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11 de setembro, o dia em que o mundo parou
 
 
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 UM GOLPE NO CORAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS
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Cartas de pôquer distribuídas pelo governo dos EUA com os rostos dos iraquianos mais procurados

Os ataques perpetrados na manhã de 11 de setembro foram realizados por dezenove terroristas pertencentes à rede Al Qaeda, que viveram em território norte-americano durante muitos meses sem despertar nenhuma suspeita nas autoridades dos EUA. Como resultado da destruição das torres do World Trade Center pelo choque de dois aviões comerciais, o ataque ao Pentágono por um terceiro avião e a queda de um quarto avião de passageiros, supostamente em rota para destruir a Casa Branca, morreram 3.025 pessoas. O número de vítimas e o caráter espetacular do ataque abalaram profundamente os Estados Unidos, que não haviam sofrido uma agressão a seu território desde o bombardeio de Pearl Harbor (Havaí), ocorrido em 7 de dezembro de 1941, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A ofensiva terrorista despertou nas autoridades norte-americanas a consciência da periculosidade do terrorismo islâmico, até então subestimado em sua capacidade de destruição.

Uma das primeiras medidas do presidente do país, George W. Bush, foi criar uma Secretaria de Segurança Interna com a tarefa de reforçar o controle dentro das fronteiras norte-americanas. Mas para pôr em prática essa nova política fazia-se necessário contar com os mecanismos legais apropriados. Por isso, em outubro de 2001 — pouco mais de um mês depois dos atentados — o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Lei Patriota (Patriot Act) e outras medidas legislativas contra o terrorismo por uma avassaladora maioria: só um membro da Câmara de Deputados votou contra.

O novo conjunto de leis outorgou poderes especiais aos órgãos de segurança — FBI, Serviço Secreto etc. — para bloquear contas bancárias vinculadas a organizações e empresas suspeitas de colaborar com a lavagem de dinheiro do terrorismo. Graças a essas normas, em poucos meses haviam sido bloqueados bilhões de dólares que supostamente se destinavam a financiar grupos radicais.

Outras leis aprovadas provocaram indignação nos setores mais liberais do país, que consideram que, desde o ataque terrorista de 2001, ficaram comprometidas as liberdades individuais garantidas pela constituição americana. Essas vozes críticas condenaram os poderes outorgados às autoridades para vigiar as comunicações — a internet foi um dos principais objetivos — e deter por tempo indefinido e sem acusação pessoas suspeitas de colaborar com as redes terroristas. Em 2003, mais de mil pessoas haviam sido detidas.


O contragolpe e os direitos civis
Embora o governo norte-americano tenha repetido sem cessar que a justiça respeita o cumprimento das leis sobre liberdades civis, organizações que criticam sua política, como a Anistia Internacional e o Human Right Watch, entre outras, não pararam de denunciar que as novas leis poderiam levar as autoridades a cometerem arbitrariedades ou excessos.

teste Foi particularmente denunciada a situação dos mais de seiscentos combatentes talibãs presos na base militar americana de Guantánamo (Cuba), todos eles capturados no Afeganistão durante a intervenção dos Estados Unidos no país, em 2001, com o objetivo de prender Osama bin Laden. Os talibãs foram detidos sem obediência às normas internacionais sobre prisioneiros de guerra da Convenção de Genebra — foram qualificados como “combatentes ilegais” para não lhes dar acesso a advogado nem a julgamento por um tribunal militar regular — e confinados em módulos dos quais podem sair durante poucas horas por dia. Embora alguns prisioneiros tenham sido libertados, o governo Bush ainda mantém a maioria dos detidos na prisão de Guantánamo, mas já concordou em acelerar seu processo de libertação. Com o tempo, alguns congressistas norte-americanos começaram a apoiar uma revisão da Lei Patriota. O senador democrata Dick Durbin — que votou a favor da lei — justificou sua mudança de atitude afirmando que a lei foi elaborada com precipitação, quando os atentados eram muito recentes, “e por isso estávamos todos muito nervosos”.

