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Desperdício de alimentos
 
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 O INCRÍVEL DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS Imprimir Enviar Guardar
 
 
Ao redor do mundo, grande quantidade de alimentos está sendo jogada fora por não se enquadrar em duvidosos critérios estéticos. Ao mesmo tempo, movimentos em diversos países buscam evitar tamanho desperdício e lojas especializadas em alimentos descartados pelas grandes redes de supermercado são criadas como contraponto à cultura da perfeição.

NÚMEROS DIFÍCEIS DE ENGOLIR
Dados oficiais do governo dos Estados Unidos e relatos de produtores, comerciantes, pesquisadores e ativistas estadunidenses revelam um fato surpreendente: no país, cerca de 50% de todos os alimentos frescos produzidos nas fazendas e plantações locais não chega às mesas da população, pois ou é jogada fora durante o trajeto que vai dos produtores agrícolas aos supermercados ou é simplesmente deixada nos campos para apodrecer.

O motivo? Não são alimentos perfeitos, isto é, suas formas não são geometricamente simétricas ou as frutas e legumes em questão possuem pequenas marcas que as tornam “feias” e sem compradores.

Esses alimentos acabam então sendo utilizados para alimentar criações de gado ou encaminhados para aterros sanitários ou usinas de compostagem onde são incinerados.

Uma pesquisa do governo estadunidense chegou a números astronômicos: 60 milhões de toneladas avaliadas em 160 bilhões de dólares estariam sendo desperdiçadas anualmente, apenas nos Estados Unidos. Esse número representaria 1/3 de todos os alimentos produzidos no país.

Produtores rurais, no entanto, afirmam que os números são maiores, pois os dados da pesquisa governamental seriam os de alimentos jogados fora pelo comércio, restaurantes e consumidores, sem levarem em conta os alimentos que nem chegam aos mercados, descartados nos próprios locais onde são produzidos. Tudo contabilizado, o desperdício alcançaria a incrível marca de metade dos alimentos produzidos pela agricultura no lixo.

Em termos globais, as cifras são ainda maiores: 1,6 bilhões de toneladas no valor de 1 trilhão de dólares. O espaço agrícola reservado para a produção desses alimentos representa 30% da terra agricultável do planeta, ou seja, estamos usando um terço de nossas plantações para produzir alimentos que serão jogados fora.

No Brasil, o desperdício também é grande. De acordo com pesquisa realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Empresa), em 2014, os brasileiros jogavam fora 40 mil toneladas de alimentos diariamente. Toda essa comida poderia alimentar 19 milhões de pessoas segundo os pesquisadores da Embrapa. Ao contrário dos Estados Unidos, no entanto, boa parte desse desperdício ocorre durante o preparo de refeições.


FOME E POLUIÇÃO
O desperdício de alimentos implica também em outras duas questões graves: fome e poluição. O diretor do International Food Policy Research Institute, organização dedicada a pesquisas relacionadas com produção e consumo de alimentos e sede em Washington, Shenggen Fan, acredita que até 10% da população dos Estados Unidos passe fome: “Existem muitas pessoas famintas e mal-nutridas, incluindo pessoas que vivem nos EUA. É por isso que o desperdício e a perda de alimentos é uma coisa importante. As pessoas ainda passam fome no mundo”.

Além disso, o desperdício de alimentos é responsável por 8% da poluição climática global, mais do que paises altamente poluidores como Índia e Rússia. Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, comida jogada fora é o principal produto presente nos lixões do país. Esses alimentos produzem gás metano ao apodrecerem, muito mais tóxico e prejudicial do que o mais conhecido dos gases de efeito estufa, o dióxido de carbono.

Por todos esses motivos, a Organização das Nações Unidas (ONU) estipulou uma meta ousada para seus paises-membros: reduzir em 50% o desperdício global de alimentos até o ano de 2050. A data foi estabelecida com um outro dado em mente: até o mesmo ano de 2050, o crescimento populacional exigirá um aumento de 60% na produção de alimentos para que os níveis atuais de fome no mundo não se agravem ainda mais.


FREAKONOMICS ALIMENTAR
Apesar do apelo da entidade intergovernamental, o objetivo não será alcançado sem que muitos obstáculos sejam superados. O desperdício de alimentos, por incrível que possa parecer, interessa à rede varejista. De acordo com Roger Gordon, fundador da Food Cowboy, empresa estadunidense especializada na recuperação e reaproveitamento de alimentos descartados por defeitos “estéticos”, se o objetivo de redução de 50% no desperdício fosse alcançado, o lucro dos comerciantes com produtos frescos cairia à metade devido às questões econômicas envolvidas na oferta e procura de alimentos e a fatores logísticos e de escala relacionados ao comércio de alimentos frescos.

Segundo relatos de produtores agrícolas, muitas vezes, as redes varejistas – em especial, as maiores e com maior poder de compra junto aos fornecedores – se recusam a comprar um carregamento de um produto agrícola qualquer quando, em meio a dezenas de caixas de alimentos frescos encontram alguma caixa com legumes ou verduras “defeituosos”.

De acordo com os agricultores, isso ocorre, na verdade, porque os estoques dos mercados ainda estão cheios ou eles não tiveram boas vendas nos últimos dois ou três dias. Como nenhum vendedor quer brigar com um grande comprador, os produtos acabam descartados pelo agricultor se ele não consegue um novo comprador, algo raro nessas ocasiões.


O QUE IMPORTA É A NUTRIÇÃO INTERIOR
Alguns supermercados, no entanto, já criaram seções destinadas à venda de alimentos “feios” por preços mais em conta. Até mesmo no Brasil, é comum encontramos essas seções, em geral, com alimentos próximos do vencimento.

Nenhum país, porém, faz tanto quanto a Dinamarca. Desde 2010, diversas iniciativas resultaram na redução do desperdício de alimentos em 25%. E tudo começou com uma página no Facebook.

A designer gráfica moscovita Selina Jull havia se mudado há pouco para o país, em 2010, e ficado intrigada com o desperdício que presenciava nas casas e locais públicos de sua nova residência. Na Rússia, segundo ela, “havia falta de alimentos e as pessoas faziam filas para comprá-los”. Em sua página, ela dava dicas contra o desperdício – algumas tão simples quanto recomendar que se faça uma lista antes de ir ao supermercado para não comprar comida em excesso – e reclamava de promoções comuns nos supermercados do país do tipo “pague 2 e leve 3”.

Aos poucos, outras pessoas se associaram à sua campanha e foi formada a ONG Pare de Desperdiçar Comida. Surgiram então bancos comunitários de alimentos nos quais voluntários recolhem comida que supermercados, restaurantes ou hotéis jogariam fora e os vendem a preços simbólicos para qualquer pessoa interessada e cozinhas que preparam refeições grátis com ingredientes obtidos dos mesmos locais que os bancos de alimentos.

A tecnologia também auxilia os dinamarqueses a reduzir o desperdício de alimentos e a economizar. É costume, no país, em fins-de-semana, freqüentar buffets onde se paga um valor fixo e se come à vontade. Nesses locais, é fácil imaginar o desperdício é grande. Foi criado, então, um aplicativo que avisa o usuário de buffets próximos a ele que estão próximos do horário de fechamento. As pessoas podem, então, dirigir-se ao local e comprar o equivalente a uma caixa de alimentos por um custo muito abaixo do que teriam de gastar em um supermercado comum para a mesma quantidade de comida.


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