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Crise dos alimentos, a um passo da fome
 
 
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 A FOME SILENCIOSA
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Os cereais são um alimento básico na dieta de países como a Etiópia. Foto: WHO/P. Virot

Em abril de 2008, a rede de supermercados norte-americana Wal-Mart limitou a venda de arroz a, no máximo, 4 quilos por cliente. A empresa alegava que só desse jeito poderia garantir o abastecimento desse cereal nos meses seguintes. Esta medida sem precedentes evidenciava a escassez de arroz no mercado e representava uma ameaça para grande parte da população mundial. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, na sigla em inglês) alertou que a alta do preço dos alimentos estava gerando uma crise internacional. O então diretor deste órgão referiu-se à situação como “um tsunami silencioso”.

As advertências da FAO não eram arbitrárias e tomavam como referência a elevação de 77% no preço dos cereais em 2007. Este aumento era, até então, um recorde histórico, fato que pressagiava maus tempos para os países mais pobres. O primeiro trimestre de 2008 confirmou esta tendência, quando o preço do arroz subiu 68%. Apesar de o Programa Mundial de Alimentos (PMA) ter contado com um orçamento extra de € 400 milhões para atenuar a crise, a maioria dos especialistas era pessimista. “Se os preços continuarem aumentando, centenas de milhares de pessoas morrerão de fome”, prenunciou Dominique Strauss-Kahn, então diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI). Este mesmo órgão assegurou que o aumento dos preços poderia agravar a pobreza de 100 milhões de pessoas.


UM PROBLEMA GLOBAL
Esta crise dos alimentos era uma das consequências da globalização da economia e, pela primeira vez no século 21, afetou vários países de forma simultânea. Mesmo que a Europa e os Estados Unidos fossem capazes de resistir a esta tendência, 37 países da África, Ásia e América já começavam a sofrer a escassez de alimentos básicos, especialmente de arroz e milho, dois cereais essenciais na dieta das nações mais pobres do planeta.

Desde de 2007, países como o México e o Paquistão já faziam protestos devido ao elevado preço dos alimentos. As denominadas “revoltas da tortilha” levaram às ruas milhares de mexicanos que protestavam por causa do encarecimento do milho, um cereal fundamental na dieta deste povo. No caso do Haiti, os cidadãos realizaram manifestações aos gritos de “Temos fome!” e protagonizaram diversas revoltas que acabaram por forçar a demissão do então primeiro-ministro. Em outros países, como Tailândia e Paquistão, foi iniciado um racionamento de alimentos próprio dos tempos de guerra, e o exército foi obrigado a vigiar dia e noite os armazéns de provisões para evitar saques.

A tensão aumentava ao mesmo tempo em que os mercados se desabasteciam. Desse modo, no Egito e em Camarões, as manifestações conhecidas como as “revoltas do pão” causaram a morte de dezenas de cidadãos no começo de 2008.

Os organismos que vigiam a economia internacional sentiam-se incapazes de frear o problema, fruto da escassez de alimentos e do afã lucrativo das grandes empresas multinacionais, que nunca estiveram dispostas a desacelerar seu crescimento. O então presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, chegou a propor a supressão da FAO, após considerá-la ineficaz para resolver a crise dos alimentos e acusou o órgão de fomentar durante décadas “uma política de esmola e humilhação”, que não solucionava os verdadeiros problemas dos países mais pobres. Para ele, a doação de alimentos era só uma ajuda momentânea que, apesar de aliviar a fome da população, não garantia o futuro das nações mais pobres. Wade propôs então que os recursos da FAO fossem destinados ao Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida), que promove a exploração agrícola intensiva nos países menos desenvolvidos, única via para garantir a autossuficiência dessas regiões.


ARROZ COM LEITE
A crise dos alimentos, porém, não era um problema circunstancial, mas uma tendência da globalização da economia, iniciada nos anos 1970. Durante várias décadas, os governos dos países desenvolvidos fomentaram o abandono da atividade agrícola e pecuarista, consideradas como indicadores do subdesenvolvimento, a favor de outros setores. A política da Comissão Europeia e de alguns órgãos, como o Banco Mundial, foi a de dar prioridade ao setor dos serviços em detrimento ao do campo. Na Europa comunitária, chegou inclusive a ser estabelecido um sistema de quotas agrícolas para os países membros, que previa sanções àqueles que ultrapassassem, por exemplo, a produção de leite. Muitos agricultores e pecuaristas foram obrigados a abandonar suas atividades e ser compensados com uma indenização por ter que dedicar seus campos a outros tipos de uso.

