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O álcool, embora não seja ilegal, também é considerado uma droga, ao causar dependência

O uso indevido de drogas é um dos maiores problemas enfrentados pelos governos e instituições do mundo contemporâneo. Nos últimos anos, esse consumo ganhou proporções tão graves que passou a ser um desafio para a saúde pública mundial. As drogas têm um efeito devastador não só no viciado, mas também nos demais segmentos da sociedade por sua relação comprovada com os agravos sociais. Sociedades em que o uso de drogas é alto têm maior número de acidentes de trânsito e de trabalho, violência domiciliar e crescimento da criminalidade. Seus efeitos negativos desestabilizam estruturas sociais, ameaçam valores e infligem considerável prejuízo às comunidades.

As drogas ainda contribuem enormemente para o crescimento dos gastos públicos com tratamento médico e internação hospitalar, para o aumento dos índices de acidentes de trabalho, de acidentes de trânsito, de violência urbana e de mortes prematuras e, ainda, para a queda de produtividade dos trabalhadores. As drogas não escolhem gênero nem classe social. Seus males afetam homens e mulheres, pobres e ricos, pessoas com ou sem instrução. Atingem, inclusive, bebês recém-nascidos que herdam quadros de dependência química de suas mães toxicômanas.

Em 2011 a ONU lançou uma nova pesquisa, contabilizando 210 milhões de usuários de drogas ilícitas no mundo. 200.000 pessoas morrem de overdose anualmente. Esse trabalho é feito pela UNODC, a agência da ONU para drogas e crimes. O uso de anfetaminas é o que mais cresce, e notou-se queda de consumo de cocaína nos Estados Unidos. O efeito colateral das medidas de prevenção na América do Norte é o aumento do consumo na Europa, onde a substância ainda é cara. Em tempo, na Noruega, por exemplo, um grama de cocaína foi listado custando 154 dólares. No Brasil, o mesmo grama custa 12 dólares. Quanto maior o número de escalas para o produto chegar a um país, mais caro ele fica. O consumo regular de cocaína pode causar graves transtornos psíquicos, como paranóia e depressão. No plano físico, aumenta o risco de infarto e hemorragia cerebral.

Nesse mesmo ano, uma droga que já era consumida há cerca de duas décadas no norte do país tornou-se notícia por chegar às demais regiões, o oxi. Se o crack é um subproduto mais tóxico e viciante da cocaína, o oxi é a segunda extração, ou seja, é obtido do crack, e tem em sua composição substâncias no mínimo assutadoras, como cal virgem, ácido bórico, gasolina e até ácido sulfúrico. Mais impuro que o crack, ele é mais barato, e sua dose custa cerca de dois reais.


RELATÓRIO SOBRE DROGAS: 2019

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) lançou em junho de 2019 uma pesquisa com dados mais precisos que revelam que as consequências adversas para a saúde decorrentes do uso de drogas são mais severas e generalizadas do que se pensava anteriormente. Globalmente, em torno de 35 milhões de pessoas sofrem de transtornos decorrentes do uso de drogas e necessitam de tratamento. As estimativas – referentes a 2017 – representam um aumento no número de indivíduos que sofrem de transtornos por uso de drogas. O crescimento foi atribuído a um melhor conhecimento sobre a dimensão do uso de drogas, a partir de novas pesquisas realizadas na Índia e na Nigéria, ambos entre os dez países mais populosos do mundo.

O relatório também estima o número de usuários de opioides em 53 milhões – 56% acima das estimativas para 2016. Um opioide é qualquer composto químico psicoativo que produza efeitos farmacológicos semelhantes aos do ópio ou de substâncias nele contidas, embora não sejam quimicamente aparentados. O documento aponta ainda que os opioides foram responsáveis por dois terços das 585 mil mortes de pessoas que faleceram como resultado do uso de drogas em 2017.

Globalmente, segundo dados da pesquisa, 11 milhões de pessoas injetaram drogas em 2017, dos quais 1,4 milhões vivem com HIV e 5,6 milhões, com hepatite C.

"As conclusões do Relatório Mundial sobre Drogas deste ano complicam ainda mais a situação global dos desafios das drogas, ressaltando a necessidade de uma cooperação internacional mais ampla para promover respostas equilibradas e integradas de saúde e justiça criminal à oferta e demanda", disse Yury Fedotov, diretor-executivo do UNODC.


O CONHECIMENTO COMO DEFESA

A desinformação é um dos fatores mais determinantes no consumo de drogas. Há drogas — a maconha e as drogas sintéticas, por exemplo — que são mais toleradas socialmente, pois há sobre elas uma crença de que não têm conseqüências negativas para a saúde. Por isso é importante destacar que todas as drogas oferecem perigos.

