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Argentina, um país em reconstrução
 
 
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 ARGENTINA HOJE
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Ruas marcadas pelo som do tango e dos cacerolazos dos piqueteros. Assim são os caminhos traçados por um país que, nas últimas décadas, foi capaz de enfrentar, periodicamente, crises terríveis e vencê-las, mas, inexoravelmente, retornar a elas, num ciclo de prosperidade e decadência que vitima principalmente os mais pobres.

Tantas subidas e descidas levaram o povo argentino a forjar a seguinte frase em relação a seus políticos: “que se vayan todos” (em português seria algo como: “fora com todos os políticos”). O país, portanto, já viveu momentos de rejeição elevadíssima à classe política. No entanto, esse não era o caso do presidente eleito em 2015, Mauricio Macri.

Com o passar dos primeiro anos do governo Macri administração, no entanto, esse político que se dizia novo acabou sendo tão criticado quanto seus antecessores.

Na tentativa de combater a crise que atingia o país em 2015, Macri decidiu impor medidas drásticas para diminuir os gastos. O pacote de austeridade proposto por ele reduziu o número de ministérios de 19 para 10, aumentou impostos nas exportações e cortou inúmeros investimentos públicos. No início, o pacote foi amplamente aprovado pelo mercado financeiro, por economistas de viés neoliberal e por boa parte da população.

Apesar do apoio do Mercado, o plano não deu certo, pois mesmo com essas medidas a Argentina foi obrigada a buscar, em 2018, um empréstimo US$ 56,3 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A popularidade de Macri, por sua vez, enfraqueceu conforme o peso, a moeda argentina, perdia valor. Somente em 2018, o peso perdeu 50% de seu valor, o que representou um duro golpe na vida do já sofrido povo argentino. Macri chegou a fim de 2018 com aprovação abaixo dos 40%.

Casa Rosada, sede da presidência da Argentina



Redemocratização
O processo de redemocratização, na Argentina, foi semelhante ao de outros países da América Latina, como é o caso do Brasil. Saíram os militares e chegaram ao poder democratas — em sua maioria, defensores do neoliberalismo — que adotaram políticas que se conformavam ao chamado Consenso de Washington, uma prática econômica de cunho liberalizante que promovia a privatização de bens públicos, a redução do papel do Estado na economia e a redução dos direitos sociais e trabalhistas.

Segundo o geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001), um dos maiores intelectuais latino-americanos, a redemocratização da América Latina foi um “equívoco”. Para o então professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), não ocorreu “uma real ‘democratização’ na América Latina”.

Em entrevista concedida ao jornal Folha de S.Paulo, em julho de 2000, Santos afirmou que tais instituições “não formam um sistema. A população sabe perfeitamente que a chamada ‘democracia’ não funciona. Está havendo na América Latina um consumo eleitoral. No passado, isso era muito significativo, enquanto uma nova conquista. Os governos latino-americanos mantiveram o processo eleitoral, mas não o resto. A garantia de cidadania plena para todos se reduziu junto com os direitos sociais. Então a democracia que deveria ser restabelecida não foi. Ainda assim continuamos dizendo que estamos nos redemocratizando. E não estamos. Estamos apenas cumprindo um processo eleitoral que é um processo de consumo como qualquer outro. É a ‘Democracia do Procon’. Não é propriamente uma democracia, porque a ampliação dos direitos efetivos não foi feita”.

Santos acreditava que assim foi a redemocratização no Brasil, na Argentina e em boa parte da América Latina.


Alfonsín
Em 1983, o advogado e político Raúl Alfonsín tornou-se o primeiro presidente eleito pelo voto depois de inúmeras interrupções militares. Ele venceu as eleições com o lema: “Com a democracia se come, com a democracia se vive, com a democracia se trabalha”. Contudo, para a pesquisadora chilena Marta Lagos, “esse vínculo entre democracia e economia é falso. A democracia é um sistema político que privilegia a paz, o entendimento e a liberdade, mas não necessariamente assegura a prosperidade. Quando percorremos a América Latina, é impressionante ver chanceleres, ministros da Fazenda, presidentes dizendo ‘a democracia é um copo de leite’. Ela foi vendida de forma muito populista pelos políticos. E a população comprou essa concepção. Atualmente, os políticos sofrem as consequências desse equívoco. Precisamos trazer a democracia de volta ao que ela é”.

