ENTENDER O MUNDO/DOSSIÊS
Livro, a memória dos séculos
 
 
Conheça Compreenda Saiba mais Participe Teste
    ARTIGO      VOCÊ SABIA?     GALERIA DE FOTOS      
 O LIVRO E SUA HISTÓRIA
Imprimir Enviar Guardar
 
 
 
A imprensa de tipos móveis, atribuída a Gutenberg, revolucionou a edição de livros

O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) afirmava: “Dos diversos instrumentos inventados pelo homem, o mais assombroso é o livro”. O ensaísta e escritor norte-americano de ficção-científica Isaac Asimov (1920-1992) se referiu ao livro do seguinte modo: “A ideia essencial do livro não mudou em cinco milênios e não mudará em um futuro previsível. Nada pode substituir a palavra escrita em alguma forma portátil, mais ou menos permanentemente, que se possa passar de mão em mão”. É verdade. Os livros existem para superar as limitações temporais e espaciais da palavra oral. O âmbito de influência de uma pessoa, ao falar, é reduzido. Suas ideias, ainda que possam ser transmitidas boca a boca e transcender o momento e lugar onde foram pronunciadas, ficam sujeitas às limitações da memória humana, que pode provocar grandes transformações, tornando-as irreconhecíveis, o princípio da brincadeira do telefone sem fio. Os livros vencem tempo e distância.

Segundo o bibliógrafo espanhol José Martínez de Sousa, o processo de evolução do livro tomou corpo de quatro formas bem diferenciadas: em primeiro lugar, as tablitas de argila; em segundo, os rolos ou volumes de papiro; em terceiro lugar, os códices de pergaminho; e, por último, os livros impressos com papel e os e-books ou livros digitais.


DIA NACIONAL DO LIVRO
Instituído em homenagem à data de fundação da Biblioteca Nacional, instalada com a transferência da Real Biblioteca portuguesa para o Brasil em 1810, o dia nacional do livro é comemorado todos os anos em 29 de outubro. A data foi oficializada em 18 de dezembro de 1966 (lei n° 5.191). Na época de sua inauguração, o acervo tinha sessenta mil peças, entre livros, manuscritos, mapas, moedas, medalhas. Até o início de funcionamento da biblioteca, o material ficou acomodado nas salas do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, no Rio de Janeiro. Nos primeiros quatro anos de atividade o acesso ao acervo era restrito. Os estudiosos, por exemplo, até 1814 precisavam de autorização prévia para consultar o acervo.

Mas antes de falarmos sobre o livro no Brasil, é interessante abordar o nascimento do livro impresso, que ampliou o acesso das pessoas ao conhecimento. Graças ao invento da prensa tipográfica pelo alemão Johannes Gutenberg foi possível imprimir os livros, na época confeccionados à mão e caros demais para quem não era rico. O próprio Gutenberg, quando se casou, não tinha dinheiro para fazer o que mais gostava, ler e estudar. Naquela época, copiar um livro era uma tarefa bastante trabalhosa e levava tempo. Por isso, apenas os monges nos conventos podiam se dedicar durante dias a essa tarefa. Esse é o motivo pelo qual a maioria das obras daquela época trazia assuntos religiosos.

Inconformado com o custo das obras, pensava sempre numa maneira de produzir grandes quantidades de livros de forma muito mais rápida. Se conseguisse, qualquer pessoa alfabetizada teria acesso aos livros e poderia escolher qualquer assunto. Os chineses já haviam inventado a impressão, no século IX, mas o que ele queria era ter uma idéia que juntasse num só equipamento o papel, a tinta e a matriz, materiais já conhecidos na Europa desde o início do século XV.

