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Crise dos alimentos, a um passo da fome
 
 
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 AS REVOLTAS DO PÃO
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A Mauritânia foi um dos países afetados pela instabilidade e pela escassez de alimentos

A espetacular elevação dos preços dos alimentos transformou-se em um dos grandes problemas que os governos começaram a ter que enfrentar. A partir de 2004, todas as economias mundiais passaram a sofrer com a alta dos alimentos básicos, como os laticínios e os cereais. Se em 2007, o milho e as revoltas da tortilha no México ganharam a atenção da comunidade internacional, em 2008, o alto preço alcançado pelo arroz e pela farinha desencadeou uma onda de protestos pelo mundo todo. Os cidadãos dos países em desenvolvimento lançaram-se às ruas para exigir que seus governos solucionassem a crise. A instabilidade e a escassez aumentaram a violência em países como Haiti, Egito, Mauritânia, Burkina Faso, Camarões, Paquistão, Senegal, Tailândia, Indonésia, Filipinas e Peru. No caso do Haiti, os protestos causaram a queda do governo e a morte de seis pessoas.

No Egito, a escassez obrigou o estabelecimento de um sistema de racionamento próprio das épocas de guerra. Uma medida como esta não havia sido necessária nos vinte anos anteriores. O país importa 50% da farinha que consome, e a alta dos preços reduziu as reservas à metade. O governo egípcio subvenciona este produto para produzir as tortas de pão, alimento básico da região. A partir de então, a compra de outros alimentos, como o azeite, a massa e o arroz, tornou-se impossível para a maioria da população. A cada manhã, longas filas de cidadãos ocupavam as ruas para obter sua ração diária de pão. A situação começou a se tornar perigosa devido aos roubos e saques, que causaram muitas mortes. Hosni Mubarak, presidente do Egito entre 1981 e 2011, chegou a mobilizar o exército para que controlasse o abastecimento das tortas de pão com o objetivo de evitar que grandes distúrbios como o de 1977 se repetissem pelo mesmo motivo.

O governo do Paquistão também tentou atenuar a crise por meio de medidas excepcionais. Depois de espalhar seu exército por todos os armazéns e feiras livres do país, foi obrigado a reintroduzir o sistema de cadernetas de racionamento, do qual estava livre desde os anos 1980. O próprio governo reconheceu que a situação era um passo atrás no desenvolvimento econômico do país, mas assegurou que as medidas adotadas garantiam o abastecimento e a correta distribuição das reservas de grão para toda a população.

Outros países enfrentaram a fome sem revoltas. Na Coreia do Norte, um país caracterizado pelo regime repressor mais duro do mundo, as inundações, as más colheitas e a péssima situação econômica tornaram possível uma repetição da terrível fome que acometeu esta nação asiática entre 1999 e 2002. Nestes anos, conhecidos como “a marcha penosa”, calcula-se que cerca de 2 milhões de norte-coreanos tenham morrido. Esta situação tendia a agravar-se, pois, em 2008, a Coreia do Sul limitou o envio de alimentos a seu vizinho do norte. O governo sul-coreano teve que reduzir seu sistema de ajuda para garantir o abastecimento de seus mercados.

O alto preço alcançado por determinados produtos foi se modificando, inclusive, os costumes alimentícios de algumas nações, que foram obrigadas a adotar uma nova dieta mais econômica. Foi o caso da Libéria, um país que importa da Ásia mais de 90% do arroz que consome e que, ante o aumento de preços, elevou seu consumo de massa, um produto muito mais barato.

Os governos dos países produtores de arroz também começaram a tomar suas medidas. A Tailândia, o maior exportador do mundo deste cereal, anunciou que não limitaria suas exportações, pois contava com reservas suficientes para garantir o abastecimento de sua população. Ainda assim, mobilizou milhares de soldados para vigiar os arrozais e evitar saques. As Filipinas, maior importador de arroz do mundo, proibiram o cultivo de outros produtos agrícolas nas terras onde tradicionalmente sempre se plantou o cereal. Com essa medida, pretendia proteger os terraços de arroz de Banawe, considerados uma das paisagens mais belas do planeta e Patrimônio Cultural Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco, na sigla em inglês). No entanto, como a produção de arroz no país era inferior ao seu consumo, o medo do governo filipino ante a possibilidade de que se esgotassem as reservas o levou a comprar grandes quantidades do cereal a preços exagerados. Esta atitude minguou a oferta no mercado internacional e provocou um novo aumento dos preços. No caso da Índia, o segundo maior produtor de arroz do mundo, foram adotadas medidas com certa cautela. Mesmo que sua economia tenha crescido muito desde 2005, o arroz continua sendo o alimento básico de 65% da população. O governo indiano tentou tranquilizar a seus mais de 1,1 milhão de habitantes, assegurando que existiam no país reservas suficientes para garantir o consumo. No entanto, desde 2007, o preço do cereal aumentou em 20% nos mercados de Nova Délhi; por isso, o governo optou por proibir, no início de 2008, a exportação de grãos que não fossem do tipo basmati, o mais demandado no mundo inteiro.

Outros países, no entanto, passaram a aproveitar a crise do arroz para melhorar sua situação econômica. Foi o caso do Afeganistão, onde as colheitas de ópio em 2008 foram muito baixas devido ao inverno frio e seco. Assim, muitos agricultores começaram a tirar proveito daquele momento para mudar de cultivo e começar a plantar arroz, um cereal que era mais rentável que outros produtos.

Nos países europeus, as mobilizações não tiveram como protagonistas os consumidores, mas os produtores. Tanto na Espanha como na França, os pequenos agricultores e pecuaristas protestaram contra o sobrepreço de alguns alimentos, como a carne e o leite, cuja alta consideravam injusta devido à especulação praticada pelos intermediários. Segundo eles, a situação era insustentável, já que as indústrias os obrigavam a comercializar seus produtos sem uma margem razoável de benefícios, enquanto subiam o preço aos consumidores. Eles alegavam ainda que, mesmo que vendessem mais barato devido às oscilações do mercado, os consumidores nunca veriam os preços diminuírem. Isso porque as grandes empresas se negavam a reduzir sua margem de lucro.