ENTENDER O MUNDO/ARTIGOS TEMÁTICOS
Mosquitos e suas doenças, por Moacyr Scliar
 
Conheça Enciclopédia
 
    ARTIGO      
 TEXTOS ESPECIAIS Imprimir Enviar Guardar
 
  Aedes aegypti, o responsável pela transmissão da dengue se reproduz em água limpa e parada

O médico e escritor Moacyr Scliar escreveu o artigo “Mosquitos e as doenças que transmitem” originalmente para o Livro do Ano Ciência e Futuro 2008, da Enciclopédia Barsa. O artigo, reproduzido a seguir na íntegra, já na nova ortografia, saiu nas páginas 10 a 23 da obra.

A republicação, no site
Barsa Saber, desse artigo, de valor enciclopédico atemporal, reforça a missão da Barsa como marca do conhecimento, ao conciliar as novas tecnologias com o rigor e a confiabilidade de sempre.


MOSQUITOS E AS DOENÇAS QUE TRANSMITEM


Os mosquitos, dos quais existem centenas de espécies, são insetos pequenos e frágeis, com aquelas seis patas delicadas e as duas asinhas e uma sobrevida curta: duas a três semanas. Esta fragilidade não dá ideia do perigo que representam algumas espécies em termos de transmissão de doenças. A Organização Mundial de Saúde (OMS) lista, entre as doenças mais disseminadas, três que são transmitidas por mosquitos: malária, febre amarela e oncocercose (esta uma doença causada por um parasita que pode se localizar no olho, levando à cegueira), todas transmitidas por mosquitos. Também são transmitidas pelo inseto a dengue e vários tipos de encefalite (infecção do cérebro e de outras partes do sistema nervoso central). Calcula-se que os primeiros mosquitos apareceram há cerca de 200 milhões de anos; mosquitos fósseis foram encontrados em estratos geológicos datando de 30 milhões de anos. Algumas das doenças que transmitem são antigos acompanhantes da humanidade.

Mosquitos alimentam-se de néctar e seivas vegetais, mas as fêmeas são hematófagas; necessitam de sangue para a maturação dos ovos que vão pôr. Na cabeça têm uma espécie de pequena tromba, ou probóscide, com um órgão que funciona como seringa permitindo picar pessoas ou animais e sugar sangue, processo que é facilitado por uma substância presente na saliva do inseto e que impede a coagulação do sangue. A fêmea põe ovos, destes saem as larvas, que em uma ou duas semanas se transformam em pupas e, cerca de dois dias depois, em insetos adultos. As três primeiras fases são aquáticas, detalhe importante para o controle do mosquito.

Algumas espécies de mosquitos podem espalhar-se num raio de até 50 quilômetros do lugar onde foram gerados, mas em geral o deslocamento é muito menor, em média de dois quilômetros.

A maior parte das pessoas picadas por mosquito tem apenas uma pequena reação, mas em pessoas alérgicas pode haver inchação e coceira intensa. O real problema, contudo, é constituído pelas doenças que os mosquitos transmitem. Aqui vamos falar de três delas.


MALÁRIA
A malária é uma das mais antigas doenças da humanidade (estima-se que começou a ocorrer há 50 mil anos), e uma das que mais impactos causou. A malária atrasou o desenvolvimento social e econômico de muitas regiões, sobretudo em regiões tropicais; à malária atribui-se, ao menos em parte, o declínio do Império Romano. A doença era muito frequente na região que hoje corresponde à Itália: numa época era conhecida como “febre romana”. O termo “malária” vem do italiano, significando “maus ares”. Atribuía-se a doença ao miasma, ou seja, emanações nocivas de regiões pantanosas. Foi somente em 1889 que o médico militar francês Alphonse Laveran, trabalhando na Argélia, identificou o protozoário (ser vivo que consta de uma única célula) que a causa, o plasmódio. Em 1897 o médico britânico Ronald Ross, trabalhando na Índia, encontrou plasmódios aviários em estômagos de mosquitos, demonstrando assim o papel do inseto na transmissão do protozoário. O quadro completo do ciclo de desenvolvimento do parasita da malária no homem e na fêmea do mosquito Anopheles foi obtido, entre 1898 e 1899, pelos pesquisadores italianos Amico Bignami, Giuseppe Bastianelli e Batista Grassi.

