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Intolerância religiosa quando as crenças não são respeitadas
 
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 DIFERENÇAS DE CRENÇA Imprimir Enviar Guardar
 
Ajoelhar várias vezes ao dia na direção de um local considerado sagrado para rezar, subir uma escada com centenas de degraus de joelhos, carregar uma pesada cruz em uma caminhada solitária que pode levar semanas, ficar em jejum por horas e mais horas, passar uma galinha viva ao redor da cabeça para transferir seus pecados ao pobre animal.

Essas práticas podem parecer estranhas ou incompreensíveis para muitas pessoas, mas são costumes e rituais que aqueles que acreditam em determinadas religiões seguem como se fossem a coisa mais normal do mundo.

Por trás disso está a crença em um conjunto de dogmas, símbolos e narrativas que compõem as religiões do mundo. Elas são inúmeras e se dividem, segundo especialistas, em seis grupos básicos: as religiões abraâmicas, as iranianas, as indianas, as asiáticas, as africanas e as indígenas.

Abraâmicas são as religiões monoteístas, isto é, as que reverenciam um único deus, como o cristianismo e o judaísmo, cujos devotos acreditam descender do patriarca Abraão. A religião muçulmana também é abraâmica, mas Abraão é apenas um de uma linhagem de profetas que teria dado origem a Maomé, o mensageiro de deus para os muçulmanos.

Religiões iranianas são antigas religiões, como o zoroastrismo, atualmente praticadas por minorias. As indianas são aquelas praticadas no subcontinente indiano, como o hinduísmo e o budismo. Já o taoismo e o confucionismo são religiões asiáticas, ao passo que as africanas são as que se originaram no continente africano como a religião iorubá.

Por fim, as religiões indígenas são um enorme grupo de religiões de povos nativos dos mais diversos locais do globo, como as religiões praticadas pelos nativos dos Estados Unidos, do Brasil e da Austrália, os primeiros com seus índios, a última com os aborígenes, povo originário do país localizado na Oceania.

As religiões desses grupos, entre os quais se incluem as três maiores religiões do mundo em número de praticantes – cristã (31,5%), muçulmana (23,2%) e hindu (13,8%) –, são praticadas por 88% dos mais de 7 bilhões de seres humanos da Terra. Apenas 12% da população mundial não segue uma religião ou se declara ateia, isto é, não acredita em deuses e, por isso, também não segue nenhuma denominação religiosa.

No Brasil, de acordo com o censo de 2010 do IBGE, 65% dos brasileiros se dizem católicos, 22% se apresentam como evangélicos e 2% como espíritas. Curiosamente, em um país com fortes tradições religiosas, 8% dos entrevistados pelo instituto, naquele ano, manifestaram não possuir religião.


PROSELITISMO OU INTOLERÂNCIA?
Estes brasileiros que não seguem nenhuma doutrina religiosa talvez ficassem incomodados se fossem questionados a respeito de sua opção ou se fossem estimulados a adotar algum credo religioso. Eles muito provavelmente caracterizariam seus interlocutores como proselitistas, isto é, pessoas que tentam convencer outras a adotar a sua religião.

Os primeiros padres jesuítas que chegaram ao Brasil nos tempos coloniais faziam mais do que isso, instruíam os indígenas com os quais conseguiam manter contato na doutrina da Igreja católica a fim de convertê-los ao cristianismo, em um processo que ficaria conhecido como catequização.

A propaganda proselitista ou a instrução da catequese, no entanto, podem não atingir seus objetivos. Muitas vezes, ao longo da história, essa etapa foi simplesmente pulada e grupos sociais que seguiam uma religião atacavam grupos que seguiam religiões diferentes a fim de destruí-los já que não podiam conquistá-los.

É arriscado, no entanto, caracterizar essas incursões como guerras religiosas, pois outros fatores – sociais, econômicos, políticos – estimulavam os ataques e os conflitos daí decorrentes. A religião pode, muitas vezes, ser usada como mera desculpa para um ataque cuja motivação é de outra ordem.

