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Música eletrônica, o gênero sem fim
 
 
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 SONHOS SINTETIZADOS
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No século XIX, com o surgimento das máquinas, nasce também o ruído. Russolo fez música com ele

Os adoradores das máquinas que pretendiam criar o ruído musical foram os pais involuntários de uma das correntes mais influentes da música no início do século XXI: a eletrônica. Artistas e técnicos de ambos lados do oceano Atlântico deram suas contribuições, mas a casualidade também teve seu papel no nascimento desse novo gênero.

A história da música eletrônica começou em 11 de março de 1913, em Milão (Itália). Nesse dia, o pintor futurista Luigi Russolo (1885-1947) deu a conhecer um manifesto intitulado A arte do ruído, no qual propunha retirar o mundo da surdez em que estaria submerso. Como bom futurista, Russolo acreditava que as máquinas, além de ser fonte de beleza, eram o dínamo que daria movimento ao adormecido sentido estético dos seres humanos.

O pintor, que logo se converteria em músico, tentou criar novos instrumentos porque os da sua época eram, para Luigi, muito limitados. Tentou construir máquinas que imitassem os sons de engrenagens, de motores de explosão, de carroças e de multidões vociferantes. Assim, carregado de entusiasmo, conclamou seus “irmãos” futuristas para introduzir sua música nas salas de concerto: “Entremos juntos, como futuristas, em um desses hospitais de sons anêmicos. (...) Fora! Vamos à rua, posto que não poderemos frear por muito tempo nosso desejo de criar, ao fim, uma nova realidade musical, com uma ampla distribuição de bofetadas sonoras, saltando com os pés juntos sobre os violinos, pianos, contrabaixos e órgãos gemedores. Vamos à rua!”.


AS MÁQUINAS INTONARUMORI

O rugir dos canhões da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) não amedrontou Russolo, que iniciou a fabricação de seus novos instrumentos. Antes de tê-los concluído já os havia batizado com uma palavra inventada por ele: intonarumori (máquinas de produzir ruídos). Três meses depois de haver apresentado seu manifesto, o ex-pintor milanês apresentou seu primeiro instrumento no Teatro Storchi de Modena. Em abril de 1914, o Teatro Dal Verne de Milão foi o palco do primeiro grande concerto futurista, com uma verdadeira orquestra de intonarumori, e em junho de 1916 repetiu a aventura no Coliseum de Londres. Em ambos casos suas obras não foram compreendidas pelo público. Russolo, porém, não se deu por vencido: “As dificuldades para as interpretações de intonarumori não são tão grandes como parece à primeira vista: a única grande dificuldade parece ser a brutalidade do público, que não quer escutar... mas esperamos, incluso acreditamos firmemente, poder vencê-la também”.

Apesar de sua insistência, Russolo não conseguiu tal proeza, embora atualmente ele seja considerado o introdutor de uma música que só seria ouvida tempo depois, em um mundo afastado do criador, mas próximo de nós, o público consumidor de música do século XXI.


O INSTRUMENTO INTOCÁVEL

Enquanto os sons emitidos pelas máquinas de produzir ruídos de Russolo eram superados pelas vaiadas que elas recebiam, na União Soviética, começava a tomar forma o primeiro instrumento eletrônico da história. Em 1919, na cidade de Petrogrado (atualmente, São Petersburgo), um estudante de física chamado León Theremin (1896-1993) chamava a atenção dos músicos com um invento que ele batizou com seu próprio nome. O invento de Theremin, que também era violoncelista, era “tocado sem ser tocado”, já que bastava apenas aproximar ou distanciar as mãos de duas antenas que emitiam frequências distintas e inaudíveis, cuja combinação gerava uma terceira frequência que podia ser escutada — o guitarrista Jimmy Page, da banda inglesa Led Zepellin, foi um dos primeiros músicos do rock que fez uso desse instrumento.

O som resultante ficava entre uma soprano e um violino. Em 1927, Theremin se mudou para os Estados Unidos com sua criação debaixo do braço e em busca de fortuna. Seu encontro com a sorte se produziu quando a gigante RCA passou a comercializar o theremin, o primeiro instrumento eletrônico da história. Entre 1929 e 1931 foram fabricadas quinhentas unidades, vendidas ao preço de US$ 175, cada. Essa primeira leva de theremins foi quase toda vendida, mas isso não foi suficiente para saldar as dívidas do inventor. Em setembro de 1938, acossado por credores, Theremin desapareceu de Nova York e regressou à União Soviética.

