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Tom Jobim, o maestro soberano
 
 
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Jobim não era um virtuose no piano, seu gênio residia na criação de músicas com poucas notas

Quando ele nasceu, era terça-feira. Noite de verão. Dia 25 de janeiro de 1927. Chovia. Não se avistava a Lua, mas ela certamente boiava, imensa e amarela, sobre as nuvens e as gotas da chuva. O nome do recém-nascido: Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Foi um gênio no que fez: música popular brasileira.

Paradoxalmente, um dos maiores cariocas da história nasceu em noite tipicamente paulista. Certamente, aquela chuva no Rio, antes da chegada das águas de março que fecham o verão, resultou da força da data, 25 de janeiro, na qual se comemora o aniversário de São Paulo, terra da garoa.

Jobim cresceu sob os cuidados de dona Nilza Brasileiro de Almeida (1910-1989), sua mãe. Seu pai, Jorge Jobim (1889-1935), passou pouco tempo com Tom. Nilza e Jorge se conheceram em Porto Alegre. Ela tinha 15. Ele, 36. Casaram-se em 1926. Jobim nasceu em 1927. Em 1928, o casal se separou.

Após o fim do casamento, a família se mudou. Deixaram a Tijuca, onde o músico nasceu e viveu parte de sua infância, e foram morar em Ipanema.

Jorge Jobim, que foi diplomata, poeta parnasiano, crítico e jornalista, morreu em 1935, vítima de uma fulminante parada cardíaca.

Jobim, certa vez, disse que se tivesse convivido mais com seu pai, certamente teria sido escritor e não músico.

O músico afirmava que seu pai “era um literato. Falava francês, espanhol. Inglês ele não falava, não, mas conhecia profundamente latim, grego e tudo o mais. Teria me ensinado toda essa coisa que o pai do Chico Buarque ensinou para ele. Mas não tive com meu pai o convívio de que precisava”.

Dois anos depois da morte de Jorge, Nilza casou-se novamente. O padrasto de Tom Jobim chamava-se Celso Frota Pessoa. Um socialista e matemático que casou só após Nilza conseguir o consentimento do filho.

Tom Jobim tinha Celso como pai e sempre dizia que o padrasto o havia incentivado muito na carreira musical.

A vida de Tom corria tranquilamente entre brincadeiras e passeios na praia. Certo dia, quando ele voltava de suas aventuras pelas areias cariocas, deparou-se com um piano na garagem de sua casa.

O piano fora alugado pela mãe de Jobim para duas finalidades: a primeira, para que sua irmã, Helena, aprendesse a tocar aquele estranho instrumento; a segunda, para que o professor Hans Joachim Koellreutter (1905-2005) ministrasse aulas de música na escola de dona Nilza, o Colégio Brasileiro de Almeida.

Tom Jobim tinha então 14 anos. Sua curiosidade pelo piano logo se tornou paixão e o jovem passou a estudar com o professor Koellreutter.

Depois, ele teve aulas com a professora Lucia Branco, a qual também ensinou piano para ninguém menos que Nelson Freire e Artur Moreira Lima. Foi Lucia quem convenceu Jobim a desistir da carreira de concertista e partir para a composição.

