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O problema do plástico nos oceanos
 
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 O PLÁSTICO E SEU IMPACTO NOS AMBIENTES MARINHOS Imprimir Enviar Guardar
 
Recentemente um relatório da ONU (organização das nações unidas) chamou a atenção para um problema global até então pouco discutido. Segundo o estudo, 80% de todo o lixo marinho é composto por plástico. Em um outro estudo, realizado pelo departamento de ciências do governo do Reino Unido, os oceanos, até 2025 estarão três vezes mais poluídos com plástico do que atualmente. Os números são alarmantes, para se ter uma ideia do tamanho do impacto, no Fórum Econômico Mundial de Davos foram apresentadas as últimas estimativas, em que se acredita que em 2050 os oceanos terão mais plástico do que peixes. Material este que levará pelo menos 450 anos para serem decompostos naturalmente. Segundo as pesquisas mais recentes algo em torno de 8 a 12 milhões de toneladas de plásticos são depositadas nos oceanos todos os anos. Se acumulando em praticamente todos os ambientes marinhos.

Na realidade a vida moderna é inimaginável sem a utilização dos plásticos, grande parte dos produtos industrializados utilizados pelos seres humanos possuem este material em sua composição. A lista de produtos que levam plástico é infindável e vai de computadores a componentes de automóveis, de televisões a redes de pesca, entre diversos outros. Isto sem falar dos produtos descartáveis, como talheres, pratos, copos, garrafas, canudo, cotonetes, entre outros. Entretanto, apesar de sua praticidade e versatilidade, é inegável que este material se tornou um dos maiores vilões ambientais de nosso planeta. Para se ter uma ideia do problema do plástico no planeta basta dar uma volta pelas cidades, observando principalmente seus ambientes aquáticos. Quando pensamos nos oceanos o problema é agravado, um simples passeio na praia ou um breve mergulho mostra claramente o descuido e as grandes quantidades de plástico que descartamos de forma incorreta no meio ambiente.

O que temos atualmente é um enorme mar de plástico, a situação pode ser observada, por exemplo, na grande mancha de lixo pacífico, uma verdadeira “ilha” de entulhos, localizada entre a costa oeste dos Estados Unidos e o Havaí. Um estudo publicado na revista Scientific Reports indica que este oceano de plástico tem aproximadamente 80 mil toneladas de plásticos descartados e uma área de aproximadamente 1,6 milhões de quilômetros quadrados. O mais preocupante segundo o estudo é que esta mancha de lixo vem crescendo muito mais rápido do que se estimava e tem um tamanho real cerca de 16 vezes maior do que os cientistas acreditavam no início dos estudos.

O lixo se acumula neste local devido as correntes marítimas típicas do Pacífico Norte (Giro do Pacífico Norte), os cientistas acreditam que a maior parte dos detritos e proveniente da América do Norte e da Ásia, sendo que 20% deles é proveniente do último grande terremoto que atingiu o Japão. Os Cientistas chamam esta grande mancha de lixo de Plastic patch (remendo plástico) e sua dimesão pode ser observada no documentário “Garbage Island: An Ocean Full of Plastic”. De acordo com NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) o problema não se resumo ao Giro do Pacífico Norte, outros locais, que possuem correntes marinhas similares, tem enfrentado o mesmo tipo de problema. Grandes ilhas de lixo foram observadas também no Giro Subtropical de Atlântico Norte e em outros locais do mundo.

Garrafa plástica é um dos 10 tipos de plástico mais comum encontrados no oceano.



MAS QUAL O PROBLEMA DO PLÁSTICO NOS OCEANOS?
Além da questão da sujeira esta grande quantidade de plástico traz diversos problemas para o meio ambiente que afetam diretamente a fauna e flora marinha e indiretamente todos os outros seres vivos do planeta, incluindo os seres humanos. Durante o documentário citado acima, produzido pela revista Vice, cientistas coletam amostras de água que chegavam a conter 1000 pedaços de plástico para cada organismo planctônico, que por sua vez, serve de base para as cadeias alimentares dos oceanos.