Não foram poucas as pessoas famosas que tiveram malária ou doença diagnosticada como tal: monarcas como Alexandre o Grande, Charles II da Inglaterra, Felipe V da Espanha; poetas e escritores como Dante Alighieri, Lord Byron, Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) e Ernest Hemingway; papas como Leão X, Sixto V e Urbano VII, que faleceu da doença antes de sua coroação; líderes políticos e religiosos como Oliver Cromwell, Mahatma Gandhi e Madre Teresa de Calcutá; e vários presidentes americanos: George Washington, Theodore Roosevelt (que contraiu malária durante uma visita ao Brasil em 1914) e John F. Kennedy (cuja malária foi adquirida durante a Segunda Guerra Mundial); navegadores como Cristóvão Colombo; atores como Michael Caine e Christopher Lee.

A infecção de seres humanos pelo plasmódio foi facilitada pela introdução da agricultura na África, o que ocorreu há cerca de 10 mil anos, depois do fim do período glacial, quando o planeta começou a tornar-se mais quente. No período neolítico ocorreu a chamada “revolução agrária”. A população da África subsaariana, que era formada de caçadores-coletores nômades, passou a viver em aldeias localizadas em clareiras no meio da floresta tropical, tornando-se alvo fácil para os mosquitos, que então proliferaram. Isto não aconteceu na Ásia porque ali a existência de rebanhos de animais domésticos proporcionou uma fonte de sangue alternativa para os mosquitos. A probabilidade de um mosquito picar um ser humano é ali duas vezes menor do que na África subsaariana. A doença pode ter sido trazida para as Américas pelos navegadores europeus.

Referências a doenças febris tipo malária são encontradas em antigos textos médicos da China, Oriente Médico e Índia, mas considera-se que o primeiro a descrever as manifestações da doença foi o médico grego Hipócrates (460-377 a.C.), conhecido como o “Pai da Medicina”, que também enfatizava a importância do meio ambiente na gênese de doenças. Baseados em suas ideias os romanos iniciaram a drenagem de pântanos, o que foi a primeira intervenção organizada contra a doença. Com a descoberta da América, os europeus aprenderam, com os índios peruanos, a tratar a doença com cinchona ou quina (popularizada pelos jesuítas), cujo princípio ativo é o quinino. As dificuldades no fornecimento do quinino durante a Primeira Guerra Mundial levaram pesquisadores alemães a sintetizar derivados sintéticos: a pamaquina (1924), mepacrina (1930) e cloroquina (1934).

No combate ao mosquito um passo importante foi a descoberta, em 1942, do inseticida DDT, pelo cientista Paul Muller, que por isso recebeu o prêmio Nobel. O saneamento das regiões maláricas e o uso de mosquiteiros resultaram em grandes êxitos; em países como Espanha, Itália e Portugal a malária desapareceu. A Organização Mundial da Saúde lançou em 1957 a Campanha Mundial de Erradicação da Malária; nas áreas malarígenas as casas eram borrifadas semestralmente com DDT e eram aplicadas medidas de controle de criadouros dos mosquitos (drenagem, aplicação de larvicidas), além do diagnóstico e do tratamento da malária. Por volta de 1970, este programa já tinha evitado a malária em 53% da população em risco, poupando vidas e contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico de grandes áreas, especialmente na Ásia, sul e sudeste da Europa e nas Américas.

