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Diabetes: tipos, tratamentos e prevenção
 
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 O NADA DOCE DIABETES Imprimir Enviar Guardar
 
É difícil resistir a um doce após as refeições salgadas. Segundo nutricionistas e cientistas que estudam os mecanismos da evolução do ser humano, o nosso cérebro desenvolveu um mecanismo de sobrevivência chamado de “fadiga do gosto”. Em outras palavras, buscamos os mais diversos tipos de alimento para não nos limitarmos a um pequeno grupo destes.

Afinal, nossos antepassados não possuíam a garantia de sempre encontrar os mesmos alimentos quando tinham que caçá-los ou colhê-los. Era preciso, portanto, aceitar o alimento que se encontrasse disponível. Assim, ao longo de milhares de anos, o hábito de se alimentar do que estivesse à mão converteu-se em uma necessidade fisiológica “implantada” em nosso cérebro. É por isso que, após consumirmos alimentos salgados, no almoço ou no jantar, tendemos a sentir vontade de encerrar a refeição com o gosto doce de uma sobremesa, mesmo que seja apenas uma inocente fruta ou um gorduroso quitute com bastante açúcar em sua receita. É uma forma de variarmos o tipo de alimento consumido, como nossos antepassados faziam por obrigação e nós, por herança evolutiva. O consumo excessivo de açúcar ou doces, no entanto, pode acarretar uma das mais terríveis doenças a acometer o ser humano: o diabetes mellitus.

O diabetes é, de fato, uma doença crônica, isto é, uma doença permanente para a qual não há cura, apenas tratamento.



O QUE É DIABETES?
No imaginário popular, o diabetes está associado ao consumo excessivo de alimentos doces e à incapacidade do organismo em absorver o açúcar assim ingerido. Esse raciocínio não é de todo equivocado, mas o diabetes possui mecanismos um pouco mais complexos que esses. O diabetes é, de fato, uma doença crônica, isto é, uma doença permanente para a qual não há cura, apenas tratamento. No caso do diabetes, o tipo menos comum da doença, possui caráter crônico pelo simples fato do pâncreas, uma glândula localizada no lado esquerdo do abdômen, entre o estômago e a coluna vertebral, não produzir a quantidade necessária de insulina, o hormônio encarregado pela absorção celular da glicose (açúcar) presente no sangue do corpo humano.

A doença também pode ocorrer quando, mesmo produzindo a quantidade adequada de insulina, o corpo não consegue utilizá-la. Nos dois casos, o resultado é um só: o nível de concentração da glicose no sangue aumenta, acarretando a chamada hiperglicemia, o excesso de açúcar na corrente sanguínea.

No primeiro caso, baixa produção de insulina, o diabetes é classificado como diabetes do tipo 1. No segundo caso, quando o corpo não consegue utilizar a insulina produzida, como diabetes do tipo 2. O diabetes do tipo 1 é, em geral, desenvolvido já na infância por uma deficiência congênita, isto é, herdada, do organismo. O do tipo 2, por sua vez, resulta, em geral na idade adulta, de dois fatores de risco, não somente para o diabetes, mas para uma série de doenças: peso excessivo e falta de atividade física. Um tipo mais raro de diabetes é o desenvolvido na gravidez por gestantes.


DIABETES DO TIPO 1
Os cientistas ainda não sabem porque algumas pessoas desenvolvem o diabetes do tipo 1 e não há como impedir o seu surgimento nas pessoas que possuem a potencial incapacidade de produção de insulina de forma natural. Nas pessoas acometidas com essa doença, a produção de insulina é insuficiente, pois as células do pâncreas que produzem esta substância sofrem uma destruição autoimune, mais especificamente as células beta-pancreáticas. O diabetes do tipo 1 ocorre em cerca de 5 a 10% dos pacientes com diabetes e os portadores da doença necessitam de injeções diárias de insulina para manterem a glicose no sangue em valores normais e há risco de vida se as doses de insulina não são dadas diariamente. O diabetes tipo 1, embora ocorra em qualquer idade, é mais comum ser diagnosticado em crianças, adolescentes ou adultos jovens.

Entre os principais sintomas deste tipo de diabetes estão a eliminação excessiva de urina, a sede excessiva, o apetite constante, a perda de peso, a fadiga excessiva e até mesmo alterações do sentido da visão. Um ou mais desses sintomas podem ocorrer a qualquer momento naqueles que desenvolvem a doença.


