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Edafologia, o estudo do solo
 
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  A erosão é um processo natural que pode ser intensificado pela atividade humana

A edafologia é a ciência que estuda o solo como um sistema dinâmico em constante evolução. Esta visão dinâmica surgiu no final do século XIX na escola russa e foi divulgada pelo Ocidente no século XX. O solo pode ser considerado como o resultado da interação entre todos os sistemas que estão presentes na superfície da Terra: litosfera, atmosfera, hidrosfera e biosfera. A litosfera constitui o suporte material do solo, sobre o qual se desenvolve a biosfera, que, por sua vez, lhe aporta matéria orgânica. As condições atmosféricas ou clima e as características da hidrosfera condicionam sua formação e tipo.

O solo apresenta componentes que vêm de cada um dos sistemas mencionados acima: matéria mineral, da litosfera; matéria orgânica, da biosfera; ar, da atmosfera; e água, da hidrosfera. Esses componentes interagem através de fluxos de entrada e de saída com os fluxos de energia, sobretudo da radiação solar, que dão lugar a um conjunto de processos formadores e de evolução do solo. Por isso, ele pode ser definido como um sistema natural aberto, que apresenta entradas e saídas de matéria e energia. Fisicamente é situado sobre a litosfera, mas seus limites são difíceis de definir.

O solo é um importante recurso natural, uma vez que é a base da vida vegetal e animal. Também é o primeiro nível de todas as obras de construção e transformação da superfície.


COMPONENTES DO SOLO


O solo é um sistema de três fases: sólida, líquida e gasosa. A fase sólida é formada por partículas minerais e, em menor proporção, por componentes orgânicos; é composto por um conjunto de elementos em contato com espaços vazios entre si, que são ocupados pela água e pela atmosfera do solo. Para o crescimento da vegetação, é necessário um equilíbrio adequado entre estes três estados físicos da matéria.

PARTÍCULAS DE ORIGEM MINERAL
As partículas de origem mineral representam a parte mais importante do solo, tanto em peso como em volume. São provenientes da meteorização das rochas presentes na superfície da Terra e, portanto, sua composição varia de acordo com as rochas do ambiente. A partir de materiais denominados “primários”, constituídos fundamentalmente por silicatos (quartzo, feldspato, mica ou outros), podem formar-se, por alteração, uma série de materiais novos, chamados “secundários”, como os minerais de argila, óxidos, hidróxidos de ferro, alumínio etc. Os produtos resultantes finais dependem também das entradas ou das perdas produzidas no sistema. Ao término do processo, o solo será integrado pelos materiais primários residuais, mais ou menos transformados, os secundários de nova formação e os transportados de fora do sistema.

Os minerais que usualmente formam a fase sólida são silicatos, óxidos e hidróxidos metálicos, além de silicatos de alumínio amorfos; em menor proporção, carbonatos, sulfatos e, mais raramente, cloretos, fosfatos ou sulfuretos. A composição mineralógica do solo permite determinar sua evolução, fertilidade, comportamento mecânico e seu poder como depurador natural.

As partículas do solo podem ser classificadas, de acordo com seu tamanho, em grupos estabelecidos segundo intervalos determinados: as de diâmetro superior a 2 mm são os elementos grossos, e as de diâmetro inferior (areia, limo e argila) são as terras finas.

O grau de alteração dos minerais costuma estar relacionado com o tamanho das partículas do solo, o que evidencia uma relação entre sua composição e tamanho. A fração areia, menos ativa, é rica em quartzo e em outros minerais resistentes; a fração limo é formada por minerais com maior grau de desagregação, e a fração argila, por minerais da argila e óxidos de ferro e de alumínio, que, devido à sua forma e carga superficial, apresentam, junto com a matéria orgânica, maior atividade nos fenômenos físico-químicos.