Mas, a partir dos anos 1970 e 80, com a diminuição da atividade de controle, aumento dos custos dos inseticidas, surgimento de resistência dos anofelinos aos inseticidas (e dos parasitas aos antimaláricos), e do interesse da indústria farmacêutica em pesquisar novos medicamentos para doenças que atingem as populações mais pobres, em áreas igualmente pobres, a malária tornou-se uma doença “negligenciada”, e retornou com muita intensidade, processo que foi facilitado pelo deslocamento de pessoas de um país para outro; dos 25 a 30 milhões de pessoas que viajam para áreas endêmicas, isto é, áreas onde sempre existem casos da doença, entre 10 a 30 mil contraem malária. Em muitas partes do mundo os parasitas desenvolveram resistência à medicação antimalárica. Quarenta por cento da população mundial vive em áreas endêmicas. São 300 a 500 milhões de casos por ano em cem países (mais de 90% na África subsaariana), resultando em muito sofrimento e perda de dias de trabalho, sem falar nos 1,5 a 2,7 milhões de óbitos anuais (um número comparável às mortes por Aids), a metade dos quais em crianças menores de cinco anos. Na África apenas a região norte e a África do Sul estão poupadas. Segundo a OMS, a malária mata uma criança africana a cada 30 segundos; muitas crianças que sobrevivem a casos severos sofrem danos cerebrais graves e têm dificuldades de aprendizagem.

Na Europa e nos Estados Unidos a malária está controlada. Além da África, a doença existe na América Central e no Caribe e em boa parte da América do Sul, incluindo mais de metade do território do Brasil (Nordeste e Amazônia legal, compreendendo os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins). Na Ásia está presente na Índia, Sudeste asiático e Ásia central, Indonésia, Filipinas, sul da China e Oriente Médio. No total são cerca de cem os países afetados.

A ênfase hoje é colocada não em programas internacionais mas em programas nacionais de longo termo. Desta forma, aliando-se medidas de controle do vetor, acesso ao diagnóstico laboratorial e tratamento eficaz e imediato, tornou-se possível ao menos obter redução significativa do número de casos e, especialmente, da mortalidade por malária.

O mosquito transmissor da malária, também conhecido como pernilongo, carapanã e mosquito-prego, pertence ao gênero Anopheles. Deste gênero existem cerca de 400 espécies no mundo; 60 delas podem transmitir o plasmódio e 30 têm importância nessa transmissão. O mosquito da malária só sobrevive em áreas que apresentem médias das temperaturas mínimas superiores a 15 °C, e só atinge números suficientes para a transmissão da doença em regiões onde as temperaturas médias sejam cerca de 20-30 °C, com umidade alta. Os criadouros de mosquitos, isto é, os locais em que as fêmeas do Anopheles põem ovos, podem ser grandes lagos ou lagoas, remansos de rios e córregos, represas artificiais, valas de irrigação, alagados, manguezais e até plantas que juntam água em suas folhas, como a bromélia, também conhecida como gravatá ou caraguatá; águas poluídas só raramente poderão servir para a reprodução dos insetos. Em cidades com altitude superior a 1.500 metros o risco de malária é pequeno. Os mosquitos têm maior atividade durante o período da noite. Há risco maior de transmissão do plasmódio no interior das habitações, embora isso também possa ocorrer ao ar livre.

As espécies de plasmódio que afetam o ser humano são: Plasmodium vivax, Plasmodium falciparum, Plasmodium malariae, Plasmodium ovale. Nas quatro espécies o ciclo vital é o mesmo: a fêmea do mosquito Anopheles ingere sangue de um hospedeiro humano contendo as formas sexuadas do parasita, os gametócitos. Estes procedem à fecundação, no estômago do inseto, com a formação de um ovo, ou zigoto. Deste resultam centenas de formas infectantes (esporozoítas) que, migrando para as glândulas salivares do inseto, poderão, pela picada, ser inoculadas no ser humano. No organismo deste o parasita continua se reproduzindo, porém de forma assexuada, gerando milhares de parasitas.

O plasmódio infecta répteis, aves, roedores, macacos, mas, do ponto de vista da malária humana, só o próprio homem é importante como reservatório da doença. No caso do ser humano, além da picada do mosquito, a infecção pode resultar da transfusão de sangue contaminado ou de agulhas e seringas infectadas com plasmódios. Transmissão congênita, isto é, da grávida para o bebê, pode ocorrer, mas parece rara, apesar de o plasmódio frequentemente ser encontrado na placenta.

