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Os limites entre estética e saúde
 
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Não há dúvidas de que vivemos num mundo cheio de mensagens e estímulos contraditórios. Somos empurrados para um estilo de vida cada vez mais sedentário e para uma alimentação pouco saudável, rica em gorduras, açúcares e conservantes, entre outros ingredientes artificiais que minam nossa saúde diariamente. O resultado é um número cada vez maior de pessoas sofrendo com problemas como obesidade e diabetes. Ao mesmo tempo, os padrões de beleza se tornam cada vez mais rígidos e com metas de magreza e formas quase impossíveis de serem atingidas. E é desse impasse que surgem muitos dos problemas de saúde com os quais nos deparamos nos dias de hoje, pois corpo e mente acabam por ser afetados nesse jogo.

CONSUMO
O fato é que nos mantemos consumindo: seja para obter prazer imediato por meio de comida pouco saudável, seja para tentar atingir metas de beleza que nunca conseguiremos atingir. Atividades físicas, dietas, chás, shakes, suplementos alimentares, intervenções estéticas, cirurgias... vale tudo pra tentar obter um corpo admirado por todos.

Os modelos apresentados pela mídia estão cada vez mais parecidos uns com os outros, uniformizando e limitando nossas percepções, sem valorizar a diversidade humana. Nós nos comparamos a imagens tratadas no computador com as quais nunca nos pareceremos, pois são muito distantes da aparência de um ser humano comum. A fórmula é simples: você se mantém insatisfeito, você se mantém consumindo para tentar suprir essa insatisfação.

Acabamos por nos esquecer de que o que se entende por beleza nada mais é que do um padrão social arbitrário, que passa por constantes modificações ao longo dos tempos. Basta observar quadros antigos para perceber que nem sempre o corpo magro foi considerado o ideal de beleza.


PERCEPÇÕES DISTORCIDAS
Além disso, vive-se numa constante e inevitavelmente frustrada luta contra o envelhecimento, que deixa de ser visto como um processo natural da vida e passa a ser visto como o grande inimigo da beleza e da realização pessoal. O fato de que a experiência de vida nos oferece conhecimento e sabedoria e de que existe beleza nesse processo é ignorado em favor da ideia de alegria, vitalidade e prazer imediato associada à juventude.

O sobrepeso, por sua vez, passa a ser visto não mais como uma característica física, mas como uma falha de caráter. E embora o estilo de vida de um atleta profissional não represente um benefício para o corpo, uma vez que este é submetido a um estresse constante, que conduz a lesões e prejuízos, atletas são vistos como heróis e reforçam a ideia de dinamismo, atividade e produtividade que compõe o que se acredita ser o caminho para o sucesso. O gordo representaria o contrário de tudo isso.


DIETAS
O tipo de alimentação a que somos submetidos não ajuda muito, pois nos mantemos comendo produtos industrializados e processados que não raro contêm ingredientes nocivos à saúde. Açúcares e carboidratos simples são altamente consumidos, conferindo prazer imediato, mas causando picos de glicemia e proporcionando ganho de peso, sem, no entanto, garantir todos os nutrientes necessários ao corpo. Entre os problemas ligados à alimentação, podemos citar: sobrepeso, desnutrição, hipovitaminoses, diabetes, dislipidemia, entre outros.

Entre o desejo de um corpo magro e uma alimentação inadequada, surge a urgência de perder peso a qualquer custo, o que pode ser mais um grande problema. As dietas muito restritivas, somadas ao excesso de exercícios, buscando resultados rápidos, além de pouco saudáveis, pois não contêm todos os nutrientes de que o corpo precisa, são também difíceis de serem seguidas a longo prazo e são frequentemente abandonadas, gerando mais frustração com o corpo e consigo mesmo.


TRANSTORNOS DE IMAGEM
Existe uma falsa ideia de que quanto mais magro o corpo, mais saudável. E isso nem sempre corresponde à realidade dos exames médicos. Muitas vezes, para atingir um ideal, as pessoas se submetem a dietas muito rigorosas, intervenções invasivas ou submetem corpo e mente a um stress constante, que pode resultar em depressão ou até mesmo em distúrbios como bulimia (compulsão por comer, seguida de purgação para perder peso, como provocar vômito), anorexia (obsessão pela perda de peso) e vigorexia (prática excessiva de exercícios físicos). São transtornos de imagem, aqueles em que a pessoa enxerga imperfeições que não existem no próprio corpo, tendo uma percepção de si mesma completamente diversa da realidade compartilhada com as demais pessoas.

Para superar experiências devastadoras como essas, é necessário buscar a ajuda de profissionais como psicólogos, médicos e nutricionistas, além de contar com o apoio e compreensão da família e de amigos.


A QUALQUER CUSTO
Além de dietas e atividades físicas, existem procedimentos médicos mais invasivos para atender às demandas dos pacientes em relação à aparência do próprio corpo. É o caso da lipoaspiração, da cirurgia bariátrica (redução do estômago), do implante de silicone e do hidrogel, por exemplo.

O Brasil é um dos países em que mais se recorre a cirurgias plásticas estéticas no mundo, chegando a liderar o ranking em pesquisa divulgada em 2014 pela Sociedade Internacional de Cirurgias Plásticas e Estéticas (Isaps, na sigla em inglês). Isso evidencia uma ligação muito forte do brasileiro com o mundo das aparências, que pode acabar fortalecendo mais o “ter” e o “parecer” do que o “ser”.

Como esses procedimentos são caros, isso acarreta mais um problema, o de muitas pessoas que se submetem a eles em clínicas clandestinas e duvidosas com profissionais não qualificados e com materiais inadequados. Os resultados podem ser desde graves sequelas, como infeções e necroses, ou até a morte.

Muito utilizados por homens, existem ainda os esteroides anabolizantes, que resultam no aumento rápido da massa muscular, proporcionando a aparência de um corpo bastante musculoso em pouco tempo de treino. Estas substâncias, no entanto, são medicamentos que devem ser usados apenas com indicação médica, podendo causar graves danos à saúde, como alterações na voz e câncer.


EQUILÍBRIO
Não existe uma fórmula pronta. Na hora de traçar os objetivos em relação ao condicionamento físico, por exemplo, é importante levar em conta peso, massa corporal, altura, idade, sexo, fatores genéticos, estilo de vida etc. E embora existam referências que podem e devem guiar a avaliação de cada corpo, é importante levar em consideração particularidades, desejos e percepções individuais.

Não existe nada de errado em se preocupar com a própria aparência e ser influenciado pelos padrões de beleza vigentes. É normal que isso aconteça, pois fazemos parte da sociedade. Só precisamos estar atentos para estabelecer uma relação mais próxima com as necessidades dos nossos próprios corpos e não perder o discernimento em relação o que nos é apresentado como ideal. Auto-observação e autorrespeito são fundamentais quando queremos nos aproximar da saúde física e mental e não da mera necessidade de agradar o outro. Cada caso é diferente e cada pessoa deve experimentar e refletir para descobrir o melhor caminho para si mesma.


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