Imagens de animais entrelaçados em restos de redes de pesca, com bicos presos em garrafas, engasgados com sacolas plásticas, entre diversas outras fotografias, têm rodado o mundo e chocado as pessoas. Recentemente a morte de uma baleia com cerca de 40 quilos de plástico em seu estômago voltaram a chamar a atenção do mundo. Entretanto, estes casos são somente a ponta do iceberg, o problema pode ser muito mais grave do que parece.  Ao longo do tempo o plástico não se decompõe rapidamente, porém se fragmenta, formando pequenas partículas chamadas pelos cientistas de microplásticos. Estes já foram detectados em diversos alimentos humanos, demonstrando a capacidade deste material de atravessar as cadeias alimentares retornando para nós mesmos. O problema é que não se sabe ao certo qual o tipo de dano que a ingestão destes microplásticos podem causar a nossa saúde, acredita-se que este material pode atrapalhar a digestão dos alimentos “normais” e liberar toxinas nos organismos.

Um outro problema relacionado a estes microplásticos é sua capacidade de adsorção de outros poluentes encontrados nos ambientes marinhos. Em alguns estudos já foram encontrados pesticidas, bisfenóis, metais pesados e poluentes orgânicos persistentes (POPs) aderidos a estas partículas plásticas. Estes produtos são altamente tóxicos quando ingeridos e podem causar diversos problemas crônicos de saúde, como disfunções neurológicas, reprodutivas e hormonais. Um outro estudo indica ainda que a presença deste lixo plástico em zonas costeiras favorece a proliferação de algumas bactérias como a Escherichia coli por exemplo.

De qualquer maneira uma coisa é certa, não se tem uma ideia exata dos danos causados por estas partículas de plástico irão causar aos animais marinhos e a nós em um futuro breve. Em um relatório da ONU publicado no ano de 2018 estima-se que pelo menos 800 espécies marinhas já estão sendo afetadas pela ingestão de microplástico. Além dos danos à nossa saúde e dos animais marinhos, o efeito desta poluição traz também prejuízos econômicos, neste mesmo relatório foi avaliado uma perda de cerca de US$ 13 bilhões por efeitos adversos na pesca industrial marinha, na navegação e no turismo.


DE ONDE VEM TODA ESTA POLUIÇÃO?
A poluição marinha por plástico têm diversas fontes e, por ser difusa, é difícil de identificar com clareza seus pontos de origem. Os 10 principais produtos plásticos encontrados nos oceanos, em ordem de importância quantitativa são: garrafas de plástico e tampas, bitucas de cigarro, cotonetes, embalagens de salgadinhos e de doces, produtos de higiene íntima (principalmente absorventes), sacolas plásticas, talheres descartáveis, copos descartáveis e suas respectivas tampas, balões de festa e recipientes de alimentos.

Segundo uma pesquisa realizada em 2015, os países que mais poluem os oceanos foram a China, a Indonésia e as Filipinas, sendo responsáveis por um acréscimo de 3,5 milhões de toneladas de plástico nos oceanos. Segundo um estudo realizado pela ONG americana Ocean Conservancy, estes três países, juntos com a Tailândia e o Vietnam são responsáveis por cerca de 60% do resíduo plástico depositado nos oceanos nos últimos anos.

Em um outro estudo fica evidente por onde todos estes resíduos chegam aos oceanos. Os principais vetores de transporte são grandes rios asiáticos como o rio Yangtzé, Rio Amarelo, Hai e Rio das Pérolas, todos chineses.  Outros rios importantes são ainda o Amur que além da china corre por território russo, o Ganges, que corre na Índia, e os africanos Nilo e Niger. A boa notícia é que finalmente os chineses começaram a adotar políticas ambientais específicas para a separação e tratamento do lixo nas suas principais cidades industriais. Segundo o plano do governo chinês, até o ano de 2020, 35% do lixo produzido nestes locais será reciclado. Não é o ideal, mas é um começo para um país que praticamente não reciclava nem 5% do seu lixo.

O Brasil ocupa a décima sexta posição mundial no ranking de países mais poluidores dos mares. A estimativa é que em nosso país, chegam as praias cerca algo em torno de 70 mil a 190 mil toneladas de plástico todos os anos. Um número muito alto e que está diretamente relacionado com a falta de conscientização ambiental do povo brasileiro e da falta de investimento em políticas públicas relacionadas diretamente com os problemas do descarte correto deste material, de sua reutilização pelas indústrias e da reciclagem do plástico de uma maneira geral.


