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Alergia, um mal da civilização
 
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 OS AGENTES ALÉRGICOS NOS ATACAM Imprimir Enviar Guardar
 
  O espirro e a secreção de mucosa são dois dos sintomas que acompanham a alergia

As enfermidades alérgicas aumentaram em todo o mundo. Em 1819, o médico inglês John Bostock comunicou à Royal Medical and Chirurgical Society de Londres a existência do catarro primaveril, descrito como febre do feno. Assim que a rinite deixou de ser uma doença aristocrática do século XVIII para tornar-se, junto à asma e à dermatite, a grande doença alérgica dos nossos dias. A alergologia, ramo da medicina que estuda, diagnostica e trata das doenças alérgicas, afirma que as alergias são uma reação anormal ou um aumento desmedido da sensibilidade do nosso organismo, por razão da presença de certas substâncias denominadas alérgenos, as quais provocam reações alérgicas em certos indivíduos.

A alergologia é hoje um dos ramos mais importantes da imunologia, estudando processos alérgicos do ponto de vista clínico e experimental. Entre os quadros clínicos do aparelho respiratório, o que apresenta maior incidência é a asma — doença que se caracteriza pela diversidade de agentes causais e, em grande parte dos casos, se relaciona a manifestações de natureza alérgica.

A asma se caracteriza por repentinos surtos de dificuldade respiratória, com tosse, sibilação e sensação de falta de ar originada por espasmo ou contração dos brônquios. Distinguem-se dois tipos de quadros asmáticos: o extrínseco, desencadeado por reações alérgicas a pólen, caspa, pêlos e penas de animais, medicamentos etc.; e o intrínseco, de natureza infecciosa. O primeiro tipo em geral se apresenta antes dos trinta anos de idade, enquanto o segundo pode ocorrer em qualquer faixa etária. Na incidência da asma não se registra diferenciação de raças, mas é comum a transmissão por fatores hereditários.

Entre os recursos terapêuticos de que se lança mão contra a asma, cabe citar a dessensibilização por lenta inoculação de doses mínimas do produto ou agente causador dos ataques, com a conseqüente imunização, e a administração de medicamentos destinados ao tratamento dos sintomas. Entre os mais comuns estão os broncodilatadores, como os derivados da teofilina e da adrenalina, e os mucolíticos, que aumentam a fluidez das secreções mucosas.


PROCESSO

O sistema imunológico produz os anticorpos IgE quando uma pessoa alérgica entra em contato com certas substâncias, o que faz com que a alergia seja precipitada. Esse processo desencadeia a produção de histaminas, o que causa a irritação das mucosas dos olhos, gargantas e nariz, inchaços, inflamações, lágrimas e ardor. A maioria dos investigadores coincide em que existe uma completa interação entre os genes e os fatores ambientais que regulam a aparição e manifestação de sintomatologia alérgica.

Também fica demonstrada a natureza hereditária da enfermidade, ainda que não apresente um padrão de herança simples, o que complica seu estudo. No caso de pai e mãe serem alérgicos, os descendentes têm 50% de chances de desenvolver uma doença alérgica. Se somente o pai ou somente a mãe é alérgico, as chances diminuem.

As reações alérgicas ocorrem em pessoas sensibilizadas previamente por uma substância estranha (alérgeno), de tal forma que o organismo passe a estimular os mecanismos de defesa do corpo, o que causa a alergia propriamente dita.

Atualmente já se sabe que quase toda substância pode agir como um alérgeno, porém, eles só causam reações nas pessoas sensíveis a eles. Esses indivíduos possuem células revestidas de anticorpos específicos para o alérgeno que produzem histamina, a qual leva à reação alérgica, que, por sua vez, pode ser tratada com vaporizadores, pílulas ou injeções dependendo de cada caso. Esses tratamentos fazem o indivíduo consumir de alguma forma os anti-histamínicos que levam à dessensibilização do alérgico.


ALÉRGENO

Os alérgenos são todas as substâncias capazes de, especificamente, revelar ou provocar estado de alergia. Imunologicamente falando, alérgenos são substâncias químicas, agentes físicos ou organismos diversos que estimulam a produção de anticorpos e que, em contato posterior com o organismo sensibilizado, desencadeiam manifestações alérgicas ou alergoses. Entre os principais alérgenos, pode-se citar: o pó de casa, pólen, algodão, gomas, píretro, fungos do ar, caspa de animais, penas, insetos, cola animal, alimentos, medicamentos diversos, cosméticos, corantes etc.


