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Vida urbana: redes e hierarquias, pobreza e segregação espacial
 
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A população mundial tornou-se, nas últimas décadas, predominantemente urbana. As cidades contemporâneas contam com um intenso fluxo de pessoas e de serviços. Atender todas as demandas dessa complexa rede não é moleza.

São várias as partes que compõem um todo. E nas cidades esse arranjo também acontece. Fatores econômicos, culturais, históricos e, até, raciais, são responsáveis pela chamada segregação urbana, ou segregação sócio espacial. No Brasil, é comum ver essa segregação e, certamente, você já deve ter observado alguns exemplos. São favelas, habitações em áreas irregulares, áreas invadidas e cortiços.

A segregação urbana está muito relacionada à segregação social, que, por sua vez, fez história na complicada luta de classes. A população mais pobre, segregada, acaba residindo em áreas mais afastadas e menos acessíveis. São lugares, na maioria das vezes, sem condições adequadas de saneamento básico, com pouca ou nenhuma disponibilidade de infraestrutura, tais como pavimentação, e sem espaços de lazer.      



CENTRO E PERIFERIA
Já esteve no centro de uma cidade? E na periferia? Quais são as principais diferenças que você observa? Feche os olhos e tente imaginar...

Há algumas décadas, quando duas pessoas acabavam de se conhecer era comum a pergunta: de que bairro você é? Ou então: onde você mora? Isso ainda acontece hoje, mas as dimensões são tão maiores que há bairros desconhecidos a maioria.

Há algum tempo atrás, dizer o bairro ou a região onde mora sempre trazia uma certa relação com a classe social a qual pertencia. Muita gente, nessa hora, sentia orgulho. Mas, também diversas outras pessoas sentiam-se excluídas e inferiores por dizerem que residem em bairros violentos, sem condições básicas de habitação e até, sem transporte coletivo disponível para ir e vir. Tanto é que, até hoje em dia, há pessoas que preferem passar o endereço de familiares quando precisam deixar registrado no currículo o local de moradia. O motivo? Vergonha e, até, por acharem que sofrerão com o preconceito, já que para muitos, quem mora em regiões mais pobres pode “trazer problema”.

Como desmistificar essa relação? Como equilibrar, em termos de percepção espacial, as regiões da cidade?


COMO TUDO SE DESENROLA
As cidades, em grande parte das vezes, crescem à partir de um espaço central, onde as classes economicamente mais abastadas passam a viver. Geralmente, são espaços mais caros e valorizados. O tempo passa, esses espaços crescem e ganham mais moradores, tornam-se sobrecarregados e inchados e, consequentemente, novos subcentros vão se formando. As pessoas vão se mudando e se adaptando.

Transporte, praças, comércios, áreas de lazer. Geralmente, os grandes centros contam com uma infinidade de opções. Essas regiões oferecem empregos para pessoas que nem sempre residem por ali. Daí tem-se o aumento do transito e o inchaço dos espaços. Enquanto isso, nas bordas das cidades, observa-se o crescimento desordenado de bairros periféricos, favelas e moradias irregulares, como por exemplo, as construídas em áreas de preservação ou próximas de rios.


SEGREGAÇÃO: INVOLUNTÁRIA OU VOLUNTÁRIA
Engana-se quem acha que todas aquelas pessoas que moram em áreas irregulares estão ali conscientes dos riscos e por vontade própria. Não! Na maioria das vezes, essa população carente está ali por necessidade e por falta de opção, desconhecendo os impactos e os perigos de construir uma moradia, por exemplo, num barranco. 

Nesses casos, a segregação é chamada de involuntária, ou seja, não ocorre de forma planejada. São problemas sociais e econômicos que favorecem essa situação. Diferentemente do que acontece com a segregação voluntária, ou auto segregação. Nesse último caso, observa-se grupos economicamente mais ricos buscando distancia do inchaço dos centros urbanos e passando a morar em locais mais ou menos afastados, geralmente em grandes e luxuosos condomínios residenciais.


ASSIM CRESCE UMA CIDADE
Nas cidades existem áreas como centros comerciais, financeiros, bairros industriais, residenciais, além de bairros com grande número de casas e outros que abrigam uma grande quantidade de estabelecimentos de diversão, tais como boates, bares e restaurantes.         

Toda grande cidade conta com vários polos, compostos em essência, de um centro e uma rua de maior destaque, na qual diversas atividades são desenvolvidas, tais como serviços e comércio. Com o aumento da população e da própria cidade observa-se uma precarização das relações e dos serviços na maioria dos países capitalistas. O fato é que quanto maiores as disparidades socioeconômicas entre as classes sociais, maiores são as diferenças nas moradias, nos serviços públicos e na qualidade de vida.

É sabido que a população de baixa renda precisa e depende da qualidade dos serviços públicos para conseguir ter qualidade de vida, tanto na área da educação, como na saúde, transporte coletivo, dentre outros. E, para que isso de fato aconteça, é preciso que tais serviços sejam executados adequadamente.


DRAMÁTICA MUDANÇA
O informe da Organização das Nações Unidas (ONU), de 2016, chamado “Urbanização e Desenvolvimento: Futuros Emergentes” trata da “dramática mudança para a vida urbana” e traça um retrato equilibrado das oportunidades e dos desafios que gera o fato de 50% da população do planeta viver em zonas urbanas.

Segundo o informe, enquanto as cidades surgiram nos últimos 20 anos como plataformas econômicas para a produção e inovação, que ajudam milhares de pessoas a escapar da pobreza com melhores empregos e qualidade de vida, a urbanização em massa também causou superpopulação, aprofundamento das desigualdades e uma enxurrada de problemas ambientais e sanitários.

