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Jogos Olímpicos, a marcha eterna
 
 
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 A ETERNA CHAMA OLÍMPICA
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Robert Scheidt, bicampeão Olímpico, um dos principais nomes da vela no mundo, posa com as marcas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016

Em agosto de 2008, a chama olímpica iluminou a China durante a realização dos XXIX Jogos Olímpicos modernos. Pequim se enfeitou para receber a elite dos esportes. A capital do país asiático recebia, assim, o testemunho olímpico das mãos de Atenas, a cidade que acolheu a realização das Olimpíadas em 2004 e o mesmo cenário onde nasceram os Jogos há mais de 2.700 anos.

Depois de Moscou, em 1980, Pequim é a segunda capital comunista que sediou os Jogos Olímpicos e, assim como aconteceu no evento russo, sua eleição foi cercada por polêmicas. A comunidade internacional esperava que os Jogos servissem para abrandar a política da República Popular da China, país caracterizado pelos contínuos desrespeitos aos direitos civis e por uma dura censura.

Os Jogos ocorreram sem grandes sobressaltos na capital chinesa. Quatro anos depois, foi a vez de Londres sediar os Jogos, em 2012, os seja, os XXX Jogos Olímpicos modernos. A próxima edição do evento, a trigésima-primeira, será realizada, em 2016, na cidade brasileira do Rio de Janeiro. Esta será a primeira vez que as Olimpíadas terão como sede uma cidade na América do Sul.

Os Jogos Olímpicos são a competição esportiva mais importante do mundo e a que reúne o maior número de países participantes, em geral, ultrapassando a marca de 200 nações. Os Jogos Olímpicos são realizados a cada quatro anos e possuem duas versões, os Jogos Olímpicos de Verão e os Jogos Olímpicos de Inverno. Os dois eventos, porém, não são realizados simultaneamente e têm lugar com dois anos de diferença um do outro.


Despertando a fraternidade
Os Jogos Olímpicos modernos não são muito antigos — são realizados há 120 anos — quando comparados com os da Antiguidade. As Olimpíadas da Grécia Antiga foram disputadas no santuário de Olympia, origem de seu nome, entre os anos 776 a.C. e 393 d.C., quando foram, então, proibidos pelo Império Romano. A partir de então, os Jogos permaneceram esquecidos por exatos 1.503 anos. A ideia de reviver esses encontros esportivos foi dada pelo barão francês Pierre de Coubertin (1863-1937), um viajante incansável que acreditava que o esporte seria capaz de fomentar a paz mundial.

A cidade eleita para celebrar os primeiros Jogos Olímpicos modernos foi Atenas, forma simbólica de homenagear o local de seu nascimento original. Mas o entusiasmo inicial logo se transformou em ceticismo, já que a Grécia não tinha todos os recursos para construir um estádio que tivesse as características necessárias para as competições que seriam disputadas.

Coubertin convenceu um homem de negócios grego, George Averoff (1818-1899), para que investisse 1 milhão de dracmas, a moeda local, na reforma do estádio Panathenaicos. O barão francês viu, assim, realizado seu sonho em 6 de abril de 1896, quando mais de 70 mil pessoas lotaram o estádio para ver as delegações de 14 países desfilarem na abertura dos primeiros Jogos da era moderna. No total, passaram pelo estádio 241 esportistas, dos quais quase a metade era composta por atletas de origem grega.