Do mesmo modo, em Bruxelas, foi imposto um regime de alqueive nos campos europeus, que obrigava os agricultores a deixarem sempre 10% de seus terrenos sem atividade. A situação do mercado internacional, no entanto, fez com que esta norma fosse descartada de maneira excepcional em 2008. Apesar da mudança de atitude, a Comissão Europeia previa que outras medidas, como as quotas de produção de leite, seriam mantidas até 2015. Várias associações de agricultores europeus, como a Coordenação de Organizações de Agricultores e Pecuaristas (Coag, na sigla em inglês) e a Coordenação de Agricultores Europeus (CPE, na sigla em francês), alegavam que tanto a especulação das grandes multinacionais como a Política Agrária Comum, promovida pela Comissão Europeia, eram culpadas pela alta dos preços dos cereais e dos laticínios na Europa.

Frente a essa polêmica, os dados do Banco Mundial eram claros: entre 1980 e 2004, o investimento em produção agrícola havia sido reduzido pela metade nos países considerados desenvolvidos. Reativar o setor ante o crescimento da demanda que se apresentava não parecia fácil após anos de abandono.

Além da política econômica, outros fatores precipitaram a crise dos alimentos. Entre eles, os limites à exportação impostos a alguns países produtores de cereais para garantir o abastecimento de seu mercado interno, o aumento dos preços do petróleo e dos fertilizantes, a depreciação do dólar e o abandono dos cultivos destinados ao consumo humano em benefício dos dirigidos à produção de biocombustíveis. Robert Bruce Zoellick, presidente do Banco Mundial entre 2007 e 2012, chegou a afirmar que precisamente estes últimos fatores causaram o aumento dos preços dos cereais entre um 5% e 15%. Este argumento, no entanto, foi negado de forma taxativa pela Comissão Europeia.

Outra prática que encarece o preço dos cereais é a especulação de certos provedores multinacionais que, ante a crise, deixam de vender seus estoques, pois sabem que, daqui a alguns meses, poderão obter maiores lucros. Graças à sua grande capacidade de armazenagem, estas empresas podem guardar até 20 toneladas de cereais para vendê-las ao melhor comprador, quando for mais rentável.

A todas essas causas, somavam-se o desenvolvimento de dois dos países mais povoados do planeta, China e Índia, cujas demandas de alimentos podiam comprometer o futuro mundial. A China é o maior produtor e consumidor de arroz do mundo, mas, a partir do século 21, a adoção da dieta ocidental gerou uma elevação da demanda de carne e laticínios, o que obrigou o país a aumentar a produção de cereais e da ração necessários para alimentar o gado. A gripe aviária que se espalhou pela China nos primeiros anos do século também obrigou o fechamento de milhares de fazendas avícolas; desde então, os mercados chineses começaram a comprar frango de outros países, onde a segurança destes produtos era garantida. Para tentar frear a inflação nos mercados internacionais, Wen Jiabao, primeiro-ministro chinês entre 2003 e 2013, decidiu restringir as importações de carne e laticínios.


TEMPOS DE SECA
Segundo o Banco Mundial, a alta dos preços em 2007 e 2008 faria com que os 2,2 milhões de pessoas que sobreviviam com menos de US$ 1,00 por dia tivessem que dedicar 85% ou 90% de sua renda à alimentação. Esta cifra comprometia o futuro dos países em desenvolvimento, pois se a alimentação da população não fosse assegurada, outras áreas, como saúde, infraestrutura ou indústria, não receberiam investimentos. Nos países considerados desenvolvidos, a quota de renda destinada à alimentação é próxima de 12% do salário.

