ENTENDER O MUNDO/DOSSIÊS
Tom Jobim, o maestro soberano
 
 
Conheça Compreenda Saiba mais Participe Teste
    ARTIGO      PERSONAGENS
 BOSSA NOVA, O BRASIL GLOBAL
Imprimir Enviar Guardar
 
 
 
A bossa nova de Tom Jobim influenciou boa parte das gerações posteriores de músicos brasileiros

Os últimos anos da década de 1950, no Rio de Janeiro, foram o palco onde surgiu a bossa nova. Esse período constitui uma inegável evolução na música popular brasileira, pois foi a época em que a música oriunda dos morros, principalmente o samba, ganhou espaço entre a elite e a classe média carioca.

Nesse período, estudantes ricos ou de classe média não só entram em contato com as formas musicais cultivadas apenas por músicos populares como também passam a executá-las.

Ocorre que esse mesmo público era apreciador do jazz norte-americano — estilo musical que , nos EUA, já havia feito o mesmo percurso, isto é, saiu dos bairros negros e começou a penetrar na classe média e na classe rica dos brancos. Outro percurso que o jazz já havia percorrido e que a música brasileira começaria, nos anos 1950, também trilhou foi uma espécie de intelectualização. Nos EUA, os beatniks — movimento literário, musical e comportamental surgido nos Estados Unidos, na década de 1950, como reação à militarização e ao consumismo do pós-guerra — ajudaram a transformar o jazz em be-bop e cool jazz. Da mesma forma, os brancos cariocas e estudantes universitários ajudaram a transformar o samba dos morros em bossa nova, dando uma feição mais intimista à música brasileira.

Assim como os beatniks, os rapazes da bossa nova foram incompreendidos no início. Depois, se firmaram em todo Brasil. Ganharam o mundo e acabaram conversando com a música internacional, principalmente o jazz norte-americano.

A bossa nova foi, portanto, um movimento renovador da música popular brasileira. Caracterizou-se por romper com as fórmulas tradicionais de composição e instrumentação, por harmonias mais elaboradas e por letras coloquiais.

Segundo o jornalista Luís Nassif, “o movimento da bossa nova marcou a passagem da música brasileira para a contemporaneidade. Dos anos 50 aos anos 70 houve o resgate das diversas manifestações musicais brasileiras, da música mais diretamente influenciada pelo jazz e pelo bolero aos ritmos nordestinos e ao samba de morro, um amálgama que conquistou a classe média mais intelectualizada, resultando no que é chamado de MPB”.


IMPASSE

À época do surgimento da bossa nova, a música popular brasileira vivia um momento de impasse, em que os ritmos norte-americanos e caribenhos dominavam o mercado fonográfico.

Nesse contexto, um público carioca de elite, ouvinte de jazz, especialmente em sua forma cool, passou a aparecer abrasileirado no trabalho de compositores e intérpretes considerados precursores da bossa nova como Dick Farney, o conjunto vocal Os Cariocas, Antônio Maria, Ismael Neto, Johnny Alf, Nora Nei, Dóris Monteiro e Maísa.

Em 1958, o lançamento do disco Canção de amor demais, com músicas e arranjos de Tom e Vinicius, com a cantora Eliseth Cardoso. Apontado mais tarde como um antecedente direto da bossa nova, o disco apresentava em algumas faixas o violonista João Gilberto, cuja revolucionária batida sincopada caracterizaria, daí em diante, a bossa nova.

Em 1959, foi lançado Chega de saudade, disco considerado o marco fundador da bossa nova, com composições de Tom, Vinicius, Newton Mendonça, Carlos Lira e Ronaldo Bôscoli, ao lado de autores tradicionais, como Ari Barroso e Dorival Caymmi.

Interpretadas no estilo contido e coloquial de João Gilberto e acompanhadas pela batida de seu violão, as músicas desse disco apresentavam um surpreendente predomínio dos tons menores, o que simulava desafinação. “Desafinado”, aliás, era o título de uma das faixas, que se tornaria um clássico do movimento.

Vários nomes logo se destacaram como compositores, além dos já citados: Baden Powell, Roberto Menescal, Oscar Castro Neves, Sérgio Ricardo, Luís Bonfá e João Donato, entre outros. Dos intérpretes, que inauguraram um estilo isento de impostação e virtuosismo, cabe destacar as cantoras Sílvia Teles, Nara Leão e Alaíde Costa; e os conjuntos Quarteto em Cy, Sexteto Bossa Rio, Tamba Trio e Zimbo Trio. Em 1962, uma polêmica apresentação de bossa nova no Carnegie Hall de Nova York projetou internacionalmente o movimento.