COMPONENTES DE ORIGEM ORGÂNICA
A origem principal da matéria orgânica é a vegetação. Uma vez finalizado seu ciclo vital, os restos vegetais se depositam na superfície terrestre ou no interior (no caso das raízes), e vão se descompondo e se incorporando pouco a pouco aos componentes do solo. A fauna, além de incorporar matéria orgânica ao solo, como seus excrementos ou restos, intervem de forma ativa, fragmentando e digerindo estes materiais vegetais.

Os restos orgânicos sofrem uma decomposição, denominada “mineralização”, resultado da ação de microorganismos que utilizam as biomassas como fonte de energia para seu metabolismo.

Este processo, relativamente rápido, libera compostos simples, em geral solúveis ou gasosos, como CO2, NO3, PO43–, SO42, Ca2+, Na+, K+, Mg2+ ou H2O.

Os compostos orgânicos mais resistentes, como alguns componentes dos tecidos lenhosos vegetais (lignina, celulose), não se descompõem em substâncias solúveis, mas degradam-se pela hidrólise provocada por bactérias e fungos. Os produtos deste processo, denominado “humificação”, são moléculas novas, mais complexas, de natureza coloidal e de cor escura, cujo conjunto constitui o húmus. Os compostos húmicos formam ligações com os compostos minerais (argila e óxidos) e, posteriormente, mineralizam-se mais lentamente durante o processo denominado “mineralização secundária”.

A quantidade de matéria orgânica do solo depende da deposição de restos vegetais na sua superfície; por isso, é muito variável e diminui rapidamente com a profundidade. Sua presença se destaca por um enegrecimento dos horizontes do solo causado pelo húmus.


FASES LÍQUIDA E GASOSA
A fase líquida ou solução do solo é formada por uma dissolução aquosa dos sais dos íons HCO3, SO42–, C1, NO3, PO43–, Ca2+, Na+, K+, Mg2+ e alguns outros de menor importância, assim como por uma ampla série de substâncias orgânicas. A importância desta fase líquida, ou seja, da água no solo, reside no fato de que ela é o veículo de transporte das substâncias químicas no interior do sistema e de suas interações. Por exemplo, quando a quantidade de água no solo é grande, a fase gasosa é expulsa, de maneira que o meio adquire condições redutoras. Mas, quando uma ampla proporção dos poros e interstícios do solo está ocupada pela fase gasosa, as condições são oxidantes.

A fase gasosa é constituída fundamentalmente pelos gases atmosféricos. Apresenta uma grande variabilidade, tanto no seu volume, pela sua interdependência com a fase líquida, como na sua composição, devido ao consumo de oxigênio e à produção de dióxido de carbono dos seres vivos no solo.


PROPRIEDADES DO SOLO


A textura, estrutura, porosidade, permeabilidade, umidade e química do solo determinam suas características.

A TEXTURA
A expressão “textura do solo” é utilizada para descrever as características de tamanho que apresentam suas partículas, excluindo-se os agregados. Para isso, são definidas categorias em função do diâmetro das partículas, que supostamente têm forma esférica, para subdividir o grupo de terras finas.
Os limites de tamanho de cada grupo não estão unificados internacionalmente, sendo que os dois sistemas mais utilizados são o da Sociedade Internacional de Ciências do Solo (ISSS – International Society for Seed Science) e o do Departamento de Agricultura dos EUA (Usda – United States Department of Agriculture).

A ISSS propõe a seguinte classificação:
- Areia: De 2 mm a 0,02 mm.
- Limo: De 0,02 mm a 0,002 mm.
- Fração fina ou argila: Inferior a 0,002 mm.

Já o Usda estabelece o seguinte:
- Areia: De 2 mm a 0,05 mm.
- Limo: De 0,05 mm a 0,002 mm.
- Fração fina ou argila: Inferior a 0,002 mm.

Uma vez conhecidas as porcentagens de areia, limo e argila em um solo, sua textura é classificada por meio de um diagrama triangular, no qual as categorias de texturas são definidas segundo sua disposição no diagrama. Os triângulos texturais da ISSS e os do Usda são os mais utilizados. A textura de um solo é definida pela proporção de partículas de argila, limo e areia que o formam e que determinam seu grau de plasticidade.