Em 1939, começou a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Durante o conflito ocorreram muitos avanços na eletrônica, nas comunicações e nas formas de armazenamento de informação que seriam cruciais para o desenvolvimento musical. Uma vez finalizada a guerra, na segunda metade da década de 1940, a fita magnetofônica foi posta em circulação e se transformou na forma preferida para armazenar sons. Foi assim que na França, Itália, Alemanha e Suécia começaram a surgir estudos nos quais jovens engenheiros de som e compositores passaram a experimentar as fitas em sofisticados reprodutores e gravadores.

A nova tecnologia facilitou a busca das máximas lançadas por Russolo, que exigia que a música encontrasse novos horizontes, além da gama de timbres já conhecidos dos instrumentos tradicionais. Um dos principais impulsores desses experimentos sonoros foi Pierre Schaeffer (1910-1995), que chamou esse novo gênero de música concreta. Os cultivadores da música concreta manipulavam sons já existentes para criar peças novas ao estilo collage (colagem). Como se fosse um filme, as fitas eram cortadas, editadas e processadas (às vezes até coladas ao contrário, por exemplo) em estúdios de gravação para conseguir texturas novas. Era um processo lento e artesanal.


SÉCULO XX

Em meados do século XX, dois grupos utilizaram simultaneamente as novas tecnologias na música. Em Paris, havia Schaeffer, com suas colagens sonoras e sua música concreta, e, em Colônia, na Alemanha, Karlheinz Stockhausen (n. 1928) utilizava sons gerados pelos próprios aparelhos, criando a música eletrônica propriamente dita. Ambos influenciaram a experimentação musical posterior, que se desdobrou em uma multiplicidade de métodos e concepções estéticas designadas genericamente como música eletroacústica. O avanço da radiodifusão a partir da Segunda Guerra Mundial propiciou o desenvolvimento dessa nova produção.


MÚSICA ELETROACÚSTICA

A música eletroacústica surgiu em 1948. Segundo o professor de música e compositor Flo Menezes, há uma “usurpação do termo ‘eletrônico’ pela música praticada pelos DJs”. Ele também afirma que o termo ‘eletroacústico’ também foi usurpado quando Gilberto Gil lançou o show Eletracústico, em 2004.

Gil afirmou, à época, que havia dado esse nome ao show após ter lido um texto de um músico erudito no qual “ele se queixava, num artigo contrariado, de essa música eletrônica de festa ser chamada de música eletrônica. Defendia a concepção eletracústica erudita contra usos populares abastardadores. Aí me ocorreu chamar o show de Eletracústico”.

Segundo Menezes, “nomear uma coisa é reconhecer o lugar que esta ocupa em determinado processo cultural. A coisa não se resume a seu nome, mas, a partir do fato de podermos nomeá-la, ela adquire valor, institui-se enquanto singularidade, soma-se ao arsenal mítico do fazer humano. Nomear é, então, contribuir para que se desenhe mais uma curva na espiral da invenção, não em um simples ‘progresso’ unilateral das linguagens, mas em um processo que podemos designar por ‘transgresso’: uma evolução de índole ‘quântica’, num bosque inventivo em que ramos que florescem num lugar podem dar frutos simultaneamente em outras floradas, distantes de tal ou qual árvore genealógica”.

Para ele, “quando o sentido de um nome é esvaziado, desloca-se o foco de sua experiência para fazeres não necessariamente relacionados ao processo que lhe deu origem, e o lugar dessa coisa se perde”.

Menezes esclarece que “é preciso dar nome aos bois: música eletroacústica é a composição especulativa realizada em estúdio eletrônico cujos traços principais são a espacialidade sonora (a forma como os sons são dispostos no espaço) e a investigação harmônica e espectral”.

No Brasil, ocorre a Bienal Internacional de Música Eletroacústica de São Paulo (Bimesp), no qual as pessoas se unem para ouvir sons produzidos por computador, em concertos quase sempre sem a participação de intérpretes ao vivo.

Na Bimesp são tocadas desde a música “puramente” eletroacústica, difundida exclusivamente por alto-falantes, até a música eletroacústica mista em tempo diferido, na qual há interação entre sons eletrônicos previamente realizados em estúdio e execução instrumental/vocal ao vivo e a música eletroacústica mista em tempo real, na qual a interação entre músicos ao vivo e recursos eletroacústicos ocorre por transformações dos sons dos instrumentos ao vivo pelos aparelhos.


