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Oscar Wilde, gênio de si mesmo
 
 
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 ENSINO PARA SUPEREDUCADOS
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Oscar Wilde posa, com um cravo na lapela, em uma foto que dedicaria a seu amigo André Gide

Muitas vezes os escritores colocam tanto de si em seus escritos que acabam confundindo vida e obra. Os mais ousados preferem atirar-se diretamente no papel em branco, plasmando pensamentos e experiências com premeditação e aleivosia; outros preferem esconder-se entre suas letras para expressar emoções inconfessáveis. Há, porém, os mais loucos que julgam converter-se em seu próprio personagem e recriam-se a cada momento que criam o personagem que acreditam ser.

Oscar Wilde (1854-1900) fez tudo isso e um pouco mais. Se nos princípios do século XIX autobiografia era sinônimo de modernidade, Wilde ultrapassou os limites até converter-se no que havia de mais novo entre as novidades. Um escritor que superava os limites do conteúdo literário. Ele era um de seus poemas. Escrevia-se. Era estético, belo e elegante. Sofria de nostalgia pelo Renascimento como alguns textos da época. Era helênico no corpo e na alma. Seu dia a dia era a produção de um inesgotável romance, escrito em cada atitude, a cada passar de hora, um O retrato de Dorian Gray (1890) que caminhava com graça rumo à decadência.

Era, sobretudo, um paradoxo, uma grande contradição dotada de enormes doses de verdade.


VIVER COM GENIALIDADE

“Você gostaria de saber qual é o grande drama da minha vida? Eu coloquei toda minha genialidade na minha vida, e apenas meu talento em minhas obras” (“I put all my genius into my life; I put only my talent into my Works”), dizia Wilde. Transcorridos mais de 150 anos de seu nascimento, o autor ficou na memória mundial como um gênio de si mesmo, um homem que tratou de viver honestamente e enfrentou uma sociedade puritana que castigava todo aquele que desafiasse suas normas morais. Com sua rebeldia, Wilde saiu da estreiteza da sociedade vitoriana e conquistou um lugar na modernidade. Hoje, as pessoas podem admirar sua obra, mas já não pode mais recuperar aquele engenhoso personagem que passeava por Londres com sua bengala, calças de veludo e um cravo verde na lapela.

Síntese do esnobismo e socialista convencido antes mesmo da existência do Manifesto de Karl Marx (1818-1883), Wilde estava na moda muito antes da moda chegar. Vivia por e para a arte e demonstrava essa paixão em seu modo de vestir, na sua maneira de rodear-se de coisas belas, no seu poder para converter algo vulgar em belo e, principalmente, na sua genialidade para conversar e expor estimulantes aforismos e paradoxos. Suas frases, grandes ilustradoras de suas personagens, se encontram recolhidas em duas publicações: “Algumas máximas para a instrução dos supereducados”, artigo publicado em 1894 pela Saturday Review, e “Sentenças filosóficas para o uso da juventude”, que aparecia em novembro do mesmo ano na revista The Chamaleon.


A ARTE PELA ARTE

Oscar Wilde começou a escrever a si mesmo em 1854, em Dublin. Foi filho de um médico e de uma poeta. Seu pai. Sir William Wilde (1815-1876), era um célebre cirurgião que teve sua carreira obscurecida por sua fama de mulherengo. O pai de Wilde aspirava o cargo de otorrinolaringologista da casa real, mas um caso com uma cliente acabou lhe custando o acesso à nobreza.

A mãe de Wilde, Jane Francesca Elgee (c.1821-1896), por sua vez, era uma mulher de letras. Rebelde, feminista e nacionalista irlandesa, acostumada a escrever artigos políticos e poesia, os quais assinava com o pseudônimo de Speranza no jornal The Nation. Formava parte, junto a William Butler Yeats (1865-1939), Lady Gregory (1852-1932) e John Millington Synge (1871-1909), do chamado Renascimento Literário de 48, que reunia em saraus o que havia de melhor na intelectualidade irlandesa. Entre poetas, pintores, artistas e políticos cresceu o pequeno Wilde, que acabou seduzido por aquela boemia intelectual.

Em 1864, Oscar ingressou na Escola Real de Portora (Enniskillen), uma das melhores da Irlanda, e sete anos mais tarde iniciava seus estudos universitários no Trinity College de Dublin. Ali demonstraria seu domínio do latim e do grego e, motivado pelo professor de história antiga e denodado helenista, o reverendo John Pentland Mahaffy (1839-1919), começaria a interessar-se pela Antiguidade Clássica e pelo paganismo. Com Mahaffy o jovem Oscar Wilde aprende que a Grécia é um ideal vivo e descobre o encanto do estilo e do comportamento de um dândi, o qual deve buscar ser sempre um verdadeiro cavalheiro que brilhe nos salões, ser criativo, elegante, culto, frívolo e aspirar ao trato e à amizade dos nobres.

