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Exploração espacial, êxitos e fracassos
 
 
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Talvez tudo tenha começado em Nantes, em 1839, quando um menino de 11 anos fugiu de casa para se tornar grumete. A aventura durou pouco, mas esse mesmo “menino” foi da Terra à Lua aos 37 anos. Chamava-se Júlio Verne (1828-1905) e muitos dos engenheiros que anos mais tarde iniciaram a chamada corrida espacial reconhecem nele o idealizador de suas criações, o pai das viagens fora da atmosfera. Mas o lado romanesco não é tudo. Na aventura do homem no espaço há curiosidade pelo desconhecido, mas há também interesses econômicos, rivalidades muito antigas e mortos.

Vinte e um astronautas perderam a vida desde que, em 4 de outubro de 1957, o Sputnik 1 entrou em órbita, inaugurando, assim, uma nova era: a era espacial, em que a humanidade superava as suas fronteiras. As últimas vítimas mortais dessa conquista do desconhecido foram os sete tripulantes do ônibus espacial Columbia, que morreram em 1º de fevereiro de 2003, apenas 15 minutos antes de pousar em Cabo Canaveral.

O Columbia era o ônibus espacial mais antigo da frota americana. Foi construído em 1975 e no momento de explodir finalizava sua 28ª missão. Dentre seus viajantes espaciais figurava o primeiro astronauta israelense, Ilan Ramon (1954-2003), que se encarregava de estudar que fatores provocavam a osteoporose nos astronautas, analisando células-tronco adultas da medula óssea. As razões do acidente com o Columbia se esclarecerão com o passar do tempo, mas, por enquanto, se supõe que o erro se deu no próprio lançamento da nave, em 16 de janeiro de 2003, durante o qual se perderam algumas placas térmicas. No entanto, esse foi um problema a que não se deu a devida importância na NASA (National Aeronautics and Space Administration), embora dois dias antes do acidente, na Agência Espacial, tivesse sido emitido um informe interno que sugeria que o pouso poderia ser de risco, e em 1977 o engenheiro Gregory Katnik já tivesse dado o alarme ao assegurar que o revestimento térmico da nave era “anormal”.



QUESTÃO DE DINHEIRO
As incógnitas e as hipóteses entram em jogo na hora de falar de um fracasso que a NASA imputa aos cortes orçamentários para pesquisa espacial feitos pelo presidente George W. Bush, que suprimiu 40% das subvenções. Pouco depois do desastre da Columbia, Bush anunciou o orçamento da NASA para 2004: US$ 15,5 bilhões, ou 3,1% mais do que em 2003. Para a pesquisa que visa a aumentar a segurança dos ônibus espaciais foram destinados US$ 397 milhões.

Por que o fator financeiro é fundamental no desenvolvimento das tecnologias espaciais? Com a queda da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), em 1990, cessou a disputa pela hegemonia no cosmos, que se tornara uma negociação de concessões e assentimentos entre Estados Unidos e URSS. O dinheiro de Moscou não podia manter seus projetos, e o primeiro país a lançar-se ao espaço teve de retirar-se de cena momentaneamente.

Nos Estados Unidos, após a primeira chegada à Lua, em 20 de julho de 1969, e o fim da competição com o bloco comunista durante a Guerra Fria (1945-1990), o interesse pelos assuntos da NASA diminuiu consideravelmente. Agora, 92% dos US$ 5,8 bilhões do programa de ônibus espaciais vão para a United Space Alliance (USA) – empresa formada em 1966 pelas duas gigantes da construção aérea americana, a Boeing e a Lockheed Martin –, que é uma empreiteira que trabalha para a NASA e contribui com enormes benefícios para essas duas entidades privadas.


