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Petrarca, entre o humano e o divino
 
 
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 UM HOMEM DE LETRAS
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Petrarca e Laura em uma miniatura do O Cancioneiro (Biblioteca Nacional Marciana, Veneza)

Em 2004, comemorou-se o sétimo centenário de nascimento do poeta italiano Petrarca, autor de uma famosa coleção de poemas em italiano, intitulada O Cancioneiro. Com ele, surgiu o humanismo no século XIV, uma nova maneira de interpretar a realidade a partir da leitura dos clássicos. Esse interesse pelos artistas greco-latinos já vinha se manifestando há anos, mas naquele século alcançou seu máximo esplendor. Nasceu o humanismo e, com ele, o Renascimento, um movimento artístico e cultural que perdurou na Europa até o século XVI.

PETRARCA HUMANISTA

O humanismo foi uma corrente cultural que se originou na Itália do século XIV e durante os dois séculos precedentes se propagou por toda a Europa. Seu eixo central foi a Antiguidade Clássica, o mundo greco-latino. A leitura dos clássicos foi tomada como ponto de partida para elaborar um novo pensamento.

Os dois protagonistas principais deste movimento foram os italianos Francesco Petrarca e Giovanni Boccaccio, considerados pais do humanismo. Compatriotas e amigos, mantinham uma assídua correspondência, na qual expressavam suas ideias e pensamentos sobre o tempo em que viviam. Chamavam a si mesmos de antiqui, ou herdeiros da Antiguidade, em contraposição aos barbari modernos, ardentes seguidores de Aristóteles e da escolástica medieval.

Francesco Petrarca nasceu em 1304 em Arezzo, cidade próxima à Florença e berço da lírica stilnovista. Sua família, de origem católica, se mudou para Avignon seguindo a corte papal, quando o jovem poeta tinha apenas oito anos.

Logo depois, seu pai o enviou a Montpellier para estudar Direito e, posteriormente, a Bolonha, contra sua vontade, para se dedicar à leitura e ao estudo dos clássicos greco-latinos. Em 1326, após a morte de seu pai, retornou a Avignon.

Durante sua juventude e precoce maturidade, sua vocação cristã ficou clara. Em 1330, decidiu ingressar nas ordens menores da igreja de Avignon a serviço do Cardeal Giovanni Colonna. No entanto, três anos depois ainda não havia adentrado nas sendas do humanismo. Devido a uma viagem pelo norte da Europa, Petrarca começa a ter contato com o mundo da cultura clássica. Casualmente, encontrou um texto intitulado Pro Archia, pertencente a Cícero, orador e escritor de origem romana do século I a.C.. A leitura deste escrito lhe fez descobrir uma das vocações de sua vida: a de filólogo, além da de poeta. Sua adoração pelas letras era tamanha e sua afeição aos livros tão intensa, que Petrarca sabia mais de uma obra de cor. Talvez por este motivo, também se transformou em um exigente bibliófilo. Criador da idéia da biblioteca pública que conhecemos hoje, o poeta vivia entre numerosas e importantes coleções de livros que adquiria paulatinamente, entre as quais se encontravam, por exemplo, as obras poéticas de Virgílio.

Sua reverência aos clássicos era total e sem concessões. De fato, sua admiração por eles lhe incentivou a tentar imitá-los. Junto ao cultivo da língua italiana, aperfeiçoou também o latim, língua na qual escreveu De viris illustribus (em tradução livre: Sobre Os Homens Ilustres), um de seus primeiros livros em prosa. Trata-se de um relato de caráter moral protagonizado por homens ilustres da Antiguidade Clássica, no qual o poeta concilia classicismo e cristianismo. Junto de De viris illustribus, outra obra representativa de seu amor à cultura greco-latina é África, um poema épico inconcluso sobre a Segunda Guerra Púnica e centrado na figura do general romano Escipion. Os estudiosos viram nesta obra uma tentativa de recriar a Eneida de Virgílio, já que ambas estão escritas em hexâmetros latinos, um recurso estilístico que consiste na alternância de sílabas longas e breves, muito utilizado entre os poetas da Antiguidade.

Em 1340, quando Petrarca já contava com grande popularidade na Itália e na França graças à sua obra escrita em latim, o Senado de Roma o coroou poeta e recebeu a laureia, um reconhecimento pela sua trajetória, que lhe deu status para ensinar no âmbito universitário. Três anos depois, escreveu Secretum (em tradução livre: Segredo), uma obra lírica que evidencia uma autêntica introspecção do poeta. Composta por três livros, retrata um diálogo entre Petrarca e Santo Agostinho, no qual o poeta, incapaz de erradicar o mal de sua alma, expõe seus sentimentos ante o professor. Petrarca escreveu Secretum após sofrer uma profunda crise espiritual provocada pela renúncia de seu irmão à vocação religiosa. Gherardo Petrarca deixou de ser monge cartuxo em 1343. Até então, tinha seguido os princípios de sua ordem, que promulgava a busca pelo caminho traçado por Deus através da solidão e da vida austera em uma cela monástica.

Uma vez superada a crise, Petrarca retomou a leitura dos clássicos por dois gêneros literários que ainda não tinha abordado: as éclogas e as epístolas. Depois de ler a correspondência de Cícero, que achou na biblioteca de Verona, decidiu fazer sua própria contribuição ao gênero epistolar, editando duas coleções: as epístolas familiares e as semiles, de 24 e 17 tomos respectivamente. E sem esquecer sua vertente cristã e filosófica, leu Confissões de Santo Agostinho. Sob sua influência, redigiu sua última escrita em latim, De vita solitária (em tradução livre: Sobre a Vida Solitária), na qual retrata o conflito entre a moral cristã medieval e o paganismo da época clássica, ambas, tradições contraditórias que Petrarca reinterpretou até que fossem complementares.

