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Superfoods verdade ou mito?
 
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Os denominados Superfoods, ou superalimentos, é a nova onda da indústria alimentícia relacionada a uma alimentação saudável, entretanto, será que os alimentos podem ser mesmo tão super assim? Os superalimentos são, normalmente assim denominados, por possuírem algumas características nutricionais específicas, basicamente ricos em nutrientes e com poucas calorias. Segundo alguns nutricionistas estes alimentos possuem sais minerais e vitaminas concentradas em comparação com outros alimentos e seriam excelentes opções para repor as carências destes elementos em alimentos de origem industrial. Muitas promessas de benefícios são relacionadas a este tipo de alimento como otimizar o metabolismo, melhorar o peso corporal, melhorar a disposição física, melhorar a concentração e disposição mental, fortalecer o metabolismo, prevenir doenças, entre vários outros aspectos.

Os superalimentos são bastante variados, porém todos têm em comum a alta concentração de sais minerais, ou vitaminas, ou são antioxidantes, ou ainda tudo isso ao mesmo tempo, pelo menos para indústria que trabalha neste segmento é claro. A denominação destes tipos de alimentos surgiu no século XX por um ramo bem particular da indústria de alimentos que buscava suprir as necessidades daquelas pessoas que buscavam uma alimentação que fosse, além de saudável, benéfica para o organismo de diversas formas distintas. Os superfoods, atualmente são fomentados por grandes campanhas de divulgação de seus efeitos benéficos o que os têm transformado em uma grande “moda” entre as pessoas que buscam levar uma vida mais saudável.

Vários alimentos estão incluídos nesta categoria e eles podem ter origens completamente distintas. Algumas frutas como o Gojy Berry, ricas em vitaminas do complexo B e de Vitamina C; a Maca Peruana, que é rica em ômega 3 e nas vitaminas C e E e vendida no mercado brasileiro em capsulas; O Açaí que é rico em antioxidantes e relacionado, muitas vezes, com aumento de saciedade, são exemplos de alguns superlimentos que estão na “moda”. Mas não são somente as frutas que compõem esta categoria. A Quinoa, proveniente do Andes é vendida como um alimento que contêm todos os aminoácidos essenciais, rica em ferro e fibras. Algumas algas como a Kelps, são associadas a melhora do metabolismo, são ricas em iodo e outros nutrientes comuns apenas em alimentos marinhos. A Chlorella, uma alga unicelular é dita como um alimento capaz de realizar a desintoxicação do corpo, bem como ajuda a melhorar o funcionamento do sistema nervoso, no Japão esta alga já é mais consumida do que a vitamina C, alguns estudos indicam ainda que ela pode aumentar os níveis de glutationa, o antioxidante mais poderoso produzido pelo nosso organismo. A Cianobactéria Spirulina, é uma das mais “famosas” do momento e diversos benefícios como prevenção ao câncer, de doenças cardiovasculares e contra o envelhecimento precoce são apenas alguns aspectos encontrados facilmente relacionados a este tipo de alimento, o seu efeito mais conhecido está relacionado ao aumento da sensação de saciedade, também é vendida no Brasil em cápsulas.

Existem diversos outros exemplos de superalimentos vendidos por aí, uma busca rápida na Internet nos dá uma grande variedade de opções, que pode agradar todos os gostos e bolsos. Em todos os casos estes alimentos são vendidos com a capacidade de prevenir, transformar, recuperar o organismo, melhorar a qualidade de vida, entre outros aspectos. Entretanto na maior parte dos casos não existe um consenso científico do real “poder” destes alimentos. É importante ressaltar que muitos dos chamados superalimentos são realmente ricos em sais minerais, fibras, vitaminas, aminoácidos, entre outros, o que pode realmente ser benéfico para a saúde, porém eles não são milagres em pequena quantidade e não são, em hipótese nenhuma, um substituto para um estilo de vida saudável. Obviamente que comer alimentos saudáveis são interessantes para a saúde e podem melhorar vários aspectos de nosso organismo. Entretanto depositar esta responsabilidade somente sobre alguns destes superalimentos pode ser perigoso.