Tudo indica que as primeiras idéias lhe ocorreram quando, no trabalho como ourives, observava um anel com o qual os nobres imprimiam o brasão da família para selar os documentos. O brasão era escavado no anel em metal ou pedra preciosa com a finalidade de fazer uma impressão em alto-relevo sobre o lacre quente. Não perdeu tempo e tentou copiar o procedimento para imprimir letras. Nos testes, porém, verificou que o método deveria ser invertido: a parte escavada no bloco de madeira para imprimir é que deveria ficar em alto-relevo. Utilizando o mesmo processo, primeiro imprimiu com sucesso várias imagens de são Cristóvão. Mas seu objetivo era mesmo imprimir uma página inteira. O bispo que lhe fez as encomendas aceitou emprestar um livro a Gutenberg, que guardou segredo quanto ao método que desenvolveu. Com a obra em mãos, entalhou uma página na madeira e percebeu que as palavras saíram ao contrário. Para corrigir o erro, apenas esculpiu as letras ao contrário na madeira.

Mas ainda havia um problema. Esculpir as várias páginas de livro nas placas de madeira seria um trabalho tão ou mais monumental quanto copiá-las à mão. Gutenberg então cunhou as letras separadamente, primeiro na madeira e depois em chumbo fundido. O próximo passo foi criar uma fôrma capaz de segurar os tipos juntos para compor uma página. Para facilitar, fabricou tintas e escovas próprias para espalhá-las sobre os tipos. No entanto, o trabalho seria semelhante ao dos chineses de séculos atrás. Era preciso algo mais, facilitar, agilizar e melhorar a qualidade da impressão tornando o processo mecânico. Foi o que fez, adaptando uma prensa usada na produção de vinhos. No suporte fixo, Gutenberg colocou a fôrma com os tipos unidos. Ali seria colocada a folha de papel e derramada uma camada de tinta. A parte superior móvel da prensa era depois movida para baixo, pressionando o papel contra os tipos que imprimiriam as letras. Seu invento revolucionou não só a tecnologia, mas os hábitos e costumes da Idade Média em diante.

A impressão tornou os livros acessíveis, disseminou o hábito de ler e escrever, deixando a cultura ao alcance de todas as classes sociais. O invento ampliou a idéia da difusão do conhecimento numa Europa em mutação social, econômica e religiosa. A data da invenção da prensa tipográfica é incerta, pois há pouquíssimos registros sobre a vida de Gutenberg.

Não se pode falar de livros sem tratar das bibliotecas. A biblioteca de Alexandria, por exemplo, era tratada como assunto de estado pela dinastia dos Ptolomeus. E no intuito de enfraquecer a concorrência da biblioteca de Pérgamo, os governantes de Alexandria tomaram uma decisão drástica. A partir daquela data as vendas do papiro para Pérgamo estavam proibidas. Sem matéria-prima, pensavam os governantes de Alexandria, não seria possível aos concorrentes fazer os livros. Deu tudo errado. Na falta de material, inventaram o pergaminho, que se tornou o principal suporte da escrita nos séculos seguintes.

Ainda em Alexandria, no ano de 641, os árabes conquistaram a cidade e viram-se diante de uma dúvida. Não sabiam o que fazer com o acervo da célebre biblioteca da cidade egípcia. O califa de plantão, do alto de uma burrice monumental, determinou a destruição das obras com uma justificativa lamentável, segundo a versão mais aceita da história: "Se o que vem dito nos livros concorda com o Livro de Deus, eles são desnecessários; se discorda, são indesejáveis. Destruam-nos, portanto".

Os escritos, contidos em milhares de rolos de papiro, foram queimados para servir de combustível nas termas públicas da cidade. Eram tantos rolos que a queima durou seis meses. A biblioteca de Alexandria sofria mais um dos vários ataques desde sua fundação.

A destruição parcial ou completa de bibliotecas sempre aconteceu na história da humanidade. Durante guerras, perseguições políticas e religiosas, as bibliotecas são as primeiras a serem atingidas.

No século XVI, os padres espanhóis, no esforço para catequizar os astecas mexicanos, destruíram os equivalentes pré-colombianos das bibliotecas. Eram santuários que guardavam hieróglifos inscritos em peças de couro e argila que guardavam parte da memória daquela civilização.

Foi no mesmo século que o rei Henrique VIII rompeu com o catolicismo e decidiu reciclar o acervo das abadias inglesas. Os livros que não interessavam foram vendidos como polpa para fabricação de novos volumes. Felizmente, um sensato ministro do rei conseguiu salvar secretamente vários títulos. No meio dessas obras que sobreviveram estava a cópia mais antiga que se conhece do poema Beowulf, uma das obras fundadoras da literatura inglesa.