Porém, nem só de críticas vivem os novos governos da democratização. Segundo o historiador brasileiro Marco Antonio Villa, contrariamente ao que fez o brasileiro José Sarney, o presidente argentino Raul Alfonsín, “numa situação muito mais desconfortável, dada a amplitude e a violência da repressão da ditadura argentina, criou uma comissão para tratar da questão dos presos políticos, torturados e desaparecidos nos anos 1976-1983, publicou o relatório da comissão, os ditadores foram julgados, condenados e presos. Já, no Brasil, nada ocorreu”.

Apesar dessa coragem, Alfonsín, em função da hiperinflação que assolava a Argentina, deixou o governo antecipadamente, em 1989. Sarney, por sua vez, também governou o Brasil sob a égide da hiperinflação, porém, não deixou o posto antecipadamente, ao contrário, aumentou seu mandato de quatro para cinco anos e seu governo durou de 1985 a 1990.


Menem
Na Argentina, Alfonsín deu lugar ao peronista Carlos Menem. O novo presidente e seu ministro da Economia, Domingo Cavallo, criaram a convertibilidade (1 peso = US$ 1) e impulsionaram as privatizações no país, adotando assim uma típica política neoliberal. Menem também deu indulto aos militares que participaram da “Guerra Suja” — como ficou conhecida a campanha de detenção ilegal, tortura e assassinatos deflagrada na ditadura militar que se manteve no poder, no país, entre 1976 e 1983.

Essa paridade entre as moedas dos EUA e da Argentina levou os bancos argentinos a aceitarem depósitos tanto em dólares quanto em pesos. O plano econômico de Cavallo, apesar de ter controlado a hiperinflação argentina, que ultrapassava a casa dos três dígitos ao mês, tornou-se o grande responsável pela crise que viria a seguir, pois causou um aumento irreal na capacidade de compra dos argentinos e gerou um enorme endividamento do país, estancando a economia a partir de 1998, em razão do gigantesco aumento das importações. Tudo isso tornou insustentável a manutenção da paridade.

Em dezembro de 2001, com a iminência da desvalorização do peso, o governo Menem restringiu as movimentações bancárias para evitar uma corrida aos bancos. A medida ficou conhecida como corralito. Em janeiro de 2002, o governo desvalorizou o peso. Na época, US$ 1, que valia um peso, passou a valer 3,2 pesos, mas o governo determinou que os depósitos em dólares fossem transformados em pesos com taxa de câmbio de 1,40 peso para cada dólar. Com essa medida, o governo Menem produziu uma avalanche de processos na Justiça, movidos por correntistas e investidores que queriam recuperar seus depósitos em dólares.

Para piorar ainda mais o quadro, a crise asiática de 1999 provocou fuga em massa de capitais e agravou a recessão na Argentina. Foi nesse contexto que Fernando de la Rúa, candidato pela coalizão da UCR (União Cívica Radical) com a Frepaso, grupo de centro-esquerda, foi eleito.

A crise na Argentina também afetou o Brasil. Em 2002, por exemplo, houve uma queda de 20,7% no número de turistas argentinos em território brasileiro. Segundo o Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), o principal responsável foi a crise argentina. De acordo com o órgão, em 2002 estiveram no país 3.783.409 estrangeiros, contra os 4.772.575 de 2001. Da diferença entre um ano e outro — 989.175 turistas —, 68,5% (677.893) referiam-se aos argentinos que deixaram de viajar em razão da crise que seu país atravessava.


CRISE ECONÔMICA
Em 2001, o quadro de crise econômica atingia seu ponto máximo na Argentina. O país enfrentava um sério problema de falta de competitividade no mercado porque seus preços eram atrelados ao dólar, o que, por sua vez, era resultado da paridade peso-dólar, a qual prejudicava as exportações e diminuía a competitividade argentina no mercado internacional.

