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Rock: rebeldia e consumo
 
 
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 UM MOVIMENTO DE QUADRIL
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O Sgt. Peppers´s Lonely Hearts Club Band, na imagem, é uma das grandes obras dos Beatles

Rock é uma palavra com muitos significados. Na rígida década de 1950, representava uma música carregada de sexualidade e fazia frente às normas morais da época; nos anos 1960, seus sinônimos eram: experimental e lisérgico; nos 1970, estava sempre ligada a atitudes politicamente incorretas e mensagens de protesto; nos 1980, podia ser enfurecida e distorcida ou arrumadinha e comportada; nos 1990, ganhou tantos significados que é difícil dizer o que realmente representa. Após os anos 2000, talvez a palavra que mais se aproxima do rock é diversidade.

Polêmica e provocadora, a rebeldia ligada ao rock sempre tentou mudar a corrente, ludibriar o mercado e escrever suas próprias regras. E mesmo que tenha mais de uma vez quase virado cinzas, sempre conseguiu renascer com força. Nesse sentido, as palavras de Elvis servem como profecia: “Não acredito que o rock venha a morrer de todo algum dia, porque terão que fazer algo extraordinariamente bom para ocupar seu lugar”.

Esse caminho paralelo pelo qual circula a subcultura não pode ser destruído. O rock tem sido para várias gerações um meio subversivo de fugir aos padrões. Um modo alternativo ao modelo de cidadão e de vida impostos pela sociedade e pelo mercado. Também uma forma de botar a boca no trombone quando necessário. Desde o início, serviu como uma via de escape.

Os primeiros músicos da história a utilizar a palavra rock foram os cantores de gospel. Usavam-na para se referir ao arrebatamento que sentiam em suas almas ao se comunicarem com Jesus: “rock me Jesus” (“balança-me, Jesus”), cantavam. Em 1947, Roy Brown usou a palavra com outro significado e em “Good Rocking Tonight” começou a relacionar o rock com a dança. Pouco tempo depois, o termo passou a designar também o ato sexual. Reunindo blues, gospel e jump band jazz, os músicos negros criaram o estilo conhecido como R&B, que, por sua vez, seria a principal base para o rock and roll nos anos 1950. Rock’and’roll significa “balançar e rolar”.


A PÉLVIS

O rock viajou do divino ao carnal e os dois significados se juntaram num estúdio de quinta categoria em 5 de julho de 1954. Elvis Aaron Presley (1935-1977), um jovem caminhoneiro de 19 anos, parou no número 706 da avenida Union of Memphis, no Tennessee, entrou num Recording Service Studio e gravou “Casual Love Affair” e “I’ll Never Stand in Your Way”. Sam Philips, diretor do estúdio, pediu à sua secretária que anotasse o nome e o telefone do rapaz; Elvis saiu coroado com um acetato de dez polegadas (disco de alumínio, revestido com substância especial e utilizado como matriz na prensagem de discos fonográficos). Um ano depois, assinou contrato com a gravadora RCA, recebeu US$ 5 mil e comprou um Cadillac.

Suas canções logo chegariam ao topo das paradas. O rei enlouqueceu os jovens que, naquela época, buscavam duas coisas: uma forma de se liberar das normas de conduta impostas por uma sociedade extremamente conservadora; e uma alternativa ao sentimentalismo de Frank Sinatra (1915-1998) e Doris Day. A poção mágica seria uma mistura de blues e country enfeitada com um movimento sensual dos quadris. Elvis adorava a música negra e essa música corria livre por suas raízes brancas. Tanto que se contorcia como os negros e, para maior escárnio, vestido com roupa justa e maquiado com rímel. Isso tudo era desafiador numa época em que as normas morais e o racismo pesavam como uma pedra. Ainda assim, nada foi capaz de impedir o nascimento de um dos maiores ídolos do século XX e a popularização de um gênero musical que marcou mais de uma geração. Seu reinado durou mais de vinte anos; sua fama, até hoje. Ela persiste com clássicos como “Heartbreak Hotel”, “Don’t Be Cruel”, “It´s All Right Mama”, “Love me Tender”, "My Way" e “Jailhouse Rock”.

Os anos de 1950, apesar disso, não foram marcados apenas pelo rei. Muitos músicos fizeram canções tão boas ou melhores. Entre os grandes mestres estão Jerry Lee Lewis, Chuck Berry, Little Richard, Bill Haley e Johnny Cash.


