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Cuba, a caminho de uma nova revolução
 
 
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 A ILHA DO MEIO
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A Revolução cubana, comandada por Fidel Castro, estalou em 26 de julho de 1953

Antes do descobrimento da América por Cristóvão Colombo (1451-1506), em 1492, os cibonéis e os guanahatabeys eram os povos que habitavam o oeste de Cuba, enquanto os taínos eram os que ocupavam o restante do território, incluindo-se algumas outras ilhas do arquipélago.

Cuba foi avistada por Colombo em sua primeira viagem, em 27 de outubro de 1492. Depois de batizá-la com o nome de Juana, adotou a versão castelhana dos topônimos indígenas Coabaí ou Cubanacán, que designavam respectivamente a ilha e uma aldeia no seu interior. Em 1511, Diego Velázquez (1599-1660) fundou o primeiro assentamento em Baracoa, com cerca de 300 espanhóis.

Nas primeiras décadas de colonização, a exploração de ouro se revelou pouco rentável, contribuindo mais para que se dizimasse a população indígena, a qual foi escravizada e obrigada a trabalhar nas minas, do que para uma possível extração de valores para a metrópole. Logo a ilha se converteu em ponto de escala e aprovisionamento das numerosas expedições que os espanhóis realizaram à Flórida, à península de Yucatán e à costa do golfo do México, em busca de metais preciosos.

As principais dificuldades que os colonos espanhóis tiveram de enfrentar foram as epidemias, os furacões e os ataques de piratas e navegadores de outros países europeus, que tratavam de estabelecer seus próprios assentamentos na ilha, com a intenção de obter portos livres para seu comércio. A frota espanhola fazia a ligação de quase toda a América hispânica com a metrópole através de Cuba, o que aumentou a importância comercial e estratégica da ilha.

Ao longo do século XVIII, intensificou-se o desenvolvimento agrícola, que dependeu cada vez mais de plantações de cana-de-açúcar e dos escravos africanos. Cuba foi um dos poucos territórios hispânicos da América que permaneceram fiéis à metrópole depois da invasão francesa na Península Ibérica.

Em 1821, surgiu um movimento de independência, mas seus mentores, entre os quais o poeta José Maria de Heredia (1842-1905), foram presos e punidos.


História atual
A história atual de Cuba está profundamente ligada à sua trajetória política durante o século XX. A ilha que vivia sob domínio espanhol no final do século XIX, e sempre esteve na mira dos Estados Unidos, foi motivo de disputa entre ambas as potências durante a Guerra de Cuba, uma guerra entre espanhóis e norte-americanos. O fim do conflito resultou na derrota da Espanha, que perdeu sua última colônia, e na passagem de Cuba ao domínio dos EUA. A partir de então começaram a ocorrer na ilha distintas ditaduras, primeiro sob a aprovação dos Estados Unidos e, depois, após a declaração de independência da ilha, em 1945, sem o seu controle. Esse clima político produziu a semente da Revolução Cubana, que, comandada por Fidel Castro, estalou em 26 de julho de 1953 e levou à instauração de um regime comunista que participaria ativamente da chamada Guerra Fria.

No final do século XX, as forças do bloco comunista entraram em colapso e a União da Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) acabou desaparecendo. Esse fato destruiu fatalmente a “cortina de ferro” erigida entre os países governados por um regime comunista central, a URSS, e as democracias ocidentais. Pouco a pouco, os líderes comunistas europeus foram caindo e sendo substituídos por políticos de distintas correntes, nenhum deles, no entanto, de denominação comunista. Dessa maneira, os únicos estados do mundo regidos por essa corrente ideológica que sobreviveram à Guerra Fria são, atualmente, China, Coreia do Norte, Vietnã, Laos e a Cuba de Fidel.


DE CONTROLADOR A CONTROLADO
Cuba iniciou o século XX como um país que acabava de se desligar da Espanha — país que a havia controlado desde o século XVI —, depois de uma larga e cruenta guerra. Entretanto, após essa vitória, a ilha caribenha não se constituiu em um Estado independente. A razão disso reside no fato dos Estados Unidos pretenderem assegurar o controle de Cuba, território considerado estratégico para os norte-americanos. Foi o exército dos EUA que derrotou as tropas espanholas, aliás, com relativa facilidade, na última trama do conflito. A guerra entre norte-americanos e espanhóis acabou em 10 de dezembro de 1898. O tratado de paz assinado pelos dois países afirmava que Cuba — como outras colônias espanholas — passaria a ser controlada pelos Estados Unidos a partir de 1º de janeiro de 1899.