As três texturas básicas são: argilosa, franco-argilosa e franca. Os solos argilosos são muito plásticos. Uma maneira de reconhecê-los é usar uma amostra para moldar um cilindro muito fino, que, uma vez dobrado, forma um anel. Os solos franco-argilosos são moderadamente plásticos e permitem moldar um cilindro, mas não a ponto de produzir um anel. Finalmente, os solos de textura franca são pouco plásticos e não permitem a formação de um cilindro. Os vértices do triângulo representam 100% de cada um dos três tipos de partículas e, em geral, as texturas francas representam as categorias nas quais as três frações têm porcentagens mais ou menos equilibradas. Assim, se um solo apresenta as porcentagens areia 20%, limo 60% e argila 20%, segundo a classificação da ISSS, este é um solo que tem uma textura franco-argilosa-limosa, enquanto na do Usda é franco-limosa.


A ESTRUTURA
A expressão “estrutura do solo” é utilizada para descrever o agrupamento das partículas fundamentais (areia, limo e argila), em unidades de tamanho maior, denominadas “agregados”. A presença de argila e matéria orgânica dá lugar a solos estruturados; os menos estruturados são os mais areentos.

Segundo a forma dos agregados, existem vários tipos de estrutura:

- Estrutura prismática ou colunar: Se os agregados têm a mesma forma e um tamanho entre 0,5 e 10 cm.
- Estrutura laminar: É constituída por pedaços planos em posição horizontal.
- Estrutura granular: Quando os agregados são mais ou menos esféricos.
- Estrutura em blocos: Quando os agregados têm o tamanho de uma noz, de forma irregular, com arestas e vértices agudos.

A estrutura não é uma característica constante; ao contrário: é modificada pela ação do tempo, variação da umidade, degelo, realização de cultivos, tarefas de arado e atividade da fauna.


POROSIDADE, PERMEABILIDADE E RETENÇÃO
A presença e a circulação de água e ar no solo são condicionadas pelas características de porosidade, permeabilidade e capacidade de infiltração do solo.

POROSIDADE
A porosidade, expressa em porcentagem, é definida como: a relação entre o volume de espaços vazios, denominados “poros”, e o volume total do solo. A forma e o tamanho dos poros dependem da textura e, portanto, da dimensão das partículas, e também da estrutura, ou seja, do tipo de agregados que o formam, condicionados pela presença de matéria orgânica.

Em relação à textura, se as partículas são do tamanho da areia, os poros são grandes, e a porosidade costuma estar situada entre 30% e 40%; quando possuem a dimensão da argila, os poros são pequenos, mas há uma grande quantidade deles, e, diferentemente do que se pensa, a porosidade é elevada, entre 40% e 50%.


PERMEABILIDADE
A ventilação e o movimento da água no solo não dependem da porcentagem total de seus poros, mas do seu tamanho, forma e da eficiência de comunicação entre eles. A capacidade do solo de deixar fluir o ar ou a água em seu seio é chamada “permeabilidade”.

A permeabilidade é quantificada de acordo com a velocidade da passagem da água em uma unidade de tempo, e, em geral, é expressa em metros/dia. Este processo costuma ser mais alto quanto maiores são os poros do solo. Assim, as pedras britadas e a areia têm permeabilidade elevada, de mais de 10 metros/dia; por outro lado, o limo e a argila apresentam permeabilidade inferior a 0,01 metros/dia.

As permeabilidades muito altas ou muito baixas não são boas. Nos solos areentos, excessivamente permeáveis, a água circula com rapidez para as camadas profundas, enquanto que nas camadas superiores, onde as raízes dos vegetais se desenvolvem, esta substância é retida por pouco tempo. Por outro lado, a baixa permeabilidade da argila faz com que a água pare nas camadas superficiais, circunstância que provoca a asfixia das raízes.


TIPOS DE ÁGUA DO SOLO
A água que penetra no solo interage com as partículas sólidas e com os poros de diversas formas. Por isso, de acordo com seu comportamento, pode ser classificada em três grandes categorias: água de retenção, capilar e gravitacional ou livre.