ÉPOCA DE MITOS

Como se fosse uma epidemia, o rock logo chegou à Europa, e em especial ao Reino Unido, que importou os novos ritmos sem preconceitos. Os britânicos deixavam no outro lado do oceano os problemas raciais e a reprimida moralidade americana para apreciar o novo gênero musical e suas raízes, sobretudo o rhythm and blues (R&B). O rock invadiu as emissoras de rádio, novos selos foram criados para distribuir os discos e salões de bailes foram abertos nos quais se podia ouvir e dançar ao som das bandas e dos lançamentos mais recentes.

Um dos epicentros desse terremoto roqueiro foi Liverpool. A cidade portuária, historicamente ligada aos Estados Unidos pelas rotas navais atlânticas, foi a maior consumidora no território britânico de discos, livros e revistas sobre rock e rhythm and blues. Um cenário perfeito para um encontro que mudaria o mundo: em 6 de julho de 1957, John Lennon e Paul McCartney se encontraram pela primeira vez. John estava tocando com sua banda, The Quarrymen, e Paul foi convidado a participar. Era o início de um grupo, os Beatles, que revolucionou o mundo da música e deu seu primeiro passo com o lançamento de “Please Please Me”, em 1963. Naquela época, a banda já estava formada: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star. Quatro jovens da classe operária que com suas franjas mudaram o visual da época, e com suas canções repletas de otimismo e humanidade, enfrentaram um mundo muito regrado, sério e agressivo.

A eles se deve o início de uma nova época para a música, a Era Pop, que influenciou muitas bandas seduzidas pelo caminho traçado pelos The Beatles. De 1960 a 1965, somente em Liverpool surgiram cerca de trezentos grupos. Mersey Beat era a revista deles e The Cavern, o ponto de encontro. Em pouco tempo, a música dos jovens de Liverpool, caracterizada por um ritmo binário, seco e repetitivo, invadiu o Reino Unido. Depois, tomaria conta da América do Norte.

Nos oito anos de carreira, os Beatles venderam 10 milhões de discos e gravaram 209 músicas, muitas delas hinos imortais que fazem parte da memória coletiva. Entre seus melhores álbuns – 13 ao todo, além de 10 antologias oficiais –, cabe citar “A Hard Day’s Night” (1964), “Help!” (1965), “Rubber Soul” (1965), “Revolver” (1966), “Sgt. Peppers’s Lonely Hearts Club Band” (1967) e “Abbey Road” (1969).

Os quatro rapazes de Liverpool não foram, no entanto, os únicos mitos nascidos na ilha. Eles tinham um rival à altura: os Rolling Stones. Maus, sujos, eletrizantes e, além disso, com uma fama que fazia jus à imagem da banda, os Rolling Stones logo reuniram fãs que faziam oposição aos rapazes limpinhos dos The Beatles – mesmo que os integrantes de ambas as bandas fossem amigos e se admirassem.

Se os Beatles, apesar de seus cabelos compridos, eram bons rapazes que agradavam aos pais, os Rolling Stones personificavam o próprio demônio. Os gestos obscenos de Mick Jagger no palco, a confusão das guitarras, os excessos com as drogas e o comportamento politicamente incorreto transformariam seus shows em encontros de multidões de rebeldes. O empresário da banda, Andrew Loog Oldham, percebeu que os Rolling Stones estavam se tornando famosos exatamente por serem o oposto da imagem “certinha” dos Beatles. Oldham lançou então a campanha “Você deixaria sua filha se casar com um Rolling Stone?”, e a partir daí a banda alcançou o topo das paradas de sucesso.

A primeira formação dos Rolling Stones contava com Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones, Ian Stewart e Bill Wyman. Esse time durou um ano. Depois, Ian Stewart passou a trabalhar na organização dos shows e Charlie Watts se tornou o baterista da banda. Em 1969, Brian Jones foi sucedido por Mick Taylor, que, por sua vez, cedeu o lugar a Ron Wood. Em janeiro de 1993, o baixista Bill Wyman deixou a longeva banda, que atravessou o século ativa e em 2005 lançou o disco “A Bigger Bang” – 41 anos após sua estreia em disco, com The Rolling Stones, de 1964.

Com a chegada do rock ao Reino Unido desembarcaram também suas raízes. O R&B se transformou numa escola para muitos músicos. Esse foi o caso dos Rolling Stones. Embriagados de música negra, os Stones criaram um estilo próprio que dura mais de quarenta anos. O nome Rolling Stones foi retirado de um blues do cantor e guitarrista negro norte-americano Muddy Waters.

