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 O MISTÉRIO DO SANTO SUDÁRIO
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Cúpula da capilla do Santo Sudario, na catedral de Turín (Italia), obra de Guarino Guarini

O sudário de Turim é uma mortalha de linho de 4,36 m de comprimento e 1,10 m de largura, no qual está gravada a imagem, de frente e de costas, de um homem que teria sido morto crucificado. Seria essa imagem de Jesus de Nazaré, morto na cruz, no Gólgota, em Jerusalém, há quase dois mil anos? Esse é um mistério que a ciência, em áreas tão diversas como medicina, química, física e palinologia, apoiada nas mais diversas tecnologias, tenta resolver. O assunto é, sem dúvida, polêmico. Alguns resultados provam a autenticidade da peça, enquanto outros a denunciam como a maior e mais perfeita fraude da história.

As primeiras referências a essa mortalha de linho estão no Novo Testamento, especificamente nos relatos dos apóstolos. Em Mateus 27:59-60 está escrito: “...José, tomando o corpo, envolveu-o numa mortalha limpa e o pôs em seu túmulo novo, que talhara na rocha.... Em Lucas 23:52-53 se lê: “...Indo procurar Pilatos, [José de Arimatéia] pediu o corpo de Jesus. E descendo-o, envolveu-o numa mortalha e colocou-o numa tumba talhada em pedra, onde ainda ninguém tinha sido posto”. No Evangelho de João há versículos que mencionam a peça: “Eles tomaram o corpo de Jesus e o envolveram em panos de linho com aromas, como os judeus costumam sepultar” (João 19:40). E mais adiante: “Chega, então, também Simão Pedro, que o seguia, e entrou no sepulcro; vê os panos de linho por terra e o sudário que cobrira a cabeça de Jesus. O sudário não estava com os panos de linho no chão, mas enrolado num lugar, à parte” (João 20:6-7).

Desde as descrições bíblicas até a atualidade, o sudário realizou uma longa viagem cheia de problemas e dificuldades. Essa viagem, em linhas muito gerais, começa no século I da era cristã, quando o manto foi recolhido e guardado pelos cristãos. No século II, há indícios de que em Edessa (atualmente Urfa, na Turquia) existiu uma imagem de Jesus que pertencia ao rei Abgar V (m. em 13-50 d.C.). Quatro séculos mais tarde, durante a restauração da igreja de Santa Sofia de Edessa, foi encontrada uma imagem de Jesus chamada Acheropita (que significa “não feita por mão humana”), mais tarde conhecida como Mandylion (pano).

Essa informação coincide com um dado interessante, relacionado com as reproduções de Jesus feitas pelos artistas da época. Até o século IV, Jesus era apresentado sem barba e com traços romanos; nas pinturas posteriores a essa época (isto é, logo depois da redescoberta do manto), como, por exemplo, em O Cristo do Sinai, do século VI, aparece com as características do Jesus conhecido atualmente (com traços semitas, barba e cabelos compridos), que curiosamente tem mais de cem pontos de convergência com a figura do lençol (investigação feita por Alan Whagner, da Universidade de Durhan, nos Estados Unidos, mediante a técnica de superposição de imagens).

Em 944, o exército bizantino transferiu o Mandylion para Constantinopla. Nos anos de 1157 e 1201, a peça figurou no inventário das relíquias do palácio imperial. Nas crônicas da quarta cruzada, consta a informação de que a mortalha desapareceu quando Constantinopla foi saqueada. Diversos historiadores acreditam que o sudário foi escondido e levado para a Europa pelos templários, membros de uma ordem de cavaleiros cruzados que foi dissolvida no século XIV, acusada de praticar cultos não-cristãos. Em 1453, Margarita de Charny, descendente de um dos líderes templários, deu o sudário, que ficara mais de um século e meio desaparecido, a Ana de Lungnano, mulher do duque Ludovico de Savóia, que o levou para Chambéry (França). O motivo de um período tão longo de ocultação foi talvez o medo de represálias, por parte da Igreja, contra ladrões de relíquias, ou o fato de ter pertencido a uma ordem proibida.

De 1535 a 1561, a peça viajou por diversas cidades da França e da Itália, como Turim, Vercelli, Milão e Nice, voltando finalmente a Chambéry. Em 14 de setembro de 1578, Emanuelle Filiberto de Savóia levou a relíquia para Turim, onde permanece até hoje. Antes de morrer, Umberto II de Savóia doou a peça de linho ao papa.

