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Estresse, um perigo latente
 
 
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 A PRESSÃO LEVA AO ESTRESSE
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"Estou estressado" é uma frase comum nos dias de hoje, embora algumas vezes a utilizemos em referência a um mero cansaço. Atualmente, não é incomum que as pessoas estejam verdadeiramente estressadas. No entanto, esse não é um mal moderno. Todas as teorias demonstram que o estresse sempre existiu, mas ele nem sempre se transforma em problema: também há o estresse positivo.

Em meados do século XX, um dos pioneiros na pesquisa do estresse, o doutor Hans Selye (1907-1982), formulou uma definição que continua em vigor. Segundo ele, o estresse é “uma resposta corporal não específica ante qualquer demanda feita ao organismo que exceda os recursos disponíveis”. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, estabelece que o estresse é “o conjunto de reações fisiológicas que prepara o organismo para a ação”. Qualquer mudança a que uma pessoa deva adaptar-se corresponde a um estado de estresse, seja esse causado por acontecimentos negativos (como a morte de um ente querido), ou positivos (uma ascensão profissional). A reação a esse estímulo e o fato de interpretá-lo ou não como ameaça determinarão seu efeito sobre a psique e o corpo de cada pessoa.

Selye identificou três fases na resposta física e emocional que explica a formação do estresse. Primeiro, ocorre uma reação de alarme ante a aparição de um fator de tensão, que ativa o sistema nervoso autônomo e diminui as defesas gerais do organismo, provocando instabilidade no nível de glicose no sangue, descargas de adrenalina, excitação cardíaca, aumento do tônus muscular e transtornos gastrointestinais difusos; depois, vem a fase de resistência, durante a qual o corpo se ajusta ao fator de estresse, desaparecem os sinais de alarme e as defesas alcançam um nível superior ao normal. A duração desse período depende da intensidade do estímulo que provoca estresse e de certas variáveis que podem ajudar ou entorpecer a capacidade de se adaptar do organismo. Uma dieta equilibrada e a prática de exercícios e relaxamento podem favorecer uma boa reação. Por outro lado, o consumo de álcool e o fumo, assim como a redução de horas de sono, podem afetar a saúde.

A fadiga ou esgotamento chega na terceira fase, quando a pessoa tentou evitar o alarme. Se o agente estressante continua atuando nessa etapa, podem ocorrer sintomas patológicos, doenças e, em casos muito extremos, a morte.

De acordo com um estudo de Marjorie Carevic Johnson, da Universidade dos Andes, em Santiago do Chile, o excesso ou a falta de trabalho, a pressa para executar uma tarefa, a necessidade de tomar decisões e a fadiga são algumas das condições potencialmente estressantes. Quando o organismo enfrenta esse tipo de estímulo, ocorrem mudanças físicas observáveis na pessoa. As pupilas se dilatam para melhorar a visão, a audição fica mais apurada, os músculos se contraem para responder ao desafio, o sangue é bombeado para o cérebro para aumentar o suprimento de oxigênio nas células e assim favorecer os processos mentais, a frequência respiratória e a cardíaca aumentam, e os membros ficam frios e suados.



TIPOS DE ESTRESSE
Em sua pesquisa, Marjorie Carevic enumera sete tipos diferentes de estresse. O primeiro é o estresse negativo, que expõe a pessoa afetada a contrair doenças mais facilmente. O organismo do estressado, que sofreu um grande desgaste, não tem tempo para recuperar a energia utilizada e se debilita, abrindo as portas à doença.

No entanto, a resposta às demandas feitas ao organismo também pode ser positiva. Isso ocorre quando o mecanismo se ativa de forma automática diante de uma emergência e o problema é claramente percebido, rapidamente interpretado e se toma uma decisão imediata. Assim, uma vez adaptado à mudança, o organismo volta a seu funcionamento normal.

A existência de estresses positivo e negativo significa que um mesmo estímulo pode ser interpretado de forma diferente de pessoa para pessoa. Uma situação pode ser estressante para um indivíduo e não para outro. Nem todas as pessoas reagem igualmente, por exemplo, ao fato de ter de falar em público ou fazer uma prova. Alguns podem sentir-se tensos nesses momentos, enquanto outros sentem-se à vontade.

Também podemos falar de estresse fisiológico, que surge como resposta do organismo a uma agressão física. Às vezes, as mudanças ambientais são motivo de estresse ao produzir alterações no sistema nervoso vegetativo, modificações do ritmo e da frequência cardiorrespiratória e das funções hormonais.


ESTRESSE PROFISSIONAL
A tensão pode ter origem psicológica. Assim, as respostas emocionais (angústias, ansiedade, irritabilidade) também são manifestações de estresse. Uma das variantes mais pesquisadas nos últimos tempos é o chamado estresse profissional. A evolução tecnológica e o desenvolvimento do consumo geraram mudanças nos hábitos de trabalho que, por sua vez, provocaram um aumento dos casos de tensão profissional.