O que dizem os especialistas

A busca atual por alimentos saudáveis tem os seus motivos. Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de obesos no Brasil cresceu cerca de 60% nos últimos 10 anos, o que leva, por sua vez, a um aumento do número de diabéticos e hipertensos, além de diversas outras doenças associadas a obesidade.  A promessa de alimentos naturais que combatam estes efeitos, sem efeitos colaterais, naturais e que melhorariam a qualidade de vida das pessoas é um prato cheio para qualquer pessoa que gostaria de aumentar sua expectativa de vida. Segundo a nutricionista Elizabeth Somer, autora do livro Food & Mood, uma alimentação adequada poderia reduzir entre 50 e 70% do sofrimento causado por doenças cardíacas e outras relacionadas a obesidade. Este aspecto é bastante conhecido da população e isto reflete diretamente na indústria. Um estudo de 2017, realizado pela agência Euromonitor International ficou evidente que existe um crescimento considerável pela busca de fontes alimentares mais saudáveis. Segundo o estudo, no Brasil o crescimento do segmento de bebidas e alimentos saudáveis tem um crescimento de cerca de 12% ao ano e representou, no ano de 2016 cerca de R$ 93,6 bilhões de vendas. O que fez com que várias empresas apostassem neste novo nicho de mercado.

Porém, apesar deste crescimento, a maioria dos especialistas em nutrição afirmam que esta categoria de superalimentos não passa de uma grande jogada de marketing, que é alimentada muito mais pela difusão em redes sociais do que por artigos científicos. Na maior parte dos casos os efeitos prometidos não possuem nenhuma evidência científica mais aprofundada.

Segundo Del Caño, especialista da indústria espanhola Gemma alimentos, a nomenclatura de superalimentos é apenas um novo modismo, e que é muito difícil atribuir uma função específica a algum alimento simplesmente por ele ter um componente nutricional em maior quantidade que outro. Outros pesquisadores importantes no mundo da nutrição como Miguel Ángel Lurueña e Estefanía Toledo, da Universidade de Navarra a necessidade de encontrar soluções fáceis para “salvar” nossos péssimos hábitos tem fortalecido a indústria dos superalimentos e levado muitas pessoas a achar que a dieta que inclui algum superalimento por si só deveria melhorar a nossa qualidade de vida, o que não irá ocorrer.

Segundo a maior parte dos nutricionistas os produtos alimentares incluídos na categoria de superalimentos tem um valor nutricional interessante e que eles podem ser incluídos na dieta sem muitos problemas, a ressalva dada é sobre a importância de uma dieta balanceada e variada. Alimentos como grãos integrais, lipídios poli-insaturados, frutos secos, entre outros não devem ser negligenciados. Da mesma maneira, os especialistas ressaltam que não existe nenhum alimento milagroso ou com poder de cura, sendo esta ideia uma estratégia de marketing que não tem muito fundamento. Enfim, não existe melhor receita para melhorar a qualidade de vida que um dieta ampla, rica em diversos tipos de alimentos saudáveis, prática de exercícios físicos e manutenção de hábitos de vida saudáveis.


O que dizem alguns estudos sobre os superalimentos?

O maior problema dos chamados superalimentos é a forma como eles são comercializados, na maioria dos casos seus efeitos milagrosos são o mote inicial de venda, sem que o fabricante ou revendedor assumam qualquer responsabilidade sobre os efeitos prometidos e desejados pelos consumidores. Na maior parte dos casos os alimentos estão vinculados a “meias verdades” retiradas de matérias ou estudos que não são bem fundamentados. Segundo especialistas combater este tipo de informação falsa seria um primeiro passo para melhorar a comunicação entre indústria e consumidor.

Um exemplo do que vem acontecendo em relação a divulgação destes itens alimentares foi a proibição do termo superfoods pela União Europeia, em 2007, em embalagens de produtos que não deixasse muito claro para o consumidor qual o nutriente ele estava adquirindo (no Brasil não existe nenhuma regulamentação para estes itens alimentares).