Em 1971, os Rolling Stones lançaram seu próprio selo, o Rolling Stones Records. Nessa mesma época, surge o logotipo da gravadora e da banda, a famosa boca vermelha. O célebre desenho da boca-símbolo dos Rolling Stones foi idealizado pelo designer gráfico John Pasche, em 1971. Criado inicialmente em branco e preto, o desenho foi produzido após um pedido de Mick Jagger. Pasche recebeu apenas $50 libras (pouco menos de US$ 100) pelo trabalho, que foi inspirado na língua da princesa Kali, a deusa da destruição, a qual ele viu em um pôster que Jagger comprou na Índia.

Atualmente, Rolling Stones é a banda mais veterana da história do rock, que eles mesmos construíram com discos como “Beggars Banquet” (1968), “Sticky Fingers” (1971) e “Some Girls” (1978), e músicas como “Satisfaction”, “Let’s Spend the Night Together” e “Start Me Up”.


NOS ESTADOS UNIDOS

Enquanto no Reino Unido ressoava o pop dos Beatles e as guitarras dos Rolling Stones, os Estados Unidos, por um lado, exploravam a fundo suas raízes; por outro, investiam na feição comercial do rock.


RAÍZES

Nos anos 1960, a música negra conquistou o público, inicialmente com o soul e, depois, com o funk, tendo a gravadora Motown como símbolo e músicos como The Supremes, Martha and the Vandellas, The Platters, The Marvelettes e Marvin Gaye entre os primeiros das listas dos mais tocados.

Por sua vez, a música branca também retornou às suas origens, porém, utilizou o folk para reivindicar mudança social.

“Come mothers and fathers throughout the land and don't criticize what you can't understand. Your sons and your daughters are beyond your command. Your old road is rapidly again'. Please get out of the new one if you can't lend your hand. For the times they are a-changin'” (“Vinde, pais e mães de todo o país e não critiqueis o que não podem compreender. Vossos filhos e filhas estão fora de vosso controle. Vossa antiga estrada está envelhecendo rapidamente. Por favor, saiam da nova se não puderem nos ajudar. Porque os tempos estão mudando”). Esses são os versos que saíam da boca de Bob Dylan em 1964.

A canção, “Times They Are A-Changin”, incluída no álbum homônimo, se transformou num hino geracional que representava os interesses de uma juventude ameaçada pela guerra do Vietnã e estava farta das estritas normas sociais. Dylan, um rapaz humilde de Duluth, Minnesota, se converteu em baluarte da canção de protesto, dando voz a todos aqueles jovens que acreditavam ser possível um mundo diferente, baseado na tolerância, no amor e na liberdade. Do mesmo lado que ele estavam artistas como Joan Baez, com quem manteve um relacionamento, e Janis Joplin.

Bob Dylan foi o responsável pela introdução da literatura no mundo do rock: suas letras, que, muitas vezes, se aproximam de poemas, fizeram com que o compositor fosse apontado em algumas ocasiões para disputar o prêmio Nobel de Literatura, do qual foi vencedor em 2017. Dylan também inovou utilizando instrumentos elétricos no folk, o que fez com que alguns puristas o acusassem de traidor do gênero musical.

Em 1969, a canção de protesto e os ideais de “música, paz e amor” atingiram seu ponto culminante. Cerca de 500 mil jovens foram ao festival de Woodstock para três dias de liberdade e de boa música em meio à natureza. Apresentaram-se Bob Dylan, Joan Baez, Janis Joplin e Jimi Hendrix, entre outros, este último considerado o melhor guitarrista de rock de todos os tempos. Aquele encontro de multidões seria o começo do fim de uma utopia. O sucesso do festival atraiu várias empresas que perceberam claramente que havia um segmento de mercado a ser explorado. Assim, os jovens hippies se transformaram em consumidores de suas próprias ideias, o que se tornaria visível nas grandes bandas e nos inúmeros shows realizados no final da década de 1960. O rock havia se transformado num produto para o consumo das massas.


UMA MORTE E DOIS RENASCIMENTOS

Pink Floyd, Emerson, Lake & Palmer, Yes e King Crimson. Todos eles investiram na experimentação e encontraram, no fim das contas, o rock progressivo. Melodias de estrutura complexa e sombria, barroquismo, arroubos épicos e virtuosismo definiriam um gênero que reinou na década de 1970 e que se aburguesaria nos grandes palcos dos espetáculos repletos de efeitos e iluminação.

