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Semana Santa, o ápice da fé cristã
 
 
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 O RITO DA SALVAÇÃO
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A religião cristã determinou durante séculos a vida, sociedade e política do Ocidente. Seu principal dogma de fé, a paixão, ressurreição e salvação de Cristo para redenção de todos os homens, marcou um antes e um depois na história das religiões, diferençando-a do judaísmo e do islamismo, e criando toda uma série de cisões posteriores entre as quais estão o protestantismo e o calvinismo.

Hoje, a ressurreição é celebrada como uma das principais festividades da Igreja durante a chamada Semana Santa. É uma data na qual os cristãos rememoram com dor primeiro e alegria mais tarde os últimos dias de Jesus Cristo, dias recolhidos na Bíblia e mais sucintamente em vários textos de historiadores da época, como é o caso de Tácito (c. 56-c.120), Suetônio (c.69-c.122) e Plínio o Jovem ou Plínio o Moço (c.61-114), todos eles contemporâneos de Jesus Cristo.

O período da Páscoa começa no Domingo de Ramos, dia em que se comemora a entrada triunfal de Cristo na cidade de Jerusalém. Segundo as sagradas escrituras, naquele dia uma grande multidão recebeu a Jesus com palmas nas mãos e o reconheceu como Filho de Deus. A Segunda-Feira Santa e a Terça-Feira Santa foram dias de transição até o grande acontecimento divino, o qual teve início na noite da Quarta-feira Santa, quando Judas Iscariotes trai Jesus por trinta moedas de prata. Na Quinta-Feira Santa, Jesus já era consciente de seu iminente destino. Nesse dia, ocorre a Última Ceia, onde Cristo anuncia, durante a celebração da Páscoa judaica, a seus discípulos que um deles o entregaria aos romanos. Esse momento seria imortalizado, séculos depois, em uma pintura de Leonardo da Vinci (1452-1519), executada a têmpera diretamente sobre a parede da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, de 1495 a 1497. Nela está representa a última refeição partilhada por Jesus Cristo com seus doze discípulos. Foi nela que se instaurou o sacramento mais importante do cristianismo: a Santa Ceia.

Na Eucaristia, um dos sete sacramentos da Igreja Católica, Jesus Cristo se acha presente sob as aparências do pão e do vinho, com seu corpo, sangue, alma e divindade.

São quatro, no Novo Testamento, as narrações da última ceia. A redação aramaizante de Marcos (14:22-25) parece derivada da mais antiga tradição palestiniana. Mateus (26:26-29) acrescenta elementos já liturgicamente elaborados. A versão de Lucas (22:14-20) traduz igualmente um material arcaico, ao passo que I Cor 11:23-25, exprime, em versão grecizante, o uso das igrejas de Antioquia ou da Anatólia. Escrito no mais tardar no ano 59, o relato de Paulo é mais antigo do que o dos evangelhos sinópticos. Todos os textos convergem para dizer que, pouco antes da paixão, Jesus reuniu os doze discípulos para uma ceia de despedida, cujo caráter pascal — no contexto judaico — é discutido. Nessa ceia, Jesus pronuncia as “palavras de instituição”, cujo sentido se relaciona com a oferta de sua vida para a reconciliação dos homens com Deus. Paulo e Lucas acrescentam: “Fazei isto em memória de mim”. Também foi na Quinta-Feira Santa que Jesus lavou os pés de seus discípulos, um ato que hoje a Igreja utiliza para celebrar a virtude da humildade.

Na Sexta-Feira Santa, Jesus foi preso pela guarda romana, que o levou frente Caifás (séc. I), sumo sacerdote dos judeus, e mais tarde ao palácio do governador, Pôncio Pilatos (séc. I), o qual, segundo o Evangelho de São João, fez a famosa pergunta a Jesus Cristo: Quid est veritas? (O que é a verdade?), mas ficou sem resposta.

Depois, Pilatos ordenou que açoitassem e colocassem na cabeça do Cristo uma coroa de espinhos e mais tarde o crucificassem. A crucificação foi uma decisão de clamor popular, pois Pilatos levou Jesus e Barrabás – um líder rebelde contemporâneo de Jesus Cristo e condenado à morte – para que o povo de Jerusalém decidisse qual dos dois deveria morrer. O povo pediu que Jesus fosse crucificado.

