Terça-feira, 16 de setembro de 2014
DOSSIÊS
Marte, expedições ao vermelho vivo
O PLANETA VERMELHO
Hoje sabemos que não há nem água abundante nem colinas azuis. Que não existem galerias de pedra ou anfiteatros de mármore em Marte. Que ali, quando entardece, nenhum alienígena de olhos dourados passeia em seu barquinho pelos tranqüilos canais de vinho verde. As diferentes e exóticas noites de verão marciano descritas por Ray Bradbury em seu livro As crônicas marcianas já não são mais uma possibilidade real, ficaram restritas ao campo da imaginação. Tudo isso porque o homem já tem como fazer investigações no solo do planeta vermelho com suas sondas e seus robôs.

Após quase três meses investigando o planeta vermelho, a sonda norte-americana Opportunity, lançada em 1997, conseguiu a primeira prova física de que havia água em Marte no passado. Trata-se de um mineral quase desconhecido e pouco abundante, a jarosita, a qual se origina a partir de uma alteração aquosa, o que implica a existência anterior de água no local.

A descoberta feita pela Opportunity induz a pensar que se em algum tempo houve água em Marte, também é possível que tenha existido vida naquele planeta, o que tornaria obras de ficção como a de Bradbury uma espécie de “memória anterior”. Os pesquisadores da NASA acreditam que no passado Marte foi um planeta úmido e quente, e que no desértico Meridiani Planitia, lugar onde opera a Opportunity, teria existido um lago do tamanho dos Grandes Lagos, existentes nos EUA.

Esta não é a primeira vez que os pesquisadores conseguem provas para justificar a existência de água em Marte. Anteriormente isso já havia sido possível através de análises geológicas do planeta: os grandes cânions que cortam a superfície marciana só podiam ser o resultado de antigos rios e mares, hoje secos. Além disso, os satélites lançados pela NASA, Rússia e Agência Espacial Européia (ESA) haviam comprovado a existência de gelo nos pólos marcianos. Sem embargo, esta é a primeira vez que se obtêm provas plausíveis. Até chegar a elas, os pesquisadores recorreram a um largo caminho cheio de esforço e dificuldades.

REUNIÃO ESPACIAL
No início de 2004 foi reunida em Marte e nos arredores do planeta uma espécie de frota internacional. As sondas Opportunity e Spirit, da NASA, e os satélites Mars Global Surveyor (NASA), Mars Odissey (NASA) e Mars Express (ESA), lançados em 1997, 2001 e 2003 respectivamente, uniam forças para indagar sobre o passado do planeta vermelho com a intenção de abrir uma porta para a vida no futuro. Cada um deles cumpria uma função. Até o descobrimento da jarosita, as naves que mais dados levantaram foram as que estavam na órbita marciana, as quais permitiram inéditos conhecimentos geológicos e climáticos a respeito de Marte.

Por sua vez, as sondas Spirit e Opportunity deram mais proximidade às investigações, já que possibilitaram a prática de geologia in loco mesmo com os geólogos estando a 170 milhões de quilômetros de distância. Do tamanho de um carrinho de golfe e equipados com oito câmeras cada uma, as duas sondas são, atualmente, as duas maiores criações da NASA. Capazes de atrair a atenção de milhares de internautas, os quais baixaram milhares de imagens produzidas pelos robôs e veiculadas na internet. Tais imagens são provas incontestáveis de que houve, algum dia, água em Marte.

“Missão cumprida”, poderia ser dito, já que esse era o principal objetivo das naves ali enviadas e uma das principais motivações dos pesquisadores. Mas as pesquisas ainda continuam.

Principalmente porque, como diz Donna Shirley, criadora do robô Sojourner (primeiro a percorrer a superfície marciana), “todo mundo adora Marte”. Fora isso, há o fato de que a conquista de outro planeta contribui para incrementar o prestígio e poder dos países envolvidos, os quais vêem os novos territórios espaciais como uma nova fonte de recursos econômicos. Ainda que hoje as pesquisas ainda não tenham nenhuma aplicação imediata, no futuro elas podem dar lugar a novas descobertas em outras disciplinas, como ocorreu há quarenta anos com o projeto Apolo. As investigações levadas a cabo por aquela missão lunar serviram, anos mais tarde, para solucionar a microeletrônica, as comunicações globais, os sistemas digitais e para sintetizar novos materiais. Essas descobertas repercutiram beneficamente na economia mundial.

CRÔNICAS MARCIANAS
A questão científica também pode levantar inúmeras outras indagações. Por exemplo: houve vida em Marte? Poderemos, um dia, chegar a viver no planeta vermelho?