- Água de retenção: Devido a seu caráter polar, é atraída e fixada pelas irregularidades eletrônicas da superfície dos cristais. Uma parte, denominada “água higroscópica”, corresponde à que impregna os microporos ou penetra pelas finas rachaduras, e forma parcelas isoladas que se mantêm unidas pelas forças de adsorção; somente se desloca em estado de vapor. A outra parte, chamada “água pelicular”, rodeia as partículas e forma uma capa muito fina que somente pode ser extraída por centrifugação.
- Água capilar: É a que se mantém dentro dos poros e é retida pelas forças de capilaridade. Pode estar isolada acima da zona saturada de água e atuar como água de retenção, ou estar localizada de maneira contínua na faixa capilar e submetida à ação da gravidade.
- Água gravitacional ou livre: É a que se encontra dentro do espaço livre deixado pelos poros e interstícios entre os materiais. Movimenta-se exclusivamente pela atração da gravidade e constitui a parte ativa das águas subterrâneas.


A UMIDADE DO SOLO
A quantidade de água que um solo retém é denominada “umidade do solo”. É determinada por meio do processo de secagem de uma amostra de solo no forno a uma temperatura de 105 °C e dividindo-se seu peso original pela perda de peso. O resultado é expresso em porcentagem.

Um solo com todos seus poros cheios de água recebe o nome de “saturado”. À medida que perde água, chega um ponto em que não há mais água livre em seu interior, somente água retida: este conteúdo é conhecido como capacidade de campo. Se a quantidade de água do solo continua diminuindo, aumenta a resistência desta a ser absorvida pela vegetação, até que as raízes já não conseguem absorver água do solo e as plantas murcham. Este conteúdo de água restante, não utilizável pela vegetação, é denominado ponto de murcha.

A capacidade de armazenamento de água no solo e sua disponibilidade para a vegetação variam em função da quantidade e do tamanho dos poros e, portanto, da textura, estrutura e conteúdo em matéria orgânica. Em um solo bem drenado, a água fica retida em forma de película nos capilares que geram os agregados ou as partículas. Por isso, um solo de textura fina tem maior superfície, mais volume de capilares e mais capacidade de retenção de água que um solo de textura grossa. Isso vale tanto para os conteúdos de água de retenção abaixo do ponto de murcha como para os conteúdos próximos à capacidade de campo.

Os poros menores do solo formam em conjunto uma rede de canais microscópicos comparáveis aos vasos capilares, onde a água tende a movimentar-se, obedecendo à tensão capilar, para o ponto de maior tensão, desde as zonas úmidas até as secas. O movimento capilar é apreciável se a zona saturada está perto da superfície; se ao cair a água de chuva umedece mais rapidamente a superfície do solo que seu interior, tanto a força da gravidade como a tensão capilar atuam, e a água desce para a zona saturada. No entanto, se a superfície do solo seca devido às condições de temperatura e vento, a tensão capilar atua em sentido contrário, de maneira que a água sobe da zona saturada.


QUÍMICA DO SOLO
Os componentes majoritários da atmosfera são o nitrogênio, o oxigênio e o dióxido de carbono. O ar presente no solo tem uma concentração de nitrogênio similar ao ar da atmosfera. O mesmo, no entanto, não vale para as proporções de oxigênio, que são menores, e as de dióxido de carbono, que se apresentam em maior quantidade, devido à respiração.
A água presente nos poros do solo constitui o meio onde são realizadas as reações químicas, além de ser fonte de nutrientes para as plantas. O dióxido de carbono e vários constituintes orgânicos combinados com a água produzem, respectivamente, ácido carbônico e ácidos orgânicos. Estas substâncias atuam nos processos do solo, dissolvendo sais e álcalis, que se transformam em íons. Por exemplo, quando o cloreto de sódio (NaCl) se dissolve em uma solução, separa-se em dois íons: Na+, um cátion, e C1, um ânion.