Jobim passou então a tomar aulas de composição com o professor Paulo Silva. A respeito dessa fase, Tom declarou certa vez: “estudei harmonia com o professor Paulo Silva [m em 1967]. Ele ainda usava aquela gravata vermelha que dá laço e cai no peito. Ficava tristíssimo quando as composições não obedeciam àquelas regras rígidas. Estudei com Alceu Bochinno [n. em 1918], aprendi muito com Radamés Gnattali [1906-1988]. Minha intenção era o conserto com s. Começar a consertar as coisas porque está tudo quebrado. Eu sentia uma grande admiração por essas pessoas que faziam música brasileira. Fui à casa do Villa-Lobos [1887-1959]. Eu ouvia falar que ele era maluco. Quando escutei o Choro nº 10, eu chorei, mas de felicidade, de alegria, entende? Botava aquilo na vitrola e chorava ali na Rua Nascimento e Silva. O meu contato com esse tipo de música foi um pouco tardio. Quando fui estudar com a Lúcia Branco, que era ligada à música erudita, eu já tinha uns 17 anos. Aquelas menininhas tocavam muito mais do que eu aquelas músicas de Chopin. Quando comecei a escutar Chopin a sério, pensei, meu Deus, o que é isso? Como é que um sujeito que nasceu há mil anos já sabia de tudo que eu quero saber agora? Já sabia do ritmo, da harmonia, esse polonês-francês Frédéric Chopin [1810-1849], como o outro, Claude Debussy [1862-1918]. Fui ficando extasiado com aquela beleza: Ravel [1875-1937], Beethoven [1770-1827], Bach [1685-1750]. Comecei a tocar Bach com a professora Lúcia Branco, que tinha estudado em Paris. Fui estudar com Tomás Teran [1895-1964], um espanhol muito amigo do Villa-Lobos, a quem o Villa-Lobos dedicou um álbum daquelas músicas dele. Teran era um cara muito escolástico, muito clássico, mas ao mesmo tempo amigo do Villa-Lobos. O Villa-Lobos dizia: ‘O Brasil é uma floresta encantada onde a Europa jogou o tapete persa velho, mofado, cheio de poeira, cheio de ácaro’. Eu estudava a harmonia no piano. Composição eu fui fazendo porque o Paulo Silva exigia, mas era um troço quadrado para burro. Subdominante, dominante, tônica. Quando eu saía disso, ele brigava comigo”.

Nessa mesma época, Tom Jobim aprendeu a tocar outros instrumentos, entre eles flauta, harmônica de boca e violão.


CASAMENTO

Nos anos 1940, ele conhece Thereza Otero Hermanny, por quem se apaixona. Em 1949, os dois se casam e passam a morar na rua Redentor, 307, mesmo endereço da família do músico — o padrasto de Tom transformou o quarto de empregada da casa no quarto do novo casal.

Tom Jobim decide então mudar de profissão, pois não acreditava que a vida de músico tivesse algum futuro. Começa então a estudar arquitetura e desiste no primeiro ano.

Um de seus antigos professores, Alceu Bocchino, arranja-lhe um emprego de pianista da Rádio Clube do Brasil. Tempos depois, ele passou a tocar também no Bar Michel, à noite, para melhorar o orçamento da família.

Jobim tocou em quase todas as principais casas noturnas do Rio. Tocava de tudo, desde tango aos foxes e rumbas. Percebeu então que para se tornar um compositor teria de estudar mais. Conversou com seu padrasto e pediu para que o ajudasse com o aluguel e as contas de casa enquanto ele se dedicava aos estudos de harmonia e orquestração e tomava aulas com Tomás Teran.


NAS GRAVADORAS

Foi depois dos estudos que Tom Jobim conseguiu um emprego na Editora Euterpe, onde escrevia arranjos para conjuntos. Quem o levou até lá foi Alcides Fernandes, músico casado com a faxineira da casa da família Jobim e seu amigo.

Com o passar do tempo, Jobim acabou demonstrando sua capacidade profissional e foi contratado pela Continental, onde passou a fazer arranjos para cantoras como Dalva de Oliveira (1917-1972) e Elizeth Cardoso (1918-1990). Orlando Silva (1915-1978) e Dick Farney (1921-1987) também cantaram músicas orquestradas por Tom Jobim.

O trabalho de Jobim na Continental atraiu a atenção do maestro Radamés Gnatalli, que passou a ser o grande protetor de Tom na gravadora.


PRIMEIRAS GRAVAÇÕES

A estreia do Tom Jobim compositor foi em 1953, com o samba-canção “Incerteza” feito em parceria com Newton Mendonça (1927-1960). No mesmo ano, ele lançaria também mais duas músicas “Pensando em você” e “Faz uma semana”. Nessa época, ele e Thereza já tinham um filho, Paulo, e moravam em Copacabana.

