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Dependência, quando o hábito vira vício
 
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O vício consiste em uma dependência, ou seja, um hábito ou costume que se repete à margem do controle da vontade do indivíduo e apesar das conseqüências serem negativas para sua vida.

A pessoa viciada não pode viver sem o objeto do qual é dependente, da mesma maneira que um mecanismo não pode funcionar sem uma determinada engrenagem. Por isso, falar de condutas de viciados é falar de condutas irreparáveis, de algo que os indivíduos realizam sem levar em conta as conseqüências e isso leva à compulsão, termo com que se define em psicologia o impulso irrefreável de fazer algo.

É freqüente encontrar definições de dependência carregadas de conotações morais. Devemos fugir de tais julgamentos. A dependência é invariavelmente uma doença. Desse ponto de vista, uma dependência é uma conduta de alguém que atua unicamente movido por uma vontade incontrolável.

Segundo o dicionário Houaiss, dependência é a “incapacidade de tomar decisões sozinho, o que leva a entregar as responsabilidades a um parceiro ou a outras pessoas”, a qual ocorre especialmente no problema de personalidade dependente.

A dependência que leva ao vício é, portanto, uma propensão a ter hábitos compulsivos ou a se comportar de maneira singular e invariável qualquer que seja a situação. Por exemplo, quando a pessoa é excessivamente medrosa ou excessivamente agressiva.

O vício e a dependência não são fenômenos individuais. Com freqüência trata-se de uma realidade coletiva, de comportamentos pessoais que resultam de condutas de alguém que acata e segue de maneira mecânica as normas de um determinado grupo, seja ele uma seita ou um grupo de fãs. Podemos dizer, portanto, que a evidência dos aspectos de dependência nesses casos é a perda da liberdade individual.


MULTIPLAS FORMAS DE DEPENDÊNCIA


Nas sociedades atuais existem muitas condutas que podem ser definidas como viciadas e nem sempre elas estão ligadas à dependência a uma substância química, como é o caso dos viciados em drogas. Há pessoas viciadas em jogos de azar, em sexo, em videogames, em televisão, em comida, em trabalho, em compras, em exercícios, em esportes perigosos, em ordem e organização, em limpeza, em religião, em esoterismo, em previsões etc.

Ainda que cada uma dessas condutas apresente vários aspectos diferentes, todas têm em comum alguns elementos básicos que permitem considerá-las dependências ou vícios. Quando grande parte da vida de uma pessoa gira em torno de uma conduta específica, que leva o indivíduo a vários tipos de problema, existe dependência e,
muita vez, vício.


CARACTERÍSTICAS DA DEPENDÊNCIA


Por diferentes mecanismos, biológicos, psicológicos e sociais, os seres humanos estabelecem relações com objetos, substâncias ou pessoas que não podem romper com facilidade. As satisfações, os benefícios aparentes ou reais ou as recompensas que obtêm os fazem manter essa estreita relação ainda que objetivamente possa ser prejudicial. Considera-se que há dependência quando a pessoa repete atos para obter algum tipo de satisfação ou para evitar um mal-estar, para reduzir a tensão ou a angústia. Na maioria das vezes, o prazer, principalmente nos casos de uso de drogas, tem duração curto, mas traz enormes malefícios à saúde do dependente.

O dependente alcoólico, a pessoa viciada em jogos de azar ou a que faz exercícios descontroladamente se comportam de uma forma que
pode afetar sua saúde, o seu equilíbrio psíquico, as suas relações pessoais e o seu trabalho. Essas pessoas devem ser consideradas dependentes, já que centram sua vida no objeto de seu vício.


AUSÊNCIA, DESCONTROLE E ABUSO
O estado de dependência também se descreve como ausência, já que se manifesta quando não se tem aquilo do que depende: as pessoas viciadas em trabalho são incapazes de se sentir bem quando estão de folga ou descansando. As férias para essas pessoas são verdadeiros suplícios. Quando se trata de uma mania pela ordem, a pessoa só fica feliz quando está tudo sob seu controle e do seu jeito.