Desde então, o governo estadunidense buscou limitar o governo cubano com medidas como a Emenda Platt, aprovada pelo Congresso e pelo Senado de Washington, em 1900, que estipulava que os Estados Unidos poderiam intervir nos assuntos internos de Cuba sempre que isso fosse oportuno. Como resultado, a constituição cubana previa, a partir de 1901, o direito do governo do país vizinho de controlar a política nacional. Assim, Cuba se desligou da Espanha, mas passou, na verdade, a depender dos Estados Unidos. Dessa maneira, o governo norte-americano assegurou o aproveitamento do grande potencial econômico cubano, mantendo, ainda, o propósito de anexar a ilha no futuro.


Governos republicanos
A administração republicana em Cuba começou em 20 de maio de 1902, com o governo de Tomás Estrada Palma (1835-1908), primeiro presidente da Cuba independente, notável por sua honradez e seu interesse pela educação pública. Sua intenção de permanecer no poder depois das eleições de 1906 deu lugar à segunda ocupação da ilha pelos norte-americanos, em 29 de setembro daquele ano. O final do segundo governo republicano em Cuba foi marcado pela corrupção. O presidente era o general José Miguel Gómez (1909-1912), as tropas comandadas por ele sufocaram várias manifestações e protestos na parte oriental da ilha, nas quais morreram mais de três mil pessoas.

Seguiram-se os governos de Mario García Menocal (1913-1921), Alfredo Zayas (1921-1925) e Gerardo Machado (1925-1933), que, no segundo mandato, tornou-se ditador. Seu sucessor, Carlos Manuel de Céspedes y Quesada (1871-1939), foi derrubado por um golpe militar, em 4 de setembro de 1933, liderado pelo sargento Fulgencio Batista (1901-1973) e pelo professor Ramón Grau San Martín (1889-1969).

Em 1934, San Martín foi obrigado a renunciar e se sucederam vários governos provisórios. Batista acabou por manter o poder de fato, assumindo a presidência constitucional de 1940 a 1944. Seguiram-se depois dois períodos de governo democrático, com San Martín (1944-1948) e Carlos Prío Socarrás (1948-1952), que sofreu novo golpe militar, novamente encabeçado por Batista, em 1952.

O povo cubano, que vivia sob a corrupção e a pobreza, rechaçava, contudo, a ideia norte-americana de anexação. Por isso, Washington optou por americanizar progressivamente a ilha, mediante a transformação da sociedade e uma crescente imigração anglo-saxônica que controlava a economia do país. Uma economia limitada, já que se baseava exclusivamente no negócio do açúcar e na relação comercial entre Cuba e os Estados Unidos. Essa circunstância se somava à pobreza em que vivia a maioria dos cubanos, que, além disso, eram obrigados a suportar duras condições de trabalho e um sistema político local baseado no clientelismo e no coronelismo, com os políticos dos partidos Liberal e Conservador alternando-se no poder com o único objetivo de enriquecer. Esse quadro gestou a revolução.


O MOVIMENTO PELA INDEPENDÊNCIA
Enquanto os governos se sucediam, o movimento de independência cubano entrou, no século XX, em uma etapa de ostracismo, algo que beneficiava os interesses dos Estados Unidos. Já nos primeiros meses de controle norte-americano, Máximo Gómez, general em chefe do Exército Libertador — tropas que haviam liderado a resistência cubana contra a ocupação espanhola —, mantinha muitas discrepâncias com a Assembleia de Representantes, órgão político máximo do movimento libertador na ilha. Como resultado, o delegado do Partido Revolucionário Cubano, Tomás Estrada Palma, decidiu dissolver tanto a formação política como o braço armado revolucionário. Isso deixou o movimento de independência cubano acéfalo.