O primeiro sucesso de Tom veio em 1954, com a música “Tereza da praia”, composta por ele e Billy Blanco (n. em 1924).

É também em 1954 que Jobim produz a sua primeira obra-prima: o LP Sinfonia do Rio de Janeiro. Nele, o compositor, ao lado de Billy Blanco e Radamés Gnatali, que colocou coro, orquestra e arranjo nas composições, aprensentam mitológicas interpretações. Fazem parte desse disco nomes como Dick Farney, Elizeth Cardoso, Dóris Monteiro (n. em 1934), Os Cariocas, Jorge Goulart (n. em 1926), Nora Ney (1922-2003) e Emilinha Borba (1923-2005).


RUA NASCIMENTO SILVA, 107

Foi também em 1954, um ano cheio de trabalhos e encomendas para Tom Jobim, que ele, sua esposa e seu filho se mudam para o famoso endereço na rua Nascimento Silva, 107. A nova moradia da família de Tom Jobim ficou eternizada em uma canção de Vinicius de Moraes (1913-1980). Hoje, a tão cantada rua faz esquina com a rua Vinicius de Moraes.

O local é o berço da bossa nova. Lá, Tom e Vinicius criaram as músicas que deram origem ao disco Canção do Amor Demais, gravado, em abril de 1958, por Elizeth Cardoso. Hoje, esse LP é considerado o início desse estilo musical.

No mesmo ano, Tom assume a direção artística da gravadora Odeon. Porém, o cargo na gravadora acabou entrando em conflito com seu trabalho como compositor — o compositor não tinha mais tempo para fazer músicas — e ele pede para ser desligado do cargo.

Tempo depois, em casa e trabalhando em suas composições, Jobim escreveu um poema a respeito de sua passagem pela direção artística da gravadora. Nele, as coisas se explicam melhor:

“E fui beber água onde o tigre bebia.

A água era pouca, pura, fria”

Jobim deixou o lugar onde o tigre bebia água para se misturar aos cobras da música popular brasileira. O que mais lhe fez companhia, nessa época, foi Vinicius de Moraes.


TOM E VINICIUS

Em 1956, Tom é apresentado a Vinicius. Os dois, juntos, serão responsáveis por algumas das mais belas canções da MPB. Porém, o começo da parceria é meio complicado.

O responsável por essa apresentação histórica foi Lúcio Rangel (1914-1979), um defensor contumaz da música popular brasileira. O encontro ocorreu no fim de maio. Na época, Vinicius — um poeta já famoso — procurava um compositor para sua peça Orfeu da Conceição. Os dois foram apresentados no bar Casa Villarino, no centro do Rio. O estabelecimento, que também recebia Ary Barroso (1903-1964), Dolores Duran (1930-1959) e Di Cavalcanti (1897-1976), foi palco de uma estranha conversa.

O próprio Tom Jobim disse como foi a conversa no CD Antonio Carlos Jobim em Minas ao Vivo. Ele conta que Vinicius “era diplomata e veio de Paris com a ideia de fazer uma peça de teatro chamada Orfeu da Conceição. Chegou no Rio e procurou um músico para compor com ele as músicas da peça”. Segundo Jobim, ele não foi o primeiro músico a ser procurado por Vinicius para a empreitada. O primeiro teria sido o veterano Vadico que, adoentado, recusou a oferta.

No CD, Tom conta: “Lucio Rangel me apresentou ao Vinicius, que me levou ao grande mundo carioca, em casas com pianos de cauda e senhoras bem lavadas. Eu andava com uma pastinha cheia de arranjos, competindo com o aluguel. Perguntei: Escuta tem um dinheirinho nisso? Lucio ficou escandalizado: ô Tom Jobim, esse aí é o poeta Vinicius de Moraes. Eu digo, ah bom”. Tom também conta que a dupla começou com “alguns sambas meio bobos jogados na lata do lixo, até que apareceu um samba bom”. O samba era “Se todos fossem iguais a você”. Em seguida vieram “Água de beber”, “Eu não existo sem você”, “Modinha” e a famosíssima “Chega de saudade”.