DIABETES DO TIPO 2
O diabetes do tipo 2 representa 90% dos casos de diabetes da população mundial, ou seja, o diabetes que não possui uma causa desconhecida e pode ser evitado com medidas simples, é a versão mais comum da doença por ampla margem. Esse tipo de diabetes, em que o corpo não consegue mais utilizar a insulina produzida normalmente pelo pâncreas é, em grande medida, causado por excesso de peso e falta de atividade física. Os sintomas são os mesmos do diabetes do tipo 1, mas ocorrem de forma menos acentuada. Como resultado disso, a grande maioria das pessoas que desenvolve esse tipo de diabetes só descobre que está com a doença muitos anos depois da sua ocorrência inicial no organismo, quando alguns efeitos deletérios para o corpo do paciente já estão estabelecidos e complicações de saúde começam a surgir.

Apesar de afetar adultos na maior parte dos casos, o diabetes do tipo 2 tem sido diagnosticado também em crianças e adolescentes, em geral com péssimos hábitos alimentares e sedentários. Em muitos países, o diabetes do tipo 2 em crianças chega a representar 50% dos casos da doença, segundo a OMS. Em outros, ultrapassa até mesmo essa marca. Uma pequena minoria dos casos do tipo 2, no entanto, tem origem genética. Tanto o diabetes do tipo 1 quanto o do tipo 2 são facilmente diagnosticados por meio de exames simples de sangue que medem o nível do açúcar na corrente sanguínea.

Diferentemente do diabetes tipo 1, as pessoas com diabetes do tipo 2 produzem insulina. Porém o corpo pode não utilizar a insulina de forma correta, ou os níveis de produção de insulina são insuficientes para suprir as demandas do corpo. Fazendo com que o açúcar (glicose) não seja totalmente carreado para o interior das células e, assim, aumentando a concentração desta substância na corrente sanguínea.


DIABETES GESTACIONAL
O terceiro tipo mais comum de diabetes é o chamado diabetes gestacional. Como o próprio nome indica, ele ocorre em mulheres grávidas e caracteriza-se por valores de hiperglicemia abaixo dos valores encontrados nos diabetes do tipo 1 e 2, mas um pouco acima dos valores considerados normais.

Mulheres que desenvolvem diabetes gestacional têm maiores riscos de vir a sofrer complicações durante o período da gestação ou no momento do parto. Além disso, suas chances de desenvolver o diabetes do tipo 2, no futuro, aumentam consideravelmente em relação às mulheres que não desenvolvem esse quadro na gravidez. Para descobrir se a mulher grávida está com diabetes gestacional são necessários exames pré-natais.


UMA DOENÇA PERIGOSA
A hiperglicemia é um dos efeitos mais comuns do diabetes não controlado por medicamentos e, com o passar do tempo, caso o nível do açúcar no sangue mantenha-se elevado, pode levar a graves sequelas nos sistemas biológicos do organismo, em especial, o sistema nervoso e a circulação.

As complicações decorrentes do diabetes podem ser as mais variadas. Da perda excessiva de peso a amputações de membros do corpo, o excesso de açúcar no sangue provoca uma série de complicações que, se não tratadas a tempo, podem até mesmo levar à morte.

O diabetes aumenta o risco de doenças cardíacas e acidentes cerebrais vasculares, conhecidos popularmente como AVCs. Cinquenta por cento das pessoas com diabetes morrem de doenças cardiovasculares (doenças do coração e AVCs). A redução do fluxo sanguíneo causada pelo diabetes combinada à neuropatia (danos aos nervos) nos pés aumenta as chances de úlceras nos pés, infecções e complicações que podem tornar necessário amputar dedos, pés ou membros maiores do corpo.

Outra complicação médica comum em quem não trata adequadamente o diabetes é a chamada retinopatia diabética, o acúmulo de pequenos danos nos vasos sanguíneos da retina, uma importante causa de cegueira. Um por cento de cegueira global pode ser atribuída à diabetes. O diabetes está, também, entre as principais causas da insuficiência renal em seres humanos. O risco geral de morte entre as pessoas com diabetes é, no mínimo, o dobro das que não desenvolvem a doença.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que aproximadamente 1,5 milhão de pessoas morram anualmente de complicações causadas diretamente pelo diabetes. Dos 7 bilhões de seres humanos, a diabetes afeta 347 milhões de pessoas em todo o mundo e, até 2030, a OMS prevê que o diabetes ocupe o sétimo lugar no ranking das doenças causadoras de mortes.

Essa colocação decorrerá, segundo os especialistas médicos, do aumento, em especial, da ocorrência da doença em países em desenvolvimento. As causas desse aumento ainda não foram de todo diagnosticadas, mas um dos fatores levantados como responsável pela elevação do número de diabéticos é o sobrepeso observado na população desses países.

