ENTENDER O MUNDO/ARTIGOS TEMÁTICOS
Fidel Castro, por Marco Antonio Villa
 
Conheça
 
    ARTIGO      
 TEXTOS ESPECIAIS Imprimir Enviar Guardar
 
  FOTO: Michel Gangne /AFP Photo

O professor e historiador brasileiro Marco Antonio Villa escreveu o perfil de Fidel Castro, para a seção Quem Foi Notícia do Livro do Ano 2009, da Enciclopédia Barsa. O artigo, reproduzido a seguir na íntegra, já na nova ortografia, saiu nas páginas 94 e 95 da obra.

A republicação, no site Barsa na Rede, desse artigo, de valor enciclopédico atemporal, reforça a missão da Barsa como marca do conhecimento, ao conciliar as novas tecnologias com o rigor e a confiabilidade de sempre.


FIDEL CASTRO
Ao renunciar, em 19 de fevereiro de 2008, Fidel Castro tornou-se o dirigente político latino-americano que por mais tempo dirigiu um país. Renunciou mas não convocou eleições ou fez algum tipo de consulta popular. Transferiu o governo para seu irmão, Raúl Castro. Esta estranha transição tem história. Cuba, desde a vitória da revolução, em 1959, foi paulatinamente construindo um regime socialista. Inicialmente, o movimento que derrotou a ditadura de Fulgêncio Batista era amplo, incluindo desde liberais até os comunistas. Mas logo nos primeiros anos o regime foi se estreitando e a partir de 1962 não havia mais dúvida: era o primeiro governo comunista das Américas. O advogado Castro, que iniciou sua militância política no movimento estudantil defendendo causas democráticas, que foi preso após liderar o assalto ao quartel Moncada (26 de julho de 1953), fez sua própria defesa no tribunal da ditadura, permaneceu 22 meses preso, foi anistiado, buscou refúgio no México, onde fortaleceu a organização do Movimento 26 de Julho, criado em 1954, preparou e treinou um grupo guerrilheiro para, em dezembro de 1956, invadir a ilha e iniciar uma revolução — no grupo estava o médico e revolucionário argentino, Ernesto Che Guevara, que Fidel tinha conhecido no México. Depois de dois anos de guerrilha e do desgaste da ditadura de Batista, em 1º de janeiro de 1959, colunas de guerrilheiros começaram a ocupar Havana e o ditador fugiu para o exílio.

O exercício da liderança castrista foi marcada pelo velho caudilhismo latino-americano — autoritário, centralizador, despótico — temperado com a ortodoxia dos partidos comunistas de tradição soviética, que tiveram na organização stalinista suas matrizes. No caso cubano, o Partido Comunista nasceu depois da revolução, em 1965, com a fusão do Movimento 26 de Julho, do Diretório Revolucionário e do Partido Socialista Popular. Mesmo assim, o Partido Comunista Cubano em nada diferiu dos PCs da Europa Oriental. Manteve a mesma estrutura hierárquica, impermeável à democracia interna e seguidor fiel da doutrina marxista-leninista. Em momento algum, o PCC defendeu eleições livres, pluripartidarismo ou alternância no poder. Pelo contrário, o partido, juntamente com a estrutura repressiva de Estado, asfixiou a sociedade civil. Em meio século de regime revolucionário, as liberdades democráticas foram sacrificadas, os direitos individuais não foram respeitados, a censura impediu que os meios de comunicação pudessem noticiar e comentar os fatos políticos e a cidadania transformou-se em palavra oca, sem sentido prático.

Durante alguns anos, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, quando a bilionária ajuda anual soviética permitiu que o regime adotasse algumas medidas sociais, especialmente em relação à educação e a saúde, o governo teve certa legitimidade por parte dos cidadãos. Mesmo assim, os opositores foram tratados com mão de ferro. Milhares de cubanos foram presos e centenas foram fuzilados pelos chamados tribunais revolucionários. O medo e o terror impediram manifestações abertas de oposição. Para muitos só restou fugir da ilha. E esta aventura foi compartilhada por milhares de cubanos: a maioria deles em busca de asilo nos Estados Unidos, especialmente no estado da Flórida.