Contudo, o difícil panorama de Cuba no início do século XX manteve vivo o movimento contrário à tutela norte-americana, principalmente em duas frentes: entre os universitários e o proletariado. A resistência desses setores aumentou a instabilidade política da ilha, na qual governos corruptos tentavam sucessivamente acabar com as dissensões. Antes da revolução castrista, a ilha foi duramente marcada pela ditadura do militar Fulgencio Batista.

Batista era um ditador cruel e repressivo com a dissidência, na qual se destacava uma jovem geração popular de esquerda liderada por um advogado chamado Fidel Alejandro Castro Ruz, membro do Partido Ortodoxo.


FIDEL E O MOVIMENTO 26 DE JULHO
Em 26 de julho de 1953, Castro encabeçou uma primeira grande revolta armada. Ela consistia em uma tomada coordenada dos quartéis de Moncada, em Santiago de Cuba, e de Céspedes, em Bayamo, que deveria produzir uma insurreição popular generalizada. A operação fracassou, e muitos dos revolucionários foram presos ou executados. Castro, que se encontrava entre os detidos, pronunciou durante seu julgamento uma famosa defesa conhecida como “A História me Absolverá”, a qual se converteria no programa da revolução castrista. Nesse discurso, o líder revolucionário justificava o direito do povo de se rebelar contra a tirania e a opressão. Apesar do discurso, ou até mesmo por conta dele, Fidel foi condenado à prisão.

Pouco depois, uma época de distensão política permitiu que Castro saísse do cárcere e viajasse para o México. Desse país, o revolucionário organizou uma expedição para tomar Cuba. O famoso barco Granma, com cerca de 80 homens, entre os quais se encontrava o próprio Castro, desembarcou na costa cubana em novembro de 1956. Essa nova tentativa de revolução também fracassou, mas o chamado Movimento 26 de julho, o M-26, em homenagem à primeira revolta, conseguiu criar um foco guerrilheiro estável em Sierra Maestra, na parte oeste da ilha cubana. A partir de então, sucederam-se as ações das milícias revolucionárias e a repressão da ditadura de Batista.

Pouco a pouco, o M-26 conseguiu aglutinar todos os movimentos pró-castristas, entre eles o Partido Socialista Popular (PSP), e, mais adiante, o denominado Partido Comunista de Cuba. Isso trouxe para Castro um enorme apoio popular que desencadeou os acontecimentos revolucionários.

Em agosto de 1958, começou a ofensiva final dos homens de Fidel, e o comandante entrou triunfante em Havana em 1º de janeiro de 1959. Batista, por sua vez, exilou-se na Espanha de Franco, onde morreu em 1973.


GOVERNO PRÓ-SOVIÉTICO
Castro fundamentou teoricamente sua revolução no anti-imperialismo e em um profundo sentimento nacionalista cubano. Não obstante, a ascensão de membros destacados do PSP a postos-chave do M-26 transformou os postulados castristas em posições situadas mais à esquerda.

Como resultado, o regime que acabou com a ditadura de Batista adotou o modelo marxista-leninista e iniciou toda uma série de políticas socialistas em prol de uma teórica igualdade entre todos os cubanos: expropriação e nacionalização dos bens econômicos, sistemas gratuitos de escolarização e saúde, entre outras medidas. Tudo sob a batuta do grande líder, Fidel Castro. Não é de estranhar que, após essa virada em direção ao comunismo, Cuba passou a ser um aliado e um posto avançado da URSS a apenas alguns quilômetros de distância da costa norte-americana.