Apesar do romantismo que rodeia aquela primeira Olimpíada de Atenas, os jogos foram um fracasso, devido, principalmente, à pouca atenção dada pela imprensa. O desinteresse da mídia também ofuscaria as duas Olimpíadas seguintes. No entanto, o esporte conseguiu salvar o valor fundamental da Olimpíada de 1896. Os Jogos foram disputados entre 6 e 15 de abril e dominados pelos atletas dos Estados Unidos. Foi um americano o primeiro campeão olímpico — James Brendan Bennet Conolly (1957), em salto triplo —, enquanto o pastor grego Spiridon Louis (1873-1940) teve a honra de triunfar na primeira maratona. Esse tipo de corrida não fazia parte dos jogos antigos, já que foi inventado por um estudante francês de Filologia que a idealizou para homenagear um mensageiro chamado Filípides, que, no ano 490 a.C., correu desde Maratona até Atenas para informar sobre o triunfo na batalha de mesmo nome. Como as duas cidades distam uma da outra exatos 42 quilômetros e 195 metros, essa corrida tem essa distância.

Ambos os jogos — os antigos e os modernos — assemelhavam-se por não contar com a participação de mulheres. Essa norma foi deixada de lado a partir da Olimpíada de Paris, em 1900, na qual as mulheres puderam participar nas competições de golfe e tênis ali disputadas. Esse é um dos poucos aspectos positivos da Olimpíada parisiense de 1900, lembrada como uma das piores da história, já que os franceses estavam concentrados na Exposição Universal e os eventos esportivos foram deixados em segundo plano.

Quatro anos depois, Coubertin teve que encarar uma nova decepção com os Jogos Olímpicos de Saint Louis (Estados Unidos), esvaziada por contar poucos participantes, além da maioria deste ser de competidores locais: de um total de 689, 525 eram americanos. Isso esvaziava o caráter internacional que o barão imaginava para o evento. Esse, no entanto, não foi a única coisa a decepcionar o inventor dos Jogos Olímpicos modernos: Coubertin se sentiu bastante ofendido quando soube da determinação do comitê organizador local de dias especiais para a participação de esportistas que não fossem brancos, uma inaceitável manifestação de racismo que não estava de acordo com a promoção da paz entre as nações imaginada pelo barão.


Êxitos e fracassos
Os êxitos chegariam com os encontros de Londres (1908) e Estocolmo (1912). Para a Olimpíada realizada na Suécia, o Comitê Olímpico Internacional (COI) limitou a autoridade dos organizadores locais em favor de um programa olímpico que seria comum a todos os países. Mas quando o projeto olímpico de Coubertin parecia se consolidar, estourou a Primeira Guerra Mundial e, nessa ocasião — ao contrário do que havia acontecido na Grécia Antiga —, o esporte não pôde deter a fúria do conflito bélico.

O estourar da Grande Guerra deixou os Jogos Olímpicos num impasse. A competição esportiva foi retomada timidamente, em 1920, com os Jogos de Amberes (Bélgica), que contaram com apenas 29 representantes. Em 1924, a sede se mudou para Paris a pedido de Coubertin, que, ao final de seu mandato no COI, queria dar à capital francesa a oportunidade de superar o fiasco de 1900. Assim, em 1924, foram disputados, em Chamonix (França), os primeiros Jogos de Inverno.

Em 1925, o conde Henri de Baillet-Latour (1876-1942) substituiu Coubertin na presidência do COI. Seus primeiros Jogos à frente do órgão foram os de 1928, em Amsterdã, a primeira Olimpíada em que as mulheres puderam participar das provas de atletismo. Quatro anos depois, em 1932, os Estados Unidos teriam sua revanche. No entanto, a oportunidade para redimir seu fracasso não foi aproveitada, e os Jogos de Los Angeles voltaram a contar com uma escassa participação, devido, em grande parte, a resquícios da Grande Depressão, o período de recessão econômica que afetou o país entre 1929 e 1933.

Os Jogos Olímpicos seguintes (Berlim, 1936) foram os primeiros a exibir uma prática que, décadas mais tarde, tornar-se-ia habitual: utilizar o esporte como instrumento político. O regime nazista de Adolf Hitler (1889-1945) queria demonstrar a superioridade da raça ariana na competição; no entanto, as coisas não saíram como planejadas porque a cena foi roubada por um velocista negro, Jessie Owens (1913-1980), integrante da equipe dos Estados Unidos, que ganhou quatro medalhas de ouro. Três anos mais tarde, o líder alemão buscaria impor sua teoria por via das armas, desencadeando a Segunda Guerra Mundial.