No entanto, nem todos os indivíduos reagem do mesmo modo diante da mesma condição profissional. A aparição ou não de estresse está ligada à capacidade de reação de cada pessoa aos estímulos externos.

O estresse produzido pelo excesso de trabalho pode ter várias causas. Entre elas, ambiguidade do papel a desempenhar (falta de clareza dos objetivos associados ao cargo) e a responsabilidade sobre outras pessoas, que provoca um maior número de interações de estresse.

Uma pesquisas realizada em 2012 pela Isma-BR (International Stress Management Association), associação que estuda o estresse e suas formas de prevenção, apontou que 70% da população economicamente ativa do Brasil sofre com os males causados pelo excesso de estresse. O país ficou atrás apenas do Japão. Segundo a presidente da Isma no Brasil, Ana Maria Rossi, a pesquisa entrevistou mil pessoas em Porto Alegre e São Paulo e considerou que 70% dos brasileiros sofrem com estresse, sendo que 69% dos entrevistados afirmaram que o estresse está relacionado ao trabalho. Dentre os principais motivos estão as longas jornadas de trabalho e o excesso de tarefas. Além do trabalho, as dificuldades financeiras, violência e relacionamentos interpessoais são as principais causas do estresse nos brasileiros.

Além das já citadas, existem outras maneiras de classificar a doença. O estresse negativo pode ser também distresse. A diferença entre estresse e distresse é que o primeiro é uma condição necessária e normal e o segundo excede os limites. Há estudos que separam o estresse agudo do crônico. O agudo é produto de uma agressão intensa, seja emocional ou física, e pode produzir úlceras hemorrágicas de estômago, assim como transtornos cardiovasculares. O crônico se identifica com um organismo superestimulado e pode se transformar em distresse.


TÉCNICAS ANTI-ESTRESSE
Um estilo de vida saudável, assim como um ambiente familiar e social harmonioso são importantes para que o estresse não se torne um estado crônico. As pessoas podem também recorrer a diversas estratégias para combater essa tensão e transformá-la numa situação positiva. Uma dieta equilibrada, a prática de esportes (natação, exercícios de alongamento, hidroginástica, caminhada etc), técnicas de respiração (ioga, por exemplo), posturas, concentração, relaxamento e musicoterapia podem ajudar na batalha diária contra as tensões internas. Paralelamente, é recomendável uma terapia de controle mental, que permita substituir os pensamentos negativos, a ansiedade e o temor por sentimentos positivos. Regularizar a atividade e o descanso, em particular as horas de sono, também é necessário, assim como trabalhar para desenvolver a autoestima. Outros conselhos gerais para enfrentar uma crise de estresse são: evitar a desorganização, estabelecer uma rotina e apelar para o humor quando as coisas não vão tão bem como queríamos.

O estresse, se não for interrompido a tempo, pode desencadear outras doenças. Essas se manifestam como males físicos, psicológicos e até motores. Alguns efeitos nocivos derivados do estresse são o aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial, da transpiração, da tensão muscular e dos níveis de adrenalina e de açúcar no sangue. Também são inibidos os sistemas imunológico e digestivo, há dificuldades para respirar e sensação de asfixia. No plano psicológico destacam-se a incapacidade de tomar decisões e concentrar-se, a sensação de confusão, a dificuldade em manter a atenção, os esquecimentos frequentes e os bloqueios mentais.

Também podem ocorrer transtornos motores na fala, que fazem com que a pessoa fale muito rápido ou gagueje. O excesso de estresse pode levar a pessoa afetada a consumir drogas, fumo, álcool ou alimentos que acalmem sua ansiedade. As risadas nervosas, os bocejos e as explosões emocionais também são sinais que se repetem num doente de estresse.

O acúmulo de estímulos estressantes pode derivar em doenças cardiovasculares ou, mais frequentemente, coronarianas. Dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia apontam que durante 2018 quase 200 mil pessoas morreram por causa de doenças cardiovasculares no Brasil; 30% das mortes no país são causadas pela doença e  o estresse é apontado como uma das principais causas de infarto e AVC.

O estresse aumenta o nível dos hormônios. Por isso, as pessoas com doenças cardiovasculares correm um risco maior de crises cardíacas severas durante experiências emocionais fortes. Tanto os infartos como as arritmias cardíacas se relacionam à alta das catecolaminas, que aumentam em momentos de tensão e estimulam alguns centros neuroquímicos.

Assim, o estresse é uma realidade que afeta estudantes, trabalhadores e aposentados. Além dos efeitos negativos sobre a economia, pode afetar severamente a saúde se não for tratado a tempo, podendo levar à morte. No entanto, sua solução é fácil e não demanda medicamentos, apenas vida saudável, riso e relaxamento.


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