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Urbanização: o futuro das cidades
 
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A Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou, em maio de 2018, uma nova edição do World Urbanization Prospects, relatório que faz uma análise aprofundada sobre a vida nos grandes centros urbanos do planeta.  O estudo chegou à seguinte conclusão: 68% da população mundial viverá em cidades até 2050. Chama atenção ainda outra projeção que diz que 86% das pessoas serão habitantes de países subdesenvolvidos.

O fenômeno das superpopulações nos países periféricos teve seu início na segunda metade do século 20. Foi neste momento que indústrias e empresas multinacionais começaram a se proliferar em busca de mercados emergentes que ofereciam fácil acesso a matérias-primas, mão de obra barata e farto mercado consumidor. Em decorrência disso, países como o Brasil passaram a experimentar os processos de metropolização que culminaram em megacidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

Graças ao crescimento desordenado aliado à falta de planejamento e políticas públicas eficazes de urbanização e combate à desigualdade social, essas cidades têm enfrentado vários problemas como alta taxa de criminalidade e aumento da população miserável.

Sabe-se que, durante os séculos 18 e 19, as grandes cidades da Europa também atravessaram períodos críticos permeados por cataclismas sociais devido às altas taxas de aglomeração urbana e péssimas condições de trabalho. As reformas e revitalizações urbanas (tanto em regiões centrais como periféricas, tradicionalmente esquecidas pelas administrações públicas), além de políticas de ordenamento e controle foram o meio que essas cidades encontraram para buscar soluções e melhorar a qualidade de vida de seus habitantes.

O resultado pode ser visto nos dias de hoje. Cidades como Paris e Londres continuam sendo grandes megalópoles, mas já não figuram entre as mais populosas. Atualmente – com exceção de Tóquio – são as cidades localizadas em países subdesenvolvidos que figuram no topo dessa lista.

No mundo todo, existem 29 megacidades com mais de 10 milhões de habitantes e 44 cidades que têm entre 5 e 10 milhões de habitantes. Entretanto, quando se observa a distribuição territorial, essas cidades ocupam apenas 2% da superfície do planeta, o que não diminui em nada, o impacto global que elas produzem devido à demanda de recursos que concentram 70% de todo o Produto Interno Bruto (PIB), mais de 60% do consumo de energia, 70% das emissões de gases de efeito estufa e 70% dos resíduos.

Pensando em modelos de cidades sustentáveis e propostas para amenizar o impacto ambiental, em outubro de 2016 foi realizada em Quito, no Equador, o Habitat III, a Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável. Neste encontro, as delegações presentes assinaram um documento que teve como objetivo nortear a urbanização sustentável pelos próximos 20 anos.

O texto-base da agenda diz que é impossível pensar na sustentabilidade do planeta sem pensar na sustentabilidade das grandes cidades e seu atual padrão de consumo desenfreado que tem como consequência a perda da biodiversidade, a poluição, desastres ambientais e, até mesmo, as mudanças climáticas.

Além da questão ambiental, outros desafios urbanos passaram a ser considerados pelos estudiosos. A convivência humana é um dos fatores que entrou no radar dos especialistas, visto que, segundo dados da ONU, a partir de 2020, a população global passará por uma transformação inédita: o número de adultos acima dos 65 anos irá ultrapassar o número de crianças com menos de cinco anos. E assim será gradativamente: os mais velhos continuarão aumentando enquanto os mais jovens diminuindo. A estimativa é de que, em 2050, a população com 65 anos ou mais, represente 15,6% da população mundial, enquanto os com menos de cinco anos representem 7,2%.

A saúde e o bem-estar das cidades durante as próximas décadas estão intrinsecamente ligados a um planejamento urbano que torne essas cidades mais cordiais para a nova configuração da população mundial. Diferenças culturais, comportamentais e de gênero também deverão ser levadas em conta. O fluxo de pessoas entre as cidades já é um dado concreto, seja por opção como é o caso das migrações em que indivíduos buscam uma vida melhor ou forçadas, como é o caso dos refugiados. Esses movimentos mudam os cenários das cidades, criando novos contextos políticos, econômicos e culturais.

No seu texto-base, o Habitat III, enxerga a diversidade cultural como uma fonte de enriquecimento para a humanidade, que pode trazer contribuições para o desenvolvimento urbano sustentável, sendo considerada um estímulo aos padrões de consumo e de produção sustentáveis.