Outra forma de descrever situações de dependência é em termos de controle ou descontrole: muitas pessoas são viciadas em compras. Usam seus cartões de crédito até ultrapassar completamente o limite estabelecido e, comumente, a maioria das coisas adquiridas não tem utilidade.

Na sociedade atual, a publicidade incita a consumir toda a classe de produtos, alguns deles podem potencialmente levar à dependência, como é o caso dos remédios para emagrecer, os quais são alvos de enormes campanhas publicitárias
na televisão.


A DEPENDÊNCIA COMO PROBLEMA
Uma adição se identifica quando se dão estes três fatores: excesso, prejuízo e compulsão.

Considera-se uso excessivo de algo quando ocorre o consumo de uma substância ou se repete uma atividade em quantidade ou com uma freqüência superiores às necessárias para encontrar-se bem, se entreterem ou se relacionarem.

Existe um uso prejudicial quando o consumo de algum produto provoca mais efeitos secundários adversos, como danos à saúde, do que benefícios. Esse tipo de comportamento leva invariavelmente a problemas pessoais, como brigas na família, e sociais, como problemas na escola ou no trabalho.

O uso compulsivo ocorre quando se busca ansiosamente fazer algo de maneira que, enquanto isso não acontece, a pessoa enfrenta uma enorme angústia e o indivíduo perde o interesse por outros assuntos.


MECANISMOS DA DEPENDÊNCIA


A dependência é um processo em que se parte de um primeiro contato, depois se passa para a experimentação e em seguida é estabelecida uma espécie de relação ocasional, a qual, com o passar do tempo, torna-se excessiva, causando o vício.

Não estão muito claros os mecanismos que geram a dependência. Sabe-se apenas que uma mesma substância ou conduta cria dependência em algumas pessoas e não causa em outras. Há aqueles que provam ou experimentam, mas que dificilmente desenvolvem uma dependência, enquanto outras pessoas precisam apenas de algumas poucas experiências para se tornarem viciadas.

Em geral as pessoas desenvolvem em algum momento de sua vida uma conduta dependente ou alguma conduta com um certo grau de dependência. O ser humano é dependente por natureza, nasce imaturo e passa por vários períodos de aprendizagem. Durante anos, as pessoas dependem de outras para desenvolver suas capacidades. Essa fase molda o indivíduo de maneira decisiva. Em grande medida, tornar-se uma pessoa dependente ou não está ligado à capacidade que o indivíduo tem de administrar, positivamente, o conjunto de dependências que configuram o dia-a-dia de sua vida.

A dependência é um fenômeno que resulta de fatores biológicos, ou seja, está ligada ao funcionamento do organismo; a fatores psicológicos, que estão ligados á maneira do indivíduo ser ou atuar; e fatores culturais e sociais, associados ao entorno mais próximo e à sociedade em que se vive.


A QUÍMICA DA CONDUTA
Todos os comportamentos humanos têm uma base biológica. Pensar, sentir, compreender ou apaixonar-se são ações que se produzem graças ao sistema nervoso, fundamentalmente pela ação de sua parte central: o cérebro. As emoções e os sentimentos não podem existir sem o conjunto de reações químicas que ocorrem no organismo humano.

Uma mudança da conduta ou no estado de ânimo comporta uma reposta química do cérebro. Já uma alteração interna, ou induzida internamente, da química cerebral supõe uma mudança na conduta da pessoa. Não se trata de reduzir atividades humanas tão complexas como ter ilusões ou sonhar, porém nenhuma dessas atividades se produz sem que ocorra também uma reação química cerebral.

A dependência, como o resto das condutas humanas, está vinculada a esse processo e, portanto, pode ter alguma explicação em chave bioquímica.

Para se ter uma idéia do tamanho desse problema, uma em cada dez pessoas que vivem na região da Grande São Paulo, a maior região metropolitana brasileira, precisa de tratamento psiquiátrico, segundo levantamento feito em 2006 pelo Hospital das Clínicas a pedido da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os números altos são o resultado de doenças como a dependência à nicotina até casos como o da síndrome do pânico, depressão e bulimia.