Os colóides do solo permitem a retenção e o intercâmbio iônico, além de evitar a drenagem destas substâncias. Os colóides, eletricamente neutros, são constituídos por pequeníssimas partículas de argila e de matéria orgânica, cujo diâmetro pode ser inferior a 0,0001 mm. Normalmente, suas cargas elétricas negativas localizam-se no exterior, e as positivas, no interior. Esta configuração origina um dipolo com um revestimento negativo, que permite a adsorção dos íons na superfície do colóide mediante uniões reversíveis que facilitam o intercâmbio.

Os colóides argilosos e os orgânicos têm diferentes níveis de atividade química. Os argilosos são finas placas com superfícies paralelas, carregadas negativamente, e quimicamente mais ativas que as partículas de limo e areia, mas menos que os colóides orgânicos.

Os colóides podem intercambiar íons entre sua superfície e a solução aquosa do solo: esta faculdade é chamada capacidade de mudança catiônica (CCC), ou capacidade de intercâmbio catiônico (CIC). A adsorção dos íons é produzida até se alcançar um equilíbrio de sua concentração no meio aquoso. Este pode ser rompido com o aumento da concentração de um determinado íon na solução aquosa. Esta mudança pode produzir-se como conseqüência da adsorção radicular por drenagem ou pelo aumento da quantidade de água. Nos solos cultivados, a adição de adubos também modifica as condições, provocando intercâmbios entre o colóide e a água do solo.


PERFIL E PEDON DO SOLO


O estudo de um solo é baseado na observação de seu perfil. Esta é uma seção vertical, na qual podem ser diferenciadas camadas mais ou menos horizontais, denominadas “horizontes”, com características físico-químicas diferentes. Na edafologia moderna, introduziu-se como unidade básica de referência de um solo o termo “pedon”. Trata-se de uma coluna de solo que contém todo o conjunto de perfis que servem para defini-lo e cujo limite superior é a atmosfera, e o inferior é a rocha mãe ou uma capa de sedimentos sem atividade biológica. A zona ou região cujo solo tem as mesmas características e, portanto, um mesmo pedon em qualquer parte de sua área, é denominado “polipedon”. Em geral, na descrição de solos, os termos “perfil” e “pedon” são utilizados indistintamente.

HORIZONTES DO SOLO
Cada perfil do solo é formado por níveis chamados “horizontes”, que podem ter uma espessura muito variável: desde poucos milímetros até mais de um metro. Os diferentes horizontes podem ser identificados pelas diferenças de cor e de outras propriedades de textura, estrutura, consistência, ou pela presença ou ausência de determinados minerais, umidade e processos químicos.

Os horizontes possuem códigos especiais para identificá-los. De acordo com a nomenclatura mais utilizada, começando pela superfície do solo, são classificados em:

- Horizonte O: Forma a parte mais externa do solo e acumula os restos procedentes de plantas e animais que estão se transformando em húmus. Diferenciam-se em dois subníveis: o O1 ou A00, composto por matéria orgânica sem decomposição; e o O2 ou A0, formado por matéria orgânica oxidada e transformada em húmus. Os solos dos campos de cultivo, os desertos e os pastos não têm horizonte O no seu perfil.

- Horizonte A: É o primeiro horizonte mineral e, por isso, é conhecido comumente como o nível superior do solo. É formado por uma mistura de matéria mineral e até 30% de húmus, o que lhe confere uma cor escura. Caracteriza-se também por ser um horizonte pobre em íons (Ca2+, Mg2+, Na+, Fe++, HCO3 etc.) que migraram para as camadas inferiores pela ação da água da chuva ou pela absorção das plantas. Este horizonte também é conhecido como de “lixiviação” ou “eluviação”. Divide-se em dois subníveis: A1, de cor escura, que contém a mistura de matéria orgânica e mineral, além de uma grande atividade biológica; e A2 ou E, de cor mais clara, devido à perda, por lixiviação, de argilas, óxidos de ferro e alumínio, e de textura geralmente areenta.

