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Argentina, um país em reconstrução
 
 
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 DA COLÔNIA À DEMOCRACIA
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Ata da Independência foi escrita em 9 de julho de 1816 e declarou a independência do país

Foi o navegador e cartógrafo Sebastian Caboto (ca. 1476-1557) quem pela primeira vez ligou a área onde hoje fica a Argentina com a prata. Ele foi o primeiro a chamar o estuário de Rio da Prata — região então habitada por calchaquis, querandis, guaranis, quíchuas, charruas e tucumanos, os indígenas locais. Fez isso em razão das peças de prata que encontrou em poder dos nativos, as quais, na verdade, pertenciam à expedição do colonizador e sertanista português Aleixo Garcia, morto em 1526. A região, conhecida desde então, em espanhol, como rioplatense, ganhou o gentílico atual em um poema histórico de Martin Del Barco Centenera (ca. 1535-ca. 1601), intitulado “La Argentina o La Conquista del Río de la Plata”. Argentina é um nome extraído do latim Argentinus, deus epônimo das minas de prata (em latim prata é argentum e seu adjetivo é argentinus).

Em 1536, Don Pedro de Mendoza (ca. 1499-1537) fundou o Puerto de Nuestra Señora Santa Maria Del Buen Aire, que tempos depois passaria a ser Puerto de Buenos Aires e finalmente Buenos Aires. Mendoza foi o primeiro adelantado, isto é, o responsável por levar “adiante” uma missão militar ou civil por ordem real, do rio da Prata. Hoje, em Buenos Aires, vive um terço da população da Argentina.


Os gaúchos e a pecuária
Em 1541, Buenos Aires foi abandonada por um certo período. Lá foi deixado gado vacuno, ou seja, composto por vacas, bois e novilhos. Desses animais surgiu o gado cimarrón, que se multiplicou prodigiosamente naquela região. Por trás da criação do rebanho está um tipo marcante: o gaúcho ou homem dos pampas.

Esses moradores viviam exclusivamente do comércio da carne e do couro do gado, que anualmente era abatido aos milhares.

Esses peões, mais tarde, passaram a trabalhar nas estâncias, que surgiram no século XVIII. Eles proporcionaram aos caudilhos, os chefes políticos ou militares daquelas regiões, depois da independência da coroa espanhola, uma excelente força de combate.

A importância do comércio de couro e carne, o crescimento do porto de Buenos Aires e a necessidade de defesa contra a expansão portuguesa no sul do Brasil levaram à fundação, em 1776, do Vice-Reinado do Prata, o qual era formado pela região onde hoje localizam-se Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai.


Invasão inglesa
Em 1806, o almirante Home Riggs Popham (1762-1820), sem autorização do governo britânico, aproveitou o fato de a Espanha estar em guerra com a Inglaterra e zarpou da Cidade do Cabo, na África do Sul, em direção a Buenos Aires. Ele tomou a cidade sem qualquer dificuldade. Meses depois, espanhóis e criollos, isto é, os descendentes de europeus nascidos na América Latina, retomaram a cidade.

No ano seguinte, uma frota de navios ingleses voltou à carga e tentou novamente conquistar Buenos Aires. Os soldados britânicos ocuparam primeiro Montevidéu, depois invadiram Buenos Aires. Novamente, espanhóis e criollos, após sangrentos combates nas ruas da cidade, expulsaram os ingleses.

Essa luta contra os ingleses produziu na região, principalmente em Buenos Aires, um sentimento autonomista baseado nos interesses econômicos dos criollos, os quais eram majoritariamente ligados à criação de gado e à agricultura.


Independência
Em maio de 1816, representantes de várias províncias reuniram-se em Tucumán. Em 9 de julho, os delegados declararam a independência. Porém, somente em 1820, depois de quatro anos de pressão inglesa para que os portenhos coroassem um príncipe, começou a ganhar vulto a figura de Bernardino Rivadavia (1780-1845).

Nesse Congresso, San Martín (1778-1850) defendeu a independência das províncias unidas da América do Sul e foi designado pelo governo de Buenos Aires general-em-chefe do Exército andino.