Na Alemanha dos anos de 1930, o ditador Adolf Hitler estimulava a queima de livros. Era uma prévia do que aconteceria depois, durante a segunda guerra mundial, quando as tropas nazistas invadiam as bibliotecas dos países para roubar obras de interesse do Reich e destruir as consideradas subversivas. Cálculos aproximados indicam que os nazistas tenham queimado mais de cem milhões de livros. Décadas depois, um intelectual e líder nacionalista sérvio, durante a guerra civil na Bósnia em 1992, ordenou o bombardeio contra a principal biblioteca de Sarajevo, freqüentada por ele antes do conflito. Seis anos depois, uma biblioteca localizada no norte do Afeganistão, com mais de cinqüenta mil volumes, foi explodida por fanáticos do Talibã.

De volta ao Brasil, há três fases identificadas com a edição de livros. A chegada de Dom João VI, em 1808, marca a primeira fase com a criação da Imprensa Régia. A divulgação de informações criou um público leitor, inicialmente na corte e depois nas províncias. Além do mais, para estimular a educação, a ciência e as artes na colônia, Dom João promove missões culturais formadas, principalmente, por cientistas e artistas franceses, alemães e ingleses. Vieram ao Brasil o pintor e escritor francês Jean-Baptiste Debret, o botânico francês Auguste Saint-Hilaire, o naturalista alemão Karl Friedrich von Martius, o pintor alemão Johann Moritz Rugendas, o naturalista e geólogo britânico John Mawe.

Toda essa efervescência cultural estimulava as pessoas interessadas no conhecimento. Formou-se um público de gostos variados, que buscava desde romances e peças teatrais a obras de direito, economia, medicina, botânica, filosofia. O aumento da procura pelos livros fez multiplicar o número de tipografias por todo o império. Imprimir livros passou a ser um negócio tão bom que a partir da metade do século XIX alguns europeus vieram para o Brasil fundar casas editoras.

Em setembro do mesmo ano começa a circular A gazeta do Rio de Janeiro. Mas a imprensa brasileira nasceu antes, mais precisamente em Londres, onde o jornalista Hipólito José da Costa editava o Correio Brasiliense. De postura liberal, o jornal defendia a substituição gradual do trabalho escravo pelo trabalho assalariado dos imigrantes. O Correio braziliense circulou sem falhas de 1808 a 1822.

A dificuldade de comunicação entre o Brasil e a Europa durante a primeira guerra mundial inaugurou a segunda fase da edição de livros no país. Foi quando a indústria editorial brasileira conseguiu se firmar no mercado sem depender mais das indústrias da Europa.

A terceira fase ocorre a partir da década de 1960. Nesse período se destaca o trabalho do filólogo Antônio Houaiss como a ligação entre a editoração amadorística e a editoração profissional das casas editoras. Nos anos de 1970 surgem os primeiros cursos de editoração gráfica, que existem até hoje, mas completamente diferentes de seus antecessores. A modernização tecnológica e o acesso a modernos equipamentos e computadores transformaram todo o mercado, os modos de produção e o trabalho.


TABLITAS E A ESCRITA CUNEIFORME
A única condição para que o livro cumpra sua função é que exista um acordo entre o escritor e o leitor a respeito do sistema de signos utilizado para representar as sílabas, idéias ou ações. Esse “sistema” nada mais é do que o idioma. É impossível produzir livros sem uma língua formalmente constituída que permita expressar pensamentos. A escritura consiste, precisamente, em converter em caracteres gráficos aquilo que se enuncia de forma oral. Os primeiros documentos escritos, que datam de seis mil anos de idade, encontrados na Mesopotâmia, entre os rios Eufrates e Tigres, onde se produziam tablitas (pequenas tábuas) de argila nas quais foram gravados textos de diversas índole. Para escrever nessas tablitas era usado um instrumento pontiagudo que servia para rasgar a argila úmida. Tal como explica Martínez de Sousa, a escritura se realizava sobre ambos lados das tablitas, cujo tamanho era variável — entre dois e trinta centímetros quadrados — e que, uma vez gravadas, eram levadas ao forno.