Ao entrar no organismo humano os parasitas multiplicam-se no fígado (esta fase não ocorre quando a transmissão é pelo sangue ou seringas) e depois entram nos glóbulos vermelhos. Entre a infecção e o aparecimento de sintomas decorre um período de dez dias a alguns meses: é o período de incubação. Segue-se o período prodrômico, que dura alguns dias e é caracterizado por sintomas vagos, semelhantes aos da gripe: dor de cabeça, dores musculares, cansaço, náusea, perda do apetite, febre baixa. E aí começa a doença propriamente dita. Manifesta-se pelos acessos maláricos, que são paroxísticos, isto é, súbitos, e correspondem à ruptura dos glóbulos vermelhos pelos parasitas. Primeiro, a pessoa sente muito frio e, apesar da alta temperatura corporal, tem calafrios que duram de 15 minutos a uma hora. Segue-se uma fase em que a pessoa sente muito calor, como se a pele estivesse queimando; tem também intensa dor de cabeça, tonturas, dores musculares. Este período dura de duas a seis horas. Finalmente há uma profusa sudorese, baixa de temperatura corporal e ao cabo de duas a quatro horas, a pessoa, exausta, adormece. Ao acordar, a pessoa pode se sentir melhor. O acesso se repete com intervalos diferentes, de acordo com a espécie do plasmódio. Com P. vivax e P. ovale os acessos ocorrem de 48 em 48 horas; com P. malariae, a cada 72 horas; com P. falciparum a intervalos de 36 a 48 horas, mas por vezes com febre ininterrupta. Em princípio, todo ser humano é suscetível à malária, mesmo aqueles que já a contraíram por diversas vezes; nestes casos, porém, a doença poderá ser mais branda. Certas doenças do sangue, principalmente de natureza genética, tornam os glóbulos vermelhos mais resistentes ao plasmódio. É o caso da anemia falciforme, assim chamada porque nela os glóbulos vermelhos adquirem a forma de foice, o que faz com que o plasmódio não “reconheça” a hemácia; e das talassemias, doenças do sangue que ocorrem na região do Mediterrâneo. Estas doenças talvez resultem de seleção natural, tornando seus portadores mais resistentes ao parasita. É uma doença genética que ocorre nas mesmas regiões de alta incidência de malária.

Ao longo do tempo pode ocorrer, no portador de malária, aumento do tamanho do fígado e do baço, fraqueza e distúrbios gastrointestinais; mas a doença causada pelo P. vivax, P. ovale e P. malariae raramente leva ao óbito. Pacientes infectados pelo P. vivax, especialmente pela primeira vez, podem ter sintomas sérios; a doença tende a voltar. P. ovale causa a enfermidade mais benigna. A doença causada pelo P. malariae, embora leve, é a que mais tende à cronicidade. A infecção por Plasmodium falciparum, se não diagnosticada precocemente e tratada adequadamente, pode produzir quadros graves: anemia intensa, problemas renais, e a chamada malária cerebral: nesta, a oclusão de vasos sanguíneos no cérebro pelos eritrócitos infectados causa coma ou déficit mental irreversível. Em 1 a 2% dos casos ocorre o óbito.

O diagnóstico é feito pelo quadro clínico, pela identificação do parasito no exame do sangue ao microscópio, e por testes rápidos para detecção de componentes antigênicos de plasmódio. Malária quando detectada correta e precocemente é uma doença de tratamento bastante simples. Para cada espécie do plasmódio é utilizado medicamento ou associações de medicamentos específicos em dosagens adequadas à situação particular de cada doente. A quinina (ou o seu similar químico, a quinidina) é ainda usada no tratamento, mas foi suplantada por drogas sintéticas mais eficientes, como quinacrina, cloroquina e primaquina, frequentemente sob a forma de misturas, pois pode haver resistência a uma ou mais drogas. Ultimamente a artemisinina, extraída de uma planta
(Artemesia annua), usada na China como tradicional medicação contra febres, tem dado resultados encorajadores. Mas com a artemisina a doença tende a voltar, razão pela qual associa-se ao tratamento outro antimalárico.

