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Vitória-régia, planta da região amazônica
 
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 PLANTAS AQUÁTICAS Imprimir Enviar Guardar
 
  As folhas da Vitória Régia podem atingir 2 m de diâmetro e suportar até 40 kg de peso. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

É possível encontrar diversas espécies de vegetais que estão aptos para viver em ambientes aquáticos, tanto dulcícola quanto marinho. Podendo ocorrer submersas ou na superfícies da água, as plantas aquáticas, também chamadas de hidrófitas, apresentam uma série de alterações estruturais quando relacionadas às plantas terrestres.

Dentre suas classificações existem plantas parcialmente submersas ou helófitas que são as que apresentam raiz fixada no fundo, porém parte do caule e folhas ficam rigidamente expostos. O exemplo mais reputado do grupo das Nymphaeaceae são as vitórias-régias que podem medir mais de dois metros de comprimento foliar que flutua livremente na superfície.

De acordo com o Dicionário Barsa da Língua Portuguesa a vitória-régia define-se por “planta aquática da família das ninfeáceas, subfamília das ninfeoideas, da Amazônia, com enormes folhas de limbo flutuante provido de um rebordo marginal, flores brancas, tornando-se rosadas, e fruto aculeado; maruru”. Além de ser conhecida mundialmente pelo fato de ser uma das maiores plantas aquáticas do mundo, a Victoria Amazônica apresenta um exuberante aspecto ornamental nativo na região da Amazônia.

Todavia, seu nome mais popular surge a partir da iniciativa de um pesquisador inglês que levou as sementes para serem plantadas, nos jardins do palácio real em Londres. Lá, a planta recebeu o nome de Vitória, em homenagem à famosa rainha do fim do século XIX.

Os povos indígenas locais conhecem-na pelos nomes de Uapé, Aguapé-assú, Jaçanã ou Nampé; os índios guaranis a chamam de Irupé. Ademais, narram a lenda da vitória-régia


A LENDA DA VITÓRIA-RÉGIA
Originada na cultura indígena tupi-guarani, a lenda da vitória-régia é uma narrativa nacional que discorre sobre a lua (Jaci, para os índios) e sua característica de deusa que, ao cair do crepúsculo, beijava e enchia de luz as faces das mais belas índias da aldeia - conhecidas por cunhantãs-moças. Segundo relatos da lenda, a lua vez ou outra se escondia por trás das montanhas trazendo para seu esconderijo as moças de sua maior afinidade transformando-as em estrelas.

Nesta aldeia, uma linda jovem índia da tribo, a guerreira Naiá, sempre estava a sonhar com a oportunidade de encontrar Lua, a deusa que transforma índias em estrelas. Apesar de apresentar motivação muito forte a possibilidade de poder ser uma estrela, os anciãos da tribo alertavam Naiá afirmando que depois de seu contato com a tão esperada deusa, as moças índias perdiam todo seu sangue e sua carne, tornando-se luz - estrelas no céu.

Entretanto, mesmo com tal informação não houve alguém que pudesse impedi-la de continuar perseguindo a deusa com o objetivo de ser luz. À noite, percorria todas as montanhas, atrás da Lua, sem jamais tê-la encontrado.

Uma vez, tendo parado para repousar à beira de um lago, viu em sua superfície a imagem da deusa amada: a lua refletida em suas águas. Cega pelo seu sonho, lançou-se ao fundo e se afogou. A Lua quis recompensar o sacrifício da bela jovem india, e resolveu transformá-la em uma estrela diferente de todas aquelas do céu.

Transformou-a então numa "Estrela das Águas", única, que é a planta vitória-régia. Assim, reza a lenda, nasceu uma linda planta cujas flores perfumadas e brancas só abrem à noite, e ao nascer do sol ficam rosadas.


DECIFRANDO A VITÓRIA-RÉGIA
Este símbolo da Amazônia é uma da maiores plantas aquáticas do mundo e inclusive tema de uma das lendas mais conhecidas do norte do Brasil, ademais apresenta curiosidades como o fato dela florescer e frutificar. Segundo especialistas e estudiosos da vitória-régia, ela não se espalha por meio dos insetos e sim através das correntes que levam as sementes para outros locais. Ainda, seus frutos têm aparência de uma espiga de milho.

Em palavra do cientista e pesquisador, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Dr. Carlos Alberto Cid Perreira “a flor da vitória-régia permanece fechada durante quase todo o dia e só abre com o pôr-do-sol, porque sofre influência da luz solar. Além disso, a polinização é feita especificamente por um besouro - Dynastydae - que é atraído pelo aroma da flor. Esse cheiro é uma armadilha que atrai o inseto, à noite, que acaba ficando preso dentro da flor, de dia. Para se libertar, o besouro come as ‘paredes’ do interior da flor, sem danificar o ovário com sementes recém fecundadas, e voam levando pólen nas asas para outras flores, iniciando o transcurso da polinização”.

Na natureza, a vitória-régia ocorre por toda a região amazônica em águas paradas de lagos e paranás de rios de águas barrentas. A planta tem duas faces: a externa, que fica sobre a linha d’água, e a interna, que fica submersa. Sua folha tem formato arredondado e pode alcançar até dois metros de diâmetro. Suas bordas alcançam entre cinco e dez centímetros e são agentes de proteção. Por fim, há na face de cima poros que servem como escoadouros da água da chuva. Além da região amazônica, esta planta é cultivada em jardins da Europa.


