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Fidel Castro morre aos 90 anos
 
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 FIDEL, O REVOLUCIONÁRIO QUE DESAFIOU OS EUA Imprimir Enviar Guardar
 
  FOTO: Michel Gangne /AFP Photo

A morte do revolucionário Fidel Castro, um dois mais importantes líderes mundiais das últimas décadas, provocou inúmeras e diferentes reações. Boa parte da esquerda mundial se despediu dessa figura exortando as inúmeras conquistas que seu governo obteve em Cuba. Já a direita, além de celebrar a morte do comunista, como ocorreu nas ruas de Miami, onde vive uma comunidade de refugiados cubanos, aproveitou o fato para apontar os inúmeros problemas que o regime castrista produziu em Cuba.

Aos 90 anos, Fidel Castro morreu no dia 25 de novembro, às 22h29 da noite, em Havana (que equivale às 3h29 da madrugada de sábado em Brasília). O governo de Cuba decretou luto nacional durante nove dias.

Castro chegou ao poder durante o réveillon de 1958, quando ele e revolucionários como Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos, derrubaram o governo de Fulgencio Batista – Fidel entraria triunfalmente em Havana no dia 8 de janeiro de 1959, onde fez um discurso para milhares de cubanos. Após a vitória, Fidel acabaria comandado Cuba durante quase cinco décadas. Depois dele, o poder na ilha passaria a seu irmão mais novo Raúl Castro, atual presidente de Cuba.

Durante os primeiros anos do governo de Fidel, Cuba passou a ter como principal aliada a antiga União Soviética. Essa relação quase produziu, Em 1962, uma Terceira Guerra Mundial, no episódio que ficou conhecido como Crise dos Mísseis, o qual envolveu Cuba, a União Soviética e os Estados Unidos. Fidel estava, de certa forma, respondendo ao governo de John F. Kennedy, que, em 1961, decidiu encerrar as relações diplomáticas e, meses depois, ajudou um grupo de milicianos cubanos em uma fracassada tentativa de derrubar o governo comunista. Essa invasão ficou conhecida como “Ataque à Baía dos Porcos”. Desse momento em diante, Fidel, em resposta ao golpe apoiado pelos EUA, se aproximou do governo soviético. Em função dessa aproximação, Fidel e o então presidente russo, Nikita Kruschev, acabaram formando uma aliança que ajudaria a tornar ainda mais delicadas as relações internacionais durante a Guerra Fria.

O resultado dessa proximidade entre cubanos e soviéticos levou a uma parceria que acabaria sendo revelada pelo serviço secreto norte-americano. Em 1962, os EUA tornaram públicas inúmeras imagens que indicavam a instalação de diversos mísseis capazes de carregar ogivas nucleares em Cuba. Em razão dessa descoberta, entre os dias 16 e 29 de outubro de 1962, foram feitas várias negociações a respeito dessas bases. Ao final, Kennedy e Kruschev chegaram a um acordo e os russos decidiram retirar os misseis de Cuba. Segundo vários analistas internacionais, esse momento foi o mais próximo que o planeta chegou de uma guerra nuclear – somente em dezembro de 2014, após décadas de antagonismo entre Washington e Havana e depois de 18 meses de conversações secretas entre representantes de ambos os governos Raúl Castro e Barack Obama, um acordo entre os dois países foi elaborado com a ajuda do Papa Francisco. Em uma reunião oficial no Panamá, os dois líderes fecharam um acordo. Ao final, o presidente norte-americano afirmou durante uma coletiva que a Guerra Fria havia acabado.

Nos anos seguintes, com o desmantelamento da União Soviética, Fidel acabou se aproximando mais de outros líderes como Hugo Chávez, Nelson Mandela e Lula. Apesar das crises enfrentadas pela ilha caribenha, o líder comunista permaneceu no poder até 2011, quando ele finalmente deixou o posto de secretário-geral do Partido Comunista de Cuba. Anos antes, em fevereiro de 2008, Fidel havia também deixado o cargo de presidente, no qual ficou seu irmão Raúl.

Após todo esse tempo no comando da ilha caribenha – Fidel Castro só perdia para a rainha Elizabeth II em total de permanência no poder –, o líder cubano deixou legados bons e ruins. Entre eles estão: a falta de liberdade política na ilha e a completa inexistência de um setor industrial, as quais, paradoxalmente, existem lado a lado com altos índices de desenvolvimento humano que, segundo a ONU, colocam Cuba no primeiro lugar da América Latina e Caribe no ranking da educação e em segundo no índice de esperança de vida ao nascer.

Em entrevista ao site El País, o escritor Frei Beto, afirmou que com a morte de Fidel “morre o último grande líder do século 20. O único que sobreviveu ao êxito da própria obra: a revolução cubana. E líder uma nação que há mais de 50 anos resiste à pressão dos Estados Unidos. Fica faltando apenas a suspensão do bloqueio econômico. O legado que ele deixa é inestimável. Uma nação de quase 12 milhões de habitantes, com muitos problemas, claro, mas que têm os direitos mais básicos assegurados: alimentação, saúde e educação. E hoje Cuba exporta professores e médicos para mais de 100 países, inclusive o Brasil. É um homem que, estejamos ou não de acordo, com as ideias e posturas, tornou Cuba uma nação soberana. Ocupa um território pequeno, mas um país onde qualquer coisa que acontece todo mundo presta atenção”.

O velório de Fidel em Cuba foi acompanhado por milhares de pessoas. No dia 28 de novembro, milhares de cubanos se reuniram na Praça da Revolução para se despedir de líder comunista. Curiosamente, essa cerimônia de adeus ocorreu no mesmo dia em que o primeiro voo comercial ligando os EUA à Havana, partindo de Nova York, aterrissava na capital cubana, fato que não acorria há mais de 50 anos.


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