- Horizonte B: É o nível inferior do solo. É conhecido como “horizonte de precipitação” ou “iluviação”, porque apresenta um enriquecimento em sais procedentes da lavagem do horizonte A. Devido a esta acumulação, pode ser rico em argila, matéria orgânica, ferro, alumínio e outros componentes do solo, transportados de níveis superiores. O horizonte B, geralmente mais claro que o A, pode ser vermelho ou pardo amarelado. Se o solo estiver saturado de água durante longos períodos, a cor pode ser cinzenta, ou cinzenta com manchas ou possuir faixas avermelhadas ou alaranjadas. Quando muito espesso, este horizonte pode ser subdividido em subníveis (B1, B2, B3 etc.), segundo as mudanças identificadas.
- Horizonte C: É o nível que está em contato com o substrato (rocha mãe) e onde se produzem ainda processos de meteorização química. É formado por materiais mais ou menos fragmentados ou alterados, mas mantém as características mais importantes da rocha da qual o solo deriva.
- Horizonte R: Corresponde à capa de rocha consolidada situada debaixo do solo.

Somente os solos evoluídos têm todos os horizontes. Os solos jovens costumam apresentar apenas os horizontes O, A e C.


FORMAÇÃO DO SOLO


Quando as rochas ou os sedimentos estão em contato com a atmosfera, são submetidos a processos de meteorização física e química. Este processo provoca a degradação das rochas, que dá lugar à base mineral para o futuro solo. A posterior formação de colônias de microorganismos vegetais e animais produz uma nova transformação química dos minerais. Quando os organismos morrem, seus restos se incorporam ao solo como matéria orgânica. Finalmente, tanto os componentes da matéria mineral como os da orgânica se reorganizam devido à ação dos agentes externos e dos seres vivos, e formam os horizontes que constituem o solo.

FATORES QUE INTERVÊM
Em geral, cinco grandes fatores são considerados reguladores da formação do solo: a matéria mãe, a morfologia do terreno e o tempo, que são de tipo passivo; e o clima e a atividade biológica, considerados agentes ativos.

- Matéria mãe: É constituída pelo conjunto de materiais alterados e desagregados que serão a base do solo. A partir de uma matéria mãe, mais de um tipo de solo pode ser formado.
- Morfologia do terreno: Condiciona o efeito de determinados processos climáticos. Dessa forma, se a ladeira de um terreno, por exemplo, é muito íngreme, a erosão superficial será maior, e os solos, mais finos. Já em áreas planas, a erosão será menor, e os solos, por sua vez, mais grossos. Outro aspecto da influência do relevo é a orientação da superfície com relação ao solo; as vertentes direcionadas ao sul, expostas ao sol, têm um tipo de vegetação diferente das orientadas ao norte, que mantêm o frio e a umidade por mais tempo.
- Tempo: O tempo de formação de um solo depende de muitos fatores e pode ser desde centenas até milhares de anos — em alguns casos, inclusive, milhões de anos. Um solo é considerado "maduro" quando todos os processos pelos quais deve passar já duraram tempo o suficientemente para desenvolver um perfil que mudará pouco no futuro, ou quando alcançou um equilíbrio entre os diferentes processos que atuam em sua formação. Os solos velhos apresentam baixa capacidade de intercâmbio de cátions e são pobres para a agricultura. Os solos que evoluíram sobre depósitos fluviais ou glaciais de formação recente são jovens e apresentam horizontes pouco evoluídos.
- Clima: É o mais importante dos processos ativos. A temperatura média e o regime de precipitações anuais são determinantes na meteorização dos solos e, portanto, na sua formação e evolução. A temperatura condiciona a intensidade da atividade química do solo: se a primeira aumenta, a segunda também se eleva e influencia os organismos que ali vivem. A precipitação afeta o grau de desenvolvimento da vegetação, a circulação de água e a inclinação do solo. O balanço entre a precipitação e a evaporação condiciona a dinâmica de lixiviação e precipitação no solo; se a evaporação supera a precipitação, predominarão os processos de precipitação dos sais dissolvidos.
- Plantas e animais: Tanto as plantas como os animais contribuem para o desenvolvimento do solo mediante sua atividade biológica. A macroflora formará o húmus, e a microflora (fungos e bactérias) o transformará. Nos climas frios, o crescimento das bactérias é lento, o que permite a acumulação do húmus. Nos climas tropicais e subtropicais, a ação bacteriana é intensa e toda a vegetação é oxidada rapidamente; por isso, o húmus é quase inexistente. Acima de uma temperatura anual média de 25 °C, a destruição bacteriana excede a produção de matéria orgânica e não há húmus. A ação dos animais no solo é mecânica.