Em alguns estudos científicos tem ficado claro que a questão envolvendo os superalimentos são realmente apenas uma jogada de marketing, Alguns dos alimentos vendidos como superfoods poderiam ser facilmente substituídos por outros alimentos como a mesma eficiência e custo bem menor. Em um estudo da revista New Scientist o consumo de Goji Berry por exemplo, associada a fortalecer o sistema imunológico, estimular a libido e proteger contra doenças cardiovasculares, poderia ser nutricionalmente substituída por uma alimentação rica em laranja, limão, acerola e morango.

Em um outro estudo, publicado na mesma revista, uma análise sobre a quinoa demonstrou que ela é rica em saponinas, que podem alterar a permeabilidade do intestino e são recomendadas para redução de peso e colesterol. Entretanto as saponinas ficam aderidas a parede da quinoa e se ela for lavada antes de ser preparada seus nutrientes mais importantes não estarão mais contidos no alimento.

Na realidade não existe nenhum estudo científico sério que demonstre que algum alimento ou suplemento alimentar seja milagroso o que tenha características nutricionais realmente surpreendentes, o que fica claro é que os superalimentos são na verdade apenas uma grande jogada da indústria alimentícia.


Como o Marketing pode afetar nossa alimentação

Atualmente nossa alimentação é fortemente influenciada por informações e campanhas de marketing sobre alimentos benéficos, de fácil preparo ou consumo e que seriam as soluções para nossos hábitos de vida modernos. Entretanto, grande parte da informação que chega ao público é contraditória ou sem fundamento algum. Alimentos vegetais sem colesterol (gordura tipicamente animal), barrinhas de cereais (com mais açucares que fibras), alimentos enriquecidos com proteínas (que não se comparam nutricionalmente com um simples ovo cozido), são apenas alguns exemplos do que somos expostos diariamente. 

Um exemplo bastante comum destes alimentos fomentados pela indústria é o peito de Peru. Muitas pessoas acreditam que o produto é uma alternativa mais saudável do que o presunto por exemplo. O que a maioria das pessoas não sabe, entretanto, é que ambos possuem quantidades semelhantes de sódio e gordura, e que, por sua vez, o peito de peru contêm mais conservantes químicos como nitritos e nitratos, produtos que podem ser cancerígenos se consumidos continuamente.

Alimentos diet e light são mostrados muitas vezes como a solução para todos os problemas de obesidade, sendo propagados seus benefícios em relação aos alimentos “com açúcar”, entretanto para manter o sabor sem a adição de açúcar, na maior parte dos casos, são inseridos grandes quantidades de sódio que atuam como um realçar o sabor além de atuar como um conservante. Para crianças, por exemplo, é mais saudável a ingestão de açúcar, que irá atuar como fonte energética do que grandes quantidades de sódio, sendo recomendado o consumo de alimentos dietéticos somente em casos muito específicos.

Óleos vegetais como o de canola ou de girassol são muitas vezes associados a serem mais saudáveis que o óleo de soja, entretanto suas composições químicas são muito semelhantes e nenhum deles possui colesterol. Como dito anteriormente nenhum alimento de origem vegetal possui colesterol, este lipídio só é encontrado em alimentos de origem animal. Porém não é incomum encontrarmos em embalagens de margarinas escritas em letras garrafais “sem colesterol”.

Na realidade o correto é mantermos uma alimentação saudável, sem modismos, dando preferência para alimentos de origem natural como frutas, legumes e verduras, dando prioridade para uma grande variedade de alimentos de cores e sabores diferentes, sem acreditar em nenhum produto milagroso que irá ser a solução de todas as carências alimentares que temos atualmente. Além da alimentação a prática constante de exercícios físicos e a manutenção de hábitos de vida saudáveis são a única solução realmente viável para que tenhamos uma vida mais longeva e com maior qualidade.


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