O cânhamo (cannabis sativa) na forma de maconha ou haxixe esconde, sob os efeitos de relaxamento e desinibição que causa, importantes riscos. Seu consumo diário pode afetar a memória, a concentração e o aprendizado. Pode gerar reações agudas de pânico e ansiedade. Se consumido em excesso por pessoas geneticamente predispostas, pode favorecer a manifestação de transtornos psiquiátricos, como a esquizofrenia.

As drogas sintéticas (êxtase ou ecstasy, por exemplo) também têm fama de serem inócuas para o organismo, mas não são. Um dos maiores perigos é misturá-las com álcool ou consumi-las quando se tem problemas cardíacos, epilepsia ou asma. Também causam pronunciado aumento da temperatura corporal, que leva ao risco de choque em caso de desidratação.

Há três tipos de transtornos psiquiátricos relacionados ao consumo de drogas: os depressivos, as crises de pânico e os psicóticos — de caráter grave. A toxicidade das drogas sintéticas sobre o sistema serotoninérgico está comprovada quando há longos períodos de consumo e doses altas. No entanto, essas drogas não costumam seguir os padrões de freqüência de consumo de outras como a maconha e o haxixe. Portanto, o perfil diferenciado dos usuários não permite fazer observações adequadas, pois muitos dos danos provocados pelas drogas clássicas — em caso de consumo alto e durante longos períodos — não podem ser generalizados para o uso pontual das drogas sintéticas.

No entanto, existe a possibilidade de que num futuro não muito distante comecem a se manifestar patologias que podem estar se formando, pois as drogas sintéticas são ainda muito recentes e muitos de seus efeitos ainda são desconhecidos. A pergunta que persegue os pesquisadores é se essas drogas podem ter influência no desenvolvimento de doenças degenerativas do sistema nervoso, como o mal de Parkinson e o de Alzheimer.

Se a cocaína exige cuidados dos potenciais consumidores, a heroína inquieta ainda mais. Como outros derivados do ópio (morfina e metadona), essa droga produz fortes laços de dependência psíquica e física. Seu consumo por via intravenosa pode produzir lesões nas veias, como trombose e abscessos, e aumentar riscos de contágio de doenças infecciosas como a hepatite e a Aids.

A longo prazo, pode gerar alterações psicológicas como a ansiedade e a depressão, anemia e um acentuado emagrecimento. Além disso, a tolerância que o organismo desenvolve leva a aumentar as doses e favorece de modo alarmante a possibilidade de uma overdose. Mas se isso não acontecer e o dependente quiser deixar a droga ou reduzir seu consumo, precisará enfrentar uma das piores sombras dessa doença: uma severa síndrome de abstinência que produz dores musculares muito intensas.


PESQUISA SOBRE DROGAS

Entre maio e outubro de 2015, pesquisadores entrevistaram cerca de 17 mil pessoas com idades entre 12 e 65 anos, em todo o Brasil, com o objetivo de estimar e avaliar os parâmetros epidemiológicos do uso de drogas. O 3° Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira foi coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e contou com a parceria de várias outras instituições, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e a Universidade de Princeton, nos EUA.

Conforme informação da Fiocruz, este é o mais completo levantamento sobre drogas já realizados em território nacional. É a primeira vez que um inquérito sobre o uso de drogas no país consegue alcançar abrangência nacional, sendo representativo inclusive de municípios de pequeno porte e de zonas de fronteira, por exemplo. Os entrevistados responderam a questões quanto ao uso, o abuso e a dependência de numerosas substâncias: tabaco, álcool, cocaína, maconha, crack, solventes, heroína, ecstasy, tranquilizantes benzodiazepínicos, esteroides anabolizantes, sedativos barbitúricos, estimulantes anfetamínicos, analgésicos opiáceos, anticolinérgicos, LSD, quetamina, chá de ayahuasca e drogas injetáveis. Outros questionamentos tinham relação com violência (perpetrada ou sofrida), a percepção sobre o risco do uso de drogas e a opinião dos entrevistados sobre políticas públicas para a área. Além disso, eles responderam a perguntas gerais sobre saúde e a informações sociodemográficas.