ORFEU DA CONCEIÇÃO

A peça Orfeu da Conceição estreia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1956. Montada com cenários de Oscar Niemeyer, a obra atinge grande sucesso. Tanto que suas músicas acabam gravadas em disco lançado pela Odeon — entre elas está a obra-prima “Se todos fossem iguais a você”.

Nesse trabalho já aparece o Jobim sinfônico. Um compositor marcado por um trabalho sofisticado e de enorme apuro, onde há a determinação de alcançar o sublime com a menor quantidade possível de notas. Jobim toca apenas o necessário que o belo exige.

Segundo o crítico Arthur Nestrovski, assim é a música de Jobim. Feita de quase nada, pois “quanto mais de perto se olha para ela, mais aparece o trabalho consciente de composição, a capacidade de extrair encantamento do que há de mais simples. Pode não ser a imagem habitual do compositor, mas isso só comprova sua generosidade, distribuindo bolos finíssimos para todos nós, a massa de famintos, sem jamais chamar a atenção para si. A beleza da música cobre tudo”.

Orfeu da Conceição pode ser considerada uma das grandes obras da canção brasileira. Segundo o jornalista Luís Nassif, a peça representa uma parte da nossa música que ainda não é bossa nova, mas que também encanta. Para Nassif, “nenhuma escola (…) emociona mais do que a canção brasileira, um gênero semi-erudito que se forma ao longo dos anos 20, atravessa os 30 e os 40, e ingressa nos 50, inclusive influenciando o Tom Jobim pré-bossa nova. Pode-se gostar de ‘Garota de Ipanema’, ‘Desafinado’, ‘Chega de saudades’. Mas quem ouviu ‘Modinha’ (não, não pode mais meu coração / viver assim dilacerado...’), dele e de Vinicius, curtindo uma dor-de-cotovelo, não se esquecerá jamais”.


CHEGA DE SAUDADE

Em 1958, segundo o historiador Flavio de Campos, “o Rio era a capital do Brasil. O jovem Fernando Henrique Cardoso preparava sua tese de doutorado. Chega de saudade, de João Gilberto, inaugurava a batida da bossa nova. Uma parte da juventude descarregava sua rebeldia ouvindo rock, acelerando suas lambretas, usando jeans e sonhando com Marilyn Monroe”.

Chega de saudade é um LP fundamental para a MPB. O disco inovou no conjunto voz-e-violão de João. Reúne músicas consideradas ainda hoje fundamentais no repertório do cantor, como a faixa-título, “Desafinado”, “Rosa morena” e “Aos pés da cruz”. Todos os arranjos do disco foram feitos por Tom Jobim.

Uma declaração de Chico Buarque é o necessário para entender a importância desse disco. Chico conta que só foi “pegar no violão a partir da bossa nova (...) quando saiu Chega de Saudade foi um choque tremendo, lembro-me perfeitamente. Ficava horas, a tarde inteira ouvindo aquilo, ouvindo, ouvindo, ouvindo... Conhecia o violão de João Gilberto desde o disco da Elizeth Cardoso, ‘Canção do amor demais’ (58). Mas a gravação de João era diferente. Não havia televisão na minha casa. A cara do João só fui conhecer pela capa do primeiro LP. De vez em quando chegava alguém dizendo: ‘Vi aquele cara esquisito de que você gosta na TV’. Às vezes outro falava: ‘Acho que ele é bicha’. E um outro: ‘Claro que ele é bicha!’. Pois bem, João para mim ficou sendo bicha durante um bom tempo. E assim mesmo eu queria cantar e tocar violão daquele jeito. Eu tinha 14 anos, era a idade em que os garotos começavam a procurar mulher, a se preocupar com sexo. Mas a vontade de imitar João para mim era maior que o pavor de passar por bicha”.