A prevenção e o controle da malária depende do combate ao mosquito e do tratamento dos casos para diminuir a quantidade de parasitos na população. Vacinas ainda não estão disponíveis. Os medicamentos antimaláricos usados profilaticamente não conseguem evitar que a infecção se instale e dão uma falsa ideia de segurança; além disso, não são isentos de efeitos colaterais. A decisão pelo uso de tais medicamentos deve ser tomada pela pessoa que irá para uma zona malarígena, com a orientação do seu médico de confiança.


FEBRE AMARELA
A febre amarela é uma doença infecciosa aguda causada por um vírus que é transmitido à pessoa através da picada de mosquitos do gênero Aedes, no Brasil o Aedes egyptii. A febre amarela ocorre principalmente na África e nas Américas (Caribe, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru), não raro sob a forma de epidemias. O número destas tem aumentado: a derrubada das florestas e o crescimento das cidades aumentam a chance de contato com o mosquito. O aumento das viagens internacionais contribui para a disseminação da doença. A severidade da doença varia muito indo de casos leves até outros, mortais. Chama-se febre amarela por causa da icterícia, ou “derrame de bile” que ocorre em certos pacientes, que dá cor amarela à pele e às mucosas e resulta de lesão no fígado.

Textos de até 400 anos atrás já falavam na doença. Mas as pesquisas decisivas só começaram no início do século XX. Um nome importante é o médico cubano (descendente de franceses e escoceses) Juan Carlos Finlay (1833-1915), que depois trocou o nome para Carlos Juan Finlay. Finlay estudou medicina nos Estados Unidos e clinicou em Havana. Foi ele que identificou o mosquito Aedes como portador do agente infeccioso causador na febre amarela, na época ainda não identificado. Sua hipótese foi confirmada duas décadas depois por um grupo de médicos americanos que trabalhava na América Central, lugar onde os Estados Unidos tinham interesses: Cuba, por exemplo, após a guerra hispano-americana de 1898, ficara sob tutela americana. Deste grupo, chefiado pelo médico Walter Reed, faziam parte James Carroll, Aristides Agramonte e Jesse William Lazear. Fizeram pesquisas em voluntários, alguns dos quais morreram. O mesmo aconteceu com o próprio Lazear que, em segredo, deixou-se picar por mosquitos que previamente tinham picado doentes de febre amarela, contraiu a doença e faleceu. A identificação do mosquito como vetor da doença ajudou na construção do Canal de Panamá; antes cerca de 10% dos trabalhadores morriam anualmente de febre amarela e malária.

Na história do combate à febre amarela não faltam personagens importantes e episódios memoráveis. No Brasil, um destes episódios foi protagonizado por Oswaldo Cruz, o criador da saúde pública em nosso país.

Nascido em São Luiz do Paraitinga (SP), em 1872, Oswaldo Cruz era filho de um médico que trabalhou na Junta Central de Saúde Pública no governo D. Pedro II. Seguindo o exemplo do pai, cursou medicina. Não era um aluno brilhante, mas, no decorrer do curso, começou a se interessar pela microscopia — procedimento então ainda novo — fato que mudou sua carreira. Formado, seguiu para a Europa, onde estagiou em várias instituições incluindo o Instituto Pasteur. Em seu regresso, não teve muitas oportunidades de aplicar seus conhecimentos, mas foi convidado a formar, com dois famosos cientistas de São Paulo, Adolfo Lutz e Vital Brasil, uma comissão encarregada de investigar casos suspeitos de febre bubônica em Santos. Realizou os exames laboratoriais dos pacientes e concluiu que se tratava mesmo de peste. O relatório foi posto em dúvida, inclusive porque prejudicaria as atividades do porto, pois muitos navios se recusariam a atracar ali. Por causa disso, o material foi enviado à Europa. Os laboratórios europeus confirmaram as conclusões de Oswaldo, cujo prestígio, evidentemente, cresceu.

