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Oscar Niemeyer e a beleza das curvas
 
 
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 ENTRE A ARQUITETURA E A POLÍTICA
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Oscar Niemeyer é um dos maiores e mais importantes arquitetos do mundo // AFP Photo

Maquetes, desenhos, trabalho incansável e ideais políticos levaram e levam adiante a figura do homem Oscar Niemeyer. O arquiteto foi uma das mentes criadoras mais importantes da arquitetura mundial dos séculos XX e XXI. De sua prancheta já saíram mais de quatrocentos projetos. Desses, 180 são edifícios que levam sua assinatura no exterior. No Brasil, as construções criadas pelo arquiteto estão presentes em oito capitais e mais de trinta municípios do interior.

Sobre Niemeyer muita coisa já foi escrita — cerca de três dezenas de livros em oito idiomas, incluindo japonês e grego —, porém, ele não é apenas o arquiteto brasileiro mais importante do século. Ele é uma espécie de monumento nacional vivo.

Para se ter uma ideia da importância da obra desse brasileiro basta a seguinte declaração do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997): “A gente imagina que, daqui a trezentos anos, ainda vão falar de nós, mas é ilusão. Vão lembrar só do Oscar. Sempre haverá alguém estudando a obra dele”. Para Darcy, nos séculos vindouros, muitos ainda vão ficar “paralisados de espanto” frente à obra de Niemeyer.

Nascido no Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1907, Oscar Niemeyer Soares Filho vivia, segundo ele mesmo escreveu, em uma “velha casa (…) assobradada, com seis janelas na fachada, a sala de jantar, a longa mesa na qual a família se reunia, a sala de visitas e, depois, a extensa varanda que acompanhava a casa até o fim do terreno, a conversa que se estendia noite adentro a debater os problemas daquela época — mais fácil de viver, com certeza”.

De família católica — sua avó reunia os vizinhos para rezar missa em casa —, Oscar foi, na juventude, uma espécie de “ovelha negra” aos olhos dos familiares mais fervorosos. Passou boa parte de sua mocidade nos cabarés da Lapa, boêmio bairro carioca — em suas palavras, “olhando o mulherio e tocando bandolim”. No Café Lamas, no Flamengo, um grande amigo seu, o garçom Orelha, fazia a gentileza de telefonar de manhã cedo para acordá-lo, pois Niemeyer costumava passar as noites pelas boates cariocas.

Grande torcedor do Fluminense, o futuro gênio da arquitetura quase enveredou pelos campos de futebol. Chegou até a disputar uma partida preliminar de um Fla-Flu. Segundo ele, podia ser considerado “um bom atacante”, um goleador. Porém, quando descobriu uma outra paixão, o comunismo, a sede de bola arrefeceu, principalmente porque, como ele mesmo diz, o Fluminense era um “time de grã-fino”.

Niemeyer deixou a farra quando conheceu Annita Baldo (1910-2004), com quem ele se casou em 1930 e teve uma filha — a galerista Anna Maria Niemeyer (n. 1931) —, cinco netos, treze bisnetos e cinco trinetos. Annita e Oscar viveram juntos por 74 anos, até a morte dela, em 2004.

Ela fez o boêmio Niemeyer seguir a risca o samba de Ismael Silva (1905-1978):
Se você jurar/ que me tem amor/ eu posso me regenerar,/ mas se é pra fingir, mulher, a orgia assim não vou deixar”. Em seguida, em 1934, formou-se arquiteto pela antiga Escola Nacional de Belas-Artes.

Em 1936, Niemeyer passou a trabalhar no grupo liderado por Lúcio Costa (1902-1998) — grande divulgador do movimento de implantação da arquitetura moderna no Brasil —, o qual, sob orientação do arquiteto franco-suíço Le Corbusier (1887-1965), projetou a sede do Ministério da Educação e Saúde (hoje palácio Gustavo Capanema), no Rio de Janeiro.

Em 1938, Niemeyer produziu seu primeiro trabalho individual, um projeto para a Associação Beneficente Obra do Berço, na lagoa Rodrigo de Freitas, situada entre o morro do Corcovado e as praias do Leblon e de Ipanema e ligada ao mar por um canal, no Rio de Janeiro. Tal projeto ganhou logo certa notoriedade, pois já incorporava as principais inovações arquitetônicas da época, especialmente os quebra-sóis verticais (um quebra-sol é um elemento arquitetônico em forma de placas horizontais ou verticais, fixas ou móveis, aplicadas sobre a fachada de um edifício. Eles servem para barrar a incidência direta dos raios solares dentro do prédio).