Os resultados revelam, por exemplo, que 3,2% dos brasileiros usaram substâncias ilícitas nos 12 meses anteriores à pesquisa, o que equivale a 4,9 milhões de pessoas. Esse percentual é muito maior entre os homens: 5% (entre as mulheres fica em 1,5%). E também entre os jovens: 7,4% das pessoas entre 18 e 24 anos haviam consumido drogas ilegais no ano anterior à entrevista. A substância ilícita mais consumida no Brasil é a maconha: 7,7% dos brasileiros de 12 a 65 anos já a usaram ao menos uma vez na vida. Em segundo lugar, fica a cocaína em pó: 3,1% já consumiram a substância. Nos 30 dias anteriores à pesquisa, 0,3% dos entrevistados afirmaram ter feito uso da droga.

Grande parte dos dados considerados mais alarmantes com relação aos padrões de uso de drogas no Brasil não está relacionada, porém, às substâncias ilícitas, e sim ao álcool. Mais da metade da população brasileira de 12 a 65 anos declarou ter consumido bebida alcóolica alguma vez na vida. Cerca de 46 milhões (30,1%) informaram ter consumido pelo menos uma dose nos 30 dias anteriores. E aproximadamente 2,3 milhões de pessoas apresentaram critérios para dependência de álcool nos 12 meses anteriores à pesquisa.


HISTÓRICO RECENTE

No Brasil — para se ter uma ideia da amplitude do problema —, uma pesquisa feita em 2004 revelou que 12,6% dos alunos com idade entre dez e doze anos da rede pública de ensino fundamental e médio das 27 capitais do país já consumiram algum tipo de droga pelo menos uma vez na vida. O percentual sobe para 23,2% na faixa etária de treze a quinze anos. Os pesquisadores também descobriram que, na faixa dos dez aos dezoito anos, mais da metade dos usuários de drogas está na escola.

Esses dados fazem parte do 5º Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes, realizado pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) em 2004 e divulgado em 2005, em Brasília.

Uma outra pesquisa, feita em 2005, pelo Conselho Estadual Antidrogas do Rio de Janeiro (Cead), revelou que um histórico de consumo de droga na família incentiva o vício nos mais jovens. A pesquisa mostrou que o exemplo paterno é a principal influência em direção ao vício: 48,7% dos homens e 45% das mulheres entrevistados disseram que o pai usava drogas. A pesquisa constatou ainda que o álcool era a droga mais consumida entre os entrevistados — 55% dos homens e 47,8% das mulheres. Em segundo lugar apareceu a cocaína, com 49% e 43% respectivamente. Em seguida, a maconha, com 26,5% para o sexo masculino e 21% para o feminino.

Um outro estudo mais antigo – feito em 2001 pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp) –, mas mais abrangente que os de 2004 e 2005 – pesquisou as 107 maiores cidades do país, todas elas com população superior a duzentos mil habitantes, o que incluía todas as capitais brasileiras, totalizando 47.045.907 habitantes, os quais representavam à época 41,3% da população brasileira – revelou que 19,4% dos entrevistados já fizeram uso de drogas ilícitas, o que corresponde a um total de 9,1 milhões de pessoas. Em pesquisa idêntica realizada nos EUA, essa porcentagem atingiu 38,9% dos entrevistados.

O uso de maconha apareceu em primeiro lugar entre as drogas ilícitas dessa pesquisa, com 6,9% dos entrevistados. Comparando-se esse resultado a outros estudos, pôde-se verificar que ele é bem menor do que em países como: EUA (34,2%), Reino Unido (25%), Dinamarca (24,3%), Espanha (22,2%) e Chile (16,6%). Porém, superior à Bélgica (5,8%) e à Colômbia (5,4%).

A pesquisa também mostrou que cerca de 11% da população pesquisada é dependente de álcool e de que 9% é dependente de tabaco. Em contrapartida, os resultados sobre drogas ilícitas demonstraram que 6,9% da população pesquisada já fumou maconha pelo menos uma vez na vida. O uso de heroína foi de 0,1%, cerca de dez vezes menor que nos Estados Unidos (1,2%).

Foram consideradas dependentes somente aquelas pessoas que fazem uso sistemático de uma dessas substâncias, pois a comunidade médica separa dependentes químicos ou psicológicos daqueles usuários esporádicos que, por questões genéticas ou fisiológicas, conseguem fazer uso de drogas, mas que não embarcam em ciclos viciosos de consumo.

No entanto, todos os tipos de drogas atuam de forma degenerativa. As consequências fisiológicas ou comportamentais dessas substâncias podem, se usadas por muito tempo, ser irreparáveis e alterar o funcionamento do sistema nervoso central (SNC). Algumas diminuem a velocidade do funcionamento cerebral, enquanto outras aumentam a atividade do cérebro. Além das drogas perturbadoras do SNC, como o álcool, remédios para dormir e ansiolíticos (calmantes), existem aquelas classificadas como depressoras e estimulantes.