Assim, a linha entra a crítica a uma posição religiosa, no caso dos ateus, à sua falta de religião, e a pura e simples intolerância religiosa, ou seja, não aceitar as crenças, símbolos sagrados e práticas religiosas de um determinado grupo social, é, muitas vezes tênue, mas não é difícil de definir: recusar-se a aceitar que uma pessoa pratique uma religião diferente da sua, com todos os costumes e tradições que isso implica, ou não aceitar que ela não pratique religião nenhuma, são formas de intolerância religiosa.


A NOVA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
Nas últimas décadas, o fenômeno religioso tem ganho impulso com o crescimento das religiões evangélicas, no Brasil, e de religiões diferentes do catolicismo ou protestantismo, em especial, nos países europeus. No velho continente, com o crescimento de populações de origem árabe em países como Inglaterra e França, a religião muçulmana tem ganho destaque como fonte de conflitos ideológicos entre os antigos e os novos moradores locais.

Esses conflitos têm levado a situações tão lamentáveis quanto ataques a imigrantes e a símbolos religioso presentes em igrejas ou cemitérios de diferentes confissões, entre elas, a muçulmana e a judaica.

Até mesmo em um país pouco afetado por esse fenômeno demográfico da imigração árabe, como a Noruega, ocorreram episódios lamentáveis. Na década de 1990, várias igrejas foram queimadas por um grupo de pessoas envolvidas com grupos de uma corrente musical conhecida como black metal, variação mais agressiva do tradicional heavy metal, com letras e imagens associadas a cultos satânicos. Esses foram episódios criminosos de extrema intolerância religiosa. Os responsáveis acabaram presos e condenados pela justiça norueguesa.

No mesmo período, a França foi palco de um novo embate em torno de uma questão que para alguns é sinal de intolerância religiosa. Em setembro de 1989, três alunas de uma escola francesa de Ensino Médio foram à escola usando um tradicional lenço com o qual as mulheres de confissão muçulmana cobrem a cabeça. Na escola, pediram-lhes que tirassem o véu pois se tratava de um símbolo religioso em um ambiente laico de acordo com a constituição do país. As moças recusaram-se a fazê-lo.

No mês seguinte, o Conselho de Estado francês, que faz as vezes de Supremo Tribunal do país, acabou decidindo que o uso do véu era compatível com o caráter laico das escolas. Em dezembro do mesmo ano, no entanto, o então ministro da educação francês, Lionel Jospin, publicou uma portaria que tornava os educadores responsáveis por permitir ou não o uso do véu islâmico caso a caso. Em janeiro de 1990, novo comunicado do governo reafirmava o princípio laico das escolas francesas. Desde então, mais de 100 estudantes do sexo feminino que tentaram usar o véu nas escolas do país foram suspensas ou expulsas dos estabelecimentos de ensino que se recusam a aceitar suas vestimentas tradicionais. Em boa parte dos cados, porém, as suspensões ou expulsões forma revertidas nos tribunais, após as famílias das alunas recorrerem à justiça.

A crise financeira de 2008, uma das mais graves da história do capitalismo recrudesceu a xenofobia na Europa e tem levado a ataques contra estrangeiros, muitos dos quais são demonizados pelos habitantes locais em função da religião que seguem, em geral, pessoas de origem árabe de religião muçulmana.


LIBERDADE RELIGIOSA
A maior parte dos países democráticos, entre os quais o Brasil, são repúblicas laicas e preveem em suas constituições a liberdade de religião, ou seja, os cidadãos desses países são livres para praticar a religião que quiserem.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Organização das Nações Unidas (ONU), prevê, em seus artigos 2, 18 e 19, a proibição da discriminação religiosa e a liberdade de expressão religiosa.

Apesar disso, um relatório produzido, em 2012, pelo Pew Research Centre, um centro de estudos norte-americano, concluiu que a intolerância religiosa era disseminada no mundo: de acordo com os pesquisadores 75% da população mundial vive em países que não se esforçam para coibir a discriminação religiosa e, além disso, estabelecem medidas oficiais que limitam a liberdade religiosa.

Até mesmo países como Estados Unidos e Inglaterra estariam entre aqueles que mais promoveram a intolerância religiosa ao assediar ou intimidar grupos religiosos específicos.

Entre os países mais intolerantes, o relatório indicava o Afeganistão, a Argélia, o Azerbaijão, a Bielo-Rússia, a Indonésia, as Ilhas Maldivas, a Rússia, a Síria, a Tunísia e o Iêmen.