A situação, porém, ficava ainda mais alarmante, uma vez que as secas que afetaram vários países europeus, africanos e asiáticos reduziram as colheitas e a oferta de alguns produtos agrícolas nos mercados internacionais. Em 2007, foi possível sentir a mudança climática em muitos países pobres e nos grandes produtores de cereais, como a Austrália. Desse modo, os cultivos que exigem mais água, como o arroz, tiveram sua produção reduzida. Além disso, o aquecimento global, o aumento da contaminação e o uso descontrolado de produtos químicos causaram danos à produtividade das terras, que cada vez eram menos férteis. Como se não bastasse, o aumento do cultivo de variedades destinadas ao negócio dos biocombustíveis, que não são aptas para o consumo humano, mas possibilitam rendimentos maiores, acentuou a escassez dos cereais, principal fonte de hidratos de carbono de qualquer dieta.

O aquecimento da Terra também foi responsável pelos grandes fenômenos meteorológicos que castigaram as regiões mais cálidas do planeta. Os desastres naturais, como os furacões que atingiram a América Central em 2007, destruíram colheitas e minguaram a oferta de alimentos.

No caso de Mianmar (antiga Birmânia), o ciclone Nargis, que assolou o país em maio de 2008, causou um baque para a economia local. Além de deixar 100 mil mortos, os fortes ventos de mais de 240 quilômetros por hora arrasaram os grandes arrozais do delta do rio Ayeyarwadi, que eram a base econômica do país e que eram conhecidos como “a tigela de arroz da Ásia” devido à sua alta capacidade produtiva.

Segundo a FAO e o Conselho Mundial da Água (CMA), em 2050, a escassez de água poderá ameaçar a segurança alimentar mundial, uma vez que problemas como o consumo excessivo, a degradação e o impacto das alterações climáticas podem diminuir a disponibilidade de água em várias regiões. E é importante lembrar que a agricultura é a maior consumidora de água, num mundo onde a população tende a crescer, levando à necessidade de ampliação das plantações. Por isso a necessidade de buscar o reaproveitamento e o controle do uso.


O ARROZ É VIDA
A FAO declarou 2004 o ano mundial do arroz. Com o lema “O arroz é vida”, chamou a atenção sobre este alimento, base nutricional de milhões de pessoas no mundo inteiro. Para este órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), fomentar o cultivo deste cereal nos países pobres podia ser a receita perfeita para atenuar a fome no mundo.

O enorme aumento do preço do arroz no primeiro trimestre de 2008 foi especialmente preocupante, já que é o alimento básico de mais da metade da população mundial. Só na Ásia, mais de 2 bilhões de pessoas obtêm do arroz 70% de seu consumo calórico. Se os preços continuassem subindo, seria mais rentável vender o cereal aos países ricos; por isso, o mercado das próprias regiões produtoras poderia ficar desabastecido. Segundo os cálculos do Banco Mundial, a situação seria agravada em trinta países da Ásia e da África. No continente africano, o arroz alimenta mais de um terço da população, e seu consumo é considerado fundamental para garantir a segurança dos alimentos.


MEDIDAS DE URGÊNCIA
Diante deste quadro, a ONU assegurou que necessitava, no mínimo, de um extra de US$ 500 milhões para manter suas expectativas de desenvolvimento nestes países. O FMI e o Banco Mundial, por sua vez, já haviam se comprometido a desenvolver um plano de emergência que reativasse o setor agrícola. Como primeira medida, Zoellick havia solicitado aos países produtores de arroz que não proibissem as exportações deste cereal, pois esta ação só “fomentaria o monopólio, impulsionaria os preços e impediria a luta das pessoas mais pobres do mundo pela alimentação”. Também pediu aos países desenvolvidos que estabelecessem um fundo de emergência de US$ 750 milhões para apoiar as nações que enfrentavam problemas devido aos altos preços do grão. Ainda assim, o diretor do Banco Mundial assegurou que a crise dos alimentos mundial se aceleraria até 2010 e que o mercado não se estabilizaria até 2015. Apesar de acreditar que nessa data a situação estaria melhor, Zoellick achava impossível a recuperação do nível aquisitivo de 2004.

Enquanto os órgãos encarregados de vigiar a economia mundial se mobilizavam, cidadãos de todo o mundo começavam a se manifestar contra a primeira crise dos alimentos global. Como consequência desta situação, as teorias econômicas de Thomas Robert Malthus ganharam força novamente. Este pensador iluminista prenunciou, no século 18, que o crescimento da população a um ritmo superior ao da produção dos alimentos conduziria o planeta, no futuro, a uma grande fome. Para alguns, o futuro prognosticado por Malthus não demoraria a chegar.