Existem ainda quatro pré-requisitos fundamentais da expansão urbana planejada, descritos no relatório, que devem ser seguidos pelos países signatários. São eles:
  1. Tomada eficaz de decisões políticas que seja forte o suficiente para administrar diferenças, disputas por terra e conflitos de interesse. A urbanização planejada exige legitimidade, confiança e Estado de Direito.
  2. O entendimento do espaço público como bem comum mais importante.
  3. A compreensão de que deve haver uma transição da urbanização espontânea para a urbanização planejada, que exige uma forte competência do governo, tanto no nível nacional como local.
  4. Capacidade técnica adequada para planejar, desenvolver e administrar a cidade, assim como capacidade institucional, já que o desenvolvimento e a gestão das cidades só podem ser garantidos por estruturas legais e administrativas fortes.

Para os planejadores urbanos – muitos dos quais estavam presentes na cúpula do Habitat III – o Brasil ocupa uma posição paradoxal entre os países emergentes, já que, por um lado, possui cidades reconhecidas por sua excepcional inovação e, por outro, é um dos países mais desiguais do mundo. Segundo dados da ONG Oxfam Brasil, o país passou de 10º para 9º colocado entre os 189 países mais desiguais do mundo.

Ainda com relação à inovação de suas cidades, o Brasil está – literalmente – no meio do caminho do processo de construir cidades inovadoras e mais atraentes para se viver. É o que evidenciou o ranking Connected Smart Cities da consultoria Urban Systems lançado em junho de 2016. De todos os tópicos avaliados no estudo, as cidades brasileiras alcançaram resultados satisfatórios em apenas metade.

Um dos fatores que contribuiu para o desempenho mediano do país foi o corte de investimentos de muitos municípios em saúde, inovação e urbanismo, devido à crise econômica, o que acabou afetando na qualidade de vida dos brasileiros. Dentro desse panorama, impulsionada por uma política de mobilidade urbana, São Paulo liderou o ranking das cidades mais inteligentes e conectadas do Brasil.

São Paulo - Processo de urbanização canalizou os rios que faziam parte do Vale do Anhangabaú, na região central (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)



CIDADES MAIS INCLUSIVAS: UM ENORME DESAFIO
Tendo começado cedo seu processo de urbanização, em meados do século 20, o Brasil obteve níveis de concentração populacional em cidades muito superiores aos vistos na Ásia e na África durante o mesmo período. Entre os anos de 1970 a 2000, o sistema urbano do país recebeu mais de 80 milhões de pessoas. Esse processo acabou gerando vários problemas como o crescimento desordenado das cidades, a falta de infraestrutura adequada para as populações mais pobres, além de um grande contingente de desempregados (principalmente entre os jovens) e a consequente entrada de trabalhadores no mercado informal.

Nesse contexto, a questão da moradia se tornou um dos problemas mais agudos do cenário brasileiro, causando vários conflitos entre as autoridades e a sociedade civil, além, é claro, do já previsto impacto ambiental. A autoconstrução – casas erguidas pelos próprios moradores para suprir sua demanda imediata por uma residência – é a resposta para a falta de políticas públicas habitacionais, além de assentamentos sem condições mínimas de saneamento básico e as devidas adequações de segurança. O perigo constante de deslizes de habitações situadas em barrancos e encostas que, nas épocas das chuvas de verão, são responsáveis pelas mortes trágicas de muitos moradores das comunidades periféricas, torna a situação ainda mais calamitosa.

Condições precárias de vida nas grandes cidades brasileiras e latino-americanas chamam a atenção para um dado pouco animador da América Latina: apesar de ser o continente mais urbanizado do planeta (80% da população – cerca de 450 milhões de pessoas – vivem em cidades), a maioria dessas cidades não possui um planejamento urbano eficiente e tem carência de desenvolvimento em infraestrutura.

Os recentes avanços sociais e econômicos da América Latina não vieram acompanhados de um melhor planejamento dos grandes centros urbanos e os efeitos já podem ser sentido pelos seus habitantes: transporte público e privado caótico, urbanização sem respeito aos códigos de construção civil, a escassa prestação de serviços públicos, a deterioração dos espaços, etc.

Em entrevista ao jornal El País, Santiago E. Arias, especialista em planejamento urbano do Banco Mundial disse que a América Latina deveria passar por um planejamento mais estratégico e sustentável que, por um lado, mitigasse problemas existentes, como o risco de deslizamentos em morros ou falta de capacidade nos sistemas de drenagem, e por outro, que adaptasse as cidades para que estas fossem mais resilientes em relação às ameaças climáticas.