Associado ao excesso de peso, o sedentarismo aparece como segundo fator de explicação para o rápido crescimento do diabetes em nível mundial. Atualmente, o diabetes já é uma doença característica dessas nações, pois 80% dos casos ocorrem em países com renda média anual de baixa a média.


COMO TRATAR E PREVENIR O DIABETES?
O tratamento do diabetes consiste, em grande parte, na busca da redução dos níveis do açúcar no sangue e de outros fatores de risco que podem afetar os vasos sanguíneos como os níveis de gordura no sangue (colesterol e triglicerídios, entre outros) e da pressão arterial. Deve-se, também, interromper o uso do cigarro. Alguns estudos indicam que ao fumar, o corpo sofre reações químicas inesperadas e isso pode levar ao aparecimento de diversas doenças. Com relação ao diabetes, o que ocorre é que as moléculas de nicotina se ligam a algumas células. Essa união, impede que a glicose entre nessas células. O resultado é que o organismo passa a recrutar mais insulina, fazendo com que o pâncreas passe a trabalhar sobrecarregado e de forma irregular. Situação mais do que propícia para o aparecimento do diabetes.

O diabetes do tipo 1 exige a administração diária de insulina por via intravenosa para que o organismo consiga absorver o açúcar presente no sangue, evitando assim a hiperglicemia. Já os do tipo 2 podem tratar-se com medicamentos por via oral, mas em alguns casos, também são obrigados a fazer uso das famosas injeções de insulina.

Além disso, para evitar algumas das piores complicações advindas da doença, é recomendável realizar exames frequentes para identificar uma possível retinopatia, e assim evitar casos de cegueira, exames simples de sangue para controlar os níveis do colesterol e exames um pouco mais complexos para detectar de forma precoce possíveis alterações no funcionamento dos rins e impedir que estes falhem no futuro, o que exigiria uma série de outras intervenções médicas, muito mais custosas e trabalhosas.

Não é possível prevenir o diabetes do tipo 1 já que não se sabe como e porque ele se desenvolve. O diabetes do tipo 2, por outro lado, pode ser evitado com medidas que não exigem muito de nós. São medidas não somente para evitarmos o diabetes mas para termos uma qualidade de vida melhor.

De acordo com a OMS, para prevenir o diabetes do tipo 2 e suas complicações, as pessoas devem: estabelecer dietas equilibradas, atingir e manter um peso corporal saudável e ser fisicamente ativas, praticando pelo menos 30 minutos de atividades de intensidade moderada regularmente em vários dias da semana.

Caso queiram controlar o peso de maneira saudável, devem ainda, ingerir uma dieta com 3 a 5 porções de frutas e vegetais diariamente e reduzir a ingestão de açúcar e gorduras saturadas; além disso, devem evitar o uso do tabaco, pois o tabagismo aumenta o risco de doenças cardiovasculares.


ALERTA DA OMS
Em 2016, o tema da campanha da Organização Mundial da Saúde (OMS) foi o Diabetes e a instituição lançou seu primeiro relatório global sobre a doença.

De acordo com a publicação, desde 1980 o número de pessoas vivendo com diabetes quadriplicou e alcançou os 422 milhões de pessoas (em 2014), especialmente em países em desenvolvimento. O crescimento do número de pessoas com o agravo é acompanhado do aumento de casos de obesidade e sobrepeso. Em um relatório de 2017, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia em conjunto com a OMS indica que no mundo foram 4 milhões de mortes por diabetes neste ano. Na América do Sul e México foram 209.717 adultos de 20-79 anos que morreram como resultado do diabetes (11% de todas as causas de morte). Cerca de 44,9% dessas mortes aconteceram em pessoas com menos de 60 anos de idade, metade dessas mortes foram no Brasil. Atualmente no país temos aproximadamente 12,5 milhões de pessoas com o diagnóstico de diabetes, entretanto, este número pode ser muito maior.  Estima-se que cerca de 40% das pessoas com diabetes não sabem ter a doença na América Latina.

O objetivo da OMS é chamar a atenção para a doença e para o fato de que ações de promoção da saúde, hábitos alimentares saudáveis e práticas de atividades físicas podem reduzir os fatores de risco de desenvolvimento do diabetes. Por outro lado, a instituição internacional também defende a capacitação e instrumentalização dos governos para atenderem às necessidades de tratamento das pessoas com diabetes, especialmente nos países mais pobres.


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