As mulheres, protagonistas
As Olimpíadas voltariam a ser realizadas depois da guerra, em 1948, em Londres, com as mulheres como protagonistas. Um exemplo desse fenômeno foi o desempenho da atleta holandesa Fanny Blankers-Koen (1918-2004) — de 32 anos e mãe de dois filhos —, que igualou o recorde de Owens ao ganhar quatro medalhas de ouro.

Mas, ao chegarem as Olimpíadas de 1952, em Helsinque (Finlândia), o mundo já estava imerso na Guerra Fria, na qual se enfrentavam Estados Unidos e União Soviética. A competição que Coubertin havia sonhado como um modo honrado de resolver as diferenças se transformou no cenário de um duelo de titãs atômicos. As medalhas eram o objetivo da disputa. Ganhá-las em maior número representaria uma demonstração simbólica de superioridade. De qualquer forma, em Helsinque, ambas potências foram ofuscadas pelo fundista tcheco Emil Zátopek (1922-2000), que venceu as corridas de 5 mil e 10 mil metros, além da maratona daquele ano. Em 1956, nos Jogos de Melbourne (Austrália), a União Soviética obteve mais medalhas que os Estados Unidos, despertando, desde então, uma competição cada vez mais feroz entre os dois países até a dissolução da antiga URSS, em 1991.

O avanço dos meios de comunicação, principalmente o da televisão, fez dos Jogos Olímpicos um espetáculo de massa e global. As Olimpíadas de Roma (1960) foram as primeiras retransmitidas em toda a Europa, e as do Japão (1964), as primeiras a serem vistas em cores.

A política reapareceu nos Jogos Olímpicos do México (1968), com os velocistas americanos Tommie Smith (1944) e John Carlos (1945). Os medalhistas de 200 metros escutaram no pódio o hino dos Estados Unidos com a cabeça baixa e o punho erguido, em clara alusão ao Black Power, movimento político que denunciava a discriminação racial em seu país. Os esportistas foram, então, expulsos de sua delegação. O segundo exemplo de política nos Jogos seria menos simbólico e mais sangrento. Nas Olimpíadas de Munique de 1972, o grupo pró-palestino Setembro Negro invadiu a vila olímpica e matou 11 atletas e membros da equipe israelense no caso mais cruel da história dos Jogos Olímpicos.

No evento de Montreal (1976), uma romana de 14 anos chamada Nadia Comaneci (1961) fez esquecer o amargo infortúnio de Munique, conquistando sete marcas de dez pontos na ginástica esportiva. No entanto, em 1980, nada pôde impedir que os conflitos internacionais afetassem os Jogos que deveriam ser realizados em Moscou. Washington boicotou o evento em protesto pela intervenção da União Soviética no Afeganistão, e seu exemplo foi seguido por 58 nações. O boicote deixou em segundo plano a eleição como novo presidente do COI do catalão Juan Antonio Samaranch (1920), um homem que conseguiria mudar o desenvolvimento futuro dos Jogos.

Quatro anos mais tarde, a União Soviética e mais 14 países que orbitavam o bloco soviético revidaram com um boicote aos Estados Unidos nos Jogos de Los Angeles. As superpotências se encontrariam pela última vez nas olimpíadas de Seul (Coreia do Sul), de 1988. Um ano depois caía o muro de Berlim, e o bloco comunista se desintegraria dois anos depois. O fim do antagonismo entre capitalistas e comunistas cedeu seu lugar à ameaça terrorista. Nas olimpíadas de 1996, em Atlanta, uma bomba matou duas pessoas e deixou 111 feridos. O perigo também esteve presente nas Olimpíadas de Sydney (Austrália), em 2000. Felizmente, um atentado aparentemente planejado pela rede Al-Qaeda, de Osama Bin Laden, fracassou. Esse fantasma também rondou o encontro de Atenas em 2004, em especial após os atentados da Al-Qaeda aos EUA, no 11 de setembro de 2001, mas os jogos transcorreram sem grandes incidentes na sua segunda realização ateniense. A ameaça terrorista constante, no entanto, obrigou as autoridades chinesas a blindar a cidade de Pequim para os Jogos de 2009. Dessa forma, o governo chinês também se protegia das manifestações que várias organizações de defesa dos direitos humanos e a favor da libertação do Tibete haviam prometido fazer.