Ainda segundo especialistas, o planejamento urbano é crucial para a manutenção de uma qualidade de vida que dê suporte aos negócios, à indústria e ao comércio, sem mencionar a vida diária. Esse planejamento deve incluir serviços básicos de gerenciamento como água, eletricidade, saneamento e mobilidade. Isso incluiria a criação de um espaço residencial e comercial.

Há uma estimativa de que sejam necessárias 250 milhões de unidades habitacionais em 2030 nos 12 países que detêm 61% da população global. Essa alta evolução da necessidade de moradias evidencia cada vez mais as serventias de prédios de altura média e grande como lugares para morar e trabalhar. Esses edifícios ocupam menos espaço, enquanto comportam controle de energia centralizado e inteligente.

O desenvolvimento de novas propriedades comerciais e residenciais apresenta grande oportunidade de melhorar a maneira como as cidades são organizadas, pois a tecnologia atual facilita prédios altos mais limpos, ecologicamente corretos e econômicos.

Além da questão da moradia, vários outros segmentos da administração pública são levados em conta quando se pensa em uma cidade do futuro. Segundo o Cities in Motion Index (Índices Cidades em Movimento), uma pesquisa feita anualmente pela Business School University of Navarra, existem dez dimensões do desenvolvimento urbano para as cidades inteligentes e sustentáveis. São elas: Economia, Meio Ambiente, Segurança, Coesão Social, Gestão Pública, Planejamento Urbano, Tecnologia, Mobilidade, Capital Humano e Governabilidade.

Segundo o Index, quando todas essas dimensões funcionam de maneira complementar, temos uma cidade mais inclusiva. Sua mais recente pesquisa mostrou um fraco desempenho das cidades brasileiras. São Paulo ficou posicionada na 124ª posição entre 181 importantes cidades do mundo analisadas, seis posições abaixo de Porto Alegre, a cidade melhor classificada do país.


UM FUTURO CADA VEZ MAIS CONECTADO
Segundo a empresa multinacional de serviços online, Google, a partir de 2020 uma nova onda se fará presente nas grandes cidades do mundo. Estima-se que, a partir deste ano, os jovens da Geração C (conectada) comecem a entrar efetivamente no mercado de trabalho. São jovens que já nasceram com um celular ou tablet na mão e vivem imersos no mundo digital.

Os números chamam atenção: 67% dos membros da ‘Geração G’ colocam suas fotos na internet; 85% veem o que seus amigos e colegas pensam antes de tomar uma decisão; 88% têm um perfil em uma rede social, e 65% atualizam-no diariamente; e, por fim, 91% dormem ao lado do seu smartphone.

O modo como essas pessoas moldam suas relações pessoais e sociais e lidam com tecnologia irá impactar diretamente na maneira como o mercado de trabalho passará a ser vista. Entre as previsões para as grandes cidades do futuro está a reinvenção do trabalho remunerado, com grande parte dos membros dessa geração trabalhando online, se destacando na produção de conteúdos digitais nas redes sociais. Pequenos empreendedores irão criar “micro-multinacionais” usando as plataformas digitais.

Segundo o especialista transacional da Secretaria das Nações Unidas, Teemu Alexander Puutio, no futuro haverá novas configurações de relações de trabalho e as megacidades estarão na vanguarda desse movimento. Para Teemu, essas novas empresas “micro-multinacionais” deverão se expandir pelo planeta como companhias globais. Trata-se de um conceito amplo. Qualquer pequeno negócio que venda produtos a milhares de quilômetros de distância, por meio de uma plataforma digital, poderá ser enquadrado nessa nova categoria.

Ainda, segundo Teemu, alguns dos empregos do futuro ainda não foram criados, mas outros estão crescendo pouco a pouco na internet, como é o caso de treinadores e acompanhantes digitais, que serão pessoas reais que cobrarão para jogar videogame ou por outros serviços prestados em rede, de forma global, sem restrições geográficas.

Nessa nova dinâmica, os deslocamentos e a questão habitacional também serão afetados, já que grande parte da população não terá um ambiente de trabalho imóvel e poderá viver em comunidades onde se sintam identificadas com o espaço e os demais moradores. As cidades se tornariam cada vez mais independentes dos poderes centrais. Além disso, a digitalização garantiria criar cidades mais inteligentes na formalização de contratos, atuando diretamente no recolhimento de impostos e, até mesmo, nas eleições.


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