A direção castrista da economia cubana — pois na ilha nada era decidido sem a participação direta de Fidel Castro — foi catastrófica. Antes de 1959, Cuba sobrevivia da produção e exportação da cana-de-açúcar e do fumo, de uma pequena exploração de níquel e do turismo, este muito vinculado aos cassinos que, em sua maioria, eram controlados pela Máfia norte-americana. Tentou-se no início dos anos 1960 um processo de industrialização — e Che Guevara teve participação importante, pois foi, durante um período, ministro da Indústria e Comércio — que acabou fracassando. Depois a ênfase foi centrada na obtenção de uma safra recorde de cana-de-açúcar em 1970: 10 milhões de toneladas. Todos os esforços do país foram concentrados para alcançar este objetivo. Milhares de estudantes, trabalhadores urbanos, funcionários do Estado foram deslocados para o campo para colher a safra recorde. E apesar de toda a mobilização, o resultado esteve bem abaixo do planejado, e os efeitos da desorganização econômica permaneceram por vários anos. Só restou se alinhar ainda mais à União Soviética, o que dava solidez econômica e principalmente militar ao regime.

O voluntarismo econômico — fácil de ser adotado pois havia a cobertura soviética que sustentava o país, comprando os produtos cubanos a preços superiores ao do mercado internacional e vendendo petróleo e outras mercadorias para Cuba a preços subsidiados — também se estendeu à política externa. Nos anos 1960, o governo cubano apoiou politicamente, materialmente e financeiramente os grupos guerrilheiros que atuaram em diversos países da América Latina. Todas as guerrilhas na América Latina tiveram algum tipo de relação com Cuba — deve ser recordado que Che Guevara tentou organizar um grupo guerrilheiro na Bolívia, com apoio direto do governo cubano — como é sabido, acabou fracassando e morreu em 9 de outubro de 1967. O governo cubano criou a Olas (Organização Latino-americana de Solidariedade), em 1966, que serviu como instrumento para viabilizar o apoio logístico às guerrilhas. Todos os movimentos guerrilheiros foram derrotados e serviram para ampliar ainda mais o terrorismo de Estado das ditaduras da região, boa parte delas sustentada com apoio explícito dos Estados Unidos.

Na década seguinte, Cuba teve participação direta nos assuntos internos africanos, especialmente na guerra civil angolana e no conflito da Etiópia e Somália. Entusiasmado com as participações nestes conflitos, Castro se lançou à presidência, em 1979, do Movimento dos Países Não-alinhados. Contudo, sua tentativa de ter maior presença mundial foi prejudicada com o aparecimento dos movimentos em defesa da democracia nos países do Leste Europeu, dominados pelas burocracias comunistas. Já em 1968, Castro apoiou a invasão das tropas soviéticas que acabaram com a Primavera de Praga, movimento liderado na então Tchecoslováquia por Alexander Dubcek e que buscava um comunismo com algum espaço de liberdade. Nos anos 1980, a Polônia acabou tendo um importante movimento democrático liderado pelos trabalhadores: foi o Solidariedade, que unia diversas forças opositoras ao regime comunista local. Fidel também apoiou as pressões soviéticas contra a Polônia e o golpe militar que levou ao aprofundamento da repressão.

O alinhamento com a União Soviética permaneceu até o final dos anos 1980. Só acabou por iniciativa soviética, pouco antes da queda do Muro de Berlim, em 1989. Mikhail Gorbatchev, dirigente soviético, cortou grande parte da ajuda econômica que era enviada anualmente à ilha. A desagregação da União Soviética e da Europa Oriental não mais permitia — ou justificava — o dispêndio de bilhões de dólares para manter o regime castrista. Desde então, Cuba vive, o que foi chamado pelo governo, de período especial, com graves restrições econômicas, desmonte dos sistemas educacionais e de saúde, aumento da miséria e da criminalidade. Restou ao governo retornar às bases da economia pré-revolução: a produção de cana-de-açúcar e o turismo. Mas, claro, mantendo a repressão política, que é indispensável para a manutenção da ordem comunista.

Raúl Castro tenta garantir a permanência do regime (e dos privilégios da classe dirigente) em meio a um mundo completamente distinto daquele da Guerra Fria, quando foi vitoriosa a revolução. Por outro lado, parte dos movimentos opositores ao castrismo deseja o retorno à situação pré-revolucionária, o que poderá levar a eclosão de uma guerra civil. O desafio será encontrar uma solução negociada, uma transição para a democracia e que tenha a participação de todos os setores políticos de Cuba. O primeiro passo já foi dado: a renúncia de Fidel Castro.


Marco Antonio Villa é Historiador, escritor, comentarista da Jovem Pan, TV Cultura. Professor da Universidade Federal de São Carlos (1993-2013) e da Universidade Federal de Ouro Preto (1985-1993). Bacharel (USP) e Licenciado em História (USP), Mestre em Sociologia (USP) e Doutor em História (USP). Autor de vários livros, entre os quais Jango, um Perfil (2004) e Vida e Morte no Sertão. História das Secas no Nordeste nos Séculos XIX e XX (2000).