No entanto, não foram as obras em latim que dotaram o poeta da popularidade que mantém ainda hoje e que influenciariam o estilo literário de artistas de toda Europa. Foi sua inovação no gênero lírico, escrito em italiano, que deixou marcas na tradição literária até o começo do romantismo no século XIX.


PETRARCA POETA

Petrarca é considerado o pai da lírica moderna, mas seu estilo não surgiu por acaso. Além da influência dos clássicos, também se inspirou em Dante, com sua obra A Vida Nova, e nos stilnovistas.

O dolce stil novo foi um movimento poético do final do século XIII que estabelecia, pela primeira vez, um vínculo estreito entre a escrita e a relação amorosa. Os poemas giravam em torno da figura de uma mulher. Uma amada, que não era a senhora feudal a quem cantavam os trovadores, mas uma encarnação de todas as virtudes possíveis. Sua beleza deixava o poeta apaixonado e sua ausência o tornava obsessivo. O artista, preocupado mais pela estética que pelo conteúdo, mitificava a imagem da mulher até elaborar um poema estilisticamente perfeito. A tradição cristã também teve um papel de destaque neste movimento. A relação entre o poeta e a amada apresentou um ar religioso. A dama era uma espécie de encarnação da bondade infinita de Deus. Esta nova concepção da relação amorosa considerava a paixão como um processo de purificação espiritual, um caminho que conduziria a Deus.

O Cancioneiro é a obra que abriga a maior parte da produção lírica de Petrarca. É o compêndio de todas as suas poesias. Primeiro a intitulou In Vita e in Morte di Laura (em tradução livre: Em Vida e Morte de Laura), para finalmente optar pelo título atual ao acrescentar versos de outra temática. Il Canzoniere, como se chama em italiano, é formado por sonetos, canções, sextinas, baladas e madrigais, e abrange um total de 366 rimas de estilo simples, grande musicalidade e carga semântica e simbólica muito complexa.

Laura é o tema central da obra. Em torno dela e de sua imagem idealizada, giram todas as composições da compilação. Assim como Dante elevou até o céu a sua angelical dama Beatriz em A Vida Nova, Petrarca fez o mesmo escrevendo sonetos que alcançaram a perfeição estilística. Mas... seria Laura uma mulher real?

Segundo conta o próprio Petrarca, no dia 6 de abril de 1327, sua vida mudou. Um acontecimento marcou toda sua existência, como pessoa e como poeta. Era Sexta-Feira Santa quando viu, pela primeira vez, Laura na igreja de Santa Clara de Avignon. A partir desse momento, a jovem se transformou em objeto de seu desejo e musa de seus poemas. Sua paixão foi tragicamente arruinada em 1348, quando Laura faleceu por causa da peste negra. Este fato abriu um novo mundo a Petrarca. Uma diferente interpretação da mulher impregnaria sua obra final, onde reflete sobre a beleza, a caducidade da vida e a morte.


IN VITA E IN MORTE DI LAURA

As composições compiladas no Cancioneiro foram escritas entre 1327 e 1330. Mesmo que a temática seja variada, o amor por Laura é o centro de todos os poemas. A ordenação cronológica, estabelecida por Petrarca antes de sua morte em 1374, permite observar a evolução dos sentimentos do artista. Desde o surgimento da paixão, passando pelo conflito existencial entre decidir pelo amor carnal e Deus, até a solução final achada graças à morte de Laura, a obra se divide em duas partes.

A primeira parte é formada pelos poemas dedicados a Laura em vida. São composições escritas na sua juventude, inspiradas no dolce stil novo. Petrarca apresenta uma Laura idealizada, afastada de sua condição terrena. É objeto de amor humano, inalcançável e inacessível. Encarna o sentido alegórico da mulher, da mesma maneira que Beatriz, desejada por Dante, em A Vida Nova. Igualmente aos stilnovistas, a dama é modelo de virtude angelical.

A segunda parte, paradoxalmente, é composta por poemas escritos depois da morte de Laura. Nela, a figura da amada parece ser mais real. É representada como uma mulher de carne e osso, com suas virtudes e defeitos. Nesta parte, Petrarca reflete sobre a caducidade da beleza e a morte. Desta maneira, Laura se transforma na primeira mulher representada através de uma imagem moderna.

Petrarca faleceu em 1374 na cidade italiana de Arquà, conhecida atualmente como Arquà Petrarca. Mais que poeta, ele se considerava humanista, por isso, dedicou quase toda sua vida ao estudo dos autores greco-latinos. Defensor e incentivador da cultura e língua clássica, em um momento no qual só os clérigos escreviam em latim, aproximou esta língua das correntes acadêmicas universitárias. Além disso, o modelo de sua lírica foi divulgado por toda a Europa, sobretudo a partir do século XVI. Numerosos autores europeus imitaram seu estilo de escrever poesia e tentaram criar poemas tão perfeitos como os que Petrarca dedicou a Laura. O tema, a estrutura do processo amoroso, a introspecção do poeta, a visão da amada, a descrição física, a métrica e a linguagem poética foram as características mais imitadas pelos seguidores do humanista italiano. Esta herança direta do O Cancioneiro é também conhecida como petrarquismo.


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