Em 1978, os cientistas chegaram à conclusão de que pode existir vida em qualquer ambiente onde haja água e uma fonte qualquer de energia. Por isso, em tese, fazer de Marte um planeta habitável não seria algo impossível. Segundo Jesús Martinez Frias, diretor do Laboratório de Geologia Planetária do Centro de Astrobilogia da Espanha, os indícios “parecem indicar que há água no solo marciano em forma de ‘permafrost’”. Se for assim, segundo afirma o cientista, estabelecer colônias humanas em Marte não é algo que só poderia ocorrer na ficção científica, pois seria possível extrair água do subsolo marciano e com ela umidificar o ambiente.

Porém as coisas não são tão simples assim. Em Marte, quando o Sol se põe, por exemplo, a temperatura cai para 30ºC negativos. A atmosfera é excessivamente tênue e a pressão atmosférica, muito baixa, o que faria qualquer líquido se evaporar instantaneamente. Desse modo, as condições de vida humana, hoje, naquele planeta, são ínfimas.

Outra possibilidade sonhada pela ficção científica e que agora já vislumbra possíveis tentativas é a de injetar na atmosfera marciana compostos químicos capazes de provocar severos efeitos, os quais, por sua vez, poderiam produzir o degelo das calotas polares. Depois, isso poderia gerar uma atmosfera de dióxido capaz de abrigar vida vegetal que, mediante a fotossíntese, criaria uma atmosfera respirável para os mamíferos. Para acelerar a transformação do planeta, poderiam ser colocados na órbita marciana grandes espelhos geradores de energia solar e se aproveitaria assim a energia térmica. Segundo alguns cálculos efetuados por cientistas, esse processo poderia começar em 2030 e duraria cerca de trezentos anos.

O QUE SABEMOS SOBRE MARTE
Graças às sondas e aos jipes que exploraram Marte, hoje é sabido que aquele planeta é muito parecido com a Terra, ainda que seja menor e mais frio. A inclinação de seu eixo, por exemplo, o que gera estações iguais às da Terra e deixa similares os dias e algumas paisagens como as das encostas escarpadas, as grandes erosões e os fundos secos, os quais lembram muitos lugares como o deserto de Atacama, no Chile.

Marte é o quarto planeta do sistema solar em distância do Sol e o sétimo em ordem de tamanho. Demora 24h37min para dar uma volta completa em torno de seu próprio eixo e um total de 687 dias terrestres para girar ao redor do Sol.

Em comparação à Terra, Marte tem área superficial (quatro vezes) e massa (dez vezes) menores. Em Marte o verão no hemisfério Sul é bem mais quente que o do hemisfério Norte. Porém, o verão no hemisfério Norte dura mais tempo.

Um hipotético marciano respira uma mistura que contém 95% de dióxido de carbono, 2,7% de nitrogênio, 1,6% de argônio e 0,13% de oxigênio.

As nuvens observáveis na atmosfera marciana são, em geral, muito transparentes e dividem-se em dois tipos principais: nuvens amarelas, situadas na baixa atmosfera, e brancas. As nuvens amarelas são formadas por poeira fina que, impelida pelo vento, eleva-se da superfície a altitudes de mais de dez quilômetros; as brancas compõem-se principalmente de cristais de gelo. A pressão atmosférica média registrada na superfície gira em torno de 5,5 e 6 milibares (a pressão na superfície da Terra, ao nível do mar, é de mil milibares).

A temperatura de Marte varia de acordo com a latitude e entre o dia e a noite. Há locais onde a temperatura pode variar dos 84ºC negativos, antes do nascer do Sol, para os 7ºC, no início da tarde.

A superfície marciana é formada na sua maioria por uma paisagem de rochas e areia que lembra a dos desertos.

ÊXITOS E FRACASSOS
Desde o início das explorações espaciais, nos anos 1960, e sobretudo a partir dessas novas investigações, Marte era visto como uma possibilidade de futuro. Mas, após a realização desses cálculos e investigações recentes, torna-se difícil de acreditar num êxito completo — mesmo porque a história da corrida espacial é recheada de sucessos, mas também de fracassos. Em plena Guerra Fria, a URSS foi o primeiro país a tentar mandar uma nave para Marte, ainda que suas sucessivas tentativas durante aquela década — sete no total — seriam todas falidas. Quando não perdiam contato com a Terra, as sondas soviéticas erravam o caminho acabavam se dirigindo para outro lugar. Pressionados pela insistência da URSS em colocar os pés em Marte, a resposta dos EUA não demorou muito. Em 1964, o Laboratório de Propulsão a Reação (JPL) da NASA construía dez sondas chamadas Mariner com o objetivo de explorar Vênus e Marte. Nesse mesmo ano ocorria o lançamento da sonda Mariner 3 ao planeta vermelho. A nave não conseguiu chegar ao seu destino. Em seguida, foi lançada a Mariner 4, que conseguiu entrar na órbita marciana durante três anos e enviar cerca de cinco milhões de bits de informação.