Após obter vários prêmios por seus brilhantes estudos em letras clássicas, Wilde obtêm uma bolsa para estudar em Oxford, em 1874. Sua estadia no Magdalene College completaria sua formação de escritor, artista e acólito do esteticismo, ao qual foi encaminhado por dois grandes representantes do movimento: seus professores John Ruskin (1819-1900) e Walter Pater (1839-1894).

Ruskin será o primeiro a introduzi-lo no culto à beleza. Foi dele que Wilde herdou uma concepção socializante da arte e o gosto pela Itália medieval e renascentista. Pater, por sua vez, o levou à prática do hedonismo e criou em Wilde interesse pelo novo paganismo.

Após receber tal educação, Wilde foi se convertendo, pouco a pouco, na imagem do prefeito esteta que adota em sua via a máxima da “arte pela arte”: sua habitação estudantil era cheia de lilases brancos, nela bebia-se chá em xícaras de porcelana azul. Wilde também adorava a cor púrpura e vestia roupas chamativas, mas extremamente elegantes. Em 1877, um ano antes de concluir seus estudos, empreendeu uma viagem para Grécia e Itália, onde foi capaz de encontrar os resquícios das sociedades que ele tanto defendia. A viagem o inspirou a escrever seus Poemas (1881), texto-síntese das ideias assimiladas em Oxford e no qual o autor aborda temas mitológicos e filosóficos, faz odes às paragens italianas, mostra interesse pelo catolicismo e salpica seus versos de influências impressionistas.

Wilde termina brilhantemente seus estudos em Oxford, os quais são coroados em 1878 pelo Prêmio Newdigate de poesia pelo poema “Ravenna”. Em seguida muda-se para Londres, onde faz amizades com artistas como a atriz Sarah Bernhardt (1844-1923) e o pintor norte-americano James Abott McNeill Whistler (1834-1903), antecipador do modernismo. Também começa a trabalhar como escritor: publica artigos no The Times e The World e reúne suas teorias esteticistas em Intenções, uma compilação dos ensaios que ele escreveu até 1881.

Nesse mesmo ano ele foi convidado para realizar uma série de conferências nos Estados Unidos sobre o Renascimento estético britânico. Interessado pelo novo continente e por exercer a função de “apóstolo da estética”, titulo que ele mesmo se deu, Wilde difunde suas ideias sobre a Nova Inglaterra para logo retornar à Europa e seguir fazendo seu “ministério”.

“Não há obras moralmente boas ou más, apenas obras bem ou mal escritas”, pensa Wilde. Para o artista, que deve viver por e para a arte, os valores do que é moral ou imoral não têm cabimento. São valores relativos que acabam esmagados pela única verdade perscrutável: a beleza, um bem que “não necessita ser demonstrado”. A sociedade vitoriana não vê com bons olhos tais apreciações, que considera corruptora de jovens. A Wilde isso não importa e ele segue escandalizando aquela sociedade conservadora com ideias como as reunidas em seu ensaio A decadência da mentira: “a vida imita a arte mais do que a arte imita a vida. Isto não se deve apenas ao instinto imitativo da vida, mas também ao fato de que o fim consciente da vida é inventar sua expressão, e a arte oferece formas belas para satisfazer tal objetivo. Essa teoria, até agora inédita, é de extraordinária fecundidade, e lança uma luz inteiramente nova sobre a história da arte”. Para o escritor, a arte evoluciona de maneira distinta e independente à vida. É inconcebível, para Wilde, que a arte copie a realidade em uma sociedade onde o feio se impôs. O império das máquinas e das fábricas nascido da Revolução Industrial fez com que os estetas rechaçassem um axioma que em outras épocas era natural. Tal rechaço os leva a sustentar também que a arte é algo inútil. Frente à produção de coisas inúteis imposta pela sociedade burguesa, a arte se mostra como algo incapaz de ser criado em uma cadeia de produção, ou de ser vendida de maneira maciça. Para ele, a arte não reporta utilidade, mas uma emoção, uma elevação do espírito que não tem preço, tal evocação dá ao espectador a possibilidade de alcançar um mundo melhor.

Conhecedor da pobreza que assolava a vida de muitos londrinos, Wilde defendeu o socialismo utópico e misturou suas ideias socialistas às suas relações com a arte em sua obra Alma do homem sob o socialismo (1891). Para ele, “o Estado deve fazer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é belo”, o que seria possível graças ao individualismo que, paradoxalmente, segundo ele, seria fomentado pelo socialismo. Wilde acreditava que um sistema que eliminasse a necessidade de trabalhar para os outros estimularia o desenvolvimento dos indivíduos.