Em 1939, Niemeyer e Lúcio Costa projetaram, juntos, o pavilhão brasileiro da Feira Internacional de Nova York, o qual, segundo o arquiteto Luiz Rekaman, professor da faculdade de arquitetura da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo e doutor em filosofia pela USP, é um “marco definitivo para a consolidação da linguagem moderna [arquitetura] brasileira”. Para Rekaman, tal renovação seria “plenamente estabelecida no projeto de Oscar Niemeyer para a Pampulha, em 1942”.


PAMPULHA
O projeto da Pampulha marcou o início da primeira grande fase da arquitetura de Niemeyer, quando ele se liberta da influência de Le Corbusier e da tirania do ângulo reto. Surgem de suas pranchetas as curvas e a beleza típicas de sua obra. Segundo disse o próprio Niemeyer, “não me atrai a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas de meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida”. O arquiteto segue, dessa forma, uma ideia que ele retirou da obra do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), para o qual “o inesperado, a irregularidade e a surpresa são parte essencial e característica da beleza”.

No projeto para a capital mineira, o gênio do arquiteto carioca, contratado pelo então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek (1902-1976), se apresenta em toda sua plenitude. Nessa época, o arquiteto já havia percebido que com a chegada do concreto armado e das estruturas de metal à construção civil a parede não precisava mais servir, necessariamente, de sustentação às construções. Essa descoberta abriu possibilidades antes tecnicamente inviáveis e permitiu à arquitetura preocupar-se, antes de tudo, com a beleza. O próprio Niemeyer disse, certa vez: “Essa ideia me libertou”.

O conjunto arquitetônico projetado para a cidade então administrada por JK englobava a construção de um cassino, um lago artificial, da igreja de São Francisco de Assis, do Museu de Arte, da Casa do Baile e do Iate Tênis Clube. Para os jardins da Pampulha, o prefeito mineiro contratou outro gênio, o paisagista brasileiro Roberto Burle Marx (1904-1994). Somam-se às obras de Niemeyer e Burle Marx a pintura do mestre Candido Portinari (1903-1962) e as esculturas dos artistas brasileiros Alfredo Ceschiatti (1918-1989) e José Pedrosa (1915-2002) e do escultor polonês August Zamoiski (1893-1970). Todas essas participações transformaram a Pampulha em um dos locais mais importantes para a arte, a arquitetura e o paisagismo modernos brasileiros. O complexo da Pampulha também serviu para tornar o nome de Niemeyer reconhecido mundialmente.

Segundo o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar (n. 1930), “nascida das novas técnicas de construção — que liberaram a fachada e as paredes dos edifícios — e da negação do estilo revival que predominava no século XIX — a arquitetura moderna adotou a funcionalidade como o princípio básico da criação: ‘a forma segue a função’. Se é certo que esse princípio contribuiu para o surgimento de uma nova concepção formal na arquitetura, também limitou-lhe a inventividade. Instaurou-se, então, a ditadura da linha reta, com que rompe o jovem Oscar Niemeyer, ao projetar, em 1942, o famoso conjunto da Pampulha. Essa ruptura com o estilo funcionalista não resultou apenas da necessidade de inovar mas também da percepção das possibilidades plásticas do concreto armado. Quebrado o dogma, que havia tornado repetitivas as soluções arquitetônicas, abriu-se o caminho de uma revolução formal e técnica, de que o nosso arquiteto foi o pioneiro e também o mais inventivo executor. Por sua audácia e pioneirismo, foi muitas vezes acusado de negligenciar a funcionalidade dos edifícios que projeta. Essa crítica não leva em conta o fato de que a beleza também é função da obra arquitetônica e que a funcionalidade prática dos edifícios muda com os anos, é superada pela vida. Para que serve hoje o palácio dos Dogers, em Veneza, se mudou o sistema de poder da sociedade e o modo de viver das pessoas? Mas a beleza do edifício se mantém intacta, a nos encantar a todos. Esta é a visão de Niemeyer, para quem a arquitetura deve, antes de tudo, surpreender as pessoas, inserir no cotidiano da cidade uma coisa que nos deslumbre”.