San Martín
Alguns anos antes, em abril de 1818, as tropas americanas, comandadas por San Martín, venceram aos exércitos realistas na famosa batalha de Maipú (região do atual território chileno). O vice-rei do Peru, sem recursos para armar outro exército, viu-se acuado. Nesse momento, San Martín promoveu a invasão do Peru e terminou com o poder realista na América. Assim, junto a Simón Bolívar (1783-1830), Martín conseguiu a independência de toda a América do Sul.

Convencido de que a independência das Províncias Unidas do Rio da Prata não seria possível enquanto os realistas controlassem o Peru, San Martín concebeu o plano de chegar às terras peruanas por mar, passando pelo Chile. Alegou então problemas de saúde e conseguiu ser designado, em 1814, governador da província de Cuyo. Estabeleceu-se na capital, Mendoza, ponto estratégico das rotas andinas até o Chile e o Peru. Lá, organizou um exército com o apoio de Bernardo O’Higgins (c.1776-1842), comandante das tropas chilenas, que havia se refugiado em Mendoza depois de derrotado pelos realistas na batalha de Rancágua, em outubro de 1814.

Entre 18 de janeiro e 8 de fevereiro de 1817, San Martín cruzou com suas tropas a cordilheira dos Andes através do pico do Aconcágua e, em 12 de fevereiro, derrotou os realistas em Casas de Chacabuco, vitória que lhe abriu o caminho até Santiago, onde lhe foi oferecido o cargo de dirigente supremo do Chile, que declinou em favor de O’Higgins.

Depois da vitória na batalha de Maipú, em 1818, que consolidou a independência chilena, San Martín preparou-se para a batalha definitiva: a captura de Lima. Com ajuda do governo chileno, organizou uma frota que, sob o comando do almirante escocês Thomas Cochrane (1775-1860), partiu em 20 de agosto de 1820 de Valparaíso e desembarcou em 8 de setembro em Pisco. A tropa marchou por terra até Lima, defendida por numeroso contingente realista. San Martín não atacou a cidade e decidiu esperar. Ao final de um ano, as tropas realistas se retiraram, San Martín entrou em Lima, proclamou a independência em 28 de julho de 1821 e aceitou o título de protetor.

Depois de um encontro com Bolívar em Guayaquil, em 26 de julho de 1822, no qual se debateram assuntos que ainda são objeto de controvérsia entre os historiadores, San Martín voltou a Lima onde, em 20 de setembro do mesmo ano, doente e decepcionado com a crescente oposição a seu governo, renunciou ao cargo de protetor. Em 1824, partiu então em exílio voluntário para a Europa e fixou-se em Bruxelas. Depois de uma curta viagem à América em 1828, José de San Martín instalou-se na França e viveu primeiro em Paris e depois em Boulogne-sur-Mer, onde morreu em 17 de agosto de 1850.


Guerra com o Brasil
Em 1825, Buenos Aires apoiou a insurreição uruguaia contra o império brasileiro, que, por sua vez, lhe declarou guerra. O conflito terminou, em 1828, com a independência do Uruguai, que até então era a Banda Oriental e pertencia às Províncias do Rio da Prata, antigos domínios coloniais espanhóis.

Segundo o jornalista e historiador brasileiro Ricardo Bonalume Neto, a Guerra da Cisplatina (1825-1828) “sempre teve um gosto amargo. Para os historiadores conservadores, era a triste derrota para os argentinos no campo de batalha de Ituzaingó (ou Passo do Rosário). Para os mais liberais ou de esquerda, era uma guerra infeliz, tentando-se incorporar ao país a tal província de língua espanhola (hoje se chama Uruguai) contra a vontade local. Felizmente para o Mercosul — e para a paz no continente —, houve um empate nessa guerra impopular. Nem Argentina nem Brasil conseguiram incorporar a província do lado norte do rio da Prata”.

Para Bonalume, “a Guerra da Cisplatina foi o capítulo final de uma longa luta entre os expansionismos luso e castelhano no Prata. E aconteceu logo no final das guerras napoleônicas, quando havia uma grande quantidade de ‘mercenários’ britânicos disponíveis, especialmente marinheiros”.

Enquanto isso, a figura de Rivadavia começou a ganhar importância em 1814, quando ele e Manuel Joaquín del Corazón de Jesús Belgrano (1770-1820) foram à Europa para obter o reconhecimento da independência da Argentina.

Rivadavia foi o primeiro presidente das Províncias do Rio da Prata. Eleito em 1826, pelo Congresso, seu governo foi marcado por uma política progressista que se chocava com os interesses dos caudilhos provinciais e do clero.