Portanto, a Paixão de Cristo vai da última ceia até a crucifixão e a morte. Ela está relatada no Novo Testamento pelos quatro evangelistas, Lucas, Mateus, João e Marcos. Que contam que, aprisionado no horto de Getsêmani, Jesus foi levado a Anás, que o interrogou no Monte das Oliveira, e depois a Caifás, então príncipe dos sacerdotes judeus, com quem se haviam reunido os escribas e os anciões. Mais tarde, Jesus seria conduzido à residência do governador romano, Pôncio Pilatos, que o remeteu a Herodes Antipas (21a.C.-39). Por um gesto político de Herodes, foi devolvido a Pilatos, que, embora “não achasse delito nenhum” em Jesus, depois de fazê-lo açoitar, cedeu à pressão dos chefes de Israel e de uma multidão incitada por eles, e pronunciou a sentença da condenação de Jesus à morte na cruz, depois de declarar-se inocente de seu sangue.

De acordo com as leis romanas, Jesus foi flagelado e teve que carregar a cruz até a colina do Calvário. Ali foi crucificado junto com dois malfeitores comuns. Não se sabe o lugar exato em que se cumpriu a sentença, pois a destruição de Jerusalém no ano 70 arrasou todos os possíveis vestígios. No momento da morte de Jesus, de seus seguidores os únicos que o acompanharam foram mulheres e João, o evangelista. José de Arimateia e Nicodemos pediram o corpo de Jesus e o enterraram no horto do primeiro.

Foto: Jacqueline Macou por Pixabay



A RESSURREIÇÃO
O Sábado de Aleluia foi um dia de reflexão para os discípulos de Jesus, que entristecidos e ainda céticos ante as profecias de Cristo, recordavam a Paixão e a morte de Jesus. Suas dúvidas se dissipariam no domingo. Naquele dia, segundo relata João em seu evangelho, Maria Madalena se aproximou do sepulcro e viu que a pedra que obstruía a entrada havia sido deslocada. Então, foi correndo buscar os discípulos. Quando regressaram ao sepulcro comprovaram que o sudário estava vazio e que Cristo havia ressuscitado. Era o dia do triunfo de Jesus, que com sua morte salvou e redimiu as almas dos homens do pecado original. Por esse motivo, hoje os católicos seguem celebrando o Domingo da Ressurreição, e com ele a Semana Santa, como uma das festividades litúrgicas mais importantes do cristianismo.

PERDÃO E PENITÊNCIA
Da Paixão e Ressurreição de Jesus Cristo se extraem dois dos conceitos mais arraigados da religião católica, o perdão e a penitência. Integrados na sociedade e na mentalidade ocidental, ambos já deram lugar a numerosas obras artísticas e literárias, e constituem a base da festa da Páscoa cristã, que não sempre foi celebrada durante toda uma semana.

A origem da Semana Santa remonta à Igreja primitiva, quando o cristianismo era uma religião perseguida e em fase de construção. Então, a única maneira de reunir novos fiéis era a conversão, que se levava a cabo, igualmente hoje, por meio do batismo. Nesse sacramento, mais concreto em sua fase preparatória, é onde se encontra o germe da Semana Santa.

No começo da Igreja católica, a preparação para o batismo podia durar um ou dois anos. Pouco a pouco isso foi diminuindo. A princípio foi instituído o Tríduo Sacro (quinta, sexta e sábado), mais tarde a Semana Santa e finalmente o período chamado de Quaresma, que começa na Quarta-Feira de Cinzas – assim chamada porque o sacerdote usa a cinza obtida com a queima das palmas bentas no Domingo de Ramos do ano anterior para dar início ao ritual que precede a missa na liturgia do dia e depois as utiliza para fazer o sinal da cruz na testa dos fiéis – e acaba na Quinta-Feira Santa, dois dias antes da Vigília Pascoal (Sábado de Aleluia), jornada na qual os catecúmenos se tornavam cristãos por meio do batismo. Naquela época, batismo e penitência estavam ligados, já que até então os pagãos viviam em pecado e deviam purgá-lo por meio da penitência.

Isso mudou quando os catecúmenos começaram a ser em menor número (pois cada vez havia menos gente para converter) e os pecadores a aumentar. O batismo começou a ser feito oito dias depois do nascimento (o que era provocado também pela alta mortandade infantil daquela época) e na Semana Santa foram ganhando importância as cerimônias de penitência e do perdão. Por sua vez, a Igreja foi transpassando as práticas levadas a cabo pelos catecúmenos, como o jejum e a penitência, ao código do comum dos fiéis.

Desse modo, os cristãos fortaleceram sua religião. Para evitar a decadência pagã e não deixar espaço para o relaxamento dos costumes da comunidade havia então uma severa vigilância. Um dos elementos de controle era o da penitência pública, que foi obrigatória até o século IX. A cerimônia era pública, pois então se considerava que o penitente havia ameaçado à comunidade introduzindo nela o pecado, portanto, ele deveria ser machucado e humilhado ante todos. Os cristãos consideravam que só mediante o sofrimento o pecador podia ser salvo.