MENTIRAS ASTUCIOSAS
Antes de se iniciar a corrida espacial, no entanto, ocorreram muitas coisas. Os chineses inventaram a pólvora e a usaram para projetar as primeiras técnicas de propulsão de foguetes, que usaram em 1232 para defender a cidade de Kaifeng dos ataques mongóis. Em 1926, o engenheiro americano Robert Goddard (1882-1945), em Massachusetts, conseguiu elevar a 15 metros do solo o primeiro foguete com combustível líquido. Os pioneiros foram considerados inventores loucos, até que o regime nazista institucionalizou o que parecia um romance de Verne ou de H. G. Wells (1866-1946). Precisamente um grande admirador desses dois escritores foi o verdadeiro decolador da aeronáutica. Wernher von Braun (1912-1977), o engenheiro alemão líder do grupo batizado de Equipe do Foguete, construiu em 1942 o foguete V-2 experimental na base de Pennemünde. O V-2 conseguiu uma aceleração de 1.340 m/s e subiu 84 km acima do nível do mar, mas seu mérito reside em ter sido o primeiro aparelho idealizado pelo homem a atravessar a atmosfera terrestre.

Von Braun e sua equipe foram “reinseridos” pelos Estados Unidos e passaram a fazer parte da NASA quando a Alemanha nazista foi vencida na Segunda Guerra Mundial. O bloco comunista, no entanto, adiantou-se à Equipe do Foguete, e os soviéticos puseram em órbita o Sputnik 1 em 14 de outubro de 1957, iniciando a desde então denominada corrida espacial, símbolo da luta de duas ideologias, a comunista e a capitalista, representadas pela URSS e pelos EUA, que se enfrentaram durante os 55 anos que durou a Guerra Fria.

A rivalidade entre as duas potências resultou numa contínua luta para demonstrar quem chegava mais longe. O Sputnik 1, que era uma pequena esfera de alumínio de 58 cm de diâmetro, abriu caminho, em 1958, para o Sputnik 2, no qual o primeiro ser vivo a ser enviado ao espaço. Esse ser foi uma cadela chamada Laika, e, ainda que o animal tivesse falecido horas depois do lançamento, a nave permaneceu 163 dias em órbita, de modo que a operação foi considerada um grande sucesso. Daí se passou a experimentar vôos com seres humanos: em 12 de abril de 1961, os soviéticos enviaram Iuri Gagarin (1934-1968) para desbravar o espaço na Vostok 1. Esse jovem de 27 anos, filho de um carpinteiro russo, foi o primeiro homem a ver a Terra e sobrevoá-la durante 1 hora 48 minutos à velocidade de 27.400 km/h. Sua façanha foi repetida em 16 de junho de 1963 por Valentina Tereshkova, que com seu voo na Vostok 6 se tornou a primeira mulher a ser lançada ao espaço.


O HOMEM NA LUA
Os soviéticos não foram os únicos a colecionar sucessos: em 15 de maio de 1961, o capitão da marinha Alan B. Shepard (1923-1998) tornou-se o primeiro americano a ultrapassar a atmosfera, com a espaçonave Freedom 7, que era parte do Programa Mercury da NASA. Em 20 de fevereiro de 1962, o tenente-coronel dos fuzileiros navais americanos John H. Glenn tornou-se o primeiro homem a orbitar a Terra. Glenn deu três voltas em torno do planeta na cápsula Friendship 7.

O grande marco, no entanto, foi a promessa de John Fitzgerald Kennedy (1917-1963) à sua nação. O presidente dos Estados Unidos garantiu a seus concidadãos, em 1961, que os Estados Unidos chegariam à Lua antes do fim da década. Dito e feito: em 20 de julho de 1969, os astronautas Armstrong, Collins e Aldrin davam “um pequeno passo para o homem e um grande salto para a humanidade” (na frase pronunciada por Neil Armstrong) e concluíam a década de 1960 com a alunissagem da Apolo 11. Ainda que, para chegar à Lua, o Programa Apolo (herdeiro dos programas Mercury e Gemini, desenvolvido anteriormente) tenha tido um trágico começo: em 27 de janeiro de 1967, os astronautas Virgil Grissom (1926-1967), Edward White (1930-1967) e Roger Chaffee (1935-1967) morreram asfixiados dentro da Apolo 1 durante uma simulação de lançamento, tornando-se assim as primeiras vítimas humanas fatais que a conquista do espaço acarretou.