Entre seus feitos mais importantes como presidente, Rivadavia garantiu os direitos civis e de propriedade, a liberdade de imprensa, estendeu o direito de voto a todos os homens maiores de 20 anos e organizou os poderes legislativo e judiciário. Tentou, sem sucesso, fomentar a imigração europeia e executou um programa de reforma agrária que, inadvertidamente, beneficiou a oligarquia rural. As iniciativas culturais talvez tenham sido suas maiores conquistas: fundou a Universidade de Buenos Aires, ampliou a Biblioteca Nacional e criou vários museus.

Porém, a pressão popular para o prosseguimento da infrutífera guerra contra o Brasil pelo território do atual Uruguai e a oposição dos caudilhos ao governo apontavam para uma guerra civil. Para evitá-la, o presidente renunciou em 27 de junho de 1827 e se exilou na Europa.


Ditadura Rosas
Dois anos depois, chegou ao poder o general Juan Manuel de Rosas (1793-1877). Para muitos ele foi o protótipo do caudilho sul-americano, pois foi responsável por colocar, durante mais de 20 anos de governo, a Argentina sob uma ditadura inflexível que, embora conseguisse impor a lei e a ordem, dividiu a nação.

Para o escritor Jorge Luis Borges (1899-1986), que era parente distante de Rosas, o caudilho argentino não passava de “um personagem abominável”.

O melhor livro para se entender a passagem do ditador Rosas pelo poder é Amália, romance histórico publicado em 1851 e escrito pelo argentino José Mármol (1817-1871), considerado o maior poeta romântico da “geração dos proscritos”.

Esse livro é considerado o primeiro de uma longa e extraordinária série de romances que fazem a crítica dos regimes autoritários na América Latina. Mármol conta uma trágica história de amor destruída pela arbitrariedade do governo de Juan Manuel de Rosas.

Rosas foi um político que baseou seu poder na violência contra os adversários e soube se aproveitar do excessivo poder que lhe foi delegado pelas províncias. Segundo o historiador argentino Ricardo Levene, a ditadura de Rosas foi o reflexo da apatia das províncias, que vegetavam enquanto Rosas governava como bem queria.

Em 1851, Justo José de Urquiza (1885-1959) rebelou-se contra a ditadura rosista. Depois, Urquiza aliou-se à província de Corrientes, ao Brasil e ao Uruguai. O resultado dessa aliança foi a constituição de um exército com 28.198 combatentes, enquanto Rosas possuía aproximadamente 10 mil soldados. O maior contingente militar ajudou Urquiza a derrotar e derrubar o governo de Rosas, em fevereiro de 1852, na batalha de Monte Caseros.


Confederação Argentina
Após o final da ditadura Rosas, a Argentina viveu um período conhecido como Confederação Argentina, porém o país seguia desunido. A Confederação foi fundada em San Nicolás e em Santa Fé. Com ela foi feita uma nova carta Constituição, mais centralizadora. Essa nova carta, escrita à revelia de Buenos Aires, que acabou por ceder à pressão exercida pelas províncias, militarmente persuasivas, fomentou a agricultura e a educação, mas só a partir de 1862, com a eleição de Bartolomé Mitre (1821-1906) para a presidência, iniciou-se uma etapa de mais união e prosperidade.

Guerra do Paraguai
Houve, em seguida, a Guerra do Paraguai (1864-1870). Quando, em 1865, a província de Corrientes foi invadida pelos paraguaios, a Argentina compôs com o Brasil e o Uruguai a Tríplice Aliança.

Segundo o historiador brasileiro Roberson de Oliveira, “ao longo do século XIX, o Brasil realizou várias intervenções militares na região da Argentina e do Uruguai. A que se tornou mais importante ocorreu em 1864. Naquele ano, o governo uruguaio, controlado pelo Partido Blanco, adotou medidas prejudiciais aos pecuaristas brasileiros que tinham terras no Uruguai e, além disso, negou-se a conter pecuaristas uruguaios que teimavam em invadir terras do Rio Grande do Sul. Depois de negociações infrutíferas, o governo brasileiro decidiu invadir o Uruguai, depôs o Partido Blanco e assumiu o controle de Montevidéu, o que fez por meio de grupos aliados locais (Partido Colorado)”.