O rock se tornava maior, enquanto seu espírito renascia em dois lugares e períodos diferentes. O primeiro, em Nova York, em 1967. Nascidos sob a proteção da intelectualidade nova-iorquina e influenciados pela música clássica de vanguarda, surgiu o Velvet Underground, formado por Lou Reed, John Cale, Nico, Sterling Morrison e Moe Tucker. Todos eles trabalharam na The Factory, de Andy Warhol, e, enquanto o artista transformava a imagem da lata de sopa Campbell em arte, eles faziam o mesmo com a música popular. O Velvet introduziu na história do rock, até então considerado um produto de entretenimento para as massas, a noção de vontade artística. Para cumprir o objetivo, experimentaram com a forma, flertaram com a vanguarda e brincaram com o ruído. O resultado abrange desde discos onde se pode ouvir um do agradável pop – “The Velvet Underground & Nico” (1967) – até o sombrio e inovador “White Light/White Heat” (1968). Suas músicas constituíram a semente do rock alternativo.

Londres, em 1977, foi o segundo espaço para o renascimento. Nesse ano é lançado “Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols”, cartão de visitas dos Sex Pistols e do movimento punk. O disco representou um duro golpe na indústria da música e dos grandes dinossauros da cena roqueira. Deu um chute no virtuosismo do rock progressivo e, como o antigo rock and roll, utilizou as guitarras como meio de expressão, neste caso, a frustração de uma geração de jovens sem futuro num país que sofria com o desemprego e com a crise econômica. “Do it yourself” (faça você mesmo), diziam os Sex Pistols. Pegue uma guitarra, grite o que pensa e do jeito que lhe der vontade. Rápido, com força e energia, em músicas como “God Save The Queen”, “Anarchy in the U.K.” e “Pretty Vacant”. Tal atitude tirou muitos jovens de um ambiente de desesperança e deu novo impulso ao espírito roqueiro. Também horrorizou a sociedade conservadora, que fez cara de espanto e censurou os Sex Pistols por serem os primeiros a dizerem palavrões num programa de TV britânico. No entanto, as frases do vocalista Johnny Rotten influenciaram a juventude tanto nas ideias como no seu comportamento, os quais seriam adotados por vários outros grupos, dentre eles The Clash, The Ramones e The Jam.

A vontade artística do Velvet e o “do it yourself” do punk iriam produzir na década de 1980 a música alternativa, que na realidade não era senão o espírito do primeiro rock revoltando-se contra a indústria musical. Produzida por gravadoras independentes, a música indie (de underground ou subterrâneo – uma expressão correspondente no Brasil seria “udigrúdi”) lutava contra um mercado que priorizava mais a imagem do que a obra e que podia transformar qualquer música em sucesso por meio da publicidade.


UMA NOVA OPORTUNIDADE

A contestação do rock se refugiou em pequenos feudos, o que não impediu que se continuasse a produzir grandes explosões de adrenalina e fúria contra os padrões estabelecidos. Alguns exemplos são os arte-barulhentos Sonic Youth e Pixies, na década de 1980, e o grunge do Nirvana, na década de 1990. Este último, com Kurt Cobain (1967-1994) à frente, deixaria o mundo da música abalado em 1991, com o seu álbum de estreia, “Nevermind”. Atualmente, a música alternativa e indie recobrou a força e as emissoras voltaram a tocar grandes hits de jovens herdeiros do rock, como The White Stripes, The Strokes, Artic Monkeys, Weezer, entre outros. Enquanto o rock prepara a próxima revolução, o mundo fica à espera.


ROCK BRASILEIRO

Apesar da música “Rock Around the Clock” ter sido gravada por Nora Ney, na versão original em inglês, no Brasil, em 1955 – a cantora entraria para a história do rock brasileiro como a intérprete do primeiro rock gravado em nosso país –, e a primeira estrela do rock ter sido a cantora paulista Celly Campelo, que ficou famosa pela gravação da música “Estúpido Cupido”. Esse estilo musical só ganhou a aura rebelde com a banda Os Mutantes, no final da década de 1960.

Porém, antes dos Mutantes, em 1965, um grupo de cantores e compositores, entre eles Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia, Sérgio Reis, Jerry Adriani, Renato e seus Blue Caps, Wanderley Cardoso, Ronnie Von, Rosemary, inspiraram-se nos Beatles para produzir um estilo de música pop que seria conhecida como iê-iê-iê e um programa televisivo chamado Jovem Guarda.

O programa inicialmente era transmitido pela TV Record para preencher o horário antes ocupado pela exibição de partidas de futebol, proibidas pelo governo militar. Fez sucesso entre o público mais jovem e virou campeão de vendas. O nome Jovem Guarda foi utilizado para representar um contraponto à velha guarda, a qual era formada por cantores anteriores à época do rock.