As primeiras, mas não as únicas. O cosmonauta russo Mikhailovitch Komarov (1927-1967) morreu também em 1967, quando sua nave se chocou contra o solo por causas desconhecidas. Em 1971, Vladislav N. Volkov (1935-1971), Viktor I. Patsayev (1933-1971) e Georgi T. Dobrovolski (1928-1971), ocupantes da nave espacial Soiuz 11, chegaram mortos à Terra, e em 1986 a explosão do Challenger, após 75 segundos de voo, causou comoção em todo o mundo. No acidente morreram os sete tripulantes, dois deles mulheres, do principal ônibus espacial da NASA naquela ocasião. Em 2003, a história se repetiu, só que dessa vez os sete tripulantes do Columbia morreram durante o pouso.


TURISTAS PARA SUPERAR A CRISE
A última missão do Columbia veio confirmar uma crise evidente desde que a corrida deixou de ser uma competição. Com o fim da Guerra Fria, os cortes orçamentários da NASA foram consideráveis, e o desenvolvimento de programas espaciais por parte da Rússia, bem mais escasso, devido a problemas de financiamento. Os Estados Unidos contam com os ônibus espaciais, um baluarte tecnológico da década de 1960 que precisa de melhorias.

A Rússia, por sua vez, manteve em órbita a estação espacial Mir (“paz”, em russo) de 1986 até 1999 e agora continua seus estudos com as naves Soyuz. Mas novos competidores entraram no mercado. Desde que, em 1966, a ONU declarou o espaço Patrimônio da Humanidade, a Europa entrou inteiramente na pesquisa, e a Agência Espacial Europeia (European Space Agency, ESA) viu-se também afetada pela crise aeronáutica, algo que tem repercutido em seus projetos, como demonstram o fracasso da Arianne 5, parte do ambicioso programa que pretendia analisar o núcleo de um cometa ativo, e o bloqueio do projeto Galileo, um plano conjunto da União Européia e da ESA para construção de trinta satélites que melhorem o sistema GPS. Um projeto que não se pôde efetivar por causa do desentendimento entre os participantes e no qual o dinheiro tem grande importância.

Para sair da crise, especialistas apontam soluções como a melhora da proteção térmica das naves ou a substituição dos velhos ônibus por aparelhos mais modernos e confiáveis. No entanto, suas alternativas não só devem melhorar a segurança, mas devem ser ao mesmo tempo econômicas. Por isso, o turismo espacial, que o norte-americano Dennis Tito inaugurou em 21 de abril de 2001, deixou de ser motivo de controvérsias para se tornar uma opção.

A ideia de levar milionários excêntricos para além da atmosfera terrestre pode ser interpretada como uma maneira de tornar realidade os caprichos de pessoas endinheiradas, mas também serve para subsidiar projetos especiais que de outra forma nunca seriam postos em prática. A agência espacial russa viu assim a questão, e por isso incluiu Tito entre os tripulantes do módulo Zvezda, mediante pagamento prévio de US$ 20 milhões por parte do viajante.

As vozes críticas afirmam que é muito perigoso levar um estranho a bordo, mas no caso de Tito isso não era um impedimento, já que ele fora treinado pela NASA, que depois se negou a incluí-lo em suas expedições. Tito passou oito dias no espaço, e já houve outros turistas, como o jovem milionário sul-africano Mark Shuttleworth, que pagou US$ 20 milhões para passar dez dias no espaço, de 25 de abril a 5 de maio de 2002.

Três bilionários hoje são responsáveis pela corrida na liderança do turismo espacial. São eles: Elon Musk (1971), da SpaceX, Richard Branson (1950), da Virgin Galactic e Jeff Bezos (1964), da Blue Origin. Nos últimos anos, o três protagonizaram cenas na mídia para divulgação dos projetos que prometem levar pessoas para exploração espacial.