SEDE DAS NAÇÕES UNIDAS
O início da carreira de Niemeyer foi, segundo o próprio arquiteto, marcado por três importantes viagens ao exterior. “A primeira, a convite do Lúcio Costa para com ele trabalhar no projeto do Pavilhão do Brasil, na Feira Internacional de Nova York; a segunda, para a Venezuela, onde projetei um museu. Uma pirâmide invertida, que tinha na conformação do terreno sua explicação; a terceira, a Nova York, onde participei de um concurso privado para a construção da sede da ONU (Organização das Nações Unidas), no qual meu projeto foi escolhido por unanimidade”.

Portanto, em 1946, Niemeyer e outros dez arquitetos de renome internacional foram convidados a comandar o projeto da nova sede da ONU, em Nova York. O desenho final do edifício combinou dois projetos: o que havia sido apresentado pelo antigo mestre do jovem Niemeyer, Le Corbusier, e o do próprio arquiteto carioca.

O trabalho final, apesar do desenho feito por Niemeyer, foi considerado de autoria coletiva.


VOLTA AO BRASIL
De volta ao Rio de Janeiro, Niemeyer projetou a sede do Banco Boavista, na avenida Presidente Vargas. Logo depois, realizou obras na capital paulista, entre elas o prédio da fábrica de biscoitos Duchen, em 1949; o centro comercial Montreal, em 1950; e o conjunto do parque Ibirapuera, obra comemorativa do quarto centenário da fundação de São Paulo (1954).

A década de 1950 marcou a execução de obras para a cidade de Diamantina (MG): um hotel, um clube e um aeroporto. Na capital mineira Niemeyer projetou, entre outros prédios, o conjunto residencial Juscelino Kubitschek, o ginásio estadual e o clube Monte Líbano, que não chegou a ser construído. Seu projeto, porém, apresentava as soluções das rampas envolventes que substituem pilotis, adotadas posteriormente por outros arquitetos. Em 1955, a convite do governo da Alemanha, planejou junto com quatorze outros arquitetos os quinze prédios do bairro residencial de Hansa, projeto que foi a tal ponto desfigurado que Niemeyer sequer quis vê-lo depois de executado.

Em 1956, Juscelino Kubitschek, então presidente da República, encomendou ao arquiteto um projeto para a construção da nova capital do Brasil, Brasília. Por sugestão do próprio Niemeyer foi aberto concurso nacional para o plano geral da cidade.

Lúcio Costa ganhou, e Niemeyer projetou os edifícios públicos que incluem o palácio da Alvorada (residência presidencial) e a capela anexa, o palácio do Planalto (sede do poder executivo), o edifício do Supremo Tribunal Federal e o do Congresso Nacional, a catedral e o Teatro Nacional. Da mesma maneira que havia feito na Pampulha, Niemeyer rejeitou os conceitos funcionalistas ou utilitários e idealizou obras de tal beleza que levaram as Nações Unidas a declarar Brasília Patrimônio Cultural da Humanidade em dezembro de 1987. Na década de 1960, o arquiteto dedicou boa parte de suas forças às atividades didáticas na Universidade de Brasília (UNB).

A consagração de seu talento veio com a exposição parisiense montada em 1964 no Musée des Arts Décoratifs, do Louvre, a primeira que a instituição dedicava a um arquiteto. Suas realizações se disseminaram pela Europa: torre da Defesa e sede do Partido Comunista Francês, em Paris; anexos da Universidade de Oxford, na Inglaterra; reurbanização do Algarve, em Portugal; sede da editora Mondadori, na Itália.

Após viver um período produtivo na Europa — mas praticamente inexistente no Brasil, pois os governos do período militar (1964-1984) sistematicamente boicotavam seus projetos —, Niemeyer retornou ao Brasil, onde mantém grande atividade. Em 1983, no Rio de Janeiro, envolveu-se em dois projetos de grande impacto: a construção da Passarela do Samba (Sambódromo) e o conjunto de escolas pré-fabricadas dos Centros Integrados de Escola Pública (CIEPs). Destacou-se mais tarde por várias outras obras, como o Panteão da Liberdade (1986), na praça dos Três Poderes, em Brasília; o Memorial da América Latina (1987), em São Paulo; o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (1991); e o Museu Oscar Niemeyer (2002), em Curitiba.

Niemeyer fundou e dirigiu a revista Módulo (1955-1965), em que publicou inúmeros artigos. Escreveu diversos livros sobre sua atuação como artista: Minha experiência em Brasília (1961); Viagens: quase memórias (1968); Minha vida de arquiteto (1973), o qual foi publicado também na França e na Itália; Como se faz arquitetura (1986); Conversa de arquiteto (1993); e As curvas do tempo — memórias (2000).


