ENTENDER O MUNDO/DOSSIÊS
Livro, a memória dos séculos
 
 
Conheça Compreenda Saiba mais Participe Teste
    ARTIGO      PERSONAGENS
 CONTRA OS LIVROS
Imprimir Enviar Guardar
 
 
 
A vontade de destruir os livros surgiu de forma quase simultânea à sua invenção

O fator que destruiu mais livros ao longo da historia foi a umidade. Isso explica, por exemplo, que a maior parte de papiros conservados proceda de lugares secos e quentes, como algumas zonas do Egito.

O seguinte colocado dessa sombria lista de destruidores de livro fica com o ser humano, o segundo maior destruidor de livros da história. O panorama que se observa depois de todos os livros carcomidos, apodrecidos, queimados, mutilados, é desolador e se assemelha ao que segue depois de uma batalha.

Apesar de o escritor norte-americano de origem soviética Joseph Brodsky (1940-1996) ter afirmado uma vez que “não ler livros é pior que queimá-los”, na realidade, quando um livro arde se perde uma informação que resultará tanto mais valiosa quanto mais se adentre no passado, pois nos fala de usos e costumes, de línguas e de técnicas de uma civilização da qual somente nos resta um pergaminho ou as tablitas. Queimar livros e atear fogo à história humana é impossibilitar sua reconstrução a partir dos raros fragmentos que alcançamos no presente exatamente através da preservação desses documentos. Tal como disse o escritor argentino José Luis Borges, “o livro é a grande memória dos séculos [...]. Se os livros desaparecessem, desapareceria a história e, seguramente, o homem”.


VONTADE DESTRUTIVA
Os livros são parte indispensável e formadora da cultura humana e sofrem por isso. Segundo o poeta Heirich Heine (1797-1856), “os que queimam livros acabam queimando homens”. Melhor seria dizer que aqueles que ateiam fogo em livros destroem a memória e a cultura da humanidade.

Essa ânsia pela destruição de livros é antiga. Em 1975, um grupo de arqueólogos encontrou, a 55 km a sudoeste de Alepo, na Síria, restos de um antigo palácio no qual havia também uma biblioteca enterrada e quase completamente destruída. Nela havia um acervo de quinze mil tablitas. Para os arqueólogos, a destruição de tamanha biblioteca teria sido a guerra. Portanto, três mil anos antes de Cristo os livros eram vítimas da raiva humana.

Entre algumas das mais famosas destruições ou desaparecimentos de livros estão o saque à biblioteca de Aristóteles (384-322 a.C.), que desapareceram quando da morte repentina de Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), de quem o filósofo fora tutor.

A destruição das Tábuas da Lei é relatada no Êxodo, segundo livro do Pentateuco, cujo título alude à saída dos judeus do Egito, sob a liderança de Moisés, o qual, segundo o livro, em um acesso de cólera, as destruiu.

Em seu livro História universal da destruição dos livros, o pesquisador e escritor venezuelano Fernando Báez narra as proibições, os incêndios e as catástrofes naturais que ajudaram a destruir boa parte do conhecimento humano escritos nos livros. Báez fala dos biblioclastas (que ou quem destrói livros ou é seu inimigo) da Grécia, os censores de Roma, as condenações do Santo Ofício e conduz a exposição até as queimas de livros perpetradas pelos nazistas. Segundo Báez, “não são os ignorantes que destroem livros. São quase sempre intelectuais”.

O venezuelano também afirma que “Joseph Goebbels (1897-1945), o ministro da propaganda nazista, era filólogo. Os homens que queimaram livros em 10 de maio de 1933 e durante os anos seguintes, até 1945, na Alemanha, eram acadêmicos e estudantes notáveis. Isso confirma o que digo no livro: os nazistas tinham suas próprias obras, que consideravam irrefutáveis, e acreditavam que tudo o que não ia ao encontro de suas teses era falso e indigno”. A destruição tem relação, portanto, com os fundamentalismos, não com a ignorância, embora possa haver traços comuns entre um e outros.

Segundo o professor de literatura Luís Augusto Fischer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a obra de Báez, articulada em uma seqüência cronológica, “é um tétrico passeio pelas mais variadas modalidades pelas quais um livro pode ser destruído, das naturais (enchentes, incêndios, insetos) às humanas (individuais ou coletivas, no contexto de tomada de poder por um novo grupo ou na perseguição a dissidentes). Trata-se de uma erudição distribuída com leveza ao longo dos capítulos, que vêm das profundezas do mundo antigo, ocidental e oriental, passam pelos impérios antigos e alcançam o século XX, mas culminam mesmo na medonha ação estadunidense [recente destruição da Biblioteca Nacional do Iraque promovida pelo descaso das tropas norte-americanas]”.

Apesar de o escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) ter dito em certa ocasião que “não há livro tão ruim que não contenha algo bom”, no capítulo VI do Dom Quixote, Crevantes narra uma das cenas mais famosas de destruição de livros. Em tal capítulo, a sobrinha e a ama —que habitam na mesma casa que o Cavaleiro da Triste Figura — pensam que os livros de cavalarias devem ser queimados porque provocaram a loucura em Dom Quixote. Maese Nicolás e o barbeiro, dois vizinhos do Quixote, colocam mãos à obra, mas previamente decidem analisar os livros um a um, para selecionar aqueles que consideram bem escritos. Na verdade, no escrito cervantino subsiste a idéia de que os livros esteticamente bons não resultam danosos ou perniciosos para o leitor. Entre os livros que se salvam do destino fatal estão, por exemplo, os quatro livros que conformam Amadis de Gaula, em razão destes serem considerados os primeiros e os melhores livros de cavalaria. Contudo, depois de analisar somente algumas obras, e salvar da queima poucos livros, os dois personagens se cansam e decidem atear fogo em toda a biblioteca do Quixote.

