não entrar em colapso.

Uma organização só cria valor e oferece os melhores produtos ou serviços se contar com os melhores colaboradores e/ou funcionários. E esses precisam de cuidados, treinamentos e muita atenção.


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