Além dos nomes mais ligados ao movimento, muitos outros compositores e intérpretes, como Dolores Duran, Maísa, Billy Blanco e Lúcio Alves se deixaram influenciar por ele.

Outros foram divulgadores da bossa nova nos Estados Unidos, como Maria Helena Toledo, Astrud Gilberto e Sérgio Mendes.

Embora bem recebida pelo público jovem, a bossa nova era criticada por seu alheamento aos problemas sociais. O espetáculo Opinião foi o divisor de águas entre a chamada “música de apartamento”, repassada de humor, ironia e nostalgia, centrada no amor e rica em imagens como a do “barquinho a deslizar no macio azul do mar”, e a música engajada, chamada “de protesto”.

Opinião apresentava dois compositores de origem popular, o maranhense João do Vale e o carioca Zé Kéti, mas foram especialmente jovens de classe média os que mais se destacaram como autores da música de protesto: Marcos e Paulo Sérgio Vale, Geraldo Vandré e Téo de Barros, Rui Guerra, Oduvaldo Viana Filho, Ari Toledo e, sobretudo, Carlos Lira e Sérgio Ricardo.

A partir de 1964, a bossa nova começou a perder espaço, que foi ocupado por outras tendências, como o tropicalismo ou a jovem guarda. A música popular, no entanto, estava radicalmente mudada e revalorizada. A influência da bossa nova foi determinante na obra dos excepcionais compositores que se lhe seguiram, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo, Milton Nascimento e Gilberto Gil.

Para Luís Nassif, a bossa nova foi “um movimento (…) com símbolos próprios (violão, banquinho, praia). Juntou de forma brilhante o marketing do Rio de Janeiro — desde a década anterior um símbolo mundial de mulheres bonitas e sensualidade —, casando com a contemporaneidade da classe média moderna. Virou padrão mundial de modo de vida”.

Teve, segundo Nassif, “importância como estilo, como modo de tocar. E aí se está falando em João Gilberto. Seu grande mérito foi ter desenvolvido uma técnica de tocar na qual acabaram cabendo quase todos os gêneros musicais do país. No final dos anos 60, além da bossa nova propriamente dita e do samba-canção, o estilo influenciou a marchinha, a marcha-rancho e a própria valsa. Depois disso, foi responsável pelo enorme avanço da música brasileira pós-bossa nova. Trouxe a nova harmonia para a MPB”. O jornalista afirma que “esse novo estilo de harmonia surge a partir dos anos 40 na música norte-americana. Entra no Brasil por meio de dois músicos centrais: Garoto no violão e Johnny Alf no piano. Há um conjunto de músicos norte-americanos influenciando a nova geração. Chat Baker é uma influência clássica e reconhecida, mas há também o violão de Barney Kessel e a voz de Julie London”.

Já o maestro Júlio Medaglia afirma que “no antológico LP Canção do Amor Demais, com Elizeth Cardoso, nota-se a velha tradição orquestral das rádios e o manuseio sinfônico típico dos arranjadores americanos convencionais como Kostelanetz [1901-1980], Mantovani ou Melachrino. Em Chega de Saudade e no seguinte Canção do Amor Demais, as toneladas sonoras são substituídas pela sutileza — por frases curtas, pelo emprego supereconômico de efeitos instrumentais. E, se a música norte-americana nos forneceu um sem-número de elementos estruturais via jazz, eles foram aqui reprocessados e devolvidos em forma de bossa nova. É bom que se diga que, enquanto as outras músicas latino-americanas entraram no mercado americano como fundo musical de festinhas de aniversário ou formatura, como ‘recuerdos’ exóticos dos mares do sul, nossa música ali penetrou através de sua elite musical, dos mais refinados e modernos músicos de jazz. Posteriormente é que ela foi popularizada através do maior cantor pop do século, Frank Sinatra”.

Foi com a bossa nova que o Brasil saiu do papel de coadjuvante na música popular internacional, para exercer uma posição de destaque, atualmente ocupada por músicos como Caetano Veloso, Chico Buarque, Tom Zé e Djavan.


PARA SABER MAIS SOBRE O TEMA

Oscar Niemeyer e a beleza das curvas

Grande sertão: veredas, 50 anos

João Gilberto, 75 anos