A língua fixada nas tablitas é o acádio, idioma semítico falado pelos habitantes de Acádia (Akkad, país que ficava na região superior da baixa Mesopotâmia, hoje parte do Iraque), a qual foi dominada pelo Império Acádio entre os séculos XXIV a.C. e XXIII a.C. Seu alfabeto era formado por dos mil símbolos, que podiam representar tanto ideias (os chamados “ideogramas”), como os objetos mesmos (os “pictogramas”) ou as sílabas (os “fonemas”). Enquanto as tablitas mais antigas estão cheias de ideogramas ou de pictogramas, as mais recentes apresentam inscrições nas quais abundam signos que representam fonemas.

O assiriologista britânico Henry Creswicke Rawlinson decifrou a escritura cuneiforme a partir do estudo da inscrição trilíngüe de Behistún (Irã). Nessa tablita, se reproduz um mesmo texto escrito em três idiomas distintos: protopersa, elamita e babilônico. Um engenhoso e afortunado método, consistente em detectar os nomes próprios da tablita e a partir dali tratar de contrastá-los com o nome dos reis que viveram na época, permitiu a Rawlinson desentranhar o significado das inscrições.

As tablitas tratam sobre assuntos religiosos, econômicos, astronômicos e, em geral, sobre todos os aspectos da vida cotidiana dos povoadores da região. Digno de destacar é o famoso Código de Hamurabi, elaborado por volta de 2000 a.C., que é o conjunto de leis mais antigo da história. As leis estão gravadas em um tipo de monumento circular de pedra conhecido como “estrela” onde, além disso, há uma representação do rei recebendo as leis das mãos de um deus.


ROLO DE PAPIRO, ENSAIO PARA O PAPEL
O papiro é uma planta (Cyperus papyrus) da qual se aproveitava a medula do talo para elaborar uma superfície adequada à escrita. A medula era cortada em tiras, que, por sua vez, eram entrelaçadas, coladas, postas para secar e, por último, polidas. Foi o principal material utilizado no Egito para a escrita. Os escribas egípcios eram profissionais encarregados de traçar belos caracteres hieroglíficos. Os primeiros volumes ou rolos de papiro encontrados teriam aproximadamente 4.500 anos de antiguidade e foram encontrados principalmente no interior de tumbas, onde estavam resguardados das inclemências do tempo e dos saques. Por essa razão, um dos textos que chegaram até nossos dias em distintas versões é o Livro dos Mortos, um conjunto de fórmulas mágicas que eram colocadas junto ao morto, no interior das tumbas, e cuja finalidade consistia em ajudá-lo em seu trânsito até a vida eterna.

As tiras de papiro, que recebiam escritas em apenas um lado, se enrolavam ao redor de uma vara de metal ou madeira. Para lê-las, era necessário desenrolá-las. Esse movimento podia provocar danos irreparáveis no documento. Além disso, esse método resultava muito incômodo, pois alguns papiros alcançavam os quarenta metros de longitude, porém, a medida mais comum era de cerca de seis metros. Tal como explica Martínez de Sousa, a tinta empregada para escrever sobre eles era o resultado da combinação de carbono vegetal e goma.

O papiro foi usado também pelos gregos e os romanos e é uma das principais causas de numerosas obras terem se perdido para sempre, o que ocorria em função da fragilidade do material. Para proteger os rolos, estes eram colocados no interior de caixas, que se acumulavam em estantes, o que deu lugar às primeiras bibliotecas.


OS CÓDICES
Os códices foram os livros da Idade Média. Sua origem, porém, remonta às tábuas de madeira usadas pelos romanos. Segundo Martínez de Sousa, tais tábuas eram recobertas com cera e posteriormente se escrevia sobre elas utilizando um estilete. Já no final do Império Romano e durante toda a Idade Média, a transmissão do saber humano se fez por meio desses livros manuscritos, geralmente em pergaminho, que constituem autênticas obras de arte.

