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O novo ativismo: do sofá para as ruas
 
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 O NOVO ATIVISMO Imprimir Enviar Guardar
 
 
É possível mudar o mundo a partir do sofá de casa? Para muitos internautas, a resposta a essa pergunta é sim.

Os novos ativistas desse mundo globalizado e conectado não são necessariamente ativistas no sentido clássico da palavra, isto é, militantes de organizações cujo objetivo é chegar ao poder e transformar a sociedade de acordo com sua visão de mundo e uma causa política, mas usuários de redes sociais que se utilizam de notebooks e celulares para reclamar de todo tipo de problema ou se manifestar a respeito dos mais diversos temas, até mesmo temas de natureza política.

Esses manifestantes digitais buscam, na maior parte das vezes, no entanto, soluções para problemas do dia a dia como um semáforo apagado na rua em que moram, o funcionamento ruim de um serviço público qualquer ou o boicote a alguma empresa onde tenham sido mal atendidos ou de quem tenham recebido um produto defeituoso.


DAS REDES ACADÊMICAS ÀS REDES SOCIAIS
A internet não é mais um fenômeno recente. Originalmente, um experimento destinado a unir pesquisadores de universidades norte-americanas para que pudessem trocar mensagens e documentos científicos, a mais conhecida das redes de computador, apelidada de web (rede, em inglês), por causa da sigla www (world wide web, ou rede de alcance mundial, em inglês) presente na grande maioria dos endereços eletrônicos dos sites presentes na rede, permite um alcance praticamente ilimitado a qualquer dos seus conteúdos há mais de uma década. Atualmente, tudo que for publicado na web pode, em tese, ser visto, lido ou ouvido no mundo todo, quer se trate de uma imagem, um texto ou um som, em segundos.

Esse poder de disseminação das informações publicadas eletronicamente deu origem a muitas páginas eletrônicas de pessoas que defendem as mais diversas causas, da defesa do meio ambiente a plataformas políticas. Além das páginas pessoais, a maior parte delas localizada em provedores de blogs – palavra derivada da abreviação de outro termo técnico em inglês, weblog, isto é um log (registro de incidentes) divulgado na web (rede) –, logo surgiram novas formas de registro de opiniões pessoais ou de grupos nas chamadas redes sociais.

Nas redes sociais, é possível registrar não somente os incidentes do seu dia a dia, mas compartilhá-los com outros usuários da rede por meio de comentários, mensagens, imagens, sons e vídeos. A mais antiga das redes sociais, a Usenet, é pouco lembrada, hoje em dia, mas teve entre 1979, quando foi criada, e 2011, quando finalmente saiu do ar, milhões de mensagens trocadas entre milhares de usuários. Durante esse período, inúmeras redes sociais surgiram e desapareceram, a mais popular delas, em especial no Brasil, chamava-se Orkut. Atualmente, as redes sociais mais conhecidas e utilizadas são Facebook e Twitter.


O PODER DAS REDES SOCIAIS
A história de Sameer Bhatia, um empresário do ramo da informática, nascido na Índia e vivendo nos Estados Unidos, ilustra o alcance das redes sociais, no século XXI. Em 2007, em viagem à Índia, Sameer sentiu-se muito mal, mas creditou o mal-estar ao clima do país. De volta aos Estados Unidos, procurou um médico, fez alguns exames e descobriu que tinha leucemia. Dada sua origem, o transplante de medula óssea que ele precisava realizar com urgência tinha poucas chances de encontrar um doador compatível, pois eram poucos os indianos que faziam parte do banco de dados de doadores dos EUA.

Seu sócio fez então o que muitas pessoas fazem quando precisam de ajuda: mandou um e-mail para os mais de 400 contatos que possuía em seu catálogo de endereços eletrônicos pedindo que aqueles que fossem de origem indiana e estivessem dispostos a doar suas medulas ósseas, se inscrevessem no banco de doadores do país.

Em pouco tempo, aqueles 400 e-mails transformaram-se em milhares de novas mensagens, páginas no Facebook e vídeos no YouTube. Ao fim, a campanha promovida pelas redes sociais resultou na inscrição de 24.611 novos doadores de origem asiática no banco de dados dos EUA e em poucas semanas, Sameer recebeu a notícia de que um doador compatível havia sido encontrado.

Embora tenha recebido o transplante, o quadro de Sameer era muito grave e ele acabou falecendo em 2008. Apesar do resultado não ter sido o esperado pelo sócio que deu início à campanha, os milhares de novos doadores registrados no sistema de saúdem americano resultaram em centenas de doações de órgãos e cirurgias que, por sua vez, proporcionaram cerca de 250 vidas salvas por meio desses transplantes.


A PRIMAVERA ÁRABE
O ativismo social, porém, não se restringe a casos de ordem pessoal. Em 2010, um vendedor de rua tunisiano, Mohamed Bouazizi, ateou fogo ao próprio corpo para protestar contra a apreensão dos produtos que vendia e o tratamento humilhante a que havia sido submetido pelas autoridades locais. Apesar de socorrido, morreu 18 dias após o protesto. Nesse intervalo de tempo, porém, seu ato repercutiu enormemente nas redes sociais, em especial no Facebook, onde inúmeras páginas e posts chamavam os internautas para manifestações públicas contra o pouco popular governo do país. Com um quinto da população tunisiana presente na rede social americana, a morte de Bouazizi levou a cada vez mais páginas e posts indignados nas redes sociais e os atos públicos intensificaram-se de tal modo que no dia 14 de janeiro o então presidente tunisiano Zine El Abidine Ben Ali fugiu do país e abriu mão do cargo.

O evento provocou inúmeras manifestações digitais que, por sua vez, causaram protestos e manifestações de rua, espalhando-se pelo Norte da África e Oriente Médio no que ficou conhecido como Primavera Árabe. Em alguns casos, as manifestações acabaram transformando-se em conflitos violentos entre diferentes fações políticas e alguns países entraram em processo de guerra civil, processos ainda em andamento na Síria e no Iraque.

As manifestações na região levaram à queda de inúmeros dirigentes nacionais. Além da Tunísia que deu origem a série de detentores de cargo político derrubados do poder, Egito, Líbia e Iêmen tiveram dirigentes retirados das posições políticas que até então ocupavam. As ações populares eram organizadas e divulgadas por meio de mídias sociais e iam de greves a marchas e aglomerações de milhares de civis nas ruas das grandes cidades árabes.


EVENTOS E PETIÇÕES ONLINE
Não só de manifestos políticos vivem as redes sociais. Elas são usadas também para o agendamento de eventos e as reivindicações as mais diversas. Muitos eventos sociais, como festas, encontros de fãs de algum astro pop ou competições esportivas ou culturais são programados por meio da internet antes de ocorrerem no mundo real.

Os meios eletrônicos permitem, ainda, reclamações e pedidos feitos virtualmente. De verdadeiras correntes de e-mail a petições e abaixo-assinados preenchidos online, as reivindicações do novo século não precisam mais de papel e caneta para se materializarem: basta acessar o site de alguém suficientemente motivado a reclamar de uma empresa, um político ou uma injustiça qualquer para que você possa, unido a ele ou ela, tornar-se também um ativista digital.


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