OS SEGREDOS DA VITÓRIA-RÉGIA
Relatos históricos apontam que, por volta do ano de 1837, Robert Hermann Schomburgk (1804-1865) foi quem descobriu a planta em uma expedição que passou pela costa brasileira. O expedicionário, de naturalidade alemã, levou sementes da vitória-régia para a Inglaterra e as plantou no jardim de um palácio inglês. Os ingleses deram esse nome a planta em homenagem à Rainha Vitória (1837-1901).

Outro destaque curioso para a ‘forno-de-jacaré’ ou ‘oxibata’ é justamente essas denominações que estão ligadas ao formato da vitória, pois o modelo de sua folha lembra um forno de fazer farinha de mandioca o que justifica o nome forno-de-jacaré, forno-d’água. Já o segundo modo de nomeá-la diz respeito ao fato da planta ser considerada sagrada entre os rituais da cultura afro-brasileira.

Sobre sua eficácia em suportar peso, apesar da superfície fina está pode ser considerada com um exemplo bem sucedido de “engenharia natural”. As nervuras salientes na parte inferior da folha são como vigas que dão à base estrutural a superfície vegetal.

Mesmo sendo considerada aquática a Victoria amazônica evita o acúmulo de água sobre sua superfície. Devido a esse fator biológico, possui mais de 11 canais por cm² que são auxiliares no escoamento da água da chuva, por exemplo. As bordas laterais das folhas também impedem o regresso da água do lago dando vazão a ela por meio de duas fendas laterais de uma canaleta central.

Tudo da planta é aproveitado, semente e rizoma são comestíveis, ricos em ferro e amido. A folha é utilizada por indígenas como laxante além de ter propriedades cicatrizantes. Por mais, algumas tribos usavam-na para colorir-se.


A IMPORTÂNCIA DA VITÓRIA-RÉGIA A NATUREZA
De acordo com o grupo Jardim Botânico Patrimônio Nosso (Jbpn) “nenhuma planta pode ser simplesmente categorizada como boa ou ruim, mas quando o ambiente aquático está sendo utilizado para captação de água ou geração de energia, e também de acordo com a região, tipo ou tamanho do ecossistema aquático esses adjetivos são aplicados. Contudo, termos como estes empregados pelo Homem, são difíceis de serem aplicados ecologicamente devido às inúmeras interações das plantas aquáticas com outros organismos e com o ambiente”.

A importância da planta aquática verifica-se, inicialmente, em seu potencial de ser um alimento para muitos organismo sendo base na cadeia alimentar. Sua incidência em ambientes aquáticos amplia a estrutura de tais localidades transformando-a em refúgio para desova. além do mais, atuam na captura e liberação de nutrientes do sedimento e da água e formam micro-habitats para organismo que são invisíveis a olho nu.

Semira Adler Vainsencher (1948), pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), argumenta que é válido registrar que as cápsulas da vitória-régia, cheias de sementes, irão se conservar nas entranhas das águas dos lagos, a cada mês de agosto.

A começar daí, na medida em que adquirem ação dos raios solares, elas se enterram no lodo cada vez mais e enrigessem. Tais sementes representam uma fonte de alimento para os índios. E as aves da região também as apreciam. Estas últimas, por fim, voando em bandos, espalham as sementes da vitória-régia por todos os lugares onde passam. Além de conter beleza e perfume, a vitória-régia possui uma raiz - um tubérculo que equivale ao cará.


PLANTA ALIMENTÍCIA NÃO CONVENCIONAL
As Plantas Alimentícias Não Convencionais (Panc) são plantas ou partes delas que, apesar de serem comestíveis, não são usufruídas frequentemente pela comunidade como alimento. O termo PANC’s foi proposto pelo professor, pesquisador e botânico Dr. Valdely Ferreira Kinupp em sua tese de doutorado em Fitotecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

Apesar da diversidade de PANC’s no Brasil, esse modo alternativo de alimentação não está efetivamente consolidado. Poucos fora do norte do país sabem, mas a vitória-régia é uma planta alimentícia não convencional. O “Manual de hortaliças não-convencionais”, lançado em 2010 pelo Ministério da Agricultura, compila 23 espécies vegetais com partes comestíveis que auxilia no uso e na parcial identificação de PANCs.

Quando se fala em vitória-régia como PANC pode-se citar o uso das flores, para fazer geleia, salada, para decorar pratos. Outrossim, tem uma pétala bem carnosa. Outro uso dela é o milho, as sementes que estão dentro de um fruto grande que a planta, símbolo da amazônia, tem e é similar ao milho, porque ele estoura e vira uma pipoca, normal e de um tamanho mais ou menos padrão. Pipoca de Vitória Amazônica. Logo, se faz pipoca é possível fazer farinha, mingau e outros produtos a partir dessa semente.

Por fim, a partir do que foi desenvolvido, fica claro a importância que a vitória-régia, planta símbolo da Amazônia, exerce em diversas áreas específicas do cotidiano de todos. Apesar disso a planta é totalmente carente de estudos químicos e nutricionais. O que se sabe sobre a Vitória Amazônica são seus nomes populares e que são ricas em amido.


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Vitória-Régia

Amazônia

Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)

Biodiversidade.