Os prejuízos sentidos pelo cérebro são mais graves em usuários de drogas consideradas pesadas, como a cocaína, substância que estimula o funcionamento do SNC, fazendo com que o dependente apresente hiperativação constante. O uso de cocaína já não se acha adstrito às classes altas da sociedade. Nos últimos anos, verificou-se aumento do uso dessa droga entre jovens de periferias urbanas e de favelas, tornando o problema comum a todas as camadas sociais.

Mas as drogas legais, como álcool e tabaco, são as que mais preocupam as autoridades sanitárias. Enquanto usuários de tabaco apresentam expectativa de vida 25% menor do que pessoas saudáveis, os dependentes de álcool representam 80% dos casos de internação em hospitais públicos. O problema social atinge adolescentes, que acabam atrasando seus estudos ou até abandonando a escola.

O tabaco é a droga que mais mata no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2004, 5 milhões de pessoas morreram devido doenças relacionadas ao fumo. A mesma entidade calcula que, em 2020, mantidas as tendências atuais, o tabaco causará mais óbitos que Aids, tuberculose, acidentes de carro, suicídios e homicídios juntos.

O álcool, por sua vez, é responsável, muita vez, por coisas como acidentes de trânsito, violência familiar e sexo inseguro. Em 2004, uma pesquisa com jovens de 14 a 19 anos das classes A e B de São Paulo, Brasília e Campinas feita pelo Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes), da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), revelou uma ligação entre o consumo de álcool e a prática de sexo inseguro. Outro dado revelado pela pesquisa é que um quarto do total dos adolescentes pesquisados mantém um padrão de consumo de álcool considerado de risco pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Um problema muito comum vivido por dependentes é a síndrome da abstinência. Quando um usuário de drogas permanece por certo tempo sem usar a substância, ele apresenta sintomas que variam da ansiedade até vômitos, passando por tremores, falta de apetite e dificuldade para dormir. Isso acontece porque o funcionamento cerebral passa a atuar condicionado à presença de substâncias que deixaram de ser consumidas. As alterações funcionais já se estabeleceram tão profundamente que o organismo passa a “pedir” mais drogas, iniciando assim o ciclo da dependência química.

Na Europa, o consumo de substâncias ilegais – a exemplo do que ocorre no mundo inteiro – se concentra entre os jovens maiores de idade, em particular do sexo masculino e residentes em áreas urbanas. Sobre eles recai também o peso da mortalidade, que vem aumentando. Durante a última década, foram registradas, na UE e na Noruega, entre sete mil e nove mil mortes anuais relacionadas às drogas. A maior parte das vítimas tinha entre vinte e trinta anos. Em 80% dos casos, a causa da morte esteve vinculada ao consumo de opiáceos. Muitas das overdoses ocorreram em situações de ingestão simultânea de álcool e cocaína.

Entre os esforços para impedir mortes por consumo, também têm papel muito importante a conscientização e a educação sobre os efeitos prejudiciais das drogas. Na Espanha, na Alemanha e nos Países Baixos existem salas supervisionadas para o consumo de drogas. Esse tipo de política permite que os dependentes químicos melhorem sua qualidade de vida.


PREVENÇÃO

Quanto à redução do consumo de drogas, a prevenção é a ação mais eficaz. Um bom modo de informar e evitar são as campanhas educativas nas escolas, com maior ênfase nos centros escolares em áreas de maiores conflitos.

O êxito alcançado pelas autoridades em seu afã de reduzir a adesão às drogas e os danos que causa à saúde não são, no entanto, motivo para descuido. A longa luta contra as drogas ilegais demonstrou que o mercado das substâncias proibidas muda constantemente, criando “modas” que influem nos hábitos de consumo. Assim, se nos anos 90 as drogas injetáveis (heroína e cocaína) eram as mais preocupantes, agora são as drogas sintéticas (como ecstasy e speed) e a metanfetamina as que mais transtornos causam às instituições de saúde. Essas novas drogas podem ser fabricadas em pequenos laboratórios e muitas vezes são feitas com produtos tóxicos que representam um grande risco sanitário. Essa característica — a mutabilidade — exige das autoridades contínuos ajustes em seus planos de luta. E os consumidores potenciais precisam estar informados sobre os verdadeiros perigos das drogas que ingerem. A informação e a tomada de consciência são hoje a principal arma para combater o consumo de substâncias ilegais.


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