QUAIS SÃO AS SOLUÇÕES PARA O PROBLEMA?
Todos sabemos que o problema do lixo no mundo é complexo e não tem uma solução simples, nos oceanos o problema é agravado devido as suas dimensões. Existem diversas tecnologias sendo desenvolvidas para tentar retirar o material destes ambientes, porém nada ainda tem se demonstrado muito eficiente para uma solução a curto prazo, principalmente quando nos referimos aos microplásticos. De qualquer maneira os maiores esforços atuais estão relacionados a tentar impedir a entrada de mais plásticos nos ambientes marinhos. É obvio que o plástico não é o único problema ambiental que os oceanos enfrentam, entretanto em um estudo realizado pelo Instituto oceanográfico da USP em conjunto com o Instituto Socioambiental dos Plásticos (Plastivida), constatou que, nas praias brasileiras, cerca de 95% do lixo encontrado é feito de plástico e tem origens distintas como resíduos de pesca e do turismo.

Uma das soluções mais eficientes até o momento tem sido desenvolvida pela Ocean Cleanup, uma entidade não governamental que desenvolveu um sistema de grandes barreiras flutuantes com telas subaquáticas. Os engenheiros da entidade estimas que estes equipamentos serão capazes de coletar cerca de 5 toneladas de plástico por mês a partir dos próximos anos. Entretanto, o esforço pode não ter efeito se as quantidades de plástico gerados nos próximos anos não forem contidos.

De acordo com esta perspectiva algumas medidas, felizmente começaram a ser tomadas. Recentemente o parlamento europeu adotou medidas de banimento da produção de alguns plásticos descartáveis como pratos, talheres e cotonetes até o ano de 2021. Além disso, medidas governamentais devem ainda ser aprovadas em relação a coleta e processamento de resíduos da indústria do tabaco e pesqueira. O projeto prevê ainda a reciclagem de pelo menos 90% das garrafas plásticas até o ano de 2025.

Estas medidas vêm de encontro com um tratado assinado em 2011, conhecido como compromisso de Honolulu, que tem como objetivo servir como uma cartilha de gestão para a redução da entrada de lixo nos oceanos e praias e da retirada do material já existente nestes ambientes.

Vários países têm adotado medidas para a redução da produção de plástico, no dia 10 de agosto de 2018 a Nova Zelândia decretou o fim da produção das sacolas de plástico descartável. No resto do mundo outros países já baniram o uso de plásticos descartáveis, como Índia, Bélgica, Costa Rica, França, Indonésia, Ruanda, Noruega, entre outros. Na América latina o primeiro país a adotar tal medida foi o Chile, sendo seguido pelo Uruguai. No Brasil alguns projetos de lei já tramitam no governo e algumas cidades já tem banido o uso de canudos plásticos.

De qualquer maneira, o banimento do uso do plástico e a redução da entrada de novos poluentes nos oceanos é uma medida inicial que pode trazer benefícios no futuro, entretanto, medidas como reduzir o desperdício, criar opções que sejam biodegradáveis e seguras e conscientizar a população sobre o descarte deste tipo de material são mais do que urgentes.

Além da proibição total de plásticos descartáveis, outras medidas vêm sendo cogitadas para tentar minimizar o problema. Uma delas diz respeito direto a indústria, no princípio de responsabilidade alargada do produtor, em especial a indústria do tabaco e da pesca, neste caso espera-se que os custos de reversão dos processos poluidores sejam direcionados, pelo menos em parte às indústrias. Até 2030 espera-se que pelo menos 30% de todo material de produção de garrafas, copos, talheres e outros produtos descartáveis sejam produzidos com plástico reciclado em todo o mundo. Outra medida ainda, seria a rotulagem de todos estes produtos para alertar seus consumidores para a importância do descarte correto destes materiais. Estas são apenas algumas medidas que estão sendo discutidas para tentarmos minimizar o impacto nos ambientes oceânicos que são, direta ou indiretamente, responsáveis pela manutenção da vida no planeta Terra.


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