Oswaldo Cruz trabalhou dois anos no Instituto Soroterápico do Rio de Janeiro do qual tornou-se diretor. Mais tarde foi convidado a assumir a Diretoria Geral de Saúde Pública do governo Rodrigues Alves. Sua missão era controlar várias doenças que ameaçavam os habitantes da então capital federal, a começar pela febre amarela. Oswaldo Cruz propôs o desenvolvimento de uma campanha em moldes quase militares. Nisto, seguia o exemplo dos médicos militares norte-americanos que trabalhavam em Cuba. Para acabar com os mosquitos formou brigadas de mata-mosquitos, uniformizadas e equipadas, e com poderes para entrar nas casas.

Sem demora, Oswaldo transformou-se num alvo para as críticas dos jornais e para a hostilidade da população. Muitos médicos também discordavam dele, achando que a doença não era transmitida pelo mosquito. Segundo Rocha Faria, catedrático de higiene, a luta contra a febre amarela tinha de ser feita pela “desinfecção” do solo, para matar as supostas bactérias causadoras da doença. Outro problema que Oswaldo Cruz enfrentava era a dificuldade de comunicação com a população, numa época em que não havia rádio nem tevê e na qual a maioria da população, analfabeta, não lia jornais. Mesmo assim, ele divulgava “Conselhos ao Povo”, como por exemplo aquele publicado no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 28 de abril de 1903. Diz Oswaldo, na linguagem da época: “Está hoje provado que os mosquitos ou pernilongos transmittem a febre amarella. O mosquito morde o doente de febre amarella, e depois de alguns dias, mordendo outra pessoa, transmitte a ella a molestia. Ha muitas qualidades de mosquitos, mas nem todos transmittem a febre amarella, o que transmitte logo se conhece, porque é inteiramente rajado; elle tem na parte superior do corpo duas listras prateadas e a fórma de meia lua e as pernas e a barriga tambem são riscadas de anneis brancos. Esta qualidade de mosquitos é muito abundante no Rio de Janeiro, vôa pouco e gosta de viver dentro de casa”. E continua: “A febre amarella não pega de pessoa á pessoa, o que já era sabido desde muito tempo; tambem não pega pelas roupas sujas e mais objectos do uso do doente; ella pega sómente por intermedio do mosquito ou pernilongo rajado. Este é o unico modo de transmissão da febre amarella até hoje bem provado”. Mais adiante: “Os mosquitos se reproduzem por meio de ovos que elles põem na superficie das aguas paradas, nas tinas de lavar roupa, nos tanques, nas caixas de agua, nos ralos de esgotos, nos rebolos dos carpinteiros, nas latas velhas e cacos de garrafa ou de louça, que são atirados fóra, nos cacos de garrafas com que se guarnecem os muros, nas poças de agua que se formão nas hortas e capinzaes, na agua de chuva que fica empossadas nas calhas, enfim em qualquer parte onde ficar depositada por algum tempo um pouco de agua que se não renove”. Descreve as larvas do mosquito e diz: “Desde que são os mosquitos que passão a febre amarella dos doentes para as pessoas sãs, é de obrigação e do interesse de todos:

1. Destruir os mosquitos e as suas larvas;

2. Evitar que os mosquitos mordão as pessoas, porque póde accontecer que alguns delles tenhão mordido um doente de febre amarella;

3. Impedir que os mosquitos mordão os doentes de febre amarella, porque desse modo impede-se que elles fiquem carregados dos germens da molestia”.

Apesar de todas as resistências a campanha deu certo e o número de casos de febre amarela diminuiu muito, comprovando o acerto das medidas.

A infecção pelo vírus da febre amarela ocorre principalmente em humanos e macacos. O mosquito também pode passar o vírus para seus descendentes através dos ovos. De acordo com a área de ocorrência, a doença é classificada como silvestre ou urbana. Na forma silvestre a febre amarela ocorre principalmente em macacos, mas seres humanos que penetram na floresta também podem ser infectados. Na forma urbana, os mosquitos levam o vírus de uma pessoa para outra, e, por causa da concentração de população, a febre amarela se dissemina mais.