UM MARIDO IDEAL

Em 1884, Oscar Wilde contrai matrimônio com Constance Mary Lloyd (1858-1898), a filha de um rico advogado irlandês. Compreensiva, inteligente e abnegada, Constance dará a Wilde estabilidade econômica e afetiva e ele, ao menos nos primeiro anos de casado, corresponderá a esse amor, o que pode ser percebido em várias cartas e poemas que Wilde escreve à época. Apesar do amor que sentia por Constance, o qual com o tempo acabou se convertendo em sincero afeto, Wilde descobriu sua atração pelo sexo masculino. A necessidade de ser honesto com sua natureza homossexual, que ele conheceu pela mão do intelectual Robert Ross (1869-1918), seu primeiro amante, apagou a chama de seu matrimônio.

Não obstante, a união e o apoio entre Constance e Oscar perduraram até a morte de ambos. Tiveram dois filhos, Cyril (1885-1915) e Vyvyan (1886-1967), concebidos durante os dois primeiros anos do casamento. Oscar adorava os filhos e era adorado por eles. Wilde escreveu para os dois contos belíssimos, entre eles, “O gigante egoísta”, “O príncipe feliz” e “O rouxinol e a rosa”. Elegantes parábolas, algumas de aspecto cristão e todas de tom socialista, nas quais ele ensinava aos filhos o valor da generosidade, do amor e da bondade, contrapondo-os aos piores vícios da sociedade: egoísmo, injustiça e desonestidade. Os filhos tiveram destinos diversos. Cyril morreu durante combate na Primeira Guerra Mundial, alvejado por um atirador alemão. Vyvyan Wilde, que após o escândalo envolvendo o pai, em 1895, passou a usar o sobrenome Holland, acabou se tornando um dos principais organizadores da obra de Oscar, ao lado do filho (e neto de Wilde) Merlin.

Se seu papel como pai tornava-se cada vez mais real, seu matrimônio ganhava os ares de uma grande farsa. Wilde, apesar de sua obsessão pela honestidade, escondia seus amores homossexuais. Contrário às normas sociais da época e à hipócrita moral vitoriana, ele clamava contra as convenções que, de certo modo, haviam encerrado sua união conjugal. Obras como Lady Windermere’s fan (1892), Uma mulher sem importância (1893), Um marido ideal (1895) e A importância de ser prudente (1895) esbanjavam força, ironia e elegância para narrar divertidos e absurdos enredos de salão. A modo de catarse e através de alguns engenhosos diálogos, Wilde atirava de maneira brilhante e sutil sua raiva contra os costumes ingleses e levava aqueles que ele criticava em suas obras a aplaudirem fervorosamente seus trabalhos.


SEU DORIAN GRAY

“O amor que não ousa confessar seu nome neste século é o grande afeto de um adulto por um homem mais jovem, tal como existiu, por exemplo, entre David [séc IX a.C.] e Jônatas [séc IX a.C.], que Platão [c.428-c.348] converteu na base fundamental de sua filosofia, e que se encontra nos sonetos de Michelangelo [1475-1564] e de Shakespeare [1564-1616] (...) é belo e elevado, e a forma mais nobre de afeto. Não tem nada de antinatural. É intelectual, e se dá constantemente entre velhos e jovens, quando a pessoa mais velha possui intelecto, e o jovem tem toda a alegria, a esperança e o atrativo da vida frente a ele. O mundo não compreende que deva ser assim. O mundo o ridiculariza e o coloca no pelourinho por tal motivo”.

Estas são as palavras que Wilde pronunciou no tribunal que, em 1895, o condenou a dois anos de trabalhos forçados pelo “crime” de sodomia, prática considerada “delito grave” à época. Também são palavras de alguém que jamais se rendeu à hipocrisia de uma sociedade conservadora e que expressou sua liberdade sexual ao apaixonar-se por um jovem oxfordiano chamado Alfred Douglas (1870-1945), dezesseis anos mais jovem que ele.

Bosie, como Douglas era chamado pelos amigos, foi uma espécie de anjo e demônio para Oscar Wilde. Por um lado, brindava o escritor com toda a sua beleza, admiração e paixão que necessitava para sentir-se vivo; por outro, o atormentava com seus caprichos, seu egoísmo e sua inusitada crueldade, privando-o inclusive de sua vontade e anulando-o até fazer de Wilde um escritor estéril.

Antes de conhecer Douglas, Wilde escreveu aquele que seria seu único romance O retrato de Dorian Gray, uma obra-prima do decadentismo que seria tachado de imoral e que, de certa forma, predizia o futuro que esperava o escritor. Bosie seria seu Dorian Gray. A fascinante beleza do rapaz e a moral representada por um passado misterioso formavam a personagem de seu romance. Conviva dos melhores salões londrinos, Dorian saía à noite para frequentar os lugares mais sórdidos de Londres, num jogo intensamente duplo que apenas sugere uma atmosfera homossexual.