POLÍTICA
Comunista quase centenário, nascido antes da própria Revolução Comunista de 1917, Niemeyer, que na arquitetura adora as curvas, permanece com uma postura política para lá de reta. Passou toda a vida defendendo as teses socialistas como maneira de promover a justiça social. Tanto que em 2005, ao completar 98 anos, Niemeyer escreveu um artigo no jornal Folha de S.Paulo intitulado “Definição (ao completar 98 anos de idade)”. Nele, o arquiteto constatava que “essa revolta que sinto ao ver a pobreza crescer e se multiplicar por toda parte não decorre de um amadurecimento político que a leitura e a companhia de amigos progressistas muitas vezes propiciam”.

Dizia ainda, no mesmo artigo, que se sentia orgulhoso do incômodo e da revolta que teve, aos sete anos de idade, ao ouvir sua avó materna falar para a empregada: “Tira esse pano da cabeça. Negra não usa isso”. Niemeyer também foi muito influenciado pela honestidade do avô materno — Antônio Augusto Ribeiro de Almeida (1838-1919), assim relembrado pelo arquiteto: “Apesar de ter sido ministro do Supremo Tribunal Federal por muitos anos [de 1896 à aposentadoria, em 1913], meu avô morreu pobre.

Segundo Oscar, essa história de vida explicava sua “adesão à luta política” e seu “ingresso no PCB (Partido Comunista Brasileiro)”.

Ou, ainda, sua “integração àquele ambiente de solidariedade”. Foi no PCB que Niemeyer afirma ter encontrado “as melhores pessoas que conheci e essa convicção de que só o comunismo poderá criar o mundo mais justo que desejamos”.

Niemeyer começou a militar aos dezoito anos, em 1925. Numa linha do tempo comunista, a data situa-se um ano antes do nascimento de Fidel Castro (n. 1926) e um ano depois da morte de Lênin (1870-1924).

Em 2005, Oscar Niemeyer, afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria se aproximar das esquerdas. O arquiteto afirmou estar decepcionado com o governo do PT. Segundo ele, “é horrível o que está acontecendo. Estou decepcionado. Acho que o Lula tinha que se aproximar das esquerdas e fazer o que prometeu”. O comunista criticou, à época e de uma só vez, Lula, o presidente dos EUA, George W. Bush, e o regime capitalista. “O problema do Lula é que ele quer melhorar o capitalismo. Mas para nós o capitalismo é Bush, é dinheiro, é discriminação social”, declarou.


DESAPEGO
Pelo projeto da construção de Brasília, Oscar Niemeyer recebeu Cr$ 40.000,00 (quarenta mil cruzeiros), o equivalente, em 1961, ao que recebia mensalmente o presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil — em 2006, o teto mensal do funcionalismo público, baseado pelo STF, é R$ 24.500,00. Dada a magnitude da obra de Niemeyer, e por mais absurdo que isso possa parecer hoje, não é disparatado inferir que a Capital Federal tenha sido projetada ao custo, à época, de um mês de salário do presidente do STF.

Mas o arquiteto é um mão-aberta, termo popular para identificar uma pessoa que não tem muito apego às coisas materiais. Porém, ele também exigiu a contratação de inúmeros amigos durante o projeto. Até um ex-goleiro do Flamengo, muito amigo seu, foi contratado pelo governo federal à época. Segundo ele, o goleiro do Flamengo e mais quatro companheiros “estavam na merda e eu queria ajudar”.

Seguiu por toda a vida a cartilha do bom comunista, onde a propriedade é coletiva. Depois de tantos projetos tão famosos em todo o mundo, alguns monumentais como a construção de uma cidade, dono do equivalente na arquitetura ao prêmio Nobel (o Pritzker, em 1988) e tantos outros, em 2005, o arquiteto teve de hipotecar o escritório no Rio de Janeiro, onde trabalha, por problemas econômicos.

Um bom resumo da vida econômica de Niemeyer é dado por seu amigo, o engenheiro José Carlos Süssekind, que diz: “A metade do que ele fez, ele não cobrou. A metade que ele cobra, ele cobra a metade”. Segundo Süssekind, Niemeyer certamente “teria vergonha de ser rico”.