O reforço da segurança interna dos Estados Unidos completou-se em janeiro de 2004, com a entrada em vigor do US Visit, que estabelece um controle estrito das fronteiras. Esse programa de segurança prevê que aproximadamente 26 milhões de visitantes e imigrantes que chegam ao país todos os anos sejam fichados, com fotos e impressões digitais. O sistema, do qual estão excluídos apenas 27 países, recebeu verbas no valor de US$ 300 milhões para seu primeiro ano de funcionamento, montante considerado excessivo pelo Partido Democrata, oposição nos Estados Unidos. As críticas mais duras foram feitas pelos países cujos cidadãos foram afetados pela medida. O Brasil não obteve isenção desse tipo de registro, e em 2004 passou a tomar medidas semelhantes no aeroporto de Guarulhos.


O “Eixo do Mal”
Poucos dias depois da ofensiva terrorista da Al Qaeda, o presidente Bush declarou enfaticamente que os responsáveis seriam perseguidos em todo o mundo, numa campanha que recebeu a polêmica designação de Justiça Infinita. Em 7 de outubro de 2001, a Casa Branca demonstrou que falava sério e começou a campanha bélica contra o Afeganistão, país submetido naquele momento ao regime dos talibãs, muçulmanos ultrafundamentalistas que tinham ligações com Osama bin Laden, considerado pelos Estados Unidos o cérebro dos ataques da Al Qaeda.

Em janeiro de 2002, em mensagem ao Congresso norte-americano, Bush mostrou as bases de sua doutrina: “O tempo não está do nosso lado. Não esperarei os acontecimentos enquanto o perigo se aproxima. Não aguardarei enquanto os riscos se tornam cada vez mais iminentes. Os Estados Unidos da América do Norte não permitirão que os regimes mais perigosos nos ameacem com as armas mais destrutivas do mundo”. O presidente norte-americano denunciou, em tom ameaçador, que existia um “Eixo do Mal”, formado por Irã, Iraque e Coréia do Norte, países suspeitos de fabricar armas de destruição em massa. Alguns meses depois, Bush acrescentou mais três países ao “eixo”: Síria, Cuba e Líbia.

Essa nova doutrina internacional, na qual os Estados Unidos declararam seu direito unilateral de atacar preventivamente qualquer país, causou conflitos diplomáticos muito graves quando o alvo de Bush se tornou, um ano depois, o regime de Saddam Hussein no Iraque. O governo dos Estados Unidos se mostrou convencido da existência de armas de destruição em massa no Iraque e usou o argumento para justificar o uso da força como forma de neutralizar os perigos que o armamento representaria para a região e para os interesses norte-americanos.

Além disso, vinculou o regime iraquiano à Al Qaeda. No lado oposto, a Organização das Nações Unidas (ONU), a França e a Alemanha rejeitaram a doutrina do ataque preventivo, embora não apoiassem o regime ditatorial de Saddam, e defenderam os procedimentos da ONU, que havia enviado uma equipe de inspetores ao Iraque para descobrir se havia ou não armas de destruição em massa.

A princípio, embora impacientes, os Estados Unidos cederam e esperaram o resultado das inspeções. Mas os funcionários da ONU não puderam chegar a resultados conclusivos sobre a existência de armas de destruição em massa. Os Estados Unidos, com a colaboração de outros países — entre os quais se encontravam o Reino Unido, seu principal aliado, e a Espanha — decidiram realizar a invasão do Iraque em março de 2003, sem o respaldo da ONU e de boa parte da comunidade internacional. O exército norte-americano derrubou o governo de Saddam no começo de abril do mesmo ano.

Apesar de a comunidade internacional confirmar a inexistência de armas de destruição em massa no Iraque — principal motivo utilizado pelos EUA para invadir aquele país —, o ex-ditador iraquiano, Saddam Hussein, foi capturado pelo exército norte-americano pouco antes do Natal de 2003. Porém, a resistência à ocupação feita pelos Estados Unidos sofreu, desde o início das operações, vários e contínuos ataques de grupos armados do Iraque. Essa oposição impediu que os Estados Unidos diminuíssem sua presença em território iraquiano. Com isso os custos dos conflitos da ocupação se tornaram o tendão de Aquiles do programa econômico de Bush, que desde antes dos atentados enfrentava uma recessão econômica.