Outro caso no qual se usa um critério epistemológico para promover a queima de livros foi descrito pelo filósofo escocês David Hume (1711-1776), o qual recomendava, ao final de seu livro Investigação sobre o entendimento humano, que o leitor lançasse às chamas todas as obras que não versassem sobre lógica e matemáticas ou que não descrevessem o mundo. Tal como ele mesmo dizia: “Ao passarmos os olhos pelas bibliotecas, persuadidos destes princípios, que devastação devemos fazer? Se pegarmos num volume de teologia ou de metafísica escolástica, por exemplo, perguntemos: Contém ele algum raciocínio abstrato acerca da quantidade ou do número? Não. Contém ele algum raciocínio experimental relativo à questão de fato e à existência? Não. Lançai-o às chamas, porque só pode conter sofisma e ilusão”.

Hume estabelece rígidos critérios epistemológicos de corte empirista que lhe permitem julgar os livros e determinar se estes contêm disparates, pois nesse caso não devemos perder tempo lendo-os; melhor lançá-los às chamas.

A grande quantidade de livros existentes obriga todo leitor a estabelecer padrões e adquirir um hábito seletivo. Por esse motivo, é lícito e recomendável descartar aqueles títulos que não nos interessam, o que, evidentemente, não guarda qualquer relação com sua queima.

Para aqueles que acreditam que o livro merece ser pasto das chamas, sempre cabe a possibilidade de que os biblioclastras não tenham compreendido corretamente a obra em questão.

Esse é um problema semelhante ao que envolve a tarefa do crítico ou daquele leitor que confecciona um cânone, tal como fez o crítico norte-americano Harold Bloom no final dos anos 1990 com sua obra O cânone ocidental. Porém, decidir as obras que devem formar o cânone não está nas mãos de uma só pessoa.

A história ensina que os fatores estéticos e epistemológicos são irrelevantes na hora de destruir livros. Ao contrário, os ditadores e os dirigentes religiosos foram os que contribuíram com mais sanha para o desaparecimento de tais obras. Um livro é um convite ao diálogo, ao debate e ao intercâmbio de idéias e seu lugar natural é a sociedade aberta e democrática. Tal como afirmava o filósofo Karl Popper, “a concepção da liberdade e o afã por preservá-la que caracterizam nossa civilização repousa em nosso amor pelos livros”. Não parece estranho, portanto, que os inimigos da liberdade sejam, ao mesmo tempo, inimigos dos livros.

Por isso vários ditadores e ditaduras queimaram livros. A Igreja, por sua vez, criou o Index librorum prohibitorum ou Índice dos livros proibidos, que consistia em uma lista de obras cuja leitura foi vedada aos cristãos. Elaborado a partir de 1559 pela Igreja Católica e abolido em 1966 pelo papa Paulo VI (1897-1978).

Contra essa perseguição ao saber nasceram várias políticas pró-leitura, pois sendo a palavra escrita o instrumento mais eficiente para a expressão e fixação da cultura e dos conhecimentos científicos e técnicos da sociedade, a leitura constitui a mais importante atividade de aquisição de saberes.

Um dos requisitos fundamentais da atividade pedagógica consiste em conseguir que a criança adquira capacidade de leitura e tenha assim acesso a toda a informação disponível em meios escritos: imprensa, livros etc.

Para a plena leitura, exige-se mais do que a simples decifração dos caracteres. Hoje distingüe-se, por exemplo, entre analfabetismo total e analfabetismo funcional. Este ocorre quando uma pessoa, apesar de saber ler, escrever e executar operações aritméticas simples, possui um horizonte cultural tão limitado que carece de motivação para aproximar-se da informação disponível em forma de texto escrito, seja de caráter prático, seja de tipo cultural ou recreativo. Isso, evidentemente, torna inútil seu conhecimento das noções básicas de leitura e escrita.

Considera-se, portanto, que não basta ensinar a ler, mas é necessário criar o hábito da leitura. Promovem-se, para isso, no meio escolar e depois no meio habitual, ações de sensibilização e de animação para a leitura, com a criação de bibliotecas públicas ambulantes, a edição de livros de preço reduzido, clubes ou círculos de leitura etc.

Segundo Jorge Werthein, doutor em Educação pela Universidade de Stanford (EUA) e Representante da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) no Brasil, “a leitura é um dos meios que o indivíduo tem de comunicar-se com o mundo, de ter contato com novas idéias, pontos de vista e experiências que talvez sua vida prática jamais lhe proporcionasse. Pensemos nos milhões de cartazes, placas, revistas, anúncios que vemos diariamente. Pensemos agora nessa mesma realidade vivida por uma pessoa que não sabe ler. Não reconhece letras, frases nem palavras. Os prejuízos vão desde o desenvolvimento pessoal e profissional até a ampliação das desigualdades sociais”.