Na vida real, o envolvimento de um homem casado e famoso como Oscar Wilde com um jovem bonito da aristocracia inglesa também produziu escritos belíssimos no formato de cartas que o escritor enviava ao “menino de cabelos de mel”.

Segundo o professor titular de literatura inglesa e teoria da literatura comparada na Unesp, Gentil de Faria, “as cartas mostram um escritor na plenitude de sua glória e forma, apaixonado e sofrendo por um amor voluntarioso e perverso. Ambos se amavam com muita fúria e momentos de ódio e incompreensão. Nisso, o belo Douglas, mais experiente na homossexualidade, arrastava o escritor para experiências menos ordinárias, que culminaram no maior escândalo sexual já julgado por um tribunal nos tempos vitorianos”.

Wilde outorgou a Douglas o dom da imortalidade, já que as pessoas seguem falando dele mais de um século depois de sua morte.

O aristocrata Douglas, filho do marquês de Queensberry, também teve um papel relevante no desfecho da tragédia que foi o final de vida de Wilde. Enojado com seu pai, que era contra sua relação com Wilde, o jovem convenceu o escritor a abrir um processo contra o marquês, que o havia chamado de sodomita em uma correspondência.

O julgamento foi o maior espetáculo midiático da época e foi acompanhado fervorosamente pela imprensa sensacionalista londrina. Wilde estava no auge da carreia. Havia conquistado muito sucesso com duas de suas obras-primas, as peças Um marido ideal e A importância de ser prudente, ambas lançadas no mesmo ano que a briga jurídica entre ele e o marquês havia começado: 1895. Durante o julgamento, Wilde conseguiu levar vantagem quando foi questionado a respeito de arte e cultura, mas foi muito mal quando tentou explicar que jamais havia beijado um determinado jovem, pois, segundo o escritor, o mesmo lhe parecia feio.

Após uma longa briga jurídica, o pai de Douglas foi absolvido, mas, não satisfeito com o desfecho, mandou seus advogados encaminharem à Justiça a documentação que haviam conseguido contra Wilde. Nela havia vários depoimentos de jovens afirmando terem mantido relações sexuais com o escritor. A Justiça abriu então um processo contra Wilde, que se recusou a viajar para a França, onde não poderia ser alcançado pela Justiça inglesa. Acabou condenado a dois anos de trabalhos forçados.

Bosie, que havia fugido da Inglaterra para não ter que testemunhar na “escandalosa” pendenga jurídica envolvendo seu amante, prometeu pagar todos os custos do processo de Wilde, mas não o fez.

Wilde teve então seus bens arrestados e vendidos em leilão, só assim foi capaz de pagar toda sua dívida com a Justiça. Da prisão ele escreveu uma longa carta a Douglas, publicada postumamente com o título de De Profundis.

“Devemos buscar sempre o mais trágico”, disse Wilde a André Gide (1869-1951) em certa ocasião, e assim foi como terminou sua vida. O escritor aceitou o destino e foi transladado para a prisão de Reading, onde passaria dois anos no inferno. De Profundis foi escrita nesse contexto. Nela, Wilde lamenta que sua paixão pelo jovem Douglas o tenha cegado e privado de sua vontade.

Segundo Gentil de Faria, De Profundis é “talvez a mais longa carta já escrita, quase cem páginas impressas, o texto elaborado na prisão por Wilde sob o impacto do abandono e da injustiça ficou conhecido como De Profundis, na denominação dada por Robert Ross na primeira edição expurgada de 1905. Sempre publicada com muitas passagens omitidas, sua edição integral e definitiva só ocorreu com o trabalho de Hart-Davis, em 1962. As cartas de Wilde foram disputadas nos vários leilões em que elas foram postas à venda”.

Ao sair da prisão, em 1898, Wilde escreveu A balada do cárcere de Reading, seu melhor e mais profundo poema. Em agosto do mesmo ano escreveu: “Não creio que volte a escrever nunca mais. Algo morreu dentro de mim. Não sinto desejo de escrever. Já não reconheço em mim esse poder. O primeiro ano na prisão destruiu meu corpo e meu espírito. Não podia ser de outra maneira”.

Oscar Wilde faleceu no Hotel d’Alsace, em Paris, em 30 de dezembro de 1900, por razão de uma infecção no ouvido. Seus restos mortais repousam no famoso cemitério de Père Lachaise sob o epitáfio: “Quem vive mais de uma vida, mais de uma morte há de morrer”.