Contudo, é sempre mais fácil recorrer a explicações bioquímicas quando se trata de dependência provocada por alguma substância, mas não podemos deixar nunca de lado a análise das condutas sociais que levam ao vício e que são tão ou mais importantes que as questões químicas. Por exemplo: uma parte da necessidade de seguir jogando para as pessoas que são viciadas em jogos de azar se deve a uma excitação neurológica que o ato supõe.


A PERSONALIDADE E A DEPENDÊNCIA
A personalidade também leva a pessoa a adquirir uma dependência. A forma de enfrentar determinadas situações pode ser um indício para sabermos se a pessoa tem ou não uma predisposição à dependência. Uma personalidade medrosa dificilmente desenvolverá um vício ligado a situações de risco. Porém, esse tipo de indivíduo, quando está deprimido e sem ânimo, torna-se uma vítima mais fácil de certas substâncias, como o álcool, por exemplo, ou de determinados comportamentos, como a dependência ao convívio com certos grupos.

A dependência pode, portanto, depender da vulnerabilidade psicológica da pessoa, mas também de como ela controla a dor ou o mal-estar. Não raro, a dependência está ligada à ausência de estimulantes positivos na vida da pessoa. Quando a existência está repleta de insatisfações, problemas e frustrações (sejam eles reais ou imaginários), é criado um quadro propício para a dependência e o vício.

Porém, é sempre tênue a linha que separa o excesso da dependência. Por exemplo, o uso excessivo do computador só é classificado como dependência quando o usuário deixa de lado sua vida pessoal para passar todo o tempo possível na frente da máquina.

Quando o indivíduo sofre de depressão, ansiedade ou de problemas sociais, há um risco maior de desenvolver dependência, mas, no caso dos computadores, ela pode acontecer com qualquer um que tenha acesso à internet. Porém, há casos específicos: a maior parte dos viciados em sexo passou a buscar pornografia na rede intensamente, o que leva à dependência da máquina.

Em 2005, André Malbergier, pesquisador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, desenvolveu um quadro para caracterizar o uso compulsivo do computador. O perfil do brasileiro dependente em computador, segundo ele, é quase sempre parecido: ele tem, em média, 32 anos, é homem, solteiro ou divorciado, iniciou o uso há cerca de uma década e gasta 27 horas por semana conectado. Em frente ao micro, suas atividades são (em ordem de preferência) navegar na rede, jogar, bater papo on-line e desenvolver programas.

Esse indivíduo, segundo o pesquisador, prefere ficar conectado a sair com os amigos e familiares. Malbergier também diz que quase metade dos ciberviciados já havia manifestado algum tipo de transtorno psiquiátrico durante a vida. Muitos até já haviam usado drogas e enfrentado crises de depressão, ansiedade ou algum tipo de distúrbio alimentar e de personalidade.

As razões que levam o dependente ao uso excessivo do micro são basicamente as mesmas de muitos outros vícios: sentimentos de tristeza, depressão, frustração e irritabilidade.


SOCIEDADE E VÍCIO
Finalmente, devemos levar em conta a influência dos aspectos sociais e culturais. Em cada momento histórico, em cada época, as sociedades facilitam, estimulam, geram ou freiam determinadas condutas. A probabilidade de desenvolver uma dependência aumenta se a sociedade é estressante, se o entorno em que se vive é desumanizado. Além disso, é possível que seja a própria sociedade a que sugere soluções que levam ao vício (bebidas alcoólicas, cigarro e outras substâncias que causam dependência estão a todo tempo na televisão e nos outdoors), a problemas coletivos ou individuais.

Dentro de cada grupo social se produz um conjunto de fatores (necessidade, desejo, tensões, modas e valores) que levam o indivíduo à busca desenfreada da felicidade química, ou mesmo de uma energia maior, ou à fuga dos problemas que o rodeiam.


A desorganização social, a pobreza, a violência, a marginalização e a busca de dinheiro e poder a qualquer preço são condições capazes de impulsionar níveis cada vez maiores de dependência. O problema não escapa à lógica da sociedade de consumo nem pode ser explicado sem a análise profunda dessa mesma sociedade e de seus valores.