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Novas tecnologias para reduzir a exclusão digital
 
 
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 E SE NÃO NAVEGAMOS?
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Cada vez há mais gestões que podem se fazer através da internet, agilizando-se muitos processos

Por que é tão importante entrar na sociedade da informação? A resposta é clara e contundente: quem está nela tem mais chances no mundo do trabalho e do conhecimento.

Em apenas doze anos as novas tecnologias configuraram um novo mundo em que estamos todos interconectados e a informação circula numa velocidade vertiginosa. É possível acessá-la de qualquer ponto e estabelecer um intercâmbio com qualquer pessoa ou entidade do planeta em questão de segundos. A informação é o bem mais valioso de nosso tempo.


O PODER DA INFORMAÇÃO
A internet tornou-se o eixo dessa nova sociedade. É o mais poderoso meio de comunicação (atualmente se calcula que há setecentos milhões de internautas no mundo, e que a cada dia aparecem 7,5 milhões de novos sites). É a base dos ambientes informáticos da gestão das empresas e da administração estatal, e também o maior mercado do mundo. Para dar um exemplo, prevê-se que, em 2006, cerca de 18% das transações entre empresas e entre empresas e particulares se realizarão por meio do e-commerce (comércio eletrônico). As vantagens, porém, não são só para as empresas, que se tornam mais eficazes e competitivas. As universidades, os hospitais, os centros de pesquisa científica, as escolas, as administrações, entre outros, podem trocar informações em escala planetária acessando todo conhecimento que se produz no mundo. É possível comprar, vender, estudar, informar-se ou simplesmente conversar a milhares de quilômetros de distância. Alguém pode imaginar um poder maior?

Nascido na Tunísia em 1956, Pierre Lévy, um dos gurus da nova sociedade do conhecimento, vaticina que as sociedades que não integrarem a rede de redes em sua estrutura ficarão marginalizadas e serão engolidas pelos países tecnologicamente mais avançados.

Para Lévy, as possibilidades que as novas mídias e o ciberespaço oferecem poderão fazer da sociedade um organismo multifacetado de coletividades inteligentes. Os países que não acompanharem a evolução da internet poderão ficar de fora da socialização das mensagens promovidas dentro do ciberespaço, o qual, segundo ele, jamais será o criador de uma sociedade inteligente, mas certamente é o ambiente mais propício possível para o seu desenvolvimento.


A LACUNA DIGITAL
Portanto, é importante não perder o trem digital. Isso faz da diferença entre os países ricos e pobres e entre as distintas camadas sociais no acesso às novas tecnologias um tema de grande preocupação em escala internacional. A internet e as novas tecnologias podem prestar um grande serviço à humanidade favorecendo o desenvolvimento das áreas mais pobres do planeta e combatendo as desigualdades. Ao mesmo tempo, entretanto, se não se adotam políticas que incentivem o acesso à internet nos países em desenvolvimento, pode-se provocar uma diferença ainda maior entre ricos e pobres.

Nesse sentido, a primeira reunião de cúpula da Sociedade da Informação, da qual 175 países participaram, em Genebra, em dezembro de 2003, fixou 2005 como data limite para que metade da população tivesse acesso às novas tecnologias, como único meio de evitar o alargamento do que se denominou “lacuna digital” entre os países desenvolvidos e os que estão em desenvolvimento.

A lacuna digital não separa apenas o primeiro mundo do terceiro, mas também diferentes setores da sociedade. Assim, os grupos menos favorecidos economicamente correm o risco de ficar à margem do progresso. Mesmo no país mais conectado do mundo, os Estados Unidos, existe essa lacuna, já que mais de 40% de sua população não tem acesso à internet. Reverter essa situação é o grande desafio do futuro.


O QUE É INCLUSÃO DIGITAL
Inclusão digital significa, basicamente, aumentar o acesso da maior quantidade possível de cidadãos de um país às tecnologias digitais, principalmente aos PCs e à internet.

Portanto, a inclusão digital representa, de certa forma, uma considerável melhora na qualidade de vida dos cidadãos, os quais, a partir dela, conseguem utilizar as novas tecnologias, acessar informações pela internet e assim usar os serviços digitais do governo — por exemplo, fazer a declaração do imposto de renda.

A inclusão digital não apenas deve colocar as pessoas em contato com as novas tecnologias como os computadores e a internet. Ela deve fazer dos cidadãos que nunca tiveram esse contato hábeis usuários dessas novas tecnologias.

Nos últimos anos, com o desenvolvimento dessas novas tecnologias, o grave problema sociológico da “exclusão digital”, mais acentuado em países subdesenvolvidos, representa uma barreira para o crescimento dos países.

Mesmo nos tempos de hoje, em que a internet é utilizada para atividades corriqueiras, como fazer movimentações bancárias, compras no mercado, agendar e realizar reuniões, videoconferências e até transmissões de televisão ao vivo — tal como aconteceu na guerra no Iraque e na Copa do Mundo da Alemanha —, manipular um simples computador está longe de ser uma prática disseminada por toda a população brasileira.

Segundo a ONU, as Tecnologias de Informação e Comunicação, conhecidas como TICs, por si só, não ajudam no desenvolvimento econômico e social de um país. Elas são apenas um fator, que apesar de importante, não resolverá tudo.

O relatório Desenvolvimento humano no Chile — As tecnologias: um salto para o futuro?, divulgado em março de 2006 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), afirma que uma pesquisa feita no Chile, país latino-americano mais avançado no uso de internet e celulares, apontou para o fato de que não há atalhos tecnológicos para o desenvolvimento humano.

“Para apropriar-se das potencialidades das novas tecnologias não basta que existam aparelhos abundantes e conexões de boa qualidade”, diz o relatório.