Esta é apenas uma parte de sua história, já que não só teve que viajar milhares de quilômetros ao longo dos séculos como também precisou enfrentar e vencer “provas de fogo”, isto é, três incêndios de que foi vítima. O fogo deixou marcas no tecido em data indeterminada anterior a 1200, assim como no incêndio que ocorreu na noite de 3 de dezembro de 1532 na capela de Chambéry, no qual o fogo atingiu com intensidade a urna revestida de prata na qual o manto estava guardado. Como resultado, a prata que cobria o cofre se fundiu e se infiltrou no relicário, o que danificou o tecido e atingiu parte da figura que nele existe, especificamente um cotovelo e os ombros. Os danos foram reparados dois anos depois pelas irmãs clarissas. Finalmente, na noite de 11 de abril de 1997, houve outro incêndio na capela de Guarani (Turim), situada entre o palácio e a catedral, onde fica o relicário que protege o manto. Duas circunstâncias salvaram a relíquia da total destruição. A primeira: o relicário não estava no altar da capela, mas em local mais seguro, cercado por vidros blindados; a segunda: a ação eficiente dos bombeiros de Turim que, sabendo da existência do relicário, não hesitaram em destruir a golpes de machado o vidro blindado, tirando o relicário e levando-o para a residência do cardeal Giovanni Saldarini, que tem a custódia do sudário.


O sudário de Oviedo
Há mais de um sudário. O de Oviedo, na Espanha, é um pedaço de pano que supostamente traz estampado — com sangue do tipo AB, como a mortalha de Turim — o rosto de Cristo durante a crucificação, e contém os mesmos dois tipos de grãos de pólen que o sudário de Turim. Acredita-se que o sudário de Oviedo existia antes do século VIII e que o tecido esteve em um baú de relíquias que data no mínimo da época da invasão moura da Espanha. Afirma-se que ele estava no baú quando este foi aberto em 1075. Assim como o sudário de Turim o de Oviedo, mistura de lenda, fé e polêmica científica, pois ainda não se chegou a uma conclusão a respeito de sua validade histórica.

O sudário sob o olhar da ciência
São numerosos os estudos que as diversas disciplinas e grupos de cientistas realizaram sobre o sudário. A partir de objetivos e perspectivas diferentes e com a ajuda de diversas técnicas, esses estudos buscam, em linhas gerais, determinar pelo menos três pontos fundamentais: decifrar a história da imagem do homem que se encontra no sudário, de suas características e sofrimentos, e determinar se correspondem aos de Jesus de Nazaré; determinar a autenticidade da peça, estabelecendo sua origem e a data em que foi produzida; determinar de que forma se produziu a impressão no tecido.

Os primeiros estudos, apoiados em dados relativamente rigorosos, são decorrentes da primeira fotografia, tirada em 1898 pelo advogado e fotógrafo Sacondo Pía. Ao revelar e observar o negativo da foto, ele notou com assombro que o tecido era em si mesmo um verdadeiro negativo fotográfico (no qual o claro-escuro é inverso à maneira normal e aparente da experiência visual), o que finalmente mostrava uma imagem compreensível. Essa imagem foi estudada pelo químico francês Paul Vignon que, na ocasião, já suspeitava, por causa da intensidade existente em certos pontos, que havia uma distância entre a peça de tecido e a imagem, o que levava à suposição da existência de uma imagem em relevo. Embora fosse então apenas uma suposição, a suspeita foi corroborada alguns anos depois.


Investigação sobre o Sudário
A partir de fevereiro de 1976, realizou-se grande número de estudos científicos sobre o sudário, dentre os quais se destaca um estudo multidisciplinar desenvolvido pela recém-formada Corporação de Investigação do Sudário de Turim, que, em 29 de setembro de 1977, mobilizou 32 cientistas de todas as especialidades e crenças aos quais, com o tempo, se somaram cientistas de outras nacionalidades. Liderados pelos professores norte-americanos de física e ciências aeronáuticas John Jackson e Erick Jumper, os grupos contaram com as equipes e tecnologias mais sofisticadas do momento para realizar seus estudos. Foram obtidos dados reveladores e conclusões surpreendentes, depois de oito anos de investigações. Sobre o homem do sudário, as experiências mostraram:

Idade de trinta a 35 anos, 1,80 m de altura e 79 kg de peso, com barba e cabelos compridos e traços faciais característicos dos semitas. As amostras de sangue revelaram o grupo AB (também muito comum nos judeus). Foi brutalmente castigado e logo depois crucificado. A dedução é fruto das análises feitas pelos médicos (especialistas em medicina legal, anatomia etc.) na imagem do sudário.