Em 1968, Os Mutantes lançaram seu primeiro disco e deram início ao que viria a ser o genuíno rock brasileiro. Nesse mesmo ano, a banda formada por Rita Lee, Arnaldo Batista e Sérgio Dias ligou-se ao movimento tropicalista e foi, ao lado de Gilberto Gil, participar do Festival da Record. Depois, eles gravaram o clássico LP “Tropicália” ou “Panis et Circencis” na companhia de Gil, Caetano, Gal, Tom Zé e Nara Leão. Os Mutantes, um grupo musicalmente muito criativo e com uma postura de deboche e irreverência. Durante a década de 1970, o rock brasileiro seguiu sendo marcado pela presença dos Mutantes, mas também pelo surgimento de Raul Seixas e da banda Secos e Molhados.

Na década de 1980, o rock brasileiro, então batizado de BRock, estourou e tornou-se o maior sucesso na venda de discos. O estouro começou com o fenômeno da banda Blitz, que chegou a vender mais de 100 mil cópias em três meses, em 1982. A banda era formada por músicos como Lobão, Evandro Mesquita e Fernanda Abreu, hoje artistas conhecidos no Brasil. Depois da Blitz vieram bandas como Barão Vermelho, Camisa de Vênus, IRA!, Paralamas do Sucesso, RPM, Titãs, Ultraje a Rigor e Legião Urbana. A cena do rock brasileiro havia conquistado tanto prestígio que, em 1985, propiciou o primeiro Rock In Rio, evento que contou também com a presença de ídolos internacionais como Queen, Iron Maiden, Rod Stewart, Ozzy Osbourne, AC/DC, Yes, Scorpions.

Em 1986, o disco Rádio Pirata, da banda RPM, vendeu 2,2 milhões de cópias e o rock brasileiro se transformou em um produto de massa, o que foi sedimentado nas décadas seguintes.

A morte de ídolos dos anos 80, como Renato Russo e Cazuza, coincidiu com o surgimento de novas bandas que rapidamente alcançaram o sucesso, como Skank, Chico Science & Nação Zumbi, Planet Hemp, Sepultura e O Rappa.


O ROCK MORREU?

Com o surgimento dos chamados fenômenos pops e boy bands da década de 1990, cada vez mais tornou-se comum a frase “o rock está morto” pelos críticos que endossam que a era de ouro do rock passou. É na década de 1990 que a MTV se populariza e vira um fenômeno mundial e as produções de videoclipe se assemelham cada vez mais com as produções cinematográficas. Destacam-se nesses períodos os “superartistas” com seus shows milionários, como Michael Jackson, Madonna, e os seus pupilos N’Sync, Britney Spears e Backstreet Boys. De outro lado, é nesse mesmo período que o hip-hop americano se consolida como o maior segmento do show business da música e grandes nomes despontam nas paradas da Billboard, sendo o mais famoso o rapper Jay-Z.

No entanto, o rock não estava morto e teve grandes nomes, na cena internacional e nacional, surgindo e despontando. Nos EUA, surgem novas bandas como o duo White Stripes, Queens of The Stone Age, Coldplay e Green Day que vendem milhões de álbuns e são reconhecidos no mundo. Em paralelo, bandas surgidas no final da década de 1980, continuam arrebatando multidões; é o caso do Metallica, em especial na sua turnê do “Black Album” (um dos álbuns mais vendidos da história). As bandas Pearl Jam, Alice in Chains, Faith No More e Red Hot Chilli Peppers também lançam novos álbuns e são recebidos de forma calorosa pela crítica e fãs, para citar algumas.

No Brasil, um fenômeno surge em 1994 e se torna uma febre: a banda Mamonas Assassinas. Com uma mistura de rock, humor e ritmos populares, a banda alcança a marca de 3 milhões de álbuns vendidos com seu primeiro e único álbum “Mamonas Assassinas”. Infelizmente, no dia 2 de março de 1996, o grupo foi vítima de um acidente aéreo fatal na região da Serra da Cantareira, o que resultou na morte de todos os seus integrantes, causando grande comoção nacional. Outras bandas viram destaque a partir do meio da década, como Charlie Brown Jr., Raimundos, O Rappa e Planet Hemp. Todas com letras autorais, marcadas por ritmos marcantes e letras de impacto, algumas até consideradas impróprias pelo teor mais agressivo e sexual.

Em 1999, a música “Ana Júlia”, de Los Hermanos, vira um hit em todo o Brasil e coloca a banda no cenário do rock brasileiro, tornando uma das bandas mais importantes dos últimos 20 anos no Brasil. Los Hermanos é conhecida pela fidelidade dos seus fãs, que lotam estádios para vê-los.

O rock não morreu, ele se remodelou e aprendeu a conviver com os diferentes, sempre tendo seu lugar de destaque e produzindo novos artistas e novos sucessos.


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