Em 1959, Tom Jobim compôs a trilha sonora para o filme Pluft, o fantasminha, uma adaptação da peça de Maria Clara Machado (1921-2001).

No mesmo ano, ele comandou um programa de entrevistas na TV Paulista intitulado O bom Tom. Jobim foi um entrevistador de sucesso. Seu programa era o segundo mais assistido em São Paulo.


ANOS JK

Surge então um convite feito pelo presidente da República Juscelino Kubitschek (1902-1976), que pede para Tom e Vinicius comporem uma sinfonia para a nova capital do país. Desse pedido nasce “Brasília, sinfonia da alvorada”, trabalho que resultou de uma visita que a dupla fez ao Planalto Central.

A obra não foi aos palcos por falta de verba, mas resultou em um disco.

Nessa mesma época, João Gilberto lança seu segundo disco, que continha algumas composições de Tom Jobim, entre elas a famosa “Samba de uma nota só”. Em seguida, sai o terceiro LP de João. Nele estão outras músicas de Tom. “Insensatez” foi a de maior sucesso. Assim a bossa nova passava a se tornar a música mais tocada no Brasil. Tanto que JK ficou conhecido como presidente bossa nova, pelo fato de seu governo ter ocorrido no mesmo tempo que esse estilo musical estourou.

Em 1962, Tom e Vinicius fazem, juntos, seu primeiro show. O espetáculo se chamou Encontros e também teve a participação de João Gilberto e do conjunto Os cariocas, os quais gravaram, nesse mesmo ano, os sucessos “Só danço samba”, de Tom e Vinicius, e “Samba do avião”, de Tom Jobim.


GAROTA DE IPANEMA

“Quem se desloca, recebe. Quem pede tem preferência”. Foi assim que, em 1962, Helô Pinheiro saiu do anonimato para se tornar quem é. Vinicius de Moraes estava sentado no bar Veloso, na antiga rua Montenegro. De lá ele viu Helô Pinheiro se deslocar “num doce balanço a caminho do mar”. A imagem do deslocamento macio da moça deu ao poeta uma ideia, a qual ele levou ao parceiro Tom Jobim. Disso surgiu uma das músicas mais executadas em todo o mundo: “Garota de Ipanema”. O tempo correu. Hoje, Helô é famosa. Se deslocou na frente do poeta e recebeu um nome que fez dela rica. Ficou conhecida como a Garota de Ipanema, que, aliás, é o atual nome do bar onde estava sentado Vinicius, o qual, por sua vez, dá o nome da rua onde Helô, então moça de “corpo do dourado”, deslocava suavemente sua beleza e enchia de graça o mundo do poeta.

Também foi nesse ano que ocorreu a famosa apresentação no Carnegie Hall, em Nova York, dos músicos brasileiros ligados à bossa nova. Tom Jobim chegou aos EUA no dia do show. Apresentou-se aos norte-americanos e, a partir de então, ganhou os EUA. No ano seguinte é lançado o disco “The composer of desafinado, plays”. Nessa época, as músicas dos brasileiros já eram interpretadas por músicos norte-americanos famosos como Dizzie Gillespe (1917-1993), Quincy Jones (n. em 1933) e Stan Getz (1927-1991).


FAMA MUNDIAL

Após o sucesso nos Estados Unidos, Jobim ganhou o mundo. O resto da década de 1960 foi marcado pelo sucesso de seus discos e por incontáveis shows no exterior.

Em 1967, Jobim estava tomando um chope com os amigos no mesmo bar Veloso, onde Vinicius viu a Garota de Ipanema, quando toca o telefone. O dono do bar diz que a ligação era para Tom Jobim. Ele atende e ouve uma voz conhecida do outro lado da linha. É Frank Sinatra (1915-1998).

O cantor norte-americano conta para Jobim sua vontade de gravar um disco só com músicas do compositor brasileiro. Jobim aceita no mesmo instante.