Os códices vieram substituir os rolos de papiros comumente utilizados na Antiguidade. Tais tábuas eram retangulares e unidas por cordões ou anéis. Foram utilizadas pelos gregos e romanos para receber registros contábeis ou textos didáticos. Foi a substituição do papiro pelo pergaminho, a partir do século IV, que levou à difusão do códice como suporte para a escrita.

O codex ou liber quadratus apresentava diversas vantagens sobre o rolo. Este era muito incômodo, pois para encontrar uma determinada passagem no meio de uma obra, era preciso desenrolá-lo até achar o trecho e depois enrolá-lo de novo. Já o códice pode ser facilmente aberto em qualquer página e, como se escreve dos dois lados de cada folha, permite economizar material e incluir mais informação. Num rolo de tamanho normal pode haver espaço apenas para o Evangelho de São Mateus, ao passo que a Bíblia inteira cabe num códice. Além disso, eles eram mais fáceis de armazenar e proteger.

O códice surgiu no século I da era cristã. Continha textos escolares, relatos de viagens ou registros contábeis. Seu uso, inegavelmente mais prático, se difundiu nos séculos II e III em conseqüência do incremento da demanda de livros e da adoção do pergaminho, que no século IV substituiu o papiro. Nessa época, o códice substituiu definitivamente o rolo e adquiriu a forma característica de livro. Formados por vários cadernos, ou quaderni, os códices constavam de uma quantidade variável de fólios (folhas escritas dos dois lados).


No Império Romano desenvolveu-se uma incipiente indústria livreira. Os editores repartiam o papiro entre os librarii e copistas, aos quais o texto era ditado. Depois de corrigidos por revisores, os textos eram encadernados. Tornou-se intenso o comércio de rolos e códices, nas chamadas tabernae librariae.

Cedo os primeiros mosteiros cristãos acolheram em sua estrutura frades encarregados de preparar as tintas e os pergaminhos, enquanto outros, chamados scriptores, copiavam os textos na sala conhecida com scriptorium.

A partir do século XII, quando surgiram as universidades e o pensamento ocidental experimentou uma completa renovação, a demanda de códices se multiplicou extraordinariamente e desenvolveu-se uma nova indústria, que pouco devia à da época romana. As cidades universitárias acolhiam todos os que participavam da fabricação dos livros, desde copistas e encadernadores até comerciantes. Embora as técnicas empregadas no século XII não diferissem das antigas, os novos artesãos do livro, agora reunidos em grêmios, rivalizavam entre si na excelência de seus trabalhos e formavam escolas ligadas a alguma universidade ou país. As universidades, por sua vez, não permitiam a circulação de cópias de má qualidade e, em seus esforços para proteger a pureza e a exatidão dos textos, obrigavam os stationarii, ou comerciantes de livros, a terem exemplares ou cópias mestras autorizadas, das quais não podiam se desfazer.

Nessa época, e antes da invenção da imprensa, os leitores podiam prover-se de livros comprando-os diretamente nos stationarii ou encomendando-os a um scriptor ou copista. Estes costumavam alugar os cadernos aos livreiros, com preços determinados pela universidade. O sistema de cadernos permitia que vários copistas trabalhassem na mesma obra simultaneamente — o que dá uma qualidade ao valor autoral do texto, que se torna uma obra coletiva e não de apenas um escritor. As universidades também se reservavam o direito de inspecionar as exemplaria em poder dos livreiros.
Além desses livros de texto, que tinham certa difusão, no fim da Idade Média as igrejas e os grandes magnatas costumavam encomendar a confecção de luxuosos códices de grande valor artístico. Esses livros já não eram realizados por copistas, mas sim por calígrafos e ilustradores muito especializados.

Foi também freqüente a redação de códices sobre pergaminhos anteriormente escritos e depois raspados e apagados, os palimpsestos, que proliferaram, sobretudo, nos séculos VII e VIII, devido à falta de pergaminhos virgens. Entre os palimpsestos mais famosos destaca-se o da Biblioteca Vaticana que contém o Da República, de Cícero (106-43 a.C.).