Segundo o próprio Niemeyer, a maior influência que ele teve para levar uma vida tão preocupada com os amigos veio do avô, o qual, “apesar de ter sido ministro do Supremo Tribunal Federal por muitos anos, meu avô morreu pobre, apenas deixando para nós, hipotecada, aquela velha casa da rua Passos Manuel, hoje Ribeiro de Almeida [nome da família de Niemeyer]. E passei a compreender, satisfeito, o exemplo que ele me deixara, esse desprezo pelo dinheiro que me acompanha a vida inteira, sempre voltado às obrigações familiares e aos que me cercam, e que procuro atender da melhor maneira possível”.

Em 1945, o arquiteto deu as chaves do seu escritório no Rio de Janeiro para Luís Carlos Prestes (1898-1990), o qual havia acabado de ser libertado da prisão imposta pelo Estado Novo, para que o Cavaleiro da Esperança lá fundasse a sede do PCB (Partido Comunista Brasileiro).

Não faz muitos anos, Niemeyer deu R$ 7 mil ao porteiro de seu prédio no intuito de ajudá-lo a realizar o sonho da casa própria. Também é conhecida a ajuda que Niemeyer deu por quase toda a vida a Trifino Correa, um militar ligado ao PCB.

Segundo o próprio Niemeyer, o amigo comunista “estava em situação desesperadora”. Porém, como ele mesmo diz, quando Trifino recebeu “aumento de soldo, pediu para baixar a ajuda de custo”. Para o arquiteto, “isso é que é honestidade”.

Em 1982, Prestes apoiou a candidatura de Leonel Brizola (1922-2004) ao governo do Rio de Janeiro, tal apoio motivou sua expulsão do PCB. Niemeyer saiu com ele. Anos mais tarde, ao ser indagado a respeito de sua saída do PCB o arquiteto disse: “Estar de bem com os amigos é o que importa. Não dá para ficar sozinho, porque a vida é perversa, não tem solução”.

Niemeyer preocupava-se tanto com a ideia de recompensar as pessoas que o rodeiam que projetou uma casa para seu motorista. A casa com assinatura de Niemeyer fica numa área do Rio de Janeiro rodeada por favelas.
Para o arquiteto, “o regime capitalista nunca nos abriu uma brecha para o mundo melhor que queremos. Existe nele aquela coisa americana em cima da gente. Sobra pouco. Eu tenho que me manifestar”. Para ele, “quando a vida se degrada e a esperança sai do coração dos homens, só a Revolução (resolve)”.


ARQUITETURA
Certa vez, Niemeyer relatou que o arquiteto finlandês Alvar Aalto (1898-1976) — considerado, ao lado do brasileiro, um dos mestres da arquitetura no século XX —, se disse cansado de conversas e simpósios sobre a arte arquitetônica. Segundo Niemeyer, Aalto teria afirmado que, na verdade, “não existe arquitetura antiga e moderna. O que existe, no seu modo de ver, é boa e má arquitetura”.

Para Niemeyer, Alvar Aalto estava coberto de razão, porém, o carioca também acreditava ser necessário observar como eram limitadas, até o século XX, as possibilidades da arquitetura. Para o mestre carioca, é importante ter em mente “como era penoso para Michelangelo [1475-1564] limitar o diâmetro de suas cúpulas a trinta ou quarenta metros. É lógico que ele teria gostado de poder fazê-las com oitenta metros de diâmetro, como tive a oportunidade de realizar agora no museu de Brasília”.

Tal evolução técnica, para Niemeyer, possibilitou vencer obstáculos e dar asas à criatividade. Niemeyer afirma que os antigos arquitetos “ficavam a sonhar soluções arquitetônicas que só agora é possível concretizar”.

Segundo ele, “o arquiteto que projetou o palácio dos Doges, em Veneza, desejoso de nele criar um espaço mais amplo” acabou “obrigado a recorrer a uma enorme treliça de madeira. Problema esse que, hoje, uma simples laje de concreto resolveria”.

Niemeyer não acreditava numa arquitetura ideal, uma estética e um tipo de construção por todos adotada. para ele, isso significaria condenar a arquitetura à “repetição, a monotonia. Cada arquiteto deveria ter a sua arquitetura, não criticar os colegas, fazer o que lhe agrada, e não aquilo que outros gostariam que ele fizesse. E, ainda, ter a coragem de procurar a solução diferente, mesmo quando sentisse que era radical demais para ser aceita”. Sua arquitetura é, portanto, algo intrinsecamente pessoal e subjetivo.

Para ele, “se examinarmos a questão da intervenção da técnica na arquitetura, basta lembrarmos o seguinte: antigamente, as paredes é que sustentavam os prédios; com o aparecimento da estrutura independente, elas passaram a simples material de vedação. E surgiram a leveza arquitetural, as fachadas livres e os grandes panos de vidro que caracterizam a arquitetura atual.

E, quando, por razões urbanísticas — para encurtar distâncias —, os prédios começaram a ganhar altura, foi a descoberta do elevador que tudo tornou possível. E apareceram os grandes arranha-céus, uma solução que espalha o caos por toda parte se não forem observados os afastamentos horizontais indispensáveis, como tão bem ocorreu na Défense, em Paris”.

Porém, para Niemeyer também “não foi apenas o progresso da técnica construtiva que marcou a evolução da arquitetura”. Esse ramo das artes também evoluiu empurrado pelas “transformações das ciências e da sociedade”. Portanto, foi assim, “atendendo ao progresso da técnica e da própria evolução social, que foi possível chegar a esta etapa do concreto armado, que abriu aos arquitetos um campo novo de possibilidades”.

O arquiteto carioca nunca foi, contudo, avesso às grandes obras do passado. Para ele, nós sempre “podemos voltar ao passado por simples curiosidade, lembrar a primeira verga, o primeiro arco, as grandes catedrais”. Porém, “o vocabulário plástico do concreto armado é tão rico que com ele devemos trabalhar”.

Assim é a arquitetura de Niemeyer, uma poesia ao universo curvo, como a que o próprio arquiteto escreveu:

“Não é o ângulo reto que me atrai

Nem a linha reta, dura, inflexível,

Criada pelo homem.

O que me atrai é a curva livre e sensual,

A curva que encontro nas montanhas do meu país,

No curso sinuoso dos seus rios,

Nas ondas do mar,

No corpo da mulher preferida.

De curvas é feito todo o universo,

O universo curvo de Einstein”.


AOS 98, ESCULTURA E NOVO CASAMENTO
Incansável, em 2005, Niemeyer produziu uma escultura para ser instalada em Paris, na margem oposta da Biblioteca Nacional da França, à beira do rio Sena, por ocasião do Ano do Brasil na França. A obra foi recebida com muitos elogios por toda a crítica, tanto a brasileira quando a internacional. Com oito metros de altura, a obra é composta por duas linhas em metal, uma delas lembrando uma flor. A escultura, denominada A mão e a flor, foi financiada pelo grupo francês Carrefour. Já a instalação e a manutenção foram pagas pela Prefeitura de Paris.

Segundo o curador de artes Luis R. Cancel, Niemeyer sempre manifestou uma “grande agilidade mental e flexibilidade diante da vida, ele certamente não viveu sem convicções nem sem um claro objetivo. Seu humanismo, sua intolerância diante da injustiça, suas certezas políticas nunca foram turbadas. Ao atravessar sua nona década, Niemeyer se arrisca no campo da escultura com a mesma generosidade de espírito, a mesma inventividade e provocação que trouxe para sua arquitetura. Faz isso explorando temas que ressoam dentro dele: as curvas ondulantes que ecoam na paisagem, nas mulheres, no mar do Rio; a homenagem ao companheiro sacrificado na luta pela justiça social; a força e a graça do arco, forma universal impregnada de associações culturais e simbólicas”.

Um ano depois, em 2006, Niemeyer casou-se com Vera Guimarães Cabreira (n. 1946), mulher 38 anos mais jovem que ele. Os dois viveram em Ipanema.

Desde 1992 Vera trabalhava como secretária de Niemeyer em um pequeno edifício na avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Niemeyer foi comunista até no segundo casamento. Segundo amigos do arquiteto, a principal razão da união, era a intenção de Niemeyer em deixar algum bem para Vera. Tal decisão ocorreu após Oscar ter uma conversa com seu advogado, na qual ele perguntou se seria possível incluir Vera em seu testamento. O advogado disse que o testamento poderia ser anulado na Justiça caso algum dos beneficiários alegassem que Niemeyer, então uma pessoa de 98 anos, não controlasse com perfeição sua capacidade de decidir. Niemeyer resolveu o assunto casando-se. A cerimônia ocorreu alguns dias depois de o arquiteto ter deixado o Hospital Samaritano, em Botafogo, na zona sul do Rio, onde estava internado na UI (Unidade Intermediária) desde o dia 8, após ter sofrido uma queda em sua casa e fraturado o quadril.

Sua única filha, Anna Maria Niemeyer, só ficou sabendo que seu pai havia se casado novamente um dia após o matrimônio.

Oscar Niemeyer faleceu dia 05 de Dezembro de 2012, por conta de uma insuficiência respiratória.


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