TIPOS DE SOLOS


A variação de cada um dos fatores formadores do solo e sua interação na geografia terrestre geram milhares de solos diferentes. Esta grande diversidade resulta em uma enorme complicação para o estudo dos tipos de solos, uma vez que é difícil se estabelecer uma classificação simples e unânime. As classificações edáficas são muito numerosas, mesmo que se baseiem em princípios similares como a influência climática, o grau evolutivo e a necessidade de hierarquizar as unidades.

Em geral, podem ser considerados dois grandes sistemas de classificação: os que levam em conta a ecologia do solo, como as classificações bioclimáticas e genéticas, e os que se baseiam na atividade agronômica, como as classificações analíticas.

As classificações baseadas na ecologia do solo postulam que aqueles desenvolvidos em um mesmo ambiente bioclimático apresentam características similares, resultado de humificação e meteorização convergentes, à margem dos materiais iniciais. Nesta linha, encontram-se as primeiras classificações por zona, que utilizam o conceito de “zona edáfica ligada ao clima”, de maneira similar ao das associações vegetais As classificações mais recentes se baseiam nos processos genéticos, que contrastam o grau de desenvolvimento de um meio concreto com o de padrões standard de solos maduros e equilibrados.

As classificações analíticas, impulsionadas pela escola norte-americana, utilizam como critério de classificação as propriedades observáveis ou medíveis do solo; possivelmente relacionadas ou derivadas de sua gênese, elas priorizam as classificações que têm influência sobre o rendimento agronômico.

A evolução deste método introduziu o conceito de horizontes de diagnóstico e o uso de regimes de umidade e de temperatura do solo como critérios taxonômicos, definidos de forma quantitativa. A partir deles, o sistema de classificação Soil Taxonomy System estabelece categorias hierárquicas para classificar os solos mundiais, compostos por dez ordens, 47 subordens, 185 grupos, 970 subgrupos, 4,5 mil famílias e 13 mil séries.

Outro sistema analítico é o seguido pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO – Food and Agricultural Organization) no seu Mapa Mundial de Solos. Fundamenta-se nas características e nos horizontes de diagnóstico utilizados na definição de unidades do sistema de classificação Soil Taxonomy System, mas prescinde dos regimes de umidade e temperatura. Além disso, utiliza uma nomenclatura própria para designar as unidades baseadas em termos clássicos. Deve-se destacar que estas são definidas a partir de uma escala mundial, o que representa um grande inconveniente ao tentar aplicá-las à escala local nas cartografias de detalhe dos solos.


O SOLO E A ATIVIDADE HUMANA


A humanidade utiliza o solo para diferentes funções: como meio para plantar os vegetais para obtenção de alimentos, para sustentar as edificações ou as construções lineares (estradas, auto-estradas e vias de trem), para escoamento de resíduos (fossas sépticas ou eliminação de lodos de depuradora) ou como fonte de recursos minerais.

Mas, além disso, o solo é receptor de impactos como a erosão, a contaminação e a exploração exacerbada. Como conseqüência, há o empobrecimento de sua fertilidade, degradação biológica, compactação e perda irreversível por recobrimentos artificiais.