Também se denominam códices os textos criados pelas civilizações pré-colombianas da área meso-americana. Esses textos constituem valiosa fonte para o estudo da história, da religião, do pensamento e do conhecimento científico de astecas e maias. Muitos foram destruídos pelos conquistadores espanhóis. Os códices astecas, produzidos depois do ano 1000 da era cristã, são pintados sobre pele de cervo ou papel de fibra de agave, com sinais pictográficos, ideográficos e fonéticos de difícil decifração. Anteriores à conquista espanhola são o Códice bourbônico, o Códice Borgia, o Códice Fejérváry-Mayer e o Códice cospiano. Da época da conquista são o Códice telleriano-remense, o Azcatitlán e o Códice Mendoza. Também se conservam códices escritos em caracteres latinos, em náuatle ou em espanhol, baseados em antigos manuscritos pictográficos, como o Códice Chimalpopoca ou Anais de Cuauhtitlán e o Códice Ramírez ou História dos mexicanos por suas pinturas.

Dos maias, conservam-se três códices escritos antes de 1100, em caracteres hieroglíficos: o Códice de Dresden, o Códice tro-cortesiano ou de Madri e o Códice de Paris. Os três textos reúnem os saberes astronômicos e divinatórios da cultura maia. Depois da conquista, índios instruídos transcreveram para caracteres latinos textos que não se conservaram na forma original, como o Chilam Balam e o Popol Vuh.


O LIVRO IMPRESSO
O livro, tal como é conhecido modernamente, passou a ser produzido a partir de meados do século XV, com a invenção da imprensa de Johannes Gutenberg (1398-1468). Cabe dizer que o tipógrafo alemão não partiu do zero para desenvolver seu invento. Existem alguns precedentes à imprensa de Gutenberg, como é o caso da xilografia. Esta técnica de impressão, inventada na China no século VI a.C., consiste em pressionar uma superfície — que pode ser tanto uma tela como uma folha de papel — com um molde de madeira no qual são gravados os desenhos ou as letras, que, por sua vez, serão reproduzidos após serem cobertos com tinta. Para obter múltiplos exemplares de um mesmo texto, é necessário pressionar o molde em tantas superfícies diferentes quantas se queira obter. Esse mesmo sistema se desenvolveu de forma independente na Europa no século XIV.

No final do século I d.C., os chineses inventaram um sistema de impressão mais versátil que a xilografia: era a imprensa de tipos móveis, uma prensa na qual as letras ou tipos estão soltos, de forma que cada frase do documento se elabora com a combinação dos tipos. Uma vez confeccionada a página, os tipos são cobertos com tinta e pressionados sobre uma superfície, do mesmo modo como se faz na xilografia. Gutenberg aperfeiçoou a imprensa de tipos móveis que os chineses inventaram.

A imprensa chinesa baseada em tipos móveis não teve êxito, em parte em função de a língua chinesa carecer de até cinco mil signos para reproduzir um texto. Frente a tal avalanche de signos, os tipos móveis não proporcionavam grandes vantagens frente à xilografia. Gutenberg, por sua vez, se beneficiou do número limitado de letras do alfabeto que utilizava. “Formei um exército de 26 soldados de chumbo capazes de conquistar o mundo” afirmou, em relação aos únicos 26 tipos de letra diferentes que eram necessários para reproduzir qualquer documento escrito com o alfabeto latino. Para as ilustrações, o problema técnico era semelhante ao que já havia sido resolvido pela xilografia. Nesse caso, o desenho era gravado na madeira ao mesmo tempo em que o texto. Com a invenção de Gutenberg, era necessário situar o gravado de madeira com o desenho junto aos tipos móveis.

O sistema de Gutenberg permitiu imprimir milhares de exemplares de forma mecânica e substituiu aos copistas medievais. Logo seu sistema foi empregado por outros impressores de Mainz. Quando a cidade foi saqueada em 1462, a maioria dos cidadãos — e, entre eles, os impressores — tiveram de fugir. Isso facilitou a rápida difusão do invento por toda Europa.


PARA SABER MAIS SOBRE O TEMA
Biblioteca, o arquivo da memória escrita

Dia Mundial do Livro, tinta, papel e fama

Gutenberg, o criador da imprensa