“Isso depende de maneira muito importante que os usuários individuais e coletivos disponham de um conjunto de condições objetivas e subjetivas, entre elas capacidade para definir reflexivamente os fins de uso, a possessão de vínculos sociais amplos ou a existência de regulamentações que assegurem o respeito dos direitos das pessoas no espaço virtual”, afirma o texto da ONU.

Portanto, se a inclusão digital não for feita em concomitância com uma crescente melhoria do ensino público, não haverá desenvolvimento.


DEMOCRATIZAÇÃO DOS COMPUTADORES
Para democratizar a tão sonhada inclusão digital, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) aprovou, no início de 2006, R$ 34,5 milhões para as redes varejistas. Com esse dinheiro elas poderão financiar PCs populares a juros reduzidos. A iniciativa, que é parte do programa de inclusão digital do governo federal, limita-se à venda de computadores de até R$ 1.400. Em junho de 2006, o computador popular já havia se tornado um dos produtos mais vendidos das lojas que visam a classe C, como as Casas Bahia, cujo número de peças vendidas no primeiro quadrimestre cresceu mais de 200%.

O Brasil, depois de democratizar, no governo Fernando Henrique, os telefones celulares para a classe C, está agora, no governo Lula, democratizando o computador. Porém, essas democratizações não foram acompanhadas por melhoras sensíveis na educação.


SOFTWARE LIVRE
Outro ponto importante para que a inclusão digital aconteça é a utilização dos softwares livres. Segundo o site Inclusão Digital Brasil, do governo federal, “o termo Software Livre se refere à liberdade que o usuário tem de executar, distribuir, modificar e repassar as alterações [do código fonte] sem que para isso tenha que pedir permissão ao autor do programa. Imagine que um programa para computador, um software, seja um bolo. Também para fazer um software você precisa de uma receita, ou seja, você precisa de um conjunto de instruções. Se você não possui a receita, a única coisa que você pode fazer é comprar o bolo pronto e, assim, ser dependente de quem o produz. Essa dependência é uma limitação da liberdade de você mesmo produzir o bolo, de modo que não é possível, por exemplo, alterar a receita colocando algo a mais de que você gosta e depois poder compartilhá-la com os amigos e ainda saber o que tem dentro do bolo. Se você tem a receita é possível compartilhar com os amigos e, talvez, alguém fará alguma mudança interessante criando um novo bolo. Ainda mais, se você gosta de fazer bolos e todo mundo gosta de comê-los, talvez você tenha encontrado uma boa atividade de renda”.

REALIDADE VIRTUAL
Apesar dos avanços educacionais nos últimos dez anos no Brasil, a simples conclusão do ensino médio por integrantes de famílias de classes economicamente menos favorecidas é um fato a ser comemorado. As faculdades particulares ainda oferecem cursos superiores a preços não compatíveis com o orçamento de famílias de baixa renda e a preparação pré-vestibular dada nas escolas públicas torna difícil a concorrência entre alunos da rede pública e de escolas particulares pelas vagas oferecidas pelas universidades federais e estaduais. A qualidade dos empregos que o mercado de trabalho oferece a essas pessoas não permite a oferta de bons salários. A possibilidade de fazer um curso de informática e dominar o funcionamento das ferramentas mais banais dos PCs oferece chances às pessoas que procuram empregos mais simples. Mas, infelizmente, o acesso a computadores e, conseqüentemente, a familiaridade com equipamentos de informática é um luxo fora do alcance de estudantes da rede pública.

A inclusão, ou “alfabetização”, digital é uma necessidade em um mundo cada vez mais informatizado. Ela é uma recomendação prevista pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que passou a vigorar em 1996, exigindo utilização de computadores em todos os níveis educacionais, da alfabetização ao ensino superior.

Segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais do MEC), em 2002, somente 38% das quinze mil escolas do ensino médio público no Brasil possuíam acesso à internet, enquanto na rede privada eram 78% dos sete mil colégios.

Porém, o avanço tecnológico precisa de novos e grandes investimentos e a constante capacitação dos professores. Isso vai encarecer a escola do futuro. Segundo o diretor da FGV-Eaesp (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas), Fernando Meirelles, os gastos com tecnologia nas escolas crescem aproximadamente 10% ao ano. Para ele, “há instituições nos Estados Unidos que gastam cerca de 20% de seu faturamento em tecnologia. Possivelmente esse será o nosso teto também”.

Segundo informações do Ministério da Educação, seriam necessários mais de 1,5 milhão de computadores para equipar todas escolas públicas brasileiras com laboratórios de informática de uso pedagógico. Em 2004, a rede contava com 220 mil computadores.

Para a pesquisadora Neide de Aquino Noffs, da Faculdade de Educação da PUC-SP, apesar dos avanços feitos de 1999 para cá, criar laboratórios de informática nas escolas públicas é apenas o primeiro passo. Segundo ela, mais importante é capacitar os professores para saber utilizar bem os computadores na educação, além de incentivar o jovem a conhecer a ferramenta, o que não é possível quando escolas equipam salas de aula, mas deixam-nas quase sempre fechadas. “Utilizar o laboratório não é uma atividade rotineira para os alunos como é a visita à biblioteca, que fica aberta o tempo todo”, afirma a pesquisadora.

Nos últimos anos foram criados programas de inclusão digital e capacitação de professores coordenados pelos governos municipais, estaduais e federal, além de ONGs. Um exemplo desse trabalho é o que vem sendo realizado pela Secretaria de Educação de Recife, que, em parceria com uma organização francesa, mantém um projeto de formação de professores para dar aulas nas setenta escolas da capital pernambucana que possuem computadores.