Esta proximidade geográfica não demorou a produzir problemas para Cuba. Os Estados Unidos consideravam prioritário acabar com o regime de Castro porque, para os norte-americanos havia o risco do líder cubano influenciar, com suas ideias revolucionárias e anti-imperialistas, outros países da América Latina a tomar o mesmo caminho de uma revolução socialista. Por esse motivo, os EUA tentaram derrubar o comandante cubano inúmeras vezes, desde que Castro subiu ao poder em Cuba. O primeiro e único intento conhecido se deu em abril de 1961, quando John Fitzgerald Kennedy (1917-1963), há apenas alguns meses presidente norte-americano, tentou derrubar Castro. O governo de seu antecessor, Dwight Eisenhower (1890-1969), havia elaborado um plano para que paramilitares anticastristas invadissem Cuba depois de receber treinamento e apoio logístico por parte da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA, na sigla em inglês para Central Intelligence Agency). Kennedy aprovou a operação. O fracasso da invasão foi total. Conhecida como a “invasão da Baía dos Porcos”, baía localizada na praia Girón, situada na província de Matanzas, na costa sul da ilha caribenha, a tentativa de golpe acabou com os paramilitares anticastristas mortos ou presos pelo Exército cubano em apenas 72 horas. A facilidade com que os cubanos venceram os paramilitares se deu, entre outras coisas, em função da negativa de Kennedy em dar cobertura aos milicianos com tropas norte-americanas.


CRISE DOS MÍSSEIS
A Baía dos Porcos foi apenas o prólogo do que aconteceria alguns meses depois. De entrada, o episódio serviu para reavivar as tensões entre os Estados Unidos e a URSS, que pareciam ter diminuído após a chegada de Kennedy à Casa Branca e a consolidação de Nikita Kruschev (1894-1971) como sucessor de Josef Stalin (1879-1953) na cúpula de poder soviético. Se em Washington, Cuba era considerada uma perigosa referência política para outros países latino-americanos, isso, por sua vez, era tido em Moscou como uma grande oportunidade. A existência de uma Cuba comunista repercutia tanto na política internacional dos EUA quanto na soviética. O exemplo mais plausível dessa importância foi a chamada “crise dos mísseis”. A URSS quis igualar a ameaça que significava para aquele país o fato de os norte-americanos manterem armas de médio alcance na fronteira turca e na antiga Alemanha Ocidental. Por isso os russos instalaram, em segredo, bases de mísseis nucleares capazes de alcançar os Estados Unidos a partir de Cuba.

Aviões de espionagem do exército norte-americano — modelos conhecidos como U-2 —, no entanto, descobriram as instalações soviéticas em Cuba em meados de outubro de 1962. Isso deu lugar a duas semanas de tensão, concretamente 13 longos dias, nas quais o mundo temeu por uma catástrofe nuclear de grandes dimensões. O presidente dos EUA recebeu pressões de seu aparato militar para invadir Cuba e acabar com a ameaça que os mísseis representavam, porém, tais medidas poderiam culminar em uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a URSS. Kennedy optou finalmente por estabelecer uma quarentena sobre a ilha de Cuba: todo barco soviético que se dirigisse à ilha teria de dar meia-volta.

No princípio, os soviéticos não pareciam dispostos a aceitar as condições estadunidenses, as quais exigiam o imediato desmantelamento de qualquer armamento ofensivo que pudesse colocar em perigo a segurança dos Estados Unidos. Sem embargo, Kruschev acabou aceitando retirar seus sistemas de mísseis de Cuba se, em troca, a Casa Branca assumisse dois compromissos: não invadir a ilha nem ajudar outros a fazê-lo, e retirar os mísseis nucleares Júpiter que, desde a fronteira da Turquia com a URSS, apontavam diretamente para as principais cidades soviéticas. Kennedy se comprometeu explicitamente a cumprir a primeira parte do acordo. No que dizia respeito à segunda condição, o trato não foi adiante, pois aceitá-lo seria uma demonstração de debilidade frente à URSS. Contudo, a Casa Branca iniciou o desmantelamento dos mísseis turcos seis meses depois da crise. De qualquer maneira, tal desmantelamento já estava previsto desde muito antes, pois os mísseis eram considerados obsoletos.

A partir de então, a tensão da Guerra Fria se trasladou para a Europa, mais precisamente Berlim, onde os soviéticos decidiram construir um muro para separar Berlim Oriental, que estava sob controle comunista, de Berlim Ocidental, amplamente apoiada pelos EUA.

Entretanto, nem essa drástica medida foi capaz de desencadear os críticos momentos de tensão como os provocados pelo episódio dos mísseis em Cuba. De fato, após solucionarem a crise, Kennedy e Kruschev decidiram estabelecer uma linha de comunicação telefônica direta que serviria para solucionar, de forma mais efetiva e rápida possível, situações similares. Essa linha ficou historicamente conhecida como o “telefone vermelho”.