Essa conversa telefônica acabou resultando no disco “Albert Francis Sinatra & Antonio Carlos Jobim”, um sucesso. Perdeu apenas para “Sgt. Pepper’s lonely hearts club band”, dos Beatles, o qual, por sua vez, é um dos discos mais vendidos de todos os tempos.

Dois anos depois, Sinatra e Jobim gravam outro disco “Sinatra & Company”, o qual tem arranjos de Eumir Deodato (n. em 1943). Depois, Sinatra participa de um especial para a rede norte-americana de televisão NBC, para o qual convida Tom Jobim, já seu amigo.

O programa começava com Sinatra cantando “Corcovado”.

O sucesso de Jobim não pára. No mesmo ano, ele e Chico Buarque gravam “Retrato em branco e preto”. A música estoura no exterior com o título “Zíngaro”.

Ainda nesse mesmo ano, Glauber Rocha (1939-1981) convida Jobim para protagonizar o filme Terra em transe O músico, porém, não aceita o convite em razão de sua agenda cada vez mais apertada.


III FESTIVAL DA CANÇÃO

O sonho da razão produz monstros e com a ditadura não foi diferente. O governo militar desconcertava as coisas. Acinzentava o país. Foi capaz de levar o público brasileiro a vaiar os hoje inquestionáveis Chico Buarque e Tom Jobim.

Tudo ocorreu no III Festival da Canção. Os festivais eram palco para incontáveis protestos contra os militares.

Eram realizados no ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. Consagravam, mas também vaiavam nomes da música popular brasileira. Foi o caso de Tom e Chico, os quais concorreram, em 1968, com a música “Sabiá”, vencedora do festival. A canção, porém, foi vaiada de maneira estrondosa pelo público, que preferia “Caminhando (Pra não dizer que não falei de flores)”, de Geraldo Vandré.

A música de Vandré era uma espécie de hino contra a ditadura. Com o tempo, ela virou um símbolo da resistência ao regime militar. Contudo, na época, a vitória de “Sabiá” rendeu muita mágoa tanto a Tom quanto a Chico.

Segundo o historiador José Ramos Tinhorão, a música de Vandré era realmente subversiva, tanto que, segundo ele, “foi proibida (…) porque dizia que o cidadão civil e o fardado eram irmãos. E isso era realmente subversivo do ponto de vista do regime militar, que se baseava na hierarquia”.

O que se percebe hoje é que nesse festival a questão política se sobrepôs à beleza. O arranjo elaborado de “Sabiá” foi vaiado, pois o público queria que uma canção de três acordes vencesse, afinal, ela contestava o regime que torturava e atentava contra as liberdades individuais.

A vaia aos vencedores foi tamanha que o próprio Vandré saiu na defesa de Chico e Jobim. Durante as vaias, o criador de “Caminhando” fez um apelo ao público dizendo: “Gente, por favor, um minuto só. Vocês não me ajudam desrespeitando Jobim e Chico. A vida não se resume a festivais”.

Veio então o festival do ano seguinte. E o problema foi ainda maior. Vários artistas, entre eles Tom Jobim, irritados com a censura estabelecida pela ditadura, decidiram não participar do concurso, que na época era uma espécie de evento nacional.

No ano seguinte, em 1970, Jobim chegou a ser preso. Segundo os militares, a prisão do músico foi para “prestar depoimentos”.


FASE ECOLÓGICA

Nos anos 1970, Jobim entra na sua fase ecológica. Lança dois álbuns com nomes de aves: Matita Perê e Urubu Neles, há inúmeras músicas sobre a natureza. A mais famosa é “Águas de março” — primeira faixa de Matita Perê.

Já a música “Matita Perê”, que dá nome ao disco, era, segundo Tom, uma homenagem aos escritores mineiros Carlos Drummond de
Andrade (1902-1987), Guimarães Rosa (1908-1967) e Mário Palmério (1916-1996).