PESQUISAS

Através de pesquisas epidemiológicas recentes, se constatou o aumento das enfermidades alérgicas, não somente da rinite, mas também da asma bronquial e outras patologias como urticárias, alergias a alimentos e medicamentos. Para a doutora Consuelo Martinez Cócera, do Serviço de Alergologia de Madri, “surpreende aos especialistas comprovar que um terço dos pacientes que sofrem uma dessas enfermidades foi diagnosticado simplesmente por uma história clínica, sem nenhuma prova especifica que oriente um diagnóstico etiológico, que cerca de 60% das pessoas enfrentam limitações em sua vida diária por razão da enfermidade e 8% se automedicam”. Nos últimos vinte anos, o número de pessoas com sintomas de alergia na Espanha duplicou.

Uma pesquisa feita em 2005 pelo Wolson Institute of Preventive Medicine, em Londres, e divulgada no British Medical Journal, demonstrou que a quantidade de alérgicos no mundo cresceu cerca de dez vezes entre ao anos 1970 e 1990. Diferentemente da maioria dos médicos, que associa a alergia a fatores ambientais, o estudo diz que o ser humano está ficando cada vez mais sensível às doenças alérgicas.

Um exemplo disso é a cidade de São Paulo. Na metrópole brasileira, assim que a temperatura cai, aumenta o número de pessoas quem têm problemas respiratórios, como rinite alérgica e asma.

Segundo os especialistas da ABORL-CCF (Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial), nas épocas do ano em que ocorrem as quedas na temperatura e o clima fica seco é bom evitar o uso de tapetes e mantas e, no caso de casas com crianças, torna-se fundamental guardar todos os bichinhos de pelúcia em sacos plásticos. Isso porque eles podem ser focos de ácaros, os quais aumentam em mais de 40% nos dias mais frios.

Colchões e blusas de lã também concentram ácaros e devem ser lavados com freqüência. Outras recomendações são preferir cortinas ou persianas sintéticas e usar edredons em vez de cobertores. Manter o ambiente da casa sempre ventilado também é fundamental: purificadores de ar podem ajudar muito nessa tarefa.


RINITE ALÉRGICA

Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil trinta milhões de pessoas sofrem de rinite alérgica. O grande vilão dessa história, segundo uma pesquisa feita pela USP, em 2006, é o choque térmico, não os ácaros ou os fungos, em pessoas que trabalham em ambientes climatizados.

O estudo concluiu que o choque térmico provoca uma reação alérgica nas pessoas predispostas semelhante ao que acontece quando há contato com outros alérgenos, como o ácaro. Para evitar as mudanças bruscas de temperatura, deve-se se agasalhar antes de entrar em um ambiente com ar-condicionado.

A rinite é a mais comum entre as alergias. Estima-se que entre 30% e 40% da população mundial tem ou já teve pelo menos uma crise de rinite na vida.

Segundo especialistas da ONG Iniciativa Aria (sigla em inglês para Rinite Alérgica e seu Impacto na Asma) afirmam que mais de 80% dos asmáticos têm rinite, doença alérgica considerada pelos médicos uma espécie de “gatilho” para a asma. São mais de 350 mil internações por ano na rede pública brasileira.

Quando o ar fica seco, frio e poluído o catarro não fica mais fluído e expelido, mas espesso e preso, favorecendo assim as infecções e alergias.

Segundo o médico brasileiro Drauzio Varella, as crianças mais ricas têm mais alergias que as pobres. Varella afirma que “criança pobre pega doença infecciosa, as ricas sofrem de alergia. Nos países industrializados, as crianças e os adolescentes têm mais asma e doenças alérgicas. O aumento da freqüência é proporcional à renda da família, à melhora das condições gerais de habitação e de saúde e à redução do número de pessoas na família”.

Dessa forma, segundo o médico, as “crianças criadas com muitos irmãos e as que freqüentam creches adquirem infecções corriqueiras, essenciais para o desenvolvimento harmonioso dos mecanismos de imunidade. Na ausência delas, instalam-se doenças alérgicas, porque o sistema imunológico desregulado agride os próprios tecidos do organismo. É o caso dos brônquios na asma e da pele nos eczemas, por exemplo”.


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