Essa configuração política favorável ao Brasil no Uruguai foi considerada expansionista pelo então presidente do Paraguai, Francisco Solano López. Solano López percebeu que o Brasil queria o controle do estuário do Rio da Prata, porém, esse era a única saída para o Paraguai fazer comércio internacional. Segundo Roberson de Oliveira, o presidente paraguaio achou essa situação como inaceitável. Solano Lopez tentou então “mediar o conflito entre o Brasil e o Uruguai, mas, uma vez consumada a invasão brasileira, reagiu invadindo Mato Grosso e o Rio Grande do Sul, abrindo duas frentes de batalha. Para atingir o Rio Grande, cruzou o território argentino sem autorização. O Brasil, a Argentina e o Uruguai responderam firmando um acordo, a Tríplice Aliança, e passaram a lutar juntos contra o Paraguai”.

A guerra foi altamente impopular na Argentina. O país foi palco então de várias montoneras (levantes). Porém, a guerra também ajudou a Argentina financeiramente. O país, que supria o exército da Tríplice Aliança com gêneros alimentícios, enriqueceu com isso.


Imigração europeia
A década seguinte, de 1880, na Argentina, foi marcada pela enorme quantidade de imigrantes europeus, principalmente italianos, que chegaram ao país. Nessa época, a política do país platino foi dominada por um grupo muito ligado aos grandes estancieiros. Esse grupo se manteve no poder pela fraude eleitoral e pelo uso da repressão violenta das manifestações populares.

Contudo, a partir de 1916, a Argentina foi dominada por governos da União Cívica Radical (UCR), um partido formado por criollos e imigrantes de classe média. Uma reforma eleitoral ajudou a UCR a chegar ao poder em 1916 e só deixá-lo em 1930, após o golpe militar comandado pelo ditador José Uriburu (1868-1932).


Peronismo
O governo de Uriburu, que terminaria em 1932 com a morte do ditador, foi marcado pela violência, torturas e perseguição política. A década que começou com o golpe de Uriburu e foi posteriormente chamada de “La Década Infame” foi marcada, ainda, pelas fraudes eleitorais.

Em 1943, o coronel Juan Domingo Perón (1895-1974) chegou ao poder e submeteu o país a uma onda de nacionalização, que incluiu estradas de ferro, telefônicas, companhias de gás e de energia elétrica, pesca, transporte aéreo, aço e o setor de seguros.

O peronismo baseou-se no apoio popular dos trabalhadores majoritariamente ligados à Confederação Geral do Trabalho (CGT). Essa massa deu força a Perón e sua mulher, Evita (1919-1952), e sobre ela ambos exerceram uma influência extraordinária.

Eva Perón, por sua vez, foi responsável pela conquista das mulheres ao direito ao voto. Foi ela quem organizou o Partido Peronista Femenino — conhecido também como Rama Femenina — e se dedicou a tarefas de assistência social. Quanto Eva Perón morreu, em julho de 1952, sua figura ganhou uma força quase mítica entre os setores mais humildes da população argentina.

O primeiro período em que Perón governou a Argentina estendeu-se de 1946 a 1955. A seguir, houve uma sequência alternada de governos civis e militares.

Em 1973, Perón voltou ao poder, mas assumiu o país sob forte crise. Com sua morte, em 1974, sua então esposa, Isabelita, assumiu o comando da nação, que se aprofundou ainda mais na crise econômica e política. Isabelita foi destituída do poder por um golpe militar, em 1976.


Guerra Suja
“Guerra suja” é como ficou conhecida a campanha de detenção ilegal, tortura e assassinatos deflagrada na ditadura militar que se manteve no poder na Argentina entre 1976 e 1983.

Após conquistarem o governo, depois de derrubarem a então presidente Isabelita Perón, os militares argentinos começaram o combate contra grupos esquerdistas e, posteriormente, contra todos os opositores, independentemente da corrente ideológica.

Até o fim do regime, cerca de 30 mil argentinos foram assassinados ou desapareceram, de acordo com entidades de direitos humanos. Os dados oficiais falam em 8.960 pessoas desaparecidas.

Os militares deixaram o poder depois do fracasso argentino na Guerra das Malvinas (1982) — conflito deflagrado pela Argentina contra o Reino Unido em 1982, com o objetivo de tentar recuperar o controle sobre as Ilhas Falkland, localizadas a sudeste da Costa argentina.