VENTOS DO CARIBE

Foi necessário esperar até os anos 1960 para que um jovem físico e engenheiro norte-americano facilitasse ainda mais a maneira de gerar sons eletrônicos. Chamava-se Robert Albert Moog (1934-2005). Ele havia se iniciado no mundo dos instrumentos musicais construindo um theremins. Em 1969, Moog criou um instrumento eletrônico muito mais fácil de executar que os theremins e que revolucionou a música: o sintetizador. Esse novo aparato permitia pleno controle do tom e do volume, o que ajudava a criar, alterar e filtrar sons eletrônicos. Isto é, os experimentos da música concreta agora podiam ser realizados mediante um equipamento capaz de ser transportado para o palco, onde poderia ser tocado ao vivo.

O sintetizador foi rapidamente aceito pelos músicos, em especial por grupo ingleses como Pink Floyd, que começavam a dar forma à chamada música psicodélica e mais tarde ao rock progressivo.

Depois que a tecnologia foi inventada, faltavam ainda mudanças estilísticas na composição musical. Em 1969, na cidade de Kingston (Jamaica), um descuido propiciou a aparição de uma escola que duas décadas mais tarde transformaria a cabine dos DJs em um trono. King Tubby (1941-1989), que consertava rádios e televisores e trabalhava eventualmente no estúdio de gravação Island Treasure, dedicado à música reggae, esqueceu de incluir a voz do cantor em um vinil. O disco foi parar nas mãos do DJ Ruddy Redwood, que ficou surpreso ao descobrir que se tratava de música instrumental e que, além disso, seu público adorava. Sabendo disso, King Tubby aperfeiçoou seu “invento” agregando efeitos, fragmentos de guitarras e golpes de pratos. Assim surgiu a técnica do remix. Em 1971, quase todos os discos da Jamaica levavam em seu lado B músicas que incluíam essas misturas batizadas como dub.

Foi a partir dos dubs caribenhos que surgiram o rap e o hip hop, gêneros populares com raízes na música funk dos EUA — a qual, nos anos de 1970, passou por um vigoroso processo de comercialização que desembocou na febre das discotecas e dos grandes bailes, de onde surgiu o rap.

O nascimento do rap ocorreu no Bronx, bairro da periferia de Nova York, em 1971, quando a jovem Cindy Campbell, que precisava de dinheiro para voltar a estudar, pediu ao seu irmão Clive que organizasse uma festa e cobrasse ingresso.

Clive era jamaicano e costumava frequentar os bailes de Kingston, sua terra natal. Ele ficava encantado com os enormes equipamentos de som dos DJs, e como eles “conversavam” ritmicamente, numa batida repetitiva, no início de cada música. A festa dos irmãos Campbell foi um sucesso total: a entrada custava US$ 0,25 para as moças e US$ 0,50 para os rapazes. O baile só terminou às 4h da madrugada. Clive, que adotou o nome artístico Kool Herc, apelido que usava para pichar os vagões do metrô, passou a dar bailes na periferia da cidade norte-americana.

Nessa época, Clive tinha dezoito anos e era o primeiro DJ que falava num ritmo entrecortado. Com dois toca-discos funcionando ao mesmo tempo e duas cópias de cada disco, podia tocar o mesmo trecho sem parar. Ele tinha dançarinos que executavam seu número ao som do break (da quebrada rítmica da música), daí surgiu o nome breakdancers ou, como Kool DJ Herc os chamava, b-boys.

Porém, o verdadeiro criador do rap que existe hoje foi Joseph Sandler, conhecido como DJ Grandmaster Flash. Para ele, a maioria das canções tinha apenas dez segundos que realmente valiam a pena, e, se esses trechos fossem agrupados e repetidos se poderia estendê-los para criar noites inteiras de baile. Metido em seu quarto no Bronx, ele criou uma forma de ouvir um toca-discos com fones de ouvido, enquanto o outro aparelho animava a festa. Com esse truque, um DJ poderia tocar ininterruptamente os mesmos dois discos, porém fazendo com que os trechos se misturassem, criando assim novas combinações e produzindo algo muito próximo a uma colagem sonora.

Foi assim que Sandler passou a tocar e comandar grandes bailes. Foi ele quem inventou o scratch — técnica que produz sons ao girar manualmente e em sentido contrário um LP sob a agulha de um aparelho de som.