UMA NOVA CRISE
Toda essa movimentação, embora não tenha “solucionado” definitivamente a questão, foi capaz de amenizar a situação que se desenhou em 2007 e em 2008 e preparar melhor o mundo para as diversas formas de escassez de alimentos que poderiam surgir a partir de então.

Uma das formas de prevenção e avanço foi a criação do Sistema de Informação do Mercado Agrícola (Amis, na sigla em inglês) em 2011, uma agência internacional que busca a transparência do mercado de comida — principalmente de trigo, milho, arroz e soja, considerados a base da alimentação da maioria dos países — e reforça as políticas de administração em tempos de crise. A instituição se formou a pedido do Grupo dos 20 (G20) e é abrigada pela FAO, em Roma. O G20 é um fórum internacional dos governos das consideradas 20 maiores economias do mundo: África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Rússia, Reino Unido, Turquia e União Europeia (único membro que não consiste num só país).

Mas logo em 2012, um novo cenário de crise alimentar se desenhava, desta vez conduzido por uma alta dos preços gerada pela quebra de safra das principais regiões produtoras de alimentos básicos do mundo, que são poucas se levarmos em conta a demanda crescente. Segundo relatório divulgado pela FAO, neste ano, o trigo havia aumentado seu preço entre 60% e 80%, enquanto o milho, 40%. Fora isso, há ainda a má distribuição, que não permite que alguns países em desenvolvimento sejam suficientemente abastecidos, gerando um estado de fome cada vez maior.

Nesse contexto, os pequenos produtores e as agriculturas familiares, que passaram a se multiplicar nos últimos anos, muitos motivados pela crescente demanda de alimentos orgânicos, ou seja, sem agrotóxicos e fertilizantes químicos, significaram uma excelente saída para essa crise na produção de alimentos. Incentivar o consumo local e investir nas zonas rurais apareceram como medidas importantes.


BRASIL: DESPERDÍCIO E FOME
Na segunda década do século 21, o Brasil ocupava uma posição de destaque, sendo o quarto maior produtor mundial de alimentos e gerando comida suficiente tanto para o consumo local quanto para exportação. O grande problema do país era o desperdício, calculado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) como de 40 mil toneladas diárias, o suficiente para alimentar 19 milhões de pessoas com três refeições.

Engana-se quem acredita que todo esse desperdício parte dos consumidores. Segundo um estudo do Instituto Akatu, ele se distribui nas várias etapas de produção de comida: na colheita, no transporte, no armazenamento, na indústria de processamento e no varejo.

E apesar de ser um produtor de alimentos tão importante, foi só em 2014 que o Brasil saiu do Mapa Mundial da Fome divulgado pela FAO, que apontou que entre 2002 e 2013, o percentual de brasileiros em estado de subalimentação caiu em 82% e, entre 1990 e 2014, em 84,7%. Esta mudança foi marcada por uma maior oferta de alimentos (inclusive na merenda escolar) e pelo aumento da renda da população mais pobre.


FOME NO MUNDO
Essa melhora, no entanto, não aconteceu só no Brasil, uma vez que, em 2015, 72 países alcançaram o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio determinado pela Cúpula Mundial de Alimentação de 1996 e reduziram pela metade o número de pessoas em estado de subalimentação. Apesar de um aumento de quase 2 milhões de pessoas no mundo, o número daqueles que passavam fome havia sido reduzido em quase 30% em relação ao período entre 1990 e 1992, segundo relatório divulgado pela ONU. Mesmo assim, 795 milhões de indivíduos ainda sofriam dessa privação.

Em meados da década de 2010, a África subsaariana ainda tinha a maior prevalência de subalimentação do globo, numa proporção de 23,2%. Nesse mesmo período, o norte da África havia conseguido alcançar uma porcentagem inferior a 5% de pessoas com subalimentação.

A Ásia também apresenta contextos diferentes dependendo da região. O sul teve uma redução na prevalência da subalimentação de 23,9% para 15,7% no período estimado, enquanto na Ásia Ocidental, o que agrava os problemas de fome são os conflitos civis e a grande proporção de imigrantes.

Já na América Latina e no Caribe, a porcentagem de pessoas que passam fome diminuiu de 14,7% para 5,5% desde 1990.


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