A letra, escrita por Paulo César Pinheiro, foi inspirada no conto Duelo, de Guimarães Rosa. Segundo Paulo César, Tom Jobim ligou pra ele dizendo: “Comecei a fazer uma música (…) é uma espécie de monstro que está na minha cabeça, uma espécie de rascunho. Pode não ficar. Se você quiser, isso não permanece, mas, se quiser usar, pode. Ou então faz outra coisa”. Paulo César conta que não mexeu em absolutamente nada, apenas adaptou uma letra à música. Segundo o letrista, “Matita Perê é uma história, uma espécie de filme, é um curta”.

O LP Urubu é outra preciosidade. Segundo o músico Dori Caymmi, “a faixa ‘Saudade do Brasil’ (…) é uma coisa que ouço sempre. Choro quando ouço, faz bem. E essa música é a mais importante da discografia dele, para mim. O início de Tom tinha sido um dos mais maravilhosos. Houve muita inveja — ele se tornara ‘americano’. Os americanos se apossaram da música e fizeram uma coisa grotesca com a bossa nova. Depois de ‘Águas de Março’, liberado dessa imagem, foi para os EUA e voltou com ‘Saudade do Brasil’. Ele a fez bem brasileira, villa-lobiana, nota-se o Brasil de Ary Barroso [1903-1964], Pixinguinha [1989-1973]. É para ouvir só com os ouvidos, sem o corpo”.

Nessa fase, coloca em destaque seu amor pela natureza. Segundo ele, gostava mesmo era do mato, dos passarinhos, dos macacos.

Certa vez, em uma entrevista concedida ao programa Roda Viva, Jobim, questionado a respeito de música de massa, disse ecologicamente: “há várias hipóteses. Uma, é nós destruirmos esse planetinha, o planeta azul, como estamos fazendo rapidamente. Toda essa música do Villa-Lobos, Floresta Amazônica, isso não vai mais ter sentido nenhum, porque não existe a Floresta Amazônica. O Trem do Caipira não existe mais. Esses trens que passam aí, todos têm buzina, têm diesel, faz poonnn, não é o trem, é um negócio... Então a gente destrói tudo e depois sai daqui com um foguete e vai arranjar [outro planeta], porque Deus tem outros planetas muito melhores, com florestas melhores, bichos melhores, onças muito mais bonitas. Aí nós vamos para outro planeta, fazer a mesma coisa, destruir”.

Em 1974, sai o LP Elis & Tom, o qual traz a memorável e mais famosa gravação de “Águas de março”. Em 2004, o filho mais velho de Elis, João Marcelo Bôscoli, relançou pela gravadora Trama uma edição comemorativa de aniversário de 30 anos da obra.

“Águas de março” tem uma história interessante. A música também foi vendida na série “Disco de bolso” do Pasquim — semanário carioca, fundado em 1969, e marcado pela irreverência e linguagem ousada, que de certa forma iniciou o movimento de imprensa alternativa da década de 1970.

O primeiro disco dessa série, que trazia um músico consagrado de um lado e um artista jovem do outro, começou com Tom Jobim e sua “Águas de março” e João Bosco e Aldir Blanc, os quais estreavam na música com a composição “Agnus sei”.

Segundo Bosco, o disco se chamou “‘O Tom e o tal’, sendo que o tal era eu”, diz o cantor. João também conta que “numa seleção de músicos novatos, eu e Aldir ganhamos. A música era mostrada ao padrinho, para ser aprovada, e o padrinho, segundo o projeto, teria que gravar uma inédita”.

No encarte do disco Jobim afirma que sua música foi influenciada pelo poema “O caçador de esmeraldas”, do poeta parnasiano Olavo Bilac (1865-1918).


SEPARAÇÃO E HOMENAGENS

Em 1977, Tom separa de Thereza. Tempo depois ele começa a namorar a jovem fotógrafa Ana Beatriz Lontra, com quem acabaria se casando.

Nos anos 1980, Tom recebe inúmeras homenagens. A rede de televisão Manchete promove um especial de quatro programas sobre a vida do músico. Darcy Ribeiro (1922-1997), então vice-governador carioca, o nomeia conselheiro cultural do Estado do Rio de Janeiro.