Também foi ele quem criou o back spin, uma técnica que permite ao DJ extrair do disco uma frase rítmica, um groove (parte da música que se repete e determina o ritmo da canção), para repeti-lo várias vezes, modificando o andamento normal da música utilizada (essa repetição do groove é conhecida como looping e ocorre ao longo de toda música). O back spin é, portanto, uma espécie de bricolagem sonora que possibilita ao DJ a criação de músicas apenas com os pedaços de outras músicas.

O rap é atualmente um gênero de música popular com penetração no mundo todo. Dele surgiu a cultura hip hop, adotada no Brasil nas periferias urbanas na década de 1980. Os Estados Unidos, berço do surgimento do rap, exportam uma infinidade de grupos — dos criados nos anos 1980, como Beastie Boys, Public Enemy e Run DMC, a revelações como Black Eyed Peas e Outkast —, bem como influenciam localmente. Racionais MCs e Marcelo D2 (Brasil), Orishas (Cuba), Mc Solaar (França) são apenas alguns exemplos de uma música de grande relevância.


EUROPA

Distantes da despreocupada anarquia sonora de Kingston e dos scratchs nova-iorquinos, o conservatório de Düsserlorf (Alemanha) foi o palco onde se conheceram Ralf Hütter e Florian Schneider, dois estudantes de música que vagavam pelos laboratórios das universidades em busca dos escassos sintetizadores disponíveis. Nos anos 1970, eles foram os fundadores do grupo Kraftwerk, cuja filosofia musical estava em sintonia com as teses do então esquecido Russolo.

O longevo Kraftwerk substituiu os instrumentos convencionais colocando em seus lugares os sintetizadores, que geravam sons eletrônicos de uma simplicidade próxima à da música concreta, ainda que fortemente influenciados pelo pop.

Mais recente, mas também importante na vanguarda da música eletrônica, é o grupo Daft Punk, considerado por muitos uma das principais referências da música eletrônica contemporânea. Formada pela dupla francesa Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, o grupo normalmente aparece em público apenas vestindo roupas especiais e capacetes, tal como robôs.


PORTAS ABERTAS

No final dos anos 1960, já se haviam produzido outras mudanças na maneira de consumir a música popular. Com a febre da cultura das discotecas, nos anos 1970, os DJs passaram a ocupar lugar de destaque e o público os seguia com devoção.

Desse modo, as gravadoras começaram a criar canções pensadas mais para a pista de dança que para a poltrona de casa. Uma das fórmulas mais explosivas surgiu na Alemanha. Ali, um produtor italiano chamado Giorgio Moroder armou um coquetel embriagante, composto por música tecno alemã (que já havia se popularizado com o Kraftwerk) e uma boa dose de soul music com a voz da cantora Donna Summer. Assim nasceu “Love to love you baby”, um enorme êxito cuja fórmula seria utilizada até a saciedade durante a explosão da música disco em Nova York, e logo exportada ao mundo inteiro.

No final da década de 1970, na cidade de Chicago, ocorreu outra grande mudança. Em 1978, um DJ chamado Frankie Knuckles começou a criar ao vivo suas próprias versões de temas conhecidos. Isso já havia se estendido até Nova York, mas Knuckles oferecia uma novidade desde sua cabine: às canções mesclava efeitos pré-gravados. A casa onde ocorriam essas misturas sonoras chamava-se The Warehouse, um reduto frequ entado pela comunidade gay de Chicago. No auge do sucesso, Knuckles lançou um LP que levava o mesmo nome da casa noturna em que trabalhava. O vinil acabou se tornando conhecido como The House — origem da house music, estilo de música que se tornou uma febre nos anos 1980.


EXPLODE A NOVA MODA

No começo dos anos 1980, a house music criada por Frankie Knuckles passou a ganhar cada vez mais adeptos, mas não conseguia fazer com que as gravadoras distribuíssem suas criações. Outras inovações musicais se somaram às anteriores até que, em 1982, a empresa Roland levou ao mercado um seqüenciador, o TB 303, que simulava linhas de baixo e fora criado para acompanhar músicos em pequenos locais — pelo menos era isso o que pretendia a companhia, porém a baixa qualidade do som produzido por esse aparelho acabou levando-o ao encalhe e às lojas aparelhos usados. Então os DJs resgataram esses sucatas eletrônicos no intuito de fazer ao vivo o que o jamaicano King Tubby havia feito em estúdio. Os DJs ingleses assimilaram a house de Chicago, mas, ao incorporar sequenciadores e samplers (que gravavam sons de programas de rádio e televisão), criaram a acid house.