A cartilagem do nariz está rompida e desviada para a direita (o que pode ter sido causado por uma queda, já que foram encontrados vestígios microscópicos de terra nessa parte do nariz, nos joelhos e nos pés).

Diversas contusões no rosto — nas faces, nas sobrancelhas e no centro — produzidas por golpes com punhos e paus. Cinqüenta pequenas e profundas feridas, que teriam sido produzidas por uma coroa de espinhos.

Nas costas há marcas do que seriam chicotadas, que correspondem às características do flagrum taxillatum utilizado pelos romanos (não usado na Idade Média). São mais de 120 chicotadas, quer dizer, ao estilo romano, já que os judeus não aplicavam mais de quarenta.

No lado direito do tórax, há uma ferida produzida por uma lança cujas medidas coincidem com as das lanças romanas (4,4 cm por 1,4 cm).

Quantidade abundante de bilirrubina no sangue, o que indicaria o estado de pressão e tensão próprio de um homem sob torturas. Feridas na omoplata, o que indicaria que não carregou a cruz completa e sim apenas o lenho horizontal da cruz.

O corpo apresenta uma inchação no abdome, sinal típico de asfixia. Por isso, os médicos concluíram que a morte foi causada exatamente por essa via, devido à posição dos braços na cruz. O homem do sudário, quando sentia que asfixiava, tentava erguer o peito para poder respirar, jogando todo o peso do corpo no prego dos pés e movendo também os pregos que ligavam os braços à cruz, o que lhe deve ter causado uma dor extremamente forte e insuportável.

Do ponto de vista da anatomia, alguns antropólogos dizem que os traços da imagem corresponderiam aos traços de um semita; outros indicam vários problemas anatômicos na imagem que há no pano.


Teste do carbono
Determinar a autenticidade do sudário e sua datação também foram preocupações dos cientistas. No passado, duvidou-se que a peça de linho fosse realmente o sudário que envolveu o corpo de Jesus. Ainda no século XIV havia dúvidas sobre sua autenticidade, como se pode ver na carta enviada em 1389 pelo bispo francês Pierre d’Acis ao papa Urbano VI, na qual o bispo se refere ao sudário como uma fraude e diz que “as pessoas insistem que se trata do sudário. Mas sei que o linho foi pintado a pena”.

Em 13 de outubro de 1988, foram divulgados os resultados das provas de carbono 14 que três laboratórios europeus, coordenados pelo diretor do Museu Britânico, realizaram em amostras do sudário. Os laudos foram desanimadores. Segundo os pesquisadores, “o manto não tem nem a mais remota possibilidade de ser da época de Cristo”; alguém o produziu “com o objetivo de fazer crer que era o sudário, ou se trata de uma grande coincidência”. De acordo com o resultado dos exames, o linho seria de alguma data situada entre os anos 1260 e 1390 da era cristã e, portanto, fora produzido em plena Idade Média.

Essas conclusões revolucionaram o mundo da ciência. A televisão transmitiu a notícia para todo o mundo, e chegou-se a afirmar que o Vaticano reconhecia o sudário como uma “falsificação medieval”, o que mais tarde foi desmentido pela assessoria de imprensa da sede papal.

Para muitos cientistas, que durante anos tinham trabalhado no sudário, havia dúvidas de que uma só prova fosse capaz de invalidar centenas de experiências e testes realizados antes da prova do carbono 14. Além disso, havia antecedentes importantes a favor da autenticidade do sudário. Um deles era a pesquisa realizada em 1973 por Max Frei, criminologista e botânico suíço especialista em palinologia (estudo do pólen das plantas). Em sua análise do sudário, Frei chegou a determinar a existência de 59 espécies diferentes de pólen, das quais 53 pertenciam a plantas exclusivas da região da Palestina e da Turquia. Muitas dessas espécies são encontradas em estratos sedimentares da Palestina do século I. Frei morreu sem conseguir terminar seus estudos, mas suas observações foram um ponto interessante a favor da autenticidade do manto.

As dúvidas sobre os resultados das provas do carbono 14 deram novo ânimo às pesquisas, desta vez com o objetivo de determinar a autenticidade da relíquia. Dimitri Kouznetsov, cientista nuclear russo ganhador do Prêmio Lênin de ciências, acreditava que os incêndios aos quais o sudário fora exposto poderiam ter causado uma contaminação de sua superfície que afetaria os testes com carbono 14. Para comprovar essa tese, realizou a seguinte experiência: tomou uma peça de linho originária da Palestina, de uma época situada entre os séculos I a.C e I da era cristã, e fez com que um dos laboratórios responsáveis pela datação do sudário aplicassem o mesmo método à nova peça. Confirmada a idade do linho, Kouznetsov submeteu-o a condições semelhantes às sofridas pelo manto no incêndio de 1532. A segunda datação pelo carbono 14 aplicada à peça de linho agora “contaminada” revelou uma data muito posterior. Em apenas alguns dias, ficou treze séculos mais nova. Em 1994, Kouznetsov proclamou a autenticidade do sudário e criticou duramente os cientistas que tinham constatado a “falsificação medieval”.