Em dezembro de 2018, mais especificamente no dia 13, a empresa Virgin realizou o primeiro voo até a borda do espaço realizado pelo modelo de espaçonave VSS Unity, inaugurando uma importante página na história do turismo espacial. A empresa que comercializa voos há alguns anos já conta com 700 reservas ao preço de US$ 250 mil dólares por passageiro.

No mês de abril de 2019, foi a vez da SpaceX conseguir outro feito notável por meio do lançamento da primeira missão comercial do foguete Falcon Heavy. A missão tida como um sucesso conseguiu trazer de voltar à Terra, sem qualquer incidente, três propulsores Falcon 9 em simultâneo. 


O PROGRAMA ESPACIAL BRASILEIRO
O desenvolvimento do programa espacial brasileiro é um reflexo das mudanças nos cenários internacional e nacional. O país, um dos primeiros a reconhecer as imensas potencialidades da atividade espacial, iniciou suas atividades espaciais em 1961 com a criação do Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (GOCNAE), responsável pela definição das primeiras diretrizes para as atividades de pesquisa na área. O objetivo do governo militar era transformar o país numa potência econômica e para isso era imprescindível buscar a autonomia no domínio de tecnologias estratégicas a partir dos avanços tecnológicos na área militar.

O primeiro lançamento de um foguete (Nike-Apache) em território nacional foi feito em 1965, do Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI), órgão do então Ministério da Aeronáutica sediado em Natal (RN). De lá, já foram realizados mais de 2 mil lançamentos de engenhos espaciais, além de o local funcionar como uma das estações rastreadoras dos foguetes Ariane, da Agência Espacial Europeia (ESA).

Em abril de 1971, o GOCNAE foi substituído pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), hoje Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Mas foi somente no final da década de 1970 que o governo brasileiro decidiu criar um programa tecnológico completo. Obviamente, sob a óptica dos objetivos militares, pretenderam desenvolver foguetes lançadores de satélites, satélites, bases de lançamento e a infraestrutura necessária. Criada pelo Estado Maior das Forças Armadas (Emfa) no início da década de 1970 e responsável pelo gerenciamento do programa espacial, a Comissão Brasileira de Atividades Espaciais (Cobae) foi substituída em 1994 pela Agência Espacial Brasileira (AEB), órgão sob comando civil.

A segunda base de lançamento de foguetes foi instalada no Maranhão no início da década de 1980. Trata-se do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), que permitiria ao governo operar o VLS-1, também sob a responsabilidade do Comando da Aeronáutica. Daquela base foi colocado em órbita em 1993, por meio do foguete norte-americano Pegasus, o primeiro satélite artificial nacional da Missão Espacial Completa Brasileira (Satélite de Coleta de Dados-1). Tinha como meta colher dados ambientais no território nacional.

A operação deveria ter sido realizada pelo Veículo Lançador de Satélites (VLS-1), cuja finalidade é colocar os satélites em órbita, mas isso não foi possível devido aos atrasos na conclusão do equipamento, por causa do embargo na importação de produtos de tecnologia sensível liderado pelos Estados Unidos. Em novembro de 1997 foi realizado o voo do primeiro protótipo do VLS-1; o segundo ocorreu em 1999.

Mas em 22 de agosto de 2003 ocorreu um grave acidente na base de Alcântara. O terceiro protótipo do VLS-1, cuja missão seria colocar em órbita circular equatorial dois satélites brasileiros (Satec e o nanossatélite Unosat), explodiu três dias antes de seu lançamento. A explosão foi provocada pela ignição de um dos quatro motores do corpo principal do foguete que fez ruir a plataforma de lançamento e causou a morte de 16 funcionários do Centro Técnico Aeroespacial da Aeronáutica. Apesar do acidente, o governo reafirmou a manutenção do programa espacial brasileiro.

No ano de 2019, o astronauta Marcos Pontes foi nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro como ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação. Em abril de 2019, o Brasil firmou um acordo de salvaguardas com os Estados Unidos, em viagem presidencial realizada no mesmo mês, que permite aos americanos fazerem lançamentos de satélites no local. Segundo o acordo, não será permitido o lançamento de equipamentos bélico


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