Em 1969, a Mariner 6 e a Mariner 7 continuaram o trabalho de suas predecessoras. Dois anos mais tarde, a Mariner 9 se tornava o primeiro satélite artificial de Marte. A sonda superou todas as expectativas e proporcionou grande quantidade de mapas e fotos do planeta. No mesmo ano, a URSS se convertia na primeira potência a pousar uma nave em solo marciano, ainda que a experiência só tenha durado cerca de vinte minutos. Depois, o sinal se perdeu.

Nos anos que se seguiram, todos os inventos feitos com o intuito de explorar Marte vieram dos EUA e da Europa. Em 1976, o projeto norte-americano Viking se tornava a primeira missão a levar duas naves até a superfície marciana. A Viking 1 e a Viking 2 recolheram uma enorme quantidade de dados e realizaram vários experimentos biológicos, que levaram os pesquisadores dos EUA a concluir que a superfície de Marte era autoesterelizante, ou seja, evitava a formação de seres vivos. Após o final das missões das Vikings nos anos 1980 e com chegada da crise energética que atingia o mundo, as expedições para o planeta vermelho ficaram suspensas por dezessete anos.

Em 1996, os EUA voltavam à carga e levaram até Marte uma das sondas mais emblemáticas da história humana; a Pathfinder. Tanto o módulo para o pouso quanto o jipe Sojouner superariam as expectativas fixadas. Juntos eles transmitiram mais de dezessete mil imagens, mais de quinze análises químicas do solo e uma vasta quantidade de dados meteorológicos.

NOVOS FEITOS
Nos anos seguintes e principalmente no começo do novo século, as agências espaciais colocaram em órbita as sondas Mars Global Surveyor (NASA), Mars Odissey (NASA) e Mars Express (ESA). Todas elas funcionaram perfeitamente e o êxito fez com que os jipes Opportunity e da Spirit, que estão em Marte desde o início de 2004, continuem trabalhando até hoje.

Esses dois robôs da NASA, além de conseguirem as provas que confirmam a existência de água em Marte, não cessaram de enviar para a Terra imagens e dados espetaculares. Na central da NASA, uma equipe de mais de mil cientistas espera com paciência as informações, já que a comunicação interplanetária não é nada fácil.

A enorme distância que separa os planetas impede que os profissionais da NASA vejam o que é feito pelos robôs a cada momento. Assim, se um dos robôs está a ponto de cometer um erro, por menor que seja, isso é um grande problema para a missão. Um astronauta poderia resolver isso. Porém, a situação poderia piorar se fosse enviada uma missão tripulada para Marte. Além de ser uma solução, no momento, fora do alcance monetário e técnico de toda agência espacial, esses erros poderiam custar a vida dos astronautas.

Mesmo depois de o homem ter pisado na Lua com a missão Apolo XI, em 1969, e ainda que George W. Bush tenha anunciado que em 2020 os astronautas já poderão viajar para Marte, há muitos problemas para resolver e uma viagem para o planeta vermelho ainda é um sonho infinitamente longínqüo. Para começar, a larga distância que separa a Terra de Marte torna possível viagens que durem entre dois e três anos apenas quando os astros se encontram mais próximos um do outro. Isso significa que algumas expedições deveriam ficar no planeta durante mais de um ano, pois só assim poderiam voltar no momento em que os planetas se aproximassem novamente. Em sua maior aproximação, Marte fica a mais ou menos 56 milhões de quilômetros de distância da Terra, mas pode se afastar até cerca de quatrocentos milhões de quilômetros.

Em 2005, a NASA lançou a sonda Mars Reconnaissance Orbiter. Essa missão tem um brasileiro no topo da cadeia de comando. Seu nome é Ramon de Paula. Nascido em Guaratinguetá (SP), cresceu em Pirassununga. Desde os dezessete anos Ramon vive nos Estados Unidos. Atualmente, ele é o executivo da missão no Quartel-General da NASA, em Washington.

Quando Orson Welles (1915-1985), em seu programa de rádio veiculado em 30 de outubro de 1938, usou o formato de um noticiário para anunciado um texto — baseado em War of the Worlds (Guerra dos mundos) de H. G. Wells (1866-1946) — no qual se relatava um fictício ataque a New Jersey por invasores de Marte, milhares de ouvintes saíram às ruas em pânico. Hoje, quando Bush diz que levará um homem ao planeta vermelho até 2020 resta uma certeza: se realmente existissem marcianos, eles não teriam motivos para se preocupar porque uma invasão de terráqueos em Marte é algo hoje impossível. Porém, se os planos do presidente norte-americano terão tanto sucesso quanto a invasão marciana de Welles, só o futuro e o desenvolvimento científico-tecnológico dirão.

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Exploração espacial, uma história de êxitos e fracassos

 
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