Depois de um período de incubação de três a seis dias ocorre a fase aguda: febre, dores musculares, dor de cabeça, calafrios, náusea, vômitos, este quadro durando três ou quatro dias. Na maior parte dos casos a doença se resume a isto e às vezes os sintomas são leves. Mas 15% dos pacientes entrarão na fase chamada tóxica, com febre, sangramento da boca, nariz, olhos, e vômitos e evacuação com sangue. Os rins podem parar de funcionar. A morte ocorre em metade dos casos. O diagnóstico às vezes é difícil, porque a doença pode ser confundida com malária, dengue, hepatite, leptospirose, mas há exames que detectam os anticorpos, isto é, as substâncias de defesa produzidas pelo organismo contra o vírus.

Não há uma droga que destrua especificamente o vírus, ainda que o antiviral ribavirina tenha se revelado eficiente na fase inicial da doença. Trata-se a febre, a desidratação e as complicações, como hemorragia e insuficiência renal.

A vacina protege, por dez anos, 95% das pessoas que a recebem. Em geral não tem efeitos secundários, mas casos com paraefeitos sérios (óbito, inclusive) ocorreram no Brasil, Austrália e Estados Unidos. Pessoas que não moram em áreas endêmicas ou que não estão visitando áreas endêmicas não precisam se vacinar. Crianças com menos de seis meses não devem ser vacinadas, mas as maiores, sim. Grávidas só devem receber o imunizante se há epidemia. As campanhas de vacinação podem ser muito bem-sucedidas. Em Gambia (África), onde 85% da população foi vacinada, não ocorreram casos a partir de 1980. Boa cobertura vacinal é aquela na qual mais de 80% da população está vacinada. O combate ao mosquito e a vacina são as duas medidas básicas para evitar a doença, coisa que aliás é perfeitamente possível.


DENGUE
A dengue é uma infecção causada por um vírus similar ao da febre amarela e transmitida ao homem principalmente por mosquitos do gênero Aedes (no Brasil, predomina o Aedes aegypti). Das doenças transmitidas por mosquito é a mais comum. Dois e meio bilhões de pessoas vivem nas áreas endêmicas, localizadas na Ásia e nas Américas e na África, com uma distribuição similar à da malária, mas, ao contrário desta costuma ocorrer em grandes cidades. A origem da palavra dengue não é clara; poderia vir do swahili “Ka-dinga pepo”, doença causada por um mau espírito. Mas a palavra dinga talvez tenha vindo do espanhol dengue (dengoso é a pessoa que se cuida, que tem medo) por causa da maneira com que se move uma pessoa com dengue; ou, ao contrário, a palavra espanhola veio do swahili... Atribui-se ao médico americano Benjamin Rush (1745-1813) a expressão Breakbone fever, febre quebra-ossos, uma referência às dores generalizadas pelo corpo.

As primeiras epidemias parecem ter ocorrido no final do século XVIII, na Ásia, África e América do Norte, e tornaram-se mais comuns nos últimos 30 anos, com uma tendência a repetir-se a cada seis anos, quando a imunidade adquirida pela população tende a diminuir. No Rio de Janeiro houve uma epidemia em 2002; outra em 2008.

Há quatro tipos de vírus da dengue, muito semelhantes entre si. A pessoa que teve infecção por um tipo de vírus da dengue fica com imunidade para este tipo, mas não para os outros. Ao contrário, quando uma segunda infecção ocorre há risco de dengue hemorrágica. A dengue manifesta-se por febre súbita, dor de cabeça, dores nas juntas e nos músculos. Aparecem na pele pontos hemorrágicos; podem ocorrer náusea, vômito, diarreia. A doença dura cerca de uma semana. Às vezes os sintomas são leves e a doença é confundida com gripe. Já a dengue hemorrágica, além da febre alta, apresenta hemorragias; as plaquetas, elementos sanguíneos que ajudam na coagulação, diminuem muito. E pode ocorrer também a síndrome de choque, na qual a pressão cai muito. Mas estes casos são raros e a mortalidade em geral é baixa. O diagnóstico é feito por testes sanguíneos.