Suas músicas viram temas de novelas e minisséries de TV, como foi o caso de “Luíza”, que era a música-tema da telenovela Brilhante, e “Passarim”, música da minissérie O tempo e o vento.

Em 1985, Tom faz uma nova série de shows de grande sucesso no Carnegie Hall. Em 1987, a Rede Globo transmite o especial Antônio, o brasileiro, em homenagem ao aniversário de 60 anos do compositor.

Depois, Jobim recebe das mãos do ministro da Cultura da França, Jack Lang, em 1988, a comenda de Grand Commandeur des Arts et des Lettres do governo francês.

Em 15 de março de 1989, ocorre no Carnegie Hall uma festa para celebrar os 25 anos da música “Garota de Ipanema”, que, à época, já havia ultrapassado três milhões de execuções em emissoras de rádio e televisão, o que tornou Tom Jobim o segundo autor estrangeiro mais executado nos Estados Unidos.

Em novembro de 1989 morre a mãe de Jobim, dona Nilza. A década também foi marcada pela morte de Vinicius de Moraes em 1980. Assim, Jobim teve de aliar a felicidade dos reconhecimentos e da fama cada vez maior com a terrível perda de duas pessoas queridas.

Em 25 de janeiro de 1991, dia de seu aniversário e da data comemorativa da cidade de São Paulo, Tom Jobim faz um show no Parque do Ibirapuera para quase trinta mil pessoas. No ano seguinte, ele foi o tema do desfile da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, que apresentou no carnaval o samba “Se todos fossem iguais a você”.

Tom Jobim ficou tão entusiasmado com a homenagem da escola que retribuiu com a música “Piano na Mangueira”, composta em parceria com Chico Buarque.

1992 foi um ano marcado por grandes shows. Um deles foi o que encerrou a Eco-92 — conferência internacional realizada no Rio de Janeiro para tratar de problemas relacionados à conservação da natureza, reunindo 178 países. Outro foi no Carnegie Hall, que comemorou os trinta anos da primeira apresentação de bossa nova naquele palco. Esse show se transformou em um especial de fim de ano transmitido pela Rede Globo.

O Free Jazz Festival, em 1993, foi uma homenagem a Tom Jobim. Contou com a participação de músicos como Herbie Hancock, Ron Carter, Gonzalo Rubalcaba e Jon Hendricks. Nesse ano, Tom lança seu último disco Antonio Brasileiro, que contou com a participação de Dorival Caymmi e Sting.

Em 1994, ele participou de vários shows nos EUA. O principal foi o espetáculo para promover a Rainforest Foundation, do qual também participaram Sting, Elton John e Luciano Pavarotti.

Nesse ano, Jobim descobriu que tinha câncer na bexiga. Passou por uma operação para retirada do tumor no dia 6 de dezembro. Dois dias depois ele morreu, vítima de uma parada cardíaca.

Com a morte de Jobim, morreu um pedaço de um Brasil mais humano, mais inteligente, mais sofisticado.

Segundo o crítico de arte Lorenzo Mammì, “a música de Tom Jobim (...) é uma promessa que o Brasil fez ao mundo, e ainda não cumpriu (…) a bossa nova expressa um momento de passagem, nos anos 50, em que o rápido processo de modernização permite admitir um ‘humanismo doce’, tecnológico e arejado, que decanta uma sociabilidade tradicionalmente avessa aos signos ostensivos do trabalho, sublimando o que há nisso de herança escravista e encarnando a esperança de uma modernidade (...) lúdica e eficiente como um drible de Pelé, natural e culta como um jardim de Burle Marx [1909-1994], exata e solta como uma melodia de Tom Jobim. Não é pouco. Configura-se aí um Macunaíma transcendental, aparentemente capaz de, no momento breve da oportunidade histórica, driblar o limite concreto e entrar na era dos consumos sem passar pela fase heróica e sombria da industrialização”.

Chico Buarque, quando soube da morte de Jobim, declarou: “Tudo o que fiz na vida foi para o Tom”.


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