Na agricultura intensiva, o abuso da monocultura trouxe notáveis conseqüências para a qualidade do solo. O uso de maquinaria pesada nas tarefas agrícolas provoca uma deformação de sua estrutura: perde-se porosidade e permeabilidade, o que dificulta o crescimento das raízes e os processos de infiltração da água. A fertilização por meio de adubos minerais (fosfatos e nitratos) como substitutos da matéria orgânica também acarreta num desequilíbrio entre os componentes naturais do solo e, conseqüentemente, em sua degradação.


A DEGRADAÇÃO DO SOLO
A FAO define a degradação como o processo que reduz a capacidade do solo para produzir bens ou serviços, tanto qualitativamente como quantitativamente. A degradação implica numa perda de maturidade e pode iniciar-se com o desaparecimento da coberta vegetal que atua como proteção. Esta pode ser gerada por incêndios, desmatamentos abusivos, pastoreio excessivo, exploração agrícola ou atividades minerárias.

Os períodos de degradação de um solo são numerosos e estão determinados tanto pelas características ambientais (clima, topografia, litologia, vegetação etc.) como pelas atuações antrópicas (uso do solo).

Os processos mais importantes na degradação do solo são: a erosão, a degradação física, química e biológica, a salinização, a alcalinização e a contaminação.

- Erosão: É um processo natural que pode ser intensificado pela atividade humana; conduz à perda de solos cultiváveis e de sua fertilidade, contribuindo, portanto, para o processo de desertificação. A capacidade dos agentes geológicos (água, gelo, vento) para exaurir o conteúdo do solo é denominada “erosividade” e pode ser avaliada a partir de índices que dependem dos fatores climáticos. A suscetibilidade que apresenta o solo para ser erodido é chamada erodibilidade. Este fator depende do tipo de solo (de sua estrutura e da quantidade de matéria orgânica), do declive do terreno e da cobertura vegetal.
- Degradação física: Agrupa os processos que produzem redução da porosidade, diminuição da permeabilidade, compactação, mudanças na estrutura e outros efeitos provocados pela diminuição da matéria orgânica por desmatamentos excessivos ou práticas agrícolas inadequadas. Também é preciso levar em conta o impacto da chuva intensa no desaparecimento da coberta vegetal.
- Degradação química: É causada pela lixiviação ou lavagem das camadas superficiais do solo, que arrasta os nutrientes essenciais aos vegetais para níveis inferiores. Como conseqüência, há uma diminuição na fertilidade e redução do Ph até níveis que podem ser tóxicos.
- Degradação biológica: a degradação da coberta vegetal pode reduzir a matéria orgânica fresca e os nutrientes do solo. Também afeta suas propriedades físicas, como a estrutura, já que diminui a coesão entre agregados, o que favorece a perda de solo por erosão.
- Salinização e alcalinização: São processos de acumulação de sais solúveis na superfície do solo devido, geralmente, à irrigação de água com quantidade elevada de sais.
- Contaminação: Geralmente é derivada das atividades humanas, como: abuso de praguicidas e fertilizantes (nitratos e fosfatos) nas tarefas agrícolas, os derramamentos de resíduos sólidos urbanos, industriais ou minerários, ou a chuva ácida.


CONSERVAÇÃO DOS SOLOS
A possibilidade de atuar sobre os agentes externos (chuva, vento etc.) para diminuir a erosividade é mínima; por isso, as práticas de conservação dos solos são destinadas a modificar suas características ou a forma do seu território.

Pode-se, por exemplo, modificar a superfície do terreno para que os efeitos dos impactos das gotas de chuva sejam menores. Manter o solo com vegetação também ajuda a frear os processos erosivos; por isso, é necessário escolher cultivos que recubram a maior parte do solo quando o risco de erosão é elevado. Além disso, deve ser melhorada a infiltração e a permeabilidade do solo, para reduzir o escoamento superficial, junto às técnicas de arado, seguindo a direção das curvas de nível. Para diminuir a ladeira das vertentes, aconselha-se construir terraços e margens com muros de pedra seca, que tornem possível a agricultura de vertente, muito importante na região mediterrânea para conservar o solo e aumentar sua capacidade de retenção da umidade.