Não há um remédio específico para a dengue. A pessoa tem de receber bastante líquidos; no caso da dengue hemorrágica, transfusões podem ser necessárias. Importante: aspirina e certas drogas antiinflamatórias podem agravar a tendência hemorrágica e não devem ser usadas, e sim paracetamol. Ainda não há vacina, embora pesquisas estejam em curso, de modo que a prevenção depende fundamentalmente do controle do mosquito.


CONTROLE DOS MOSQUITOS
Água é essencial para a proliferação do mosquito. Medidas devem ser dirigidas, portanto, para os lugares de acumulação de água. Pântanos devem ser drenados; é preciso cuidar também com áreas irrigadas. Nas cidades, é preciso cuidado com vasos de plantas, garrafas plásticas, pneus, piscinas plásticas não usadas, bebedouros de pássaros, calhas no telhado.

Nos cursos de água, pode-se usar larvicidas, substâncias químicas que matam as larvas. O controle biológico é representado pelos peixes (carpas, tilápias) que comem os insetos; também são mencionados crustáceos (caranguejos), rãs, morcegos e até bactérias e vírus que matariam os insetos, e substâncias como metopreno, que impedem as larvas de se desenvolver, mas na prática só os peixes são usados.

Em relação ao combate dos mosquitos, alguns países pobres ainda usam o DDT, que é barato e eficaz, ainda que possa afetar a saúde de pessoas e ainda que haja insetos resistentes a esta substância. Outros inseticidas também são aplicados no ambiente, inclusive por termonebulizadores (fumacê).

Para impedir que mosquitos piquem as pessoas existem algumas recomendações: em primeiro lugar evitar áreas onde eles existam em grande número. Deve-se também evitar a permanência ao ar livre ao amanhecer e ao anoitecer. Considerando que o mosquito pica mais pernas, braços e pescoço, é melhor usar mangas compridas e calças. Mosquiteiros, sobretudo tratados com inseticidas, telas nas janelas e portas das habitações também protegem. Repelentes químicos, à base de dietiltoluamida, são eficazes, mas não devem ser usados em crianças pequenas e podem causar alergias.


QUEM É MOACYR SCLIAR?


Médico, especialista em saúde pública e professor universitário, Moacyr Scliar é escritor, tanto de ficção como de não ficção. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), é autor de mais de 75 livros (vários traduzidos e premiados) e colaborador de numerosos periódicos. Exerceu vários cargos de direção em serviços de saúde. É professor universitário e escritor, publicando regularmente livros e artigos sobre saúde.

Nascido em Porto Alegre (RS), em 23 de março de 1937, Moacyr Jaime Scliar é oriundo de uma família de imigrantes judeus russos. Cedo manifestou gosto pela literatura. Em 1962 diplomou-se em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Iniciou a carreira médica como clínico, mas depois optou pelo sanitarismo. Doutorou-se em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública. As narrativas que escreveu durante os plantões noturnos resultaram em Histórias de Médico em Formação (1962), seu primeiro livro.

Escritor fecundo, o pano de fundo sobre o qual Moacyr Scliar elabora sua obra ficcional é o humor judaico, que conquistou leitores em todo o mundo e transformou-o num dos autores brasileiros mais conhecidos no exterior. Numa escrita de estilo sintético, o autor alterna o fantástico e o realismo.

Em 1980, escreveu O Centauro no Jardim, premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Publicou, entre tantos outros, A Estranha Nação de Rafael Mendes (1982) e A Orelha de Van Gogh (1989), que recebeu o prêmio cubano Casa das Américas. Em Cenas da Vida Minúscula (1991), Scliar ressalta o elemento mitológico sob o tema da criação de pequenos seres humanos. Sonhos Tropicais (1992) é uma narrativa ficcional sobre o sanitarista Oswaldo Cruz, e Judaísmo, Dispersão e Unidade (1993), um ensaio que trata o judaísmo como produto da história. Em O Vendilhão do Templo (1994), o autor analisa o ato de vender como troca emocional.

Em 2003, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL),
na cadeira 31.