Os estudos de Frei com amostras de pólen encontradas no sudário também foram retomados. O botânico israelense Uri Baruch analisou o pólen e concluiu que provinha de plantas só existentes na região de Jerusalém, que florescem entre março e abril.

Com estudos análogos descobriu-se a presença de objetos redondos sobre as pálpebras do homem do sudário. O pesquisador Francis Filas, da Universidade de Loyola, nos Estados Unidos, identificou os objetos como moedas cunhadas na Palestina durante o governo de Pôncio Pilatos, entre os anos 29 e 32 da era cristã, que teriam sido postas sobre os olhos para manter as pálpebras fechadas. Assim, as conclusões da ciência voltavam a convergir para uma explicação do mistério de Turim.

Um dos aspectos mais intrigantes do problema diz respeito a como se teria produzido a imagem no manto. Por causa das características que apresenta, não foi possível ainda descobrir por meio de que fenômeno a imagem ficou impressa. A imagem não apresenta contornos definidos ou nítidos, ou seja, não tem uma direção, como ocorreria com um desenho ou uma pintura. Embora o linho seja uma tela muito fina, a imagem é superficial e não se vê do outro lado do tecido. As fibras estão coloridas, mas entre elas não há coágulos ou amostras de pintura, assim como também não há vestígios de líquidos além de água e sangue.

Se a imagem tivesse sido impressa por algum tipo de compressão, haveria deformações inevitáveis no linho, além de diferenças de intensidade, isto é, a parte dorsal (costas) seria mais forte que a frontal, o que seria o resultado de uma impressão por contato.

Alguns cientistas pensam que não existe um procedimento com o qual se possa reproduzir uma imagem com essas características. A única possibilidade é que o manto tenha sido exposto a uma forte fonte de radiação. Nesse ponto, os cientistas fazem apenas especulações, por falta de provas concretas. Sugerem que a imagem teria se produzido por algum tipo de radiação que emanou do corpo e que teria produzido uma espécie de “queimadura”. Evidentemente, trata-se de uma radiação com características sem explicação do ponto de vista físico e, embora a ciência continue a investigar, prefere não estabelecer uma opinião definida enquanto não encontrar a fonte da energia.

Muitos cientistas já tentaram refutar as conclusões do grupo liderado por Paul Damon, da Universidade do Arizona, que, em 1988, publicou na revista Nature que o sudário havia sido fabricado entre 1260 e 1390, com base em medições de carbono-14, a mais confiável e estabelecida das técnicas de datação para esse tipo de artefato.

A respeito das pesquisas que refutam seus testes com carbono-14, Paul Damon afirmou o seguinte: “Eu tenho lido estudos que vão contra nossas conclusões há muito tempo”. Para ele, não há nenhuma brecha em suas conclusões. Damon afirma que “dois grupos de especialistas escolheram cuidadosamente de onde nossas amostras deveriam vir, evitaram locais em que havia materiais remendados. Elas foram tiradas muito perto de onde vieram as amostras anteriores. Elas representam o manto original, estamos convictos disso. Para mim, a questão está totalmente fechada”.

Em 2005, um estudo conduzido por Raymond Rogers, químico aposentado do Laboratório Nacional de Los Alamosdiz, afirmou que o sudário pode até não ser verdadeiro, mas tem idade suficiente para isso. Ele, por sua vez, desqualifica medições anteriores feitas por Damon que apontavam que o manto de linho era fruto de uma fraude da Idade Média. Para Rogers, o tecido tem de 1.600 a três mil anos de idade.

Para alguns cientistas o sudário, se não for de Cristo, é umas maiores coincidências da história. Para outros, os sérios problemas anatômicos da imagem, a semelhança da figura com representações medievais de Jesus indicam que o sudário é mera falsificação.

Disso tudo a única certeza que fica é que o manto ainda vai gerar muita polêmica e que alguns cientistas, cegos pela fé, podem ter concluído, equivocadamente, que o sudário era autêntico, enquanto outros, cegos pela ciência, apressam-se em dizer que o sudário é falso.