Dessa forma, o governo do presidente Fernando de la Rúa se viu cercado por enormes, constantes e cada vez mais fortes manifestações populares. Era a resposta do povo argentino ao corralito de Cavallo e ao novo governo. O país se viu então tomado por panelazos, manifestações nas quais a população sai às ruas com panelas utilizadas como verdadeiros instrumentos de percussão, protestando em alto e bom som contra sua situação econômica e social e as ações do governo. O governo, por sua vez, respondeu de forma bastante dura: decretou estado de sítio. Dias depois, em meio às manifestações populares, aos saques e à violência, Fernando de la Rúa, não suportando a pressão, renunciou à Presidência.

A data em que De la Rúa renunciou, 19 de dezembro de 2001, ficou conhecida como a noite em que as panelas tomaram a Plaza de Mayo. O presidente deixou o cargo frente uma enorme manifestação que gritava em uníssono: “que se vayan”.

Seu lugar, porém, acabou tomado por uma verdadeira catástrofe política: Ramón Puerta assumiu e ficou no cargo de presidente do país por três dias; depois disso, Eduardo Camaño conseguiu ficar ainda menos tempo no governo: foi chefe da Casa Rosada por apenas um dia; e, por último, Adolfo Rodríguez Saá, que governou a Argentina por nove dias.

Quem assumiu então a presidência foi o peronista Eduardo Duhalde, após ter sido eleito indiretamente pelo Legislativo. Duhalde decidiu pôr fim à convertibilidade, “pesificando” todos os depósitos bancários. Sem conseguir tirar a Argentina do atoleiro, ficou no poder de dezembro de 2002 a 25 de março de 2003, quando deu lugar ao novo presidente eleito: Néstor Kirchner.


Néstor Kirchner
Segundo o historiador argentino Natalio Botana afirma em seu livro Poder y Hegemonía — El Régimen Político Después de la Crisis, desde 1983, com Raúl Alfonsín, passando pelas duas eleições de Carlos Menem (1980 e 1995) e, por último, pela de Fernando de la Rúa, em 1999, os argentinos elegeram presidentes por grande maioria de votos.

De acordo com o historiador brasileiro Boris Fausto, “a eleição de Kirchner representou um desvio dessa tendência, pois ele venceu no primeiro turno com apenas 22% dos votos. O desvio da tendência resultou da manobra de seu principal adversário, o ex-presidente Carlos Menem, que desistiu de disputar um segundo turno considerado perdido, pensando, assim, fragilizar o mandato do novo presidente”.

Apesar dos problemas ocorridos durante a eleição, o novo presidente conseguiu tirar o país da crise econômica e política em que se encontrava. Porém, suas manobras teriam custos enormes para o país. Segundo o jornalista Elio Gaspari, Néstor Kirchner “impôs à banca o maior calote de todos os tempos”.

Pagou, conforme afirma Gaspari, “entre 25 e 30 centavos por cada dólar devido aos que acreditaram na paridade do peso argentino com o dólar americano. Foi chamado de maluco, tratado como leproso, mas conseguiu reestruturar algo entre 70% e 80% da dívida. Um êxito, mesmo para os padrões exigidos por seus piores críticos”. A dívida, que era de US$ 102 bilhões acabou custaando US$ 30 bilhões aos cofres públicos argentinos após reestruturação feita pelo governo Kirchner.

Seis meses após assumir o cargo de presidente da Argentina, Néstor Kirchner, segundo uma pesquisa da Research International-Analogías, tinha 86% de aprovação do povo argentino.

Kirchner chegou à campanha para a Presidência com uma aprovação, em julho de 2007, de 49%, segundo uma pesquisa da consultoria Poliarquía, embora já tivesse afirmado que não concorreria a um segundo mandato. Apesar dessa mudança, a Argentina, em razão das decisões econômicas tomadas por Néstor Kirchner, passou a ser vista como uma nação não confiável pelo mercado financeiro global. Isso acabaria custando caro à economia do país.