Essas penitências públicas ocorriam durante a Semana Santa e consistiam em uma procissão na qual o penitente deveria recorrer quatro estações. As penas eram relacionadas a cada pecado e o modo de saldá-las e os ritos de reintegração na comunidade figuravam em livros chamados penitenciais. As estações que integravam a procissão eram o pranto, na maneira como o pecador devia suplicar aos assistentes e à Igreja que rogassem por ele, já que ele estava proibido de orar. Também fazia parte da penitência a audição da palavra desde o pórtico.

Pouco a pouco, a obrigatoriedade da penitência pública foi se perdendo e a partir do século IX ganhou importância a penitência privada, a qual era feita entre o indivíduo e a própria consciência. Para tal, eram necessários o arrependimento interior, a confissão dos pecados, a aceitação da penitência e a intervenção de um ministro da Igreja para reconciliar o penitente com Deus e com a Igreja.
Algumas pessoas optam por não comer carne na Sexta-feira Santa. Segundo a tradição da Igreja Católica, esse é um dia reservado para a prática da abstinência de carne vermelha e frango, por isso é comum que se substitua esses itens pelo consumo de peixe. Essa prática teve início provavelmente na Idade Média por conta de outra tradição do catolicismo, a de jejuar toda sexta-feira, imposição do papa Nicolau I. O Código de Direito Canônico pede que se abstenha de carne ou outro alimento todas as sextas-feiras do ano, mas o jejum pode ser substituído pela realização de uma obra de caridade, por exemplo. Durante a Páscoa, o jejum era realizado durante todo o período da Quaresma. Há ainda aquelas pessoas que jejuam na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa.


FESTAS RELIGIOSAS
Algumas festas ou manifestações populares no Brasil têm profunda ligação com a Semana Santa. Uma das mais famosas é a Malhação do Judas, que é um costume popular que consiste em rasgar e queimar bonecos de pano no Sábado de Aleluia. Em geral esses bonecos acabam representando personagens locais ou da política do país, mas originalmente o costume surgir como uma espécie de vingança contra o apóstolo que delatou Jesus por trinta moedas de prata.

Segundo o psicanalista Renato Mezan, antigamente, no Brasil e em Portugal, a malhação do Judas era “frequentemente acompanhada por ataques a judeus no Sábado de Aleluia”.

Segundo o jornalista Alberto Dines, “na Idade Média, as turbas exaltadas pelo furor sagrado, depois de estraçalhar e queimar as efígies do vilão mor, partiam para a revanche indiscriminada – espancar e tocar fogo nos judeus que encontrassem nas redondezas. Na extensa cronologia dos pogroms (massacres anti-semitas), não são poucos os que aconteceram a partir do Sábado de Aleluia, impulsionados pelo furor vindicativo da festa. O que não deixa de ser um irônico paradoxo: Jesus foi preso pelos legionários depois de participar de uma ceia da Páscoa judaica (Pessach). Não obstante, no aniversário da execução, ao longo dos tempos, seus correligionários continuaram pagando por um crime que não cometeram”.

Hoje, isso não ocorre mais. Agora, a malhação do Judas é apenas uma comemoração popular em que bonecos de pano são atacados e depois queimados.

Em São Paulo, atualmente, há uma tradicional Malhação do Judas que ocorre todos os anos na rua Lavapés, no bairro do Cambuci, região central da capital paulista.

O Lava-pés, aliás, também é um evento religioso (uma celebração litúrgica) ligado à Semana Santa. Segundo dom Luciano Mendes de Almeida, “durante a última ceia com os apóstolos, Jesus insistiu na lição do serviço por amor (Jó, 13, 1-17). Quis lavar os pés dos discípulos, deixando-nos, assim, exemplo de como devemos servir uns aos outros. O gesto de lavar os pés convoca-nos para imitar o Divino Mestre no serviço humilde e sincero ao próximo. Essa lição é muito valorizada na liturgia da Quinta-Feira Santa. O celebrante lê o Evangelho, cinge-se depois com uma toalha, toma nas mãos o jarro com água e ajoelha-se diante de 12 membros da comunidade, que representam os apóstolos. Lava os pés de cada um. É um momento comovente e que diz muito para o sacerdote e toda a assembleia”.

No Brasil também há, em inúmeras cidades, as encenações da Paixão de Cristo, isto é, atores, na maioria amadores, relembram o período final da vida de Jesus, da traição de Judas à sua prisão, martírio e crucificação.

A mais famosa encenação da Paixão de Cristo, no Brasil, ocorre em Nova Jerusalém (PE). O local é uma réplica da cidade de Jerusalém há cerca de 2 mil anos. Contém nove cenários, onde 46 atores e cerca de 350 figurantes fazem, todos os anos, a encenação. O espetáculo é sempre assistido por milhares de pessoas.


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