O negócio olímpico
As atribuições do Comitê Olímpico Internacional vão além das relacionadas aos esportes, já que ele é o administrador dos direitos de comercialização e difusão das Olimpíadas. Essa gestão, em especial no que se refere à retransmissão pela televisão, é o que mantém economicamente a organização dos Jogos Olímpicos. Para se ter uma noção dos valores envolvidos, um grupo de redes de televisão de todo o mundo se comprometeu a pagar US$ 3,6 bilhões para televisionar todas as Olimpíadas realizadas entre 1988 e 2008.

Nesse sentido, as Olimpíadas de Barcelona (Espanha), em 1992, marcaram o início de uma nova estrutura e estratégia organizadoras. Desde então, os jogos passaram a ser concebidos como um negócio multimídia do qual só a Copa do Mundo de Futebol se aproxima em termos econômicos e de prestígio. A medida que o dinheiro começou a ter importância maior na estrutura dos Jogos, o COI começou a mostrar algumas fissuras. O caso mais notório foi o escândalo dos Jogos de Inverno de Salt Lake City (EUA), nos quais alguns organizadores subornaram membros do COI para que a cidade americana fosse a sede daquelas olimpíadas. Como resultado disso, seis membros do COI foram expulsos do comitê.

Por outro lado, os grandes investimentos das redes de televisão e das empresas vinculadas aos esportes levaram à acentuada profissionalização dos atletas. Os milhões de dólares que os patrocinadores pagam aos esportistas parecem estar minando o espírito amador dos primeiros jogos. Além disso, esta é só a ponta do iceberg de um negócio milionário, porque, no que pode ser interpretado como uma distorção do lema de Coubertin — “Mais longe, mais alto, mais forte” —, é cada vez mais comum que os esportistas recorram a substâncias proibidas para melhorar seu rendimento nas competições, o chamado doping.

Consciente do problema que o doping representa para a legitimidade dos Jogos, os organizadores de Pequim 2008 criaram uma agência especializada para identificar o uso de substâncias dopantes e aumentar o controle nas provas analíticas. O comitê da China tentava, assim, fazer com que não se repetisse o que aconteceu nos Jogos Olímpicos de Sidney 2000. Nesses Jogos, a atleta americana Marion Jones (1975) ganhou cinco medalhas, em um êxito esportivo sem precedentes. Vários juízes suspeitaram de suas marcas, mas os exames realizados na atleta pelo comitê australiano não puderam confirmar qualquer caso de doping: Marion Jones estava limpa. No entanto, quatro anos depois, nos Jogos de Atenas de 2004, a americana não chegou a se classificar nem nos 100 nem nos 200 metros, duas das provas em que havia ganhado o ouro olímpico nos Jogos anteriores. A sombra do doping estava cada vez mais evidente. Em 2007, Jones confessou que suas medalhas haviam sido ganhas depois de ingerir substâncias proibidas e burlar os controles médicos. O escândalo foi enorme, pôs em evidência o fracasso dos controles antidoping e obrigou o COI a retirar suas medalhas. Para que uma situação similar não volte a ofuscar o encontro esportivo mais importante da Terra, os comitês organizadores dos últimos Jogos têm enfatizado o rigor com que examinam os atletas participantes das competições. Que assim seja para que se mantenha viva, acima dos interesses econômicos, a chama do espírito olímpico.