Os efeitos econômicos
As dificuldades econômicas que o governo Bush já enfrentava antes de 11 de setembro de 2001 transformaram-se em graves problemas depois dos atentados. Embora os setores financeiros não tenham sido tão afetados como se previa no começo — devido, basicamente, às baixas das taxas de juros impostas pelo Federal Reserve, o Banco Central americano, e pelo Banco Central Europeu —, o governo norte-americano foi obrigado a destinar pacotes bilionários de ajuda aos setores afetados pelos ataques terroristas. Bilhões de dólares foram injetados nas empresas aéreas, que sofreram uma queda drástica nas vendas de passagens. Mesmo assim, foi impossível evitar a bancarrota da US Airways e a difícil situação financeira da United Airlines. Na Europa, a crise afetou empresas consolidadas como a Swissair, que também se declarou falida. Estima-se que as perdas do setor aeronáutico, em 2001, ficaram em torno de US$ 12 bilhões.

A crise das empresas aéreas foi o primeiro aviso do que ocorreria na indústria turística. No ano seguinte aos atentados, a Organização Mundial de Turismo (OMT) informou que a atividade turística não voltaria aos índices anteriores ao ataque terrorista antes de dois anos. A sensação de insegurança dos usuários provocou uma forte queda no turismo: no último trimestre de 2001, o sul da Ásia experimentou uma queda de 24% no turismo; na América, foi de 20%; e no Oriente Médio, de 11%. A OMT esperava, porém, anunciar uma recuperação da atividade turística, principalmente nos países considerados seguros (América Latina e alguns países da Europa ocidental).

À época, o governo de Bush não mediu esforços para alcançar esse objetivo por meio do rearmamento e da intimidação, embora conhecendo os riscos que corria nas eleições presidenciais de novembro de 2004. Seus adversários o acusavam de ter duplicado o orçamento militar enquanto a economia do país não conseguia se recuperar nem gerar empregos. De fato, o orçamento apresentado por Bush para 2004 estabelecia cortes em quase todos os setores, menos nos relacionados à defesa e à segurança interna do país. O resultado final foi um déficit de US$ 521 bilhões, com a proposta de reduzi-lo a aproximadamente US$ 350 bilhões, em 2005. Nessa estimativa não foram incluídos os gastos “eventuais” que a ocupação do Iraque e do Afeganistão acarreta.


Um epílogo de guerra
No dia 30 de dezembro de 2006 o ditador iraquiano Saddam Hussein foi enforcado em Bagdá, em cumprimento da sentença determinada pela Justiça iraquiana, por sua participação nos assasinatos de 148 muçulmanos xiitas na cidade de Dujail, em represália a uma tentativa fracassada de matá-lo, ainda em 1982. Hussein também teria ordenado tortura e deportação de centenas de moradores daquela cidade.

George W. Bush teria, com a eliminação de Saddam, uma suposta vitória na "Guerra contra o Mal", mas a morte do ditador não impediu que os gastos norte-americanos, com a manutenção de uma suposta paz no Oriente Médio, cessassem. Em 2009 o democrata Barack Obama assumiu a presidência dos Estados Unidos. Em uma de suas primeiras declarações, em janeiro daquele ano, anunciou que retiraria a maior parte das tropas no Iraque até 31 de agosto de 2010. As forças norte-americanas reduzidas deveriam permanecer no Iraque em uma nova missão, “treinar, equipar e aconselhar as forças de segurança iraquianas, proteger o pessoal civil norte-americano e conduzir operações de contraterrorismo em conjunto com as forças iraquianas". Eram então 150 mil soldados, e a soma de mortos passara as 4.000 pessoas. Jamais foram encontradas armas de destruição em massa.

Antes mesmo da data prometida no seu primeiro ano de mandato, Obama já havia retirado a última tropa de combate, do território iraquiano. Mas ainda restavam um pouco menos de 50.000 soldados. Em 2 de maio de 2011 o exército dos Estados Unidos, em uma missão secreta no Paquistão, localizou e matou o maior nome da Al-Qaeda, o saudita Osama bin Laden.

Quão eficiente o assassinato de Bin Laden foi, é impossível medir. Uma fagulha de democracia surge no mundo árabe não por conta das vitórias simbólicas dos Estados Unidos, mas por conta das diversos protestos em países comandados por tiranos que estavam há décadas no poder, como Muammar Gaddafi, na Líbia, ou o egípcio Hosni Mubarak, ambos derrubados por revoltas populares organizadas pela intenet.


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