Cristina Kirchner
Mesmo com a queda na aprovação do governo de Néstor Kirchner, sua esposa, a senadora e primeira-dama argentina, Cristina Fernández de Kirchner, conseguiu se eleger presidenta da Argentina com uma ampla vantagem em relação à segunda colocada Elisa Carrió. Mesmo enfraquecidos, portanto, Kirchner e sua esposa ganharam as eleições presidenciais, sem necessidade de um segundo turno. O que demonstrou a força do casal na política daquele país, que também conseguiu aumentar sua hegemonia no Congresso Nacional com outra ampla vitória na eleição para os cargos legislativos.

Apesar da vitória fácil, Cristina enfrentaria uma série de dificuldades. A maior delas, sem dúvida, a alta inflação, além dos preços das tarifas congeladas e da escassez energética pela qual o país então passava.

Nos primeiros quatro anos do mandato, a presidente Kirchner aplicou uma política semelhante à de outros governos de “esquerda” latino-americanos: forte investimento em políticas sociais e incentivo à criação de empregos e à melhoria dos salários.

Como resultado disso, quando a nova eleição teve lugar, a Argentina havia reduzido à metade a diferença salarial média entre os mais ricos e os mais pobres e o PIB do país havia crescido 94%, entre os anos de 2002 e 2011, segundo dados do FMI. Um crescimento duas vezes maior que o do Brasil, no mesmo período.

O resultado seria quase óbvio: Cristina ganhou mais um mandato em uma vitória esmagadora, uma das maiores da história da Argentina, com 54% dos votos no primeiro turno da eleição, no dia 23 de outubro de 2011, enquanto o segundo colocado era escolhido por apenas 17% dos eleitores.

Em seu segundo mandato, no entanto, a economia não manteve o mesmo ritmo de sua primeira experiência como chefe da nação. Como se não bastassem os problemas econômicos, Cristina Kirchner comprou briga com os meios de comunicação argentinos e seu principal representante local, o grupo Clarín, uma espécie de Rede Globo argentina, ao aprovar uma Ley de Medios que limitava o número de emissoras e publicações que um grupo de comunicação pode manter.

A presidente da Argentina viu, ainda, seu nome envolvido na morte do procurador federal Alberto Nisman, em 18 de janeiro de 2015, responsável pela investigação de um atentado a um centro judaico, em Buenos Aires, no ano de 1994, que resultou na morte de 85 pessoas e até os dias de hoje não teve identificados seus responsáveis.


O governo de Cristina Krichner chega ao fim
O governo de Cristina Krichner chegou ao final de 2015 muito desgastado. Prova disso foi que seu opositor, o engenheiro Mauricio Macri, do grupo Cambiemos (Mudemos), acabou se tornando o grande vencedor da disputa presidencial. Descendente de uma das famílias mais ricas da Argentina, Macri derrotou o kirchnerista Daniel Scioli.

Apesar de estarem em lados opostos, ambos candidatos pertenciam ao mesmo grupo social. Os dois são filhos de ricos empresários de vida profundamente envolvida com a política. Macri foi prefeito de Buenos Aires; Scioli, governador da província.

Antes de entrar para a vida política, Mauricio Macri foi presidente do famoso clube de futebol de Buenos Aires, o Boca Juniors, no período que vai de 1996 a 2008. Durante seu comando, o time portenho ganhou inúmeros títulos, entre eles, as Libertadores de 2000, 2001, 2003 e 2007 e os mundiais interclubes de 2000 e 2003.

Macri é um político conservador. Trabalhou como executivo do Citibank e ajudou a administrar os negócios da família nos ramos da construção civil e dos serviços. Ele é o primeiro político de centro-direita a comandar a Argentina desde que o país retornou à democracia após o final da ditadura militar em 1983.

Apesar de representar uma novidade política, atualmente a aprovação de Macri não é das melhores. Mesmo assim, com uma imagem política com aprovação baixa, ele lidera as pesquisas de intenção de voto para a disputa presidencial desse ano. Levantamentos feitos pelo instituto Management & Fit mostram que os 40% de aprovação que o presidente tinha em março de 2018 caíram para 26% em outubro do mesmo ano. Já os números do instituto Isonomia mostram uma queda de 60% da aprovação que ele tinha, em dezembro de 2017, para 40%, em 2018.


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