ISOLAMENTO E AJUDA SOVIÉTICA
Após a invasão da Baía dos Porcos e a crise dos mísseis, as disputas entre Estados Unidos e URSS tendo a ilha caribenha como tabuleiro de um jogo de xadrez continuaram no plano econômico. Enquanto os estadunidenses buscavam asfixiar o regime de Fidel economicamente, a URSS tratava de manter a economia cubana forte para, desse modo, prolongar e reforçar o país comunista mais próximo do seu maior inimigo: os EUA.

A Casa Branca aprovou, então, um embargo econômico a Cuba em 3 de fevereiro de 1962, quando já se sabia que Castro havia se colocado ao lado dos soviéticos e assumido a implantação de um modelo marxista-leninista de Estado na ilha. Porém, antes da crise dos mísseis, o triunfo da revolução cubana já havia sofrido inúmeras pressões de Washington. De qualquer forma, a disposição assinada pelo presidente Kennedy estabelecia oficialmente o embargo total a qualquer comércio entre seu país e o que era comandado por Fidel. Essa primeira pedra legislativa foi secundada meses depois por uma série de normas que reforçaram o bloqueio, englobadas na Lei de Comércio com o Inimigo e as Regulamentações para o Controle dos Ativos Cubanos. Neste último compêndio de regras se estabelecia a proibição a qualquer cidadão norte-americano de viajar para Cuba.

Por sua vez, a União Soviética tentou fazer oposição à estratégia norte-americana com uma política de ajudas cada vez maiores à economia cubana. Em fevereiro de 1960, o governo soviético passou a comprar todo o açúcar necessário para evitar que a revolução castrista naufragasse. Em números concretos, o acordo inicial estipulava que a URSS compraria 1 milhão de toneladas de açúcar cubano, durante um período de cinco anos, e pagaria 20% da negociação em dólares e o resto em bens materiais. Além disso, Moscou concedeu a Cuba um crédito de US$ 100 milhões. A importância do apoio soviético a Castro resultou, todavia, cada vez menor quando analisamos os números a partir da queda do gigante comunista e da maioria dos países europeus afins àquele regime. Cuba, por sua vez, perdeu entre US$ 3 e 4 bilhões em ajudas e até 80% do mercado para suas exportações em função da crise soviética.

Segundo o jornalista Jânio de Freitas, “do começo dos anos 60 até a suspensão da ajuda já nos 90, forçada pela crise econômica da URSS, foram 30 anos em que os soviéticos proporcionaram a Cuba o equivalente, segundo as diferentes estimativas, à média entre US$ 4 milhões e US$ 7 milhões por dia. Na maior parte, era a diferença entre a compra de açúcar por preço acima do mercado e venda de petróleo abaixo da cotação internacional, para uso e transações exteriores de Cuba. O restante provinha de variadas compras favorecidas. Era muito dinheiro. Ouço que o governo revolucionário investiu no interior. E estar na desfigurada Havana não autoriza a falar do interior. Mas não há dúvida de que a ajuda soviética não foi aproveitada com competência à altura das possibilidades que ofereceu. Os cubanos responsabilizam o ‘bloqueo’, o embargo que os Estados Unidos mantêm, desde a crise dos mísseis, ao seu e a certa parte do comércio internacional com Cuba. A explicação é insuficiente. Seu maior valor está no estado de espírito que o ‘bloqueo’ permite ao discurso oficial criar na população, fazendo-a menos reivindicativa e mais tolerante com as imensas carências materiais do seu dia a dia”.

A Guerra Fria acabou há mais de uma década e as ajudas soviéticas também. Porém, Fidel Castro conseguiu que sua ditadura comunista sobrevivesse. Se levarmos em conta que, na segunda metade do século XX, os Estados Unidos agiram ativamente na política de toda América Latina, em alguns casos promovendo a ascensão de governos totalitários afins a Washington, como o de Manuel Antonio Noriega (1939) no Panamá, o de François Duvalier (1907-1971) no Haiti e o de Augusto Pinochet (1915-2006) no Chile, Cuba aparece nesse contexto como um país pequeno, porém independente em relação à força norte-americana na região.