“A mudança dramática para a vida urbana tem profundas implicações para o consumo de energia, a política, o progresso humano e a segurança alimentar”, destacou a primeira edição do Informe Mundial das Cidades, editado pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat). Embora parte da mudança seja positiva, a urbanização mal planejada pode gerar desordem econômica, congestionamento, contaminação e distúrbios civis, alerta o estudo.

Apesar de prever que dois terços da população mundial viverão nas cidades até 2030 e produzindo até 80% do produto interno bruto mundial, o informe demonstra que o modelo de urbanização atual é “insustentável” em muitos aspectos.

Na medida em que a população urbana aumenta, a superfície ocupada pelas cidades cresce a um ritmo maior. Projeta-se que até 2030 a população urbana dos países em desenvolvimento duplicará, enquanto o território abrangido pelas cidades poderá triplicar.

O informe da ONU reconhece que a urbanização oferece grande oportunidade para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), mas alerta que, embora em algumas cidades esteja acontecendo o que em Nova York ficou conhecido como “renascimento urbano”, na maior parte do mundo esse não é o caso.


HIERARQUIA DAS CIDADES
Nem todas as cidades se desenvolvem de maneira idêntica. Elas são diferentes não somente pelo número de habitantes, mas também pela concentração de serviços nelas contidos. As metrópoles surgem nesse contexto de muita gente habitando um mesmo espaço. Assim, os grandes centros urbanos abrigam empresas e serviços de alto padrão e sofisticação. Já esteve em um lugar assim?

Metrópoles são grandes aglomerações urbanas que concentram um enorme contingente populacional, além de sediarem indústrias, comércio em geral, universidades, centros de pesquisas, hospitais de referência, bancos e instituições financeiras, repartições públicas, empresas de comunicação, como rádio, TV, jornais impressos, entre outros.

Em geral, as cidades médias não contam com toda essa variedade de serviços como os disponíveis nas metrópoles. Mas, essa lógica vem sendo questionada por especialistas, que apontam que a globalização tem modificado esse cenário, abrindo as portas das cidades médias para essa ampliação no consumo de bens e serviços e um verdadeiro rearranjo urbano.

O fato é que uma cidade se destaca em diferentes níveis de acordo com a função e o grau de importância que exerce em escala regional ou nacional em relação aos outros centros urbanos, independentemente do tamanho.

Aqui no Brasil, a hierarquia das cidades é composta por: metrópoles, cidades de grande, médio e pequeno porte.


DO CAMPO PARA A CIDADE
Entre as décadas de 1960 e 1990, o Brasil viveu um intenso movimento migratório. A população que residia no espaço rural, ou seja, no campo, deslocou-se para as áreas urbanas. Isso também aconteceu em outros países, mas o fato é que aqui nos países latino-americanos esse processo, conhecido como êxodo rural, foi bem acelerado. Foi à partir de 1950, especialmente nos estados da região sudeste, que a industrialização ganhou força. A expectativa de emprego atraiu muitos trabalhadores rurais de diversas partes do país em busca de melhores condições de vida na cidade. Outro fator que contribui para o êxodo rural, e o consequente aumento da população urbana, foi a mecanização no campo e a consequente substituição da mão de obra humana por máquinas, levando muita gente e sair do campo em busca de melhores condições na cidade.

Como consequência, observa-se o crescimento da segregação urbana. Essa população que migra do campo para a cidade, por causa dos altos custos, não consegue morar em locais mais próximos do centro das cidades. Em razão disso, é obrigada a ocupar áreas cada vez mais periféricas e sem a devida estrutura urbana.  

Daí surge o desemprego. Sabe aquela história de expectativa versus realidade? Nem sempre estão totalmente alinhadas. Nem sempre a expectativa em relação ao trabalho se concretizava. A ausência de qualificação profissional e de escolaridade fez com que o ex-trabalhador rural tivesse dificuldade de encontrar trabalho na cidade. Como se sabe, a oferta de trabalhadores é maior que a de postos de trabalho, as pessoas que migraram do campo para sobreviver na cidade realizam trabalhos de baixa qualidade e entram para o mercado informal. É a solução para muitas famílias, especialmente nas grandes cidades.

Segregação e desemprego – ou subemprego – contribuem para a chamada favelização, observada desde o início do êxodo rural, já que as populações tiveram que, muitas vezes como única alternativa, construir e ocupar habitações em áreas irregulares e de risco, o que contribuiu para o crescimento das favelas em muitas metrópoles brasileiras.


COMPLEXIDADE
Somada a toda essa situação complicada, tem ainda a questão da mobilidade urbana e do transporte público. Complicado não é mesmo? Um verdadeiro caos é observado nas grandes cidades devido à falta de planejamento e adequação à transformação demográfica. É consenso entre os especialistas que o investimento em infraestrutura viária e em veículos e equipamentos para o transporte de passageiros não acompanhou o ritmo de crescimento da população e a necessidade de deslocamento das pessoas.

Para que possamos continuar a viver nas cidades é preciso toda uma reforma. Um pensar diferente sobre o espaço urbano de modo a torna-lo mais sustentável. Há pesquisadores, empresários e muitos outros players pensando nisso. Apesar de tantos outros ainda estarem tentando reinventar a roda, tem sim muita gente com o olhar no futuro e ciente de que se a sustentabilidade não estiver na base das relações, ou seja, se não forem considerados os aspectos sociais, ambientais e econômicos, nada avança de forma estruturada e positiva para a continuidade da vida na Terra.


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