No princípio o novo estilo musical inglês tocava em um círculo reduzido de discotecas. Suas principais promotoras foram as pistas de dança de Ibiza, na Espanha: as longas noites da ilha ao ritmo de acid house cativaram os turistas, que saíam de lá com vontade de continuar a festa em seus países de origem. Desse modo, em 1989, a acid house havia se popularizado em toda a Europa.

Cada país criou alguma variação da acid house: na Alemanha ela foi somada à percussão para gerar um estilo conhecido como industrial; em outros países foi utilizada em um som mais pop (na Itália, por exemplo); no Reino Unido, esse estilo, própria das pistas de dança, se misturou a gêneros como o rock. Essa contínua mutação em escala global produziu um gênero tão amplo e multifacetado que, quando falamos hoje de música eletrônica, não podemos imaginar a miríade de tendências que ela possui. Portanto, quase cem anos depois de Russolo, finalmente parecia que seria possível celebrar o triunfo do ruído e do som da máquina.


ELETRÔNICA E POP

O uso industrial dos aparelhos eletrônicos criou uma miríade de gêneros específicos de música comercial. A eletrônica diminuiu os custos e prazos da produção de discos, mediante a frequente substituição de instrumentistas por aparelhos, o uso de instalações arquitetonicamente muito menores e mais simples do que as requeridas para o registro do som acústico e a possibilidade de manipular posteriormente o som gravado, para corrigir eventuais imperfeições. Assim, a música gravada afastou-se bastante do resultado obtido em apresentações ao vivo, o que por sua vez modificou a dinâmica dos espetáculos, que passaram a também requerer a participação da eletrônica para corresponder ao que fora veiculado em disco.

A partir das últimas décadas do século XX, os computadores digitais — versáteis, precisos e menos dispendiosos — converteram-se no principal recurso tecnológico utilizado para composição, performance e registro.


MÚSICA ELETRÔNICA HOJE

Em novembro de 2004, o jornal inglês The Guardian decretava apocalipticamente em sua manchete: “A dance music está morta”. O estilo musical que havia tomado conta das rádios e das pistas nos anos 1980 e 1990 havia perdido espaço para outros estilos. Apesar dessa manchete não muito favorável, a música eletrônica continua ainda representando um caminho para a criação de novos sons a partir de inovações tecnológicas.

O certo é que, apesar de não venderem mais milhões de discos como ocorreu nos anos 1990, bandas e artistas como Chemical Brothers, Fatboy Slim, Prodigy e Moby ainda estão na ativa e a música eletrônica segue se reinventando — como fica claro na declaração de Liam Howlett, do Prodigy, que afirma: “Gosto de pensar que o que fazemos é música que excita as pessoas, seja para onde essa música for. Somos uma banda eletrônica, mas não temos medo de quebrar alguns padrões. Se dizem que somos eletrônicos, irei ao estúdio fazer um disco de rock; se dizem que somos uma banda roqueira, farei um disco todo eletrônico”.

A banda Prodigy foi, ao lado do Chemical Brothers, um dos principais grupos da música eletrônica no final dos anos 1990. Seus discos misturavam breakbeats com um punk rock ao estilo da banda Sex Pistols. Atualmente, artistas como o norte-americano Beck e a banda inglesa Asian Dub Foundation mesclam a música eletrônica ao rap, o rock e o reggae, produzindo uma música inclassificável e de grande inventividade e aceitação.

No Brasil, nomes como DJ Dolores, Marcelinho da Lua, DJ Marky, DJ Patife, Suba (1961-1999), o grupo Drumagick e os grupos do funk carioca representam a música eletrônica brasileira mais genuína. Nomes como Alok lideram as paradas de sucesso da música eletrônica. Aqui anualmente ocorre, em São Paulo, o Skol Beats, maior festival de música eletrônica da América Latina.

Alguns artistas da MPB como Lenine, Nação Zumbi, Fernanda Porto, Marina, Adriana Calcanhotto, Max de Castro e outros utilizam frequentemente recursos da música eletrônica em seus discos.


PARA SABER MAIS

Rock, rebeldia e consumo