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Jogos Indígenas
 
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Os Jogos dos Povos Indígenas representam uma tradição milenar. As mais de 200 etnias que vivem hoje no Brasil, em suas culturas, tinham seus esportes antes da chegada dos portugueses ao território nacional. No entanto, desde o encontro com os europeus, as populações indígenas do Brasil e do resto do continente americano sofreram enormes injustiças. Por exemplo, em 1492, a região tinha milhões de habitantes. A Cidade do México, capital do império asteca, possuía nessa época cerca de 200 mil habitantes. No mesmo período, Paris tinha aproximadamente 150 mil moradores. Esses povos também viram desrespeitadas suas tradições, entre as quais estavam as disputas esportivas.

Hoje, o Brasil, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), possui 305 etnias, a maioria delas com tradições milenares de disputas esportivas. Apesar dos números e da inegável importância em preservar essas tradições, foi somente na década de 1980 que esse esforço começou a ocorrer.

Foi para tentar unir esses povos e preservar suas culturas que os irmãos Carlos e Marcos Terena decidiram organizar os Jogos Indígenas na década de 1980. A ideia era dar visibilidade para as diferentes tradições dos vários povos que habitam o país. O evento, que eles chamavam de Olimpíada Indígena, só conseguiu apoio do governo federal muitos anos depois, na década de 1990. Até então, não havia um mecanismo que pudesse resgatar e incentivar as práticas das tradições indígenas em sua essência.

A primeira versão oficial dos Jogos Indígenas ocorreu em 1996, na cidade de Goiânia, em Goiás. Contou com o apoio do então ministro dos Esportes, Pelé, e da Funai (Fundação Nacional do Índio). Depois, outras edições dos Jogos aconteceram em Guaíra, em 1999; em Marabá, em 2000; em Campo Grande, em 2001; em Marapanim, em 2002; em Palmas, em 2003; em Porto Seguro, em 2004; em Fortaleza, em 2005; em Recife e Olinda, em 2007; em Paragominas, em 2009; em Porto Nacional, em 2011; e em Cuiabá, em 2013.

Atualmente organizado pelo Comitê Intertribal Indígena e contando com o apoio do Ministério do Esporte, o evento reúne centenas de atletas.


MODALIDADES
Os irmãos Terena, após visitarem diversas aldeias, conseguiram preparar a primeira ideia de como seriam as disputas. Eles criaram então uma lista de competições. Tempos depois, tais modalidades acabaram sendo utilizadas pelo Ministério dos Esportes nos Jogos Indígenas. Elas são as seguintes:

Akô: prova de velocidade muito parecida com o revezamento 4x400m do atletismo. Praticada pelos povos Gavião Parkatêjê e Kiykatêjê, originários do sul do Pará. Consiste em duas equipes de atletas (uma formada por homens casados e outra por homens solteiros) que correm em círculo. O revezamento é feito com a passagem de uma espécie de bastão de bambu de mão em mão. Ganha a equipe que fizer as voltas e a passagem de bastão mais rápidas;

Corrida de tora: prova disputada por atletas homens e mulheres dos povos Xavante, Krâho, Kanela e Gavião Kyikatêjê. Vence a equipe que carregar a tora mais rápido;

Jãmparti: corrida de tora praticada por atletas homens e mulheres dos Gavião Parkatêjê e Kiykatêjê do sul do Pará. Obedece praticamente os mesmos rituais de outros povos, mas há uma peculiaridade: o uso de toras com peso superior a 100 quilos e diâmetro com mais de 1,60 m, que são carregadas por apenas dois atletas. É realizada sempre no fim das corridas de tora tradicionais;

Jawari: esporte praticado exclusivamente pelos povos indígenas habitantes do Alto Xingu, localizado no Mato Grosso. É jogado com 15 ou mais atletas de cada lado, em campo aberto de tamanho similar ao do futebol. Cada time se posiciona agrupado. Um atleta de cada lado, simultaneamente, sai à frente de sua equipe com uma flecha sem ponta, como que dançando para arremessar ou evitar ser acertado pelo oponente que está à frente. Quem for acertado está fora do jogo. A equipe que ficar com o último representante em campo ganha a partida, a qual é feita após um ritual do canto tradicional yawari tulukay, em que as mulheres participam. No final da disputa todos os envolvidos dançam e cantam juntos;

Kagot: jogo praticado pelos povos Xikrin e Kayapó do Pará, assemelha-se ao Yawari, porém com algumas características peculiares, típicas do grupo que fala a língua do tronco Macro-Jê. É uma atividade com flecha, jogada com 15 ou mais atletas de cada lado, em campo aberto de tamanho similar ao do futebol. Após os cantos e danças, o jogo se inicia com as equipe divididas e agrupadas uma de frente para outra. Um guerreiro de cada equipe vai ao centro do campo – ambos com uma flecha sem ponta na mão. Eles atiram as flechas um no outro. O adversário que for atingido sai do jogo, como ocorre na queimada. O time que ficar com o último jogador no campo vence;

Kaipy: tiro ao alvo com flechas praticado pelos povos Gavião Parkatêjê e Kiykatêjê do sul do Pará;

Katukaywa: modalidade muito semelhante ao jogo de futebol, porém, nesse esporte, o “chute” é feito somente com o joelho. É praticado pelos indígenas habitantes do Parque Nacional do Xingu, no estado do Mato Grosso;

Ronkrã: modalidade muito parecida com um dos esportes mais populares do Canadá, o lacrosse, que também possui origem indígena. Esse esporte coletivo é praticado pelo povo Kayapó, do Pará;

Tihimore: jogo de arremesso com bola de marmelo, praticado pelas mulheres do povo Paresi, do Mato Grosso;

Xikunahaty (Zigunahiti): espécie de futebol no qual os participantes só podem tocar a bola, feita de látex, de cabeça. Típica dos índios Paresi, Nambikwara e Enawenê Nawê, do Mato Grosso;

Zarabatana: arremesso ao alvo de dardos com zarabatanas, praticado pelo povo Matis, originário do Amazonas.

Entre as modalidades de lutas corporais dos Jogos Indígenas, encontramos as seguintes:

Aipenkuit: luta praticada pelo povo Gavião Kyikatêjê (somente homens), do Estado do Pará;

Huka-Huka: luta praticada pelos povos xinguanos (homens e mulheres);

Iwo: luta praticada pelo povo Xavante, do Mato Grosso;

Idjassú: luta praticada pelo povo Karajá, da Ilha do Bananal.


JOGOS MUNDIAIS DOS POVOS INDÍGENAS
Em 2015, a cidade de Palmas, no Tocantins, recebeu a primeira disputa dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (JMPI). O evento ocorreu entre 23 de outubro e 1o de novembro e reuniu mais de dois mil atletas de 24 países. Mais de 20 etnias brasileiras – como os Xerente (os anfitriões, do Tocantins), Bororo Boe (Mato Grosso), Asurini (Pará), Pataxó (Bahia) e Canela (Maranhão) – participaram dos Jogos.

Foi a primeira vez que os Jogos Indígenas contaram com tribos do continente americano, da Oceania, do continente africano e da Ásia. As disputas foram divididas entre esportes indígenas tradicionais demonstrativos e jogos nativos de integração. Também foram feitos campeonatos com esportes ocidentais competitivos. Porém, o principal motivo do evento foi atuar como uma fonte de troca de conhecimentos e na unificação das etnias e povos indígenas.


VEJA TAMBÉM

Funai.

Dia